CAMILO REVISITADO

Retirei da estante Noites de Lamego. Lamego é uma cidade amiúde referida a propósito de inscrições romanas encontradas na sua área e eu estava com curiosidade: será que, neste rol de contos, haveria, ainda que de raspão, referência a alguma?

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Lera esses contos em Julho de 1983, nada anotara a respeito; hoje, porém, outro é já o meu olhar e, portanto, volvi à leitura atenta. Não. Nada de pedras com letras. Nem referência sequer a ruínas romanas.

Também a Lamego a alusão única é a do prefácio, datado de 12 de Julho de 1863, em que Camilo Castelo Branco justifica «a razão do abstruso título»: «Em razão de serem proverbiais em comprimento, profundidade e largura as noites daquela terra». Simples pretexto literário, é claro, pois – que se saiba – tais dimensões nocturnas serão idênticas às do Porto, Coimbra ou Lisboa.

Decidi-me, por conseguinte, a anotar outros aspectos que mais me prenderam agora, dado que não foi esta uma leitra de «engalhar o sono» nem «distractivo expediente para aligeirar as horas», como o autor preconizava.

retrato de D. Duarte

Em primeiro lugar, considerei que até a partir da leitura dum livro como este, onde se patenteia «uma certa necessidade de pactuar com o gosto e o sistema de valores da maioria do público», expressão do anónimo autor da Nota Introdutória à edição (sem data) de Livros de Bolso da Europa-América, é possível escrever um artigo (ou até um ensaio, quem sabe?) acerca da forma como é encarada a história e a geografia locais. Por exemplo, será verdade quanto se diz acerca do «homicídio de D. Duarte de Bragança, infeliz irmão de el-rei D. João IV, nas masmorras do castelo de Milão»? Verdade foi, como o mostrou José Ramos-Coelho, na sua História do Infante D. Duarte irmão de el-rei D. João IV, cujo tomo I se publicou, em 1889, pela Academia das Ciências.

Do ponto de vista da história político-económica, a figura do brasileiro de torna-viagem, essas aparentemente fáceis idas e vindas ao outro lado  do Atlântico para enriquecer – «(…) vai o homem para aquelas terras, que, pelos modos, o dinheiro lá é tanto como a praga» – é tema bem conhecido, ligado às construções apalaçadas do Norte do país. Mas os nomes serão mesmo reais, de personagens autênticas?

José Joaquim Gonçalves Basto, de certo modo imortalizado no conto «A formosa das violetas» (p. 81-85) sabe-se que existiu e Camilo aproveitou o facto de ele ter sido esquecido pelos «maiorais da Junta que se bandearam com Saldanha» (p. 84), para comparar o seu sofrimento com os celebrados de Sísifo, a rolar para o cimo da montanha a pedra que, chegada ao cimo, de imediato volta para o vale:

«Se às vezes paras um instante nesse trabalho de forçado, é para contemplares como a estupidez e a infâmia trazem avassalados os fiscais da república e como eles sobem arreados de placas e fitas, enquanto tu vais descendo as margens do rio da morte» (p. 85).

Retrato fotográfico de Camilo Castelo Branco

Também existiu o capitão-mor de Cabeceiras de Basto, Serafim dos Anjos Pacheco de Andrade Vasconcelos. Dele se conhece um ofício para D. Miguel Pereira Forjaz, ministro e secretário de Estado dos Negócios da Guerra, sobre disciplina, datado de 11 de Julho de 1809.

Outros, decerto, como é da praxe, poderão ter nomes fictícios e retratarem pessoas do seu conhecimento. Um campo de investigação a explorar.

Agora, outro tema porventura bem espiolhado pelos especialistas em Camilo será o das suas leituras, a sua cultura literária. Cita, por exemplo, um tal David Law, a propósito da leva de condenados ingleses transportada, em 1778, para a colónia penal de Botany Bay, na Austrália, a propósito da importância da criação de carneiros (p. 18). Cita autores clássicos – Heródoto, Virgílio, Estrabão,.Plínio – e o “mestre” Vítor Hugo. E sai-se de vez em quando com uma frase das Escrituras em latim (evangelho de S. Lucas 22, 52): «Exierunt cum gladibus et fustibus tanquam ad latronem» (p. 103), «Vós saístes com espadas e varapaus como se fôsseis ao encontro dum salteador?’.

Como epigrafista, agradou-me deveras ler que um dos personagens «assim que os barbeiros lhe disseram que tratasse da sua alma, mandou que se escrevesse «na pedra o meu nome e a era do meu nascimento e fim» (p. 97).

Sabemos que Camilo escreveu muito por necessidade de pão para a boca. Tal não significa, todavia, que não seja esmerada a sua prosa e não nos saltem à vista passagens de mui fino recorte:

– «O meu vizinho, mais do nenhum outro corpo, com grande glória de Newton, pendia para o centro da Terra» (p. 90);

– «Quando eu entrei nesta via dolorosa das letras» (p. 85);

– «O farisaísmo moderno arvora cruz ao génio e crucifica-o porque não sabe latim» (p. 39);

– «Sabia inglês como um diplomata e alemão como um filósofo» (p. 82).

Seguidor dos ideais românticos da escrita, Camilo foi exímio na descrição de personagens, mormente do sexo feminino:

– «A fidalguia de Clotilde, inferida do adelgaçamento da cintura e mimo do pé» (p. 109);

– «[…] era uma mulher redonda e suja, que tinha uma filha esguia e limpa» (p. 108)

– «Cantareira, uma menina de vinte anos, mais que muito bela, iluminada da santa auréola da inocência, que é a poesia dos anjos, e da meiguice afável, que é a poesia dos homens» (p. 105).

– «A cantadeira da estúrdia era uma rapariga de dezoito anos, sécia e talhada a primor, carregada de ouro, mas ainda assim leve como uma arféloa, saltando quando não cantava, rindo a escâncaras quando não saltava, linda como as dríades dos córregos, alegre como a felicidade das serras. Oh! que moça! Que legião de tentadores demónios ia nela!» (p. 87).

Ai, a mulher fatal!

2 COMENTÁRIOS

  1. De: José Azevedo Silva
    20 de maio de 2024 20:26
    Excelente, gostosa, proveitosa revisitação de Camilo, em “Noites de Lamego”.
    Li-a por volta das tuas calendas, requisitada na Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian que passava mensalmente na minha terra e, com a tua partilha, estou a revisitá-la vagamente.

  2. De: Maria Teresa Azevedo
    21 de maio de 2024 23:00
    obrigada pela delícia camiliana que acabo de ler! Li em tempos as Noites de Lamego e já não tinha ideia do que tratariam. Partilho a sua admiração pelo saber histórico de Camilo e sobretudo pelo encanto da sua escrita. Como clássica, não pude deixar de realçar esse tesourinho, que sabe bem repetir: «O farisaísmo moderno arvora cruz ao génio e crucifica-o porque não sabe latim» (p. 39).

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