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Manifestação contra o fascismo

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Contra o fascismo, foi o mote que levou cerca de duas mil pessoas para as manifestações desta tarde, em Lisboa e Porto.

No Largo Camões, as palavras de ordem foram contra o líder do movimento de extrema-direita Nova Ordem Social, que dizem ser Mário Machado, os cartazes diziam “25 de Abril Sempre! Fascismo Nunca Mais!”, “Não Passarão” ou “Os imigrantes ficam, saiam vocês”.

Os manifestantes vieram dizer ao poder político que não pode ser tolerante com os intolerantes. E nos intolerantes, os manifestantes englobam o Chega, partido da extrema-direita e que consideram anti-constitucional por ser apologista de ideologia proibida pela Constituição.

A verdade é que em simultâneo às manifestações de hoje, a extrema-direita organizou um encontro em Lisboa com diversas organizações fascistas e neonazis europeias, evento que os manifestantes não compreendem como pode passar impune num país democrático e cuja Constituição proíbe a propaganda ao fascismo.

Esta manifestação é um grito de alerta para defender a democracia, disseram os organizadores, para quem a extrema-direita não pode ser interlocutor legalizado.

Os manifestantes afirmaram ir resistir a qualquer tentativa de intimidação, como aconteceu com a marcha KKK junto à sede do SOS Racismo ou com o email ameaçador dirigido a várias pessoas, entre as quais três deputadas da Assembleia da República.

Entre os manifestantes concentrados no Porto encontrava-se Luís Lisboa, coordenador do núcleo de Guimarães da Frente Unitária Antifascista, um dos primeiros ativistas a formalizar queixa-crime pelas ameaças e que disse encontrar-se já sob proteção policial.

A ideia que ficou destas manifestações de Lisboa e Porto foi que todo o país tem de combater, mais do que nunca, as tentativas da extrema-direita de voltar ao passado.

No Porto, Tino de Rãs, do partido RIR, juntou-se igualmente ao protesto porque – disse – “é preciso lutar contra aqueles que andam à boleia da democracia”.

Nos últimos dias, três deputadas e sete ativistas foram alvo de ameaças por uma autoproclamada “Nova Ordem de Avis – Resistência Nacional”, que reivindicou também uma ação junto à associação SOS Racismo.

Na quinta-feira, o Ministério Público instaurou um inquérito-crime ao assunto, um dia depois de o dirigente da SOS Racismo Mamadou Ba ter prestado declarações na Polícia Judiciária e ter confirmado a receção, juntamente com mais nove pessoas, de uma mensagem de correio eletrónico a estipular o prazo de 48 horas para abandonar o país.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, através da televisão, recomendou aos democratas tolerância zero e sensatez para combater o racismo.

País de racistas?…

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Jubilado em 2018, após décadas de trepidante carreira médica, ainda hoje me procuram amigos, e amigos de amigos, que em mim buscam “certezas” e, sobretudo, a tranquilidade espiritual por que anseiam.

Na defesa do bem-estar humano, nunca olhei a sistemas de saúde, classe social, religião, clube, origem étnica ou cor da pele dos incontáveis doentes que sempre procurei ajudar e sem usufruir de honorários.

Foi neste são princípio que, ainda na semana que passou, tive o privilégio de conhecer o ancião que me ladeia, nesta foto. Nascido há 80 anos, numa ex-colónia que Portugal “pôs a saldo” sem ter, sequer, sufragado a sua não vontade de independência, foi para mim uma surpresa encontrar alguém que, tendo percorrido o mundo, é uma referência internacional em acidentes aéreos.

Impressionado pela sua rara cultura e fina sensibilidade, e muito embora só recentemente tenha conseguido obter a cidadania portuguesa, cuja bandeira jurou, deparei-me com um grande “senhor”, tão ou mais português do que muitos que aqui nasceram e sempre aqui viveram.

 A jovem que nos acompanha, sua neta e por sinal tão “escurinha” como metade da minha família, que também por Angola andou e criou sementes, é um orgulho. No entanto, a encerrar um percurso académico promissor e que culminou num mestrado brilhante, na área dos petróleos, no Arizona, aí lhe foi diagnosticada uma doença crónica que, embora contornável, exige cuidados de que o seu país não dispõe.

Sem apoios, e ainda à procura do primeiro emprego, resolveu “investir” em Portugal, terra que, basta ouvi-la, sempre a seduziu.

Entrando, como doente, no “circuito da medicina privada”, foi certamente bem acolhida e tratada: só que a custos financeiros que, acrescidos por protocolos mínimos que as empresas determinam aos profissionais que contratam, serão insuportáveis mesmo para altas bolsas.

