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Manifestação de tuk-tuks em Sintra (vídeo)

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Hoje houve mais uma manifestação de operadores turísticos de Sintra…

Tratou-se de uma marcha lenta de tuk-tuks, uma marcha legal que até teve pré-aviso de 48 horas conforme estipulam as regras. Uma marcha lenta, mas outra coisa não seria possível pelas ruas do centro histórico de Sintra…

Em relação ao protesto de 5ªfeira… há mais algumas informações, pequenos detalhes sobre o que se passou… os manifestantes fizeram questão de atrapalhar a saída dos autocarros com turistas para a serra, porque, conforme dizem, esses transportes não cumprem com as regras sanitárias estipuladas pela Direção Geral de Saúde, nomeadamente no que diz respeito à lotação máxima permitida… ora, o que aconteceu na 5ªfeira foi que enquanto os pequenos operadores turísticos, que só levam duas ou três pessoas de cada vez, estavam impedidos de subir a serra de Sintra, outros embarcavam turistas como gado e foi-lhes permitido trabalhar… os manifestantes pediram a intervenção da polícia para que a situação fosse fiscalizada, mas nada disso foi feito.

Chegou-nos igualmente um calendário com os dias que os tuk-tuk foram autorizados a trabalhar… em julho, puderam trabalhar 10 dias… em agosto apenas seis dias e em setembro, até agora, ainda não foram autorizados a trabalhar. Se isto não é condenar as pessoas à fome, digam outra forma de classificar a situação…

Não se pode passear pela Serra de Sintra (vídeo)

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transcrição da crónica:

Na Serra de Sintra há já muitas estradas que estão sistemáticamente cortadas ao trânsito. Começou por ser uma questão de prevenção contra incêndios, em dias quentes e ventosos… mas agora a medida já se aplica em dias sem vento e de céu nublado.

São estradas municipais que atravessam o Parque Natural Sintra-Cascais, as estradas cortadas são apenas as que estão nos limites do concelho de Sintra, não há notícia de cascais ter tomado alguma medida semelhante… mas enfim, Sintra tem poder para aplicar essas medidas, o que se discute aqui é se serão medidas razoáveis e se serão éticas.

É que, é claro que há sempre uns quantos que têm mesmo de passar, que é o caso dos moradores, dos que têm casa dentro da área reservada, isso nem se discute… mas depois também passam  os que fazem negócio com o turismo… os autocarros continuam a passar para levar turistas a passear…

Os protestos dos restantes operadores turísticos têm sido frequentes, nos últimos tempos já houve várias manifestações e até alguma agitação popular nas ruas, como esta cena que estão aqui a ver e que foi emitida pela Saloia TV, do Guilherme Leite…

Mas há umas semanas houve esta manifestação, com um cortejo de tuk tuks a passar mesmo em frente à câmara municipal… na vã tentativa de chamar a atenção do presidente da câmara…

Às vezes as televisões nacionais também pegam neste assunto… mas é raro isso acontecer, as influências políticas reflectem-se no silenciamento destes assuntos… essa é a norma, infelizmente.

Nas redes sociais fervilham protestos, os sintrenses que vivem do lado de cá das barreiras ali colocadas pela autarquia dizem-se prejudicados nos seus direitos, também eles têm o direito de ir passear para a serra, mas como não querem ir nos autocarros das empresas licenciadas pela câmara municipal, não podem passar… a não ser que possam ir a pé pela serra acima, que tenham pernas para tanto… parece que só se passa a pé ou de bicicleta… modalidades que os putativos incendiários não praticam, como se sabe…

Não é só o coração do Parque Natural Sintra-Cascais que está vedado, também a praia da Ursa tem caminhos cortados e até mesmo os caminhos florestais para a Lagoa Azul, segundo rezam os protestos…

Os munícipes de Sintra queixam-se que só servem para pagar taxas e impostos e que nas horas de lazer sentem-se confinados, obrigados a ficar em casa ou a passar as horas de descanso semanal no café do bairro.

É realmente uma tristeza… quando as pessoas se sentem constrangidas na sua própria terra.

Desde 2014 que a serra de Sintra tem sido fechada à circulação automóvel, a oposição política diz que a autarquia está a privatizar esse território, e está igualmente a privilegiar alguns operadores turísticos em detrimento de outros…

A autarquia justifica-se com os alertas de risco de incêndio do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, alertas que são genéricos em termos de distritos e que não levam em linha de conta especificidades climáticas como o micro clima da serra de Sintra, normalmente húmido, de temperatura amena e pouco ventoso…

Ainda há uns dias eu próprio fui passear pela serra, e as fotografias que tirei foram estas… em Cascais estavam 30 graus e céu azul, toda a gente na praia, em Sintra pouco faltava para chover… e a temperatura não passava dos 24 graus.

