FORTALEZA, PALÁCIO, PRISÃO

A TORRE DE LONDRES

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1824

O Ente Superior decretara longo ziguezaguear. Perene. Quer chova quer vente. Quer haja multidão ou apenas três gatos pintados. Sempre. «No longo peregrinar se adoça o apetite», sentenciou.

Talvez não aguce, ó Génio, para quem se dá conta de que não tem ninguém à frente e a verdadeira porta de entrada das visitas para a Torre fica bem lá ao fundo, após muito ziguezaguear!… Mas regras são regras. Intocáveis.

Por isso eu me não canso de louvar os funcionários do aeroporto, naquela zona onde o candidato a passageiro tem de tirar o cinto, o saquinho de plástico com os líquidos da higiene, despir casaco, pôr o telemóvel e o cartão de embarque no tabuleiro. Muita gente? – Encomprida-se o percurso! Trânsito moderado? – Encurta-se! Abençoados.

Assim não foi, todavia, no começo de uma tarde quente de Abril. Vivalma em fila, imenso o ziguezague, só pelo prazer (decerto) de ver a família (avós, pais e netos pequenos) agora para a esquerda, agora para a direita, vá! E o Ente Superior que adormecera a fazer a lei e não tem netos pequenos… E coitados dos guardiães que, sem poder de iniciativa, a Lei têm de cumprir.

Finalmente, incorporámos o rol dos curiosos visitantes do emblemático monumento, a Torre de Londres, ali postada e apostada em defender o Tamisa e a sua mais famosa ponte. A sua ‘encantadora história’ diz o desdobrável que se desenrolou com três facetas bem distintas: fortaleza, palácio e prisão. Que trilogia, senhores!…

Percorremos os anos, as idades, desde tempos imemoriais. A Idade Média das guerras, o poderio dos comerciantes dos séculos XV e XVII, suspeitámos de intrigas palacianas.

Tive a ignóbil tentação de ir beliscar o aprumada guarda estático e solene – resisti. Admirei toda aquela macacada que, por ali, em remotas eras se empoleirara. Que os nobres adoravam o contacto com animais exóticos. Agora são esculturas a fazer caretas.

Gostaríamos de poder ouvir segredos guardados naquelas paredes a desafiar os séculos. Ouvir lamentos e gritos dos prisioneiros. Espreitar beijos roubados, furtivas carícias…

Acabei por, à socapa, tirar a foto (proibida!) de um objecto que muito me quis falar: um mero estilete em figura humana estilizada. Singelo, sim, dir-se-á; mas de quantos decretos ou missivas terá sido o privilegiado veículo!…

Diz a legenda: ESTILETE (século XIV)

Os escribas reais usavam estes estilete de osso para escrever, gravando, em tabuinhas de cera. Essas notas deveriam ser copiadas depois, a tinta, em pergaminhos feitos de pele de animais. Pode observar-se que a pega deste exemplar tem esculpida uma figura com uma ave na mão, um falcão possivelmente. Caçar com falcões era um dos passatempos favoritos da Corte.

Saí da penumbra da sala e espreitei, por uma das ameias, o Tamisa oferecendo o seu leito a um dos muitos barcos que fazem a visita fluvial à cidade. Vi a majestade da ponte. Deixei-me enlevar por uma pontinha de aragem histórica que soprou. Afugentei de pronto o fantasma dos foguetes V2 alemães que, na II Grande Guerra, insistentemente assolaram Londres. E preferi voltar de novo para o meio dos descontraídos turistas encantados com mais este passeio pelos escaninhos da História.

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