Em Portugal, tal como atualmente acontece no resto do mundo, o “superior interesse” da agiotagem está a sobrepor-se aos míseros direitos humanos. Neste caso, tendo eu recorrido à ajuda voluntária de ex-colegas do SNS, que mantêm sobre a defesa da vida humana e da Medicina uma noção digna, por ora ela procura ganhar tempo, enquanto sobe um calvário da burocracia que, não sendo cega, nem sempre é justa.

Reconheço ser preocupante para o nosso país a integração de comunidades, de que é paradigma a muçulmana, que historicamente resistem a integrar-se. E também aceito que minorias há, que, para respeitarem os outros e se fazerem respeitar, deverão merecer mais e melhor atenção por parte dos poderes públicos. Quanto a energúmenos, e alguns se manifestam entre os portugueses, creio firmemente que estão repartidos com algum equilíbrio pelos diversos grupos étnicos e classes. Razão por que, até pelos imensos estragos que provocam, dúvidas não me restam de que a “raça” que, neste momento, mais deve preocupar os portugueses, sejam de esquerda ou direita, é a que usa boas-falas e colarinho branco.             

Fado

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A noite deu um pontapé ao calor, há muito que o sino se calou e levou com ele as vizinhas palradoras. Sobra o silêncio das roupas penduradas nos estendais. Dançam devagarinho, numa coreografia singela, sem palmas no fim.

Sou grata pela casa fresca, o verão chegou à aldeia paredes meias com o centro da cidade. Quase ninguém dá por ela, apenas os turistas valentes que se enfiaram num avião para subir ao castelo.

Aos 16 anos tinha o sonho de sair da aldeia de cimento feita de caixas de fósforo gigantes onde as pessoas viviam empilhadas e os espaços de socialização resumiam-se ao elevador, à garagem e ao centro comercial redondo. Por muito que o percorresse voltava sempre ao mesmo sítio. Era um símbolo do que para mim era aquele bairro.

Numa saída à noite, deslumbrei-me com um candeeiro de parede no Bairro Alto, daqueles que espalham uma luz quente, enfeitiçante. Apaixonei-me. Era nesta Lisboa que queria viver, no reino encantado do coração da cidade.

Saí de casa dos pais, vivi em várias aldeias, nenhuma como esta, cheia de candeeiros enfeitiçantes, estradas por onde passaram carroças, casinhas de bonecas cheias de vida lá dentro.

Trinta anos depois, vivo na aldeia paredes meias com o centro da cidade. Foi um passa palavra que me levou ao reino encantado, estas casas não costumam aparecer no sites de imobiliário. Não, não é tudo perfeito, a casinha não é perfeita (mas serve para mim), há vizinhas que passam o dia todo a falar mal de tudo e mais alguma coisa, são amargas. E sim, há muitas outras que não conseguem dizer uma frase sem três asneiras, pelo menos. Volta e meia aprendo uma nova.

Ao longe, de vez enquanto, ouvem-se os putos dealers, também eles a falar bem alto, espantando a harmonia. Nunca entendi. Então o negócio da droga não deveria ser discreto? Ultrapassa-me. Mas, raramente incomodam, estão fora do perímetro da serenidade.

As ruas não são limpinhas e as ervas crescem até alguém pedir à junta de freguesia para as cortar. É curioso, a maior parte das pessoas trabalha para a junta ou faz parte dos órgãos, ou tem uma parceria qualquer. São fregueses muito participativos na gestão do bairro(s).

Aqui ainda se fala português e, como em todo o lado, há gente boa e genuína que te aceita pelo que és e não pelo que devias ser. São os vizinhos “mais que tudo”, vivem cá desde sempre, são eles que invertem a fama eterna da parte “suja”do bairro onde o vírus disse basta ao alojamento local.

A outra parte, mais bonitinha, tem muitas casas vazias à espera de turistas, não todas felizmente. Mas, seja onde for, há gente de todo o mundo a viver dentro deste melting pot.

A associação “Renovar” desenvolve há anos um trabalho de integração social notável, de se tirar o chapéu. Mais do que se tolerarem, as pessoas aprendem a viver umas com as outras e respectivas diferenças.

No dia em que fiz as mudanças, vi um carro parado neste largo que nega o acesso ao trânsito. Perguntei ao vizinho se podia entrar com o meu para descarregar.

 – Então não se lembra de mim?

Puxei a memória sem sucesso. Sorri.

 – Então, já falámos horas naquele bar!