É verdade que mesmo assim a serra pode arder, isso já aconteceu no passado, e é preciso evitar que volte a acontecer, mas a mata de Sintra e os monumentos de Sintra não servem para grande coisa se as pessoas não puderem usufruir deles.

Nas ruínas do Teatro Romano de Lisboa

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Até dia 20 deste mês tem a oportunidade de ir ao teatro numa sala muito especial, única em Portugal.

Falamos da peça Medeia, um clássico da dramaturgia grega, e do Teatro Romano de Lisboa.

Há mais de dois mil anos que ali se faz teatro e é fantástico que assim se continue a fazer.

Os vestígios do teatro localizam-se entre as atuais ruas de São Mamede e da Saudade, na colina que sobe para a Sé Catedral. Edificado nos inícios do séc. I d.C., as estruturas arqueológicas permanecem, ainda hoje, sob os nossos pés. A área que se encontra visível abrange cerca de 1000 m² , lá continuam parte das bancadas antigas e outras áreas da infraestrutura original construída pelos romanos.

Ver teatro num cenário destes é um privilégio, não tenham dúvidas.

Teatro Romano de Lisboa

Ferrugem

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Duas cómodas gigantes, do tempo da velha senhora, largadas assim no meio do largo. Estragadas, podres, feias como tudo. Que falta de civismo, consta que esvaziaram a casa de um falecido que não deixou família para trás.

Reparei nele, também dado ao abandono, um estilo oposto às cómodas. Dois tabuleiros apenas, um em cima, outro em baixo, ligados por uma estrutura em inox com rodinhas. Um bar com uma simplicidade e funcionalidade perfeitas, puro design. Imaginei-o logo ao lado da cama, a servir de mesa de cabeceira. Puxei-o para ao pé da porta e, se os tabuleiros estavam intactos, a estrutura tinha décadas de ferrugem, de uma ponta à outra.

Ainda hoje não sei o que me deu, sou um zero à esquerda em bricolage. Não gosto, não tenho o menor jeito.  Mas rumei à loja de ferragens, trouxe um anti fungos, uma escova de aço, lixa e um spray primário. Comecei.

Percebi de imediato que era uma maratona,  sou mais de sprints, mas abracei-a. Criei a disciplina das oito horas, final de tarde. Sentava-me cá fora na poltrona, mesa de apoio, lá aplicava o spray e depois, com força, ia raspando a ferrugem que dá logo sinal, um cor de laranja vivo. Era imensa, infinita… onde me fui meter!

Comprei spray Bala por sugestão de um vizinho. Resultou, embora tivesse que gastar muito produto. As vizinhas começaram a ter fé na recuperação. Paravam, diziam que já se notava os resultados e o optimismo delas reforçou o meu.

Lembrei-me finalmente de ir à net. Encontrei várias receitas domésticas. A que mais me impressionou foi a da folha de alumínio usada na cozinha. Cortar aos bocadinho, pôr em água e esfregar. Cumpri as instruções pouco convencida. Afinal era fácil, leve, o alumínio ia tirando a ferrugem com suavidade. As vizinhas também ficaram admiradas com a novidade, continuaram a torcer, aconselharam-me a guardar o bar dentro de casa, já estava apetecível para roubar. Segui o sábio conselho.

Recuperar o bar permitiu-me desligar por completo o cérebro, os mil pensamentos em looping. Tudo o que existia, dentro e fora de mim, era o desafio de apagar o cor de laranja.

Não apontei o dia em que comecei, não faço ideia de há quanto tempo trabalho nele, não tirei fotos para pôr no Facebook ou ir construindo uma narrativa. Sou só eu, a ferrugem e o vagar.

Quanto mais aborrecida estava, maior era a tendência para ir às partes mais difíceis, às fendas onde as peças encaixam. As rodinhas, então, tinham uma pornográfica camada de ferrugem e gordura mas, quanto maior era a dificuldade, maior era o sossego.

Depois veio o calor sufocante, às nove da noite ainda era impossível trabalhar, excepto se fosse num registo de mártir. Ficou uns dias dentro de casa, já no seu lugar, até com alguma utilização.

Depois veio o mau tempo, depois veio o trabalho, depois voltou o calor, depois aconteceu não sei o quê e… parei.