Engoli em seco, agora era uma questão de dias até toda a gente saber que gosto de beber um copo, às vezes dois, vá lá. Ao virar a esquina dou de caras com o outro vizinho também meu conhecido desse tal bar que encerrava sempre com a marcha do bairro. Estivéssemos perto um do outro ou no lado oposto do bar, juntávamo-nos para dançar à moda antiga. Ele sabia a letra, eu aprendi o refrão. Era um clássico. E pronto, agora não há mais nada a fazer, a imagem está destruída. Por outro lado, se a imagem está destruída não há mais nada para destruir. Estou livre de mexericos. E gostar de boémia não é assim uma coisa tão má por aqui. A história deste bairro é feita da boémia, do fado que corre nas veias e vielas das ruas e vai direito ao coração.

Gosto de fado, da sua história, de se ter tornado Património Imaterial da Humanidade vindo de um gueto, de gente escorraçada pela sociedade, de rufias e mulheres de faca na liga, literalmente.

Gosto de ver que algo tão desprezado pelo sistema, à altura, seja hoje tratado com devoção e reconhecimento mundial. A Adelaide da facada (sistematicamente confundida com a Severa) e o Amâncio, a quem o pintor José Malhoa pagou, mais do que uma vez, a caução para o tirar da prisão, de forma a conseguir terminar o quadro, são um casal mundialmente conhecido, sem nunca ter saído daquela casa humilde, à entrada do bairro.

São eles os protagonistas da tragédia da vida e do alento desta música tida como menor. Música tão grande, tão forte, brutal. Foi esse poder que Malhoa captou para a tela. A incontornável dor do amor desfeito, a tristeza que o fado arrasta. Ninguém lhe fica indiferente, todos temos as nossas dores e amores.

“O Fado”, assim se chama o quadro, foi desprezado pela elite intelectual portuguesa. O seu reconhecimento veio do exterior, ganhou vários prémios e voltou a Portugal com o aplauso mundial. Está hoje no Museu do Fado em Alfama, é propriedade da Câmara Municipal de Lisboa.

Por aqui, há um restaurante que vai fazendo umas sessões, mas pouco mais, não se ouve muito cantar o fado. Mas foi aqui que nasceu, aqui permanecerá com vizinhas amargas e putos dealers a gritar “tia, tia” cada vez que a polícia aparece. O bairro permanece fiel à sua origem marginal.

O fado, esse, vai continuar a esgueirar-se pelas veias e vielas das ruas onde cantam rufias e choram guitarras.

Pressão urbanística sobre Parque Natural Sintra-Cascais

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Mil metros quadrados não é nada, não passa de um quintal, não chega a 25% de um campo de futebol, dá para semear uma horta e pouco mais. Ou talvez dê para construir uma ou duas moradias com piscina e garagem para dois automóveis dos bons. E se for em cima da praia ou lá perto, pode ser um bom negócio.

Uma longa introdução para falarmos de um pequeno incêndio que ocorreu na semana passada, à beira da estrada que liga a Malveira da Serra ao Guincho. O incêndio deflagrou às 11 da noite. À beira da estrada. Alguém viu a chama a crescer, os bombeiros acudiram com rapidez e arderam apenas os tais mil metros quadrados. Mas podiam ter sido dez mil. Ou mais. O vento desta vez ajudou os bombeiros.

A EN 247 atravessa boa parte do Parque Natural Sintra-Cascais, zona de paisagem protegida e reserva ecológica, mas também uma área com grande pressão urbanística. Dentro do Parque Natural estão povoações como, por exemplo, Malveira da Serra e, nestas circunstâncias, é frequente que as populações tenham anseios que colidam com a necessidade de preservação da Natureza. Às vezes pode acontecer que, perante a necessidade de construir casas, se deite fogo ao mato para que, assim, deixe de haver alguma coisa para preservar.

Acontece que a Lei existente é tão permissiva que parece incentivar esta lógica predadora. O decreto-lei 55/2007 que regula esta matéria diz, textualmente, depois de auscultados apenas os interesses dos municípios, que durante 10 anos não se pode construir em terrenos florestais ardidos, mas que  “as proibições estabelecidas podem ser levantadas por despacho conjunto dos ministros responsáveis pelas áreas do ambiente e do ordenamento do território e da agricultura, a requerimento dos interessados ou da respectiva câmara municipal…” e que, para tal, basta que seja considerado que a construção seja “um empreendimento com relevante interesse geral”.

A papelada legal obriga, ainda, a um requerimento dirigido ao membro do Governo responsável pelas áreas do ambiente e do ordenamento do território, e a um documento emitido pelo responsável máximo do posto da Guarda Nacional Republicana da área territorialmente competente comprovativo de que o incêndio se ficou a dever a causas a que os interessados são alheios. Porreiro, pá!, diria José Sócrates, o primeiro-ministro que assinou esta Lei, ao Presidente da República que a promulgou e que foi Cavaco Silva.

É uma espécie de versão saloia de histórias bíblicas

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A história de Ildefonso é sobejamente conhecida em Sintra e arredores, no país e no resto do Mundo. É uma espécie de versão saloia de histórias bíblicas, como a de David contra Golias.

Ildefonso é um cidadão frágil, defronta um “Golias” presidente de Câmara e respetivos paus mandados.

Uma das fragilidades de Ildefonso está na Lei que supostamente impede que alguém, sem estar devidamente autorizado, possa ocupar a via pública por tempo indeterminado. Não se pode estar sempre no mesmo sítio, não vá alguém querer passar por ali sem ter de se desviar ou querer sentar-se na mesma pedra onde Ildefonso se senta. É a Lei, dizem.

E sempre que lhe apetece, o presidente “Golias” envia a sua tropa municipal, perdão, polícia municipal, para retirar o estorvo da via pública. Quanto isto acontece, Ildefonso é violentado na sua Liberdade de protesto e de expressão, uma vez que ele está ali em protesto contra a política de alojamento social da Câmara Municipal de Sintra.

Mas há outros problemas. No passado dia 26, Ildefonso foi levado mais uma vez para o posto da GNR. De acordo com o seu testemunho” rasgaram os cartazes que tinha no muro”, e “o chapéu que tinha na mão foi partido”. Enquanto era levado sob detenção pela rua acima até ao Posto da GNR, um dos agentes da Polícia Municipal entreteve-se a assediar o detido: “ele caminhava ao meu lado e, de vez em quando, passava-me uma rasteira, punha o pé à minha frente para ver se eu tropeçava”, relata-nos Ildefonso.  “Quando lhe pedi que se afastasse, o policia retorquiu que o estatuto de detido não me oferecia quaisquer direitos”…

A queixa apresentada na GNR foi da Policia Municipal. A queixa que Ildefonso quis apresentar não foi aceite.

Chegados aqui, o Duas Linhas pediu a uma advogada para comentar este relato, ainda que não conheça todos os pormenores da história. Além deste texto, publicámos um outro em 16 de junho passado.

Comentário da advogada Isabel Duarte:

“Os cidadãos portugueses, protegidos pela sua constituição, gozam do direito a indignar-se, em privado ou em público, e a eficazmente expressar essa indignação sem serem impedidos por outros de o fazer.

Sabemos que os poderes públicos, com base na lei, defendem a tese de que duas pessoas a dizerem publicamente do seu protesto, já fazem uma “manifestação”, condicionada pelo rol de burocracias que impedem os cidadãos de aceder a tais manifestações coletivas com facilidade. Há, no entanto, exemplos que agradam ao poder e o poder a eles fecha os olhos antes e durante, esperando os resultados de “fim de jogo”.

Mas outras situações existem em que um homem apenas, um único cidadão, sentado num muro ou numa cadeira, na via pública, sem incomodar ninguém, não tendo que se submeter aos burocratas, leva o suserano à loucura, porque, simplesmente, goza do direito de reclamar e pode desencadear mecanismos institucionais contra quem perturba o seu exercício, desde que não perturbe os direitos dos outros. É o caso do Sr. Ildefonso.

Mas o Sr. Ildefonso desarmado e a Câmara de Sintra não se comparam em força ou capacidade de a aplicar. É isso que distingue, pois, na vida de todos os dias, os direitos e o seu exercício, não a Lei Fundamental que os regula.”

​​​​

Nota da redação: podemos dizer que o senhor Ildefonso pode estar em frente à Câmara Municipal, ou noutro local qualquer, a exercer os seus direitos de cidadania e que todas as ações levadas a cabo para o afastar ou impedir de se expressar são, essas sim, ilegais.

RB/CN

Quando se vai de mal a pior…

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No final do Estado Novo, perdida a minha aldeola entre as areias e os pinhais da Gândara, nem as mais dedicadas organizações, tais como a prestimosa Polícia Internacional de Defesa do Estado, por ali passavam. E para quê essa trabalheira se, naqueles ares livres de poluições físicas e mentais, até a Bíblia era uma excentricidade de que nem os “intelectuais” dispunham?

Trevas obscuras as que então se viviam, sem uma opinião pública sólida como a atual, firmada numa imprensa livre e que nos dá boa conta do estado da nação. Tempos difíceis aqueles, em que Portugal também ainda não beneficiara dos fundos europeus com que depois construiu aeroportos e auto estradas públicas por onde hoje flui o progresso. E como poderia o nosso país desenvolver-se, sem uma economia alavancada por empresas bem dirigidas como a PT, EDP, TAP, BES, Novo Banco, a par de tantas outras instituições sem fins lucrativos… nem fundo?

Verdadeiro atraso de vida, lá na aldeia até os telefones se contavam pelos dedos de uma só mão. Chegava e sobrava a distribuição postal, um despesão que durante décadas ficou escondido atrás dos quintais e que, só agora, para nossa felicidade, se encontra em desmantelamento. Mas vamos à nossa história, que é o que interessa:

Em terra em que a pequenada ficava de cara à banda ao ouvir rádio, era da competência exclusiva do João dos Correios levar as boas e más novidades a casa de cada um. E honra lhe seja feita que, fiel aos seus deveres profissionais, o carteiro nunca as levava de casa em casa…

Incansável, sem tempo para se coçar, todos os dias o esforçado João calcorreava léguas e léguas, fizesse sol ou chuva. E todos os dias, mesmo! Para quê férias e folgas, luxos da gentinha das cidades e que não pensava no dia de amanhã? Lá no seu Correio, toda a distribuição era por sua conta e risco, até por gozar de saúde de ferro. E, boa verdade se diga, também graças às manigâncias que a sua Chefe facilitava e lhe permitiam que, a “bem da Nação”, ele pudesse substituir-se a si próprio e assim auferir de uns cobres extras.

Boas cunhas, inadmissíveis numa sociedade moderna, mas que o bom carteiro, sem cultura de ética e transparência, nem ilustração, bem reconhecia e também agradecia aos céus que, mesmo nos dias de trovoada, o protegiam. 

Bom a conversar e com incontido orgulho, ele até se gabava de nunca ter falhado um só dia ao trabalho ou ter ficado correspondência por distribuir. De contas certinhas com Deus e os homens, até se desdobrava num ror de recados de que, “serviços por fora”, nem cobrava um tusto. Alguns dos seus conterrâneos ainda reconheciam esses favores com “frutas-da-casa”, mas a maioria assentava a conta noutros canhenhos:

– Obrigado, ó João. E vai com Deus!…

Bênçãos divinas que não evitavam maus-olhados. Pois se até Cristo despertou as iras dos seus conterrâneos, porque havia aquela santa alma de constituir exceção? O velho Zé do Carmo, então, era um que não se conformava com a sorte daquele “fidalgo” que, sem saber ler nem escrever, arranjara um “tacho do caraças”:

– Antes de andar a mamar à nossa custa, ele andava à pata. – Ratava pelas costas, até por pedalar em ferrugenta bicicleta enquanto o “vaidosão” se pavoneava numa motorizada, novinha em folha. – Ao que o mundo chegou! Até a formiga tem catarro. E andamos a pagar para luxos destes…

Não era bem assim, porque os selos até eram baratuchos e, homem de teres e haveres, o Senhor José Santos do Carmo quase nem “décimas” pagava. No entanto, não sendo de invejas ou birras, nem de guardar rancores, não raro utilizava os préstimos do outro:

– Ó João, grande amigalhaço! – Assim lhe interrompia o giro, usando umas falas ainda mais mansas do que as rameiras velhas. – Pára aí um pouco! Pára e lê-me a carta, que eu ando mal das vistas e os doutores não acertam com o meu mal…

Forreta de vender os olhos por dez tostões, assim quebrava o coração do outro que, mais ingénuo do que muitas virgens, por ali se quedava, sempre pronto a traduzir quaisquer gatafunhagens: cenas lancinantes as que chegavam do Brasil, onde se refugiara um rebento do Zé do Carmo para se livrar de sarilhos de saias. Linhas tortas, de ler e reler de alto a baixo, tudinho tim-tim por tim-tim, que o discernimento do velhote era curto. E a dar contas dos seus azares, que eram às carradas, não raro o Zé do Carmo requeria outras e melhores atenções:

– Ó João, entra! Entra e bebe um copo, que tu até mereces que te molhe a boca… – E, franqueado o portão, lá escorregava com um copito mal medido, até porque, antes do almoço, muito vinho podia fazer mal à figadeira. Dias raros esses, mas em que não estava nenhum burro para nascer. Fatal como o destino, aquela adega não podia dar prejuízo: – Olha lá, ó João, tens de me ajudar a escrever uma carta para o meu filho. Quando te der mais jeito, que não há urgência…

E o abnegado João, sempre pronto a ajudar o próximo, nem pestanejava. Ripando da lapiseira azul e, sem precisar que encher o copo, logo correspondia ao pedido:

– É para já, Ti Zé. Até trago aqui papel de carta. Quando chegar ao Correio, é só arranjar um envelope e botar o selo!…

O papel era “oferta da casa”, mas os selos e o sobrescrito custavam os olhos da cara do Zé do Carmo, formalidade que, a fazer-se esquecido, sempre retardava quanto podia. Pagar e morrer o mais tarde melhor, no dia seguinte, à espreita, nunca ele deixava de fiscalizar o servicinho:

– Olha lá, ó João. Por acaso não te esqueceste de…

– Não, Ti Zé! Foi a primeira coisa que fiz, quando cheguei ao Correio…

– Vê lá…

Tudo pelo melhor, até aquele esporádico mas frutuoso intercâmbio se incentivar, mais precisamente quando Marcelo Caetano, o primeiro-ministro de então, teve a lata de atribuir uns “abonos” da Casa do Povo, em demagógica operação com que inaugurou o chamado “Estado Social”. No primeiro lugar da fila, o Zé do Carmo até dispensara os bons serviços do carteiro e, um dinheirão, metera advogado na causa. Sendo dos primeiros a usufruir de tal bónus, que agora lhe chegava mensalmente, por cheque, toda aquela tramitação o punha a rabiar. No fim-do-mês, tão certinho nas contas como o nascer e pôr-do-sol, não arredava pé do caminho:

– Então, ainda não veio nada? – Perguntava exasperado, como a duvidar da competência do carteiro. – O António Vadio e a Maria Carola já receberam?

– Tenha calma, Ti Zé! Este mês, os gajos atrasaram-se. Olhe que ainda faltam muitos…

Compreende-se bem a legitimidade das suas preocupações. A roubalheira estava instalada nesses tempos e, com tanto vigarista à solta e esmola tão grande, qualquer pessoa de bem tinha obrigação de desconfiar. Porém, nem sempre assim era:

– Ó João, hoje vamos festejar com um vinhão… que tu até és um gajo porreiro.

Convidava em dias felizes, quando o carteiro antecipava os prazos. – Para, no final, não raro dar um nó ao ponto e cobrar tanta filantropia: – Olha, por acaso, preciso que me faças um favorzito…

Tudo em santa paz, até ao dia em que o João dos Correios foi portador de uma carta lacrada, dirigida em caligrafia fina e com chancela oficial. O Zé do Carmo até ficou em pulgas:

– Ó carago, parece coisa feia… da Fazenda, da Guarda ou do Tribunal – Logo intuiu, devolvendo o envelope. – Vê lá, depressa, o que isso é. – Implorou de pernas a tremer, enquanto o carteiro analisava a papelada. – Despacha-te, homem de Deus!…

Com efeito, o outro só podia confirmar os seus piores presságios:

– É da GNR… E é por causa da licença dos cães, que têm de ter as vacinas contra a raiva. Eu bem o avisei que devia tratar disso…

– E agora?…

– Agora, chapéu! Aplicaram-lhe uma pastilha de oitenta mil réis e já não há nada a fazer…

Era coisica pouca para quem usufruía de uma “reforma” tão valente, mas, assim de chofre, a retambana do João logo havia de pôr a nu as mais íntimas convicções do outro:

– Porra!… E tu ainda acodes por esses ladrões? – Arreou ele, passado dos varais. – Cão e raivoso és tu, meu sacaninha de merda! Um grande amigo me saíste, não há dúvida! – E com o carteiro meio aturdido, a dar ao pedal da motorizada para se pôr a salvo, ainda fazia figas: – Sumam-se, tantos comedores!…

Passou meio século, mas nunca mais esqueci o meu amigo João dos Correios, um paz-de-alma que fazia o bem sem olhar a quem. Tendo, contudo, nascido menos “cândido” do que ele, entendi reciclar hoje esta velha história. Sem boas mensagens para vos entregar, concluí ser mais avisado contar-vos esta anedota e prevenir-me assim contra algum Zé do Carmo que, felizmente em vias de extinção, ainda possa por aí andar.

– Sumam-se, tantos comedores!…

Lisboa, quando o batôn não chega

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Circular em Lisboa, a pé, de carro, de transporte público, trotinete, Tuk-Tuk, bicicleta, eléctrico, ou até de burro, está a tornar-se estonteante.

O que é uma contradição, se nos lembrarmos das medidas que têm vindo a ser tomadas pelo edil que veio do Porto e que quer fazer da capital uma rampa de lançamento para Marte, onde vivem políticos topo de gama.

Nos anos 70/80 e até 90, Lisboa era uma cidade saborosamente anárquica, carros nos passeios, multas que nunca eram pagas, tipos a roubarem auto-rádios, taxistas fogareiros, autocarros que apertavam com os medrosos condutores ligeiros.

Os peões passavam entre os carros nos passeios, e saltavam à frente do trânsito, parecendo um grupo de forcados. Podia ser anárquico. Mas a cidade palpitava.

Mas no meio desta confusão, tudo acabava por funcionar e dar à cidade um ambiente naturalmente urbano, entre vendedores de leite à porta, ardinas de voz fadista ou senhoras chiques que iam para o Chiado de chauffeur, nos seus Mercedes  280 S.

Hoje, Lisboa está desinfectada, limpa, usa máscara, preservativo, pinta os lábios das ruas de batôn rasca, faz da pedra liós o material fino para as ruas desertas, e à custa de gente corajosa e investidora que tem metido milhões próprios, sem ajuda estatal, tem apostado na recuperação de edifícios que estavam em ruínas. Depois da chamada Lei Cristas foi possível investir na recuperação da velharia e oferecer ao mercado edifícios para habitação, negócio e turismo.

Mas tudo isto teve uma reação da Câmara de Lisboa e das muitas freguesias que seguem à risca a política municipal. E se Lisboa é hoje uma cidade recauchutada, é porque os milhões disponíveis no orçamento camarário têm permitido fazer obras que nem as cidades mais ricas do Mundo conseguem.

A Praça de Espanha é um projeto megalómano, que não serve nem habitantes, nem quem vem de fora, nem quem sai. Filas intermináveis, engarrafamentos, poluição das máquinas em movimento. Para quê? Para fazer um espaço bonitinho para vender bem em tempo de eleições. O trânsito está assustador. Trotinetes nos passeios, abandonadas, ou a andarem a 40 km por hora. Bicicletas fora de mão, por cima  dos passeios, pelo meio dos carros. Tuk-tuks poluidores por toda a cidade, só alguns são eléctricos, motoristas da UBER que conduzem como domingueiros, motas da UBER que aparecem como abelhas nos semáforos.

Hoje andar nos passeios é um caminho de alto risco. E se for fraquinho, não tente atravessar o Terreiro do Paço, pois nem um banco há para os velhinhos. Uma cidade que quer ser moderna, mas que se limita a decorar ou a fazer vias para isto e aquilo, mas onde o peão e os veículos que circulam em trabalho são desprezados. Lisboa não é mais uma cidade amiga do utilizador. E o que não funciona não faz sentido e acaba por falir.

Sintra, tesouro nacional abandonado

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Túnel de Carenque na CREL, na zona de Belas. Pelo túnel passam os carros, por cima está um tesouro nacional abandonado.

Quase todos ignoram, menos as autoridades municipais e governamentais. Mas se os ignorantes ainda têm a desculpa de não terem tido quem lhes ensinasse, já os governantes não têm desculpa para a inércia, para a inépcia, para a incompetência. Por cima do túnel existe uma jazida de pegadas de dinossauros, geomonumento classificado desde 1997 como Monumento Natural. Descoberta em 1986, a jazida contém um registo fóssil constituído por mais de uma centena de pegadas do início do Cretácico Superior numa pista com mais de 140 m de comprimento, produzidas por diferentes tipos de dinossauros bípedes e quadrúpedes.

Quem fez o achado foi o célebre paleontólogo Galopim de Carvalho. Quando o primeiro-ministro Cavaco quis alcatroar o trilho de pegadas de dinossauro, porque saía mais barato que fazer o túnel, foi Galopim de Carvalho quem lhe deu luta e obrigou a fazer o túnel. Gastaram-se vários milhões de euros nessa obra, as pegadas não foram alcatroadas mas estão ao abandono. No local há lixo ali deitado por empreiteiros de pequenas obras e de ausência completa de escrúpulos e há mato.

A zona está na fronteira dos municípios de Sintra e Amadora. Do lado de Sintra está o trilho de pegadas de dinossauro, no lado da Amadora está uma necrópole (cemitério) do Paleolítico. Ou seja, trata-se de um local extremamente valioso em termos arqueológicos que está protegido por Lei que ninguém exerce, embora a Câmara da Amadora desenvolva ali alguns trabalhos de arqueologia e promova visitas de escolas à necrópole.

Mas o trilho de dinossauros descoberto por Galopim de Carvalho tem sido ignorado pelos sucessivos executivos autárquicos. Nem Edite Estrela, nem Fernando Seara, muito menos Basílio Horta, fizeram alguma coisa para efectivamente resguardar o local da degradação e do mau uso, para fazer dali um pólo cultural e turístico, conforme foi proposto em tempos pelo arquitecto Mário Moutinho, em 1995.

Um projecto que foi orçamentado em 800 mil euros apenas e que previa  a construção de um “pegário”, uma estrutura em vidro sobre as várias pistas, a maior das quais atinge uma centena de metros. Uma escada em caracol da base da laje ao topo da antiga pedreira – onde se situaria o edifício de exposições -, permitiria visualizar as diferentes camadas geológicas e fazia também parte do projecto, que incluía  um jardim de minerais e outro com plantas ligadas ao período Cretácico. Um museu geológico. Nunca nada foi feito, a autarquia de Sintra alegou sempre “falta de verbas”, acreditem.

Museus fecham por falta de pessoal

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É verão e muitas pessoas estão de férias. Por causa da pandemia e da economia familiar, muitos ficarão por casa. É assim que Lisboa não tem muitos turistas, mas tem muitos residentes que vão a banhos em Carcavelos e se passeiam um pouco por todo o lado.

O pior é se quiserem ir a um juseu, porque arriscam a ter de interromper a visita à hora do almoço. Muitos museus da cidade estão a fechar, não só à hora do almoço como, também, fecham mais cedo que o habitual.

O Museu dos Coches, por exemplo, fecha das 13h00 às 14h30 e encertra às 17h00 (dantes encerrava às 18h00). O Museu Nacional de Arte Antiga fecha das 12h00 às 15h00 (almoços à antiga, prolongados…), O Museu de Arte Contemporânea também fecha das 14h00 às 15h00 para almoço. Ou seja, cada museu almoçar à hora que lhe dá mais jeito, não há um critério uniforme.

O que leva os museus a reduzir o horário de abertura ao público é a falta de pessoal. Talvez fosse suposto os funcionários não irem todos de férias quando são mais necessários mas, pelos vistos, não é o que acontece. E também acontece que isto revela alguma desorganização na gestão destes locais, uma vez que os mapas de férias são elaborados com antecedência e não se compreende que seja permitido que isto aconteça.

Talvez não tivesse sido má ideia, os museus terem previsto o que ia acontecer e, com tempo, terem solicitado ao Instituto do Emprego e Formação Profissional uma lista de desempregados com habilitações compatíveis para, mesmo temporariamente, preencherem as lacunas de pessoal que existem.

Durante os meses de confinamento, os museus estiveram fechados.

Sintra limita acesso à serra com temperaturas amenas

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A serra de Sintra volta a ter trânsito automóvel condicionado, entre hoje e as 23:59 horas de segunda-feira. A ordem saiu num comunicado da autarquia de Sintra, justifica este novo impedimento com o risco de incêndio anunciado para o distrito de Lisboa.

Acontece que, como todos sabem, o distrito de Lisboa é grande e a serra de Sintra tem um microclima muito próprio, mais húmido e nebuloso que o resto do território, o que não significa que não tenha de haver vigilância e cuidados para evitar uma catástrofe.

Continuam a poder circular viaturas de moradores e de empresas sediadas na área, transportes de passageiros (com licença de circulação), veículos de socorro, de emergência e das entidades integrantes do Sistema Municipal de Proteção Civil.

No comunicado, a autarquia compromete-se a reavaliar a situação de 12 em 12 horas, mas diz a experiência que nada irá mudar e mesmo que a serra esteja envolta por nuvens baixas, como está frequentemente, os passeios dos veraneantes pela serra estarão bastante dificultados, durante o próximo fim-de-semana.

Visitar a Quinta da Regaleira

Ontem, dia 12 de agosto, a serra estava como mostram as fotografias que publicamos. Muitos turistas, curiosamente, visitavam os lugares mais interessantes e, em muitos casos, deslocavam-se em veículos alugados, até porque os autocarros da Scotturb que sobem a serra são de pequena capacidade. Acresce que as pessoas evitam estar confinadas dentro de autocarros cheios de estranhos e preferem gastar mais algum e alugar um carro.

Foi essa a situação que encontrámos em reportagem pela serra de Sintra e foi essa a situação que confirmámos quando entrámos na Quinta da Regaleira, um dos mais interessantes polos turisticos da região.

Centenas de espanhóis, franceses e alemães, na maioria dos casos, faziam filas para visitarem o palácio da quinta, A Torre da Regaleira ou o mítico Poço Iniciático. Os jardins da quinta são igualmente lindíssimos.

Um passeio interessante, mas sem restrições à circulação de veículos.

A previsão meteorológica para Sintra diz que a temperatura nos próximos dias se vai manter entre os 22 e os 23 graus, bastante amena e na segunda-feira o céu vai estar parcialmente nublado. As condições meteorológicas para Cascais são idênticas.