A tentar devolver vida ao bar, consegui ter paz, até prazer. Ao quebrá-la, já não pude voltar atrás. Voltei à restauração sim, mas tive de me obrigar. Ou eram os gritos dos miúdos, ou as vizinhas à janela, tudo o que até ali era invisível passou a desconcentrar-me. Quebrei a corrente.

Voltei a ele, agora às sete da tarde, os dias são mais curtos, e decidi não ficar presa aos pormenores. Fiz uma escolha. Optei pela imperfeição em vez de me arrastar na perfeição.

Os vizinhos já me tinham dito que não valia a pena continuar a esfregar as partes escurecidas, aquilo já não era ferrugem, eram os estragos que fez, deixando buracos, manchas feias, tatuagens. Lembrei-me das minhas. Já fiz as pazes com elas, fazem parte de mim, não sou perfeita,  sou mais forte graças a elas. Algumas até foram esquecidas.

Pedi ajuda ao vizinho para aplicar o spray primário, tenho receio de pintar o móvel todo de cinzento, não deixei de ser uma nódoa em bricolage. Ainda espero tranquilamente por ele.

O spray primário é como a base na maquilhagem. Alisa as imperfeições, pinta as manchas negras, disfarça os buracos, as tatuagens, tudo. Não sara mas disfarça, devolve a perfeição, mesmo que não passe de uma camuflagem. No final terá de ser aplicado o spray de tinta prateada para o inox ficar com o brilho original.

É um bar do final dos anos 60, início dos 70. Sobreviveu muito tempo, foi-se deteriorando mas não perdeu a alma, resistiu. O trabalho de o trazer de volta não tem de ser perfeito, tem de ser feito.

Oeiras, concelho rico

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Entrevista com o vice-presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Francisco Rocha Gonçalves.

Dentro de um ano teremos eleições autárquicas e Oeiras será um dos casos a atrair mais atenções, uma vez que se trata de uma autarquia independente, considerada um caso de sucesso no panorama autárquico nacional e, portanto, do ponto de vista político-partidário um exemplo perigoso.

Fado e Cinema

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Começou ontem o ciclo de cinema ao ar livre no jardim do Palácio Pimenta do Museu de Lisboa, dedicado a Amália Rodrigues, cujo centenário do nascimento é celebrado este ano.

Até domingo, neste ciclo, com curadoria do realizador Diogo Varela Silva, sobrinho-neto de Amália, e autor de documentários sobre a sua irmã Celeste Rodrigues (1923-2018) e Beatriz da Conceição (1939-2015), é evidenciada a faceta artística de Amália como atriz.

Serão exibidos “Fado, História de uma Cantadeira (1947), de Perdigão Queiroga, o documentário “The Art Of Amália” (2000), de Bruno de Almeida, e ainda “Capas Negras” (1947), de Armando de Miranda e “As Ilhas Encantadas” (1965), de Carlos Vilardebó.

O desempenho de Amália no filme de Queiroga, como a fadista Ana Maria, valeu-lhe, em 1948, o Prémio do SNI (Secretariado Nacional de Informação) para a Melhor Atriz de Cinema. “As Ilhas Encantadas” foi dos filmes que Amália, em várias entrevistas, afirmou que mais gostou de ter participado.

Após a exibição dos filmes, realiza-se uma conversa com convidados como, por exemplo, o musicólogo Rui Vieira Nery, autor de “Para uma História do Fado”, o investigador Frederico Santiago, que tem trabalhado na Integral de Amália, o historiador Jorge Muchagato, autor de vários ensaios sobre a fadista, e a deputada do Bloco de Esquerda, Joana Mortágua.

O melhor será deixar de fumar

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Publicada a 03 de setembro de 2019, a lei entrou em vigor no dia seguinte, mas previa um “período transitório de um ano a contar da data da entrada em vigor” para que as entidades pudessem fazer as adaptações necessárias. Esse prazo acaba agora.

Assim, deitar para o chão pontas de cigarros e charutos pode valer multa entre 25 e 250 euros. Vai ser um hábito difícil de quebrar, mas como todos os maus hábitos será preciso acabar com ele. Deitar para o chão beatas de cigarro é uma grande porcaria.

Para dar uma ajuda aos fumadores, a lei diz que os estabelecimentos comerciais têm de disponibilizar cinzeiros no passeio para que os clientes tenham onde deixar as pomntas de cigarro. É mais um encargo, numa altura em que os comerciantes dispensavam despesas.

Além de coimas de 25 euros a 250 euros para quem atirar beatas para o chão, a lei determina também que constitui contraordenação punível com coima mínima de 250 euros e máxima de 1.500 euros caso os estabelecimentos comerciais, as empresas que gerem os transportes públicos, as autarquias, as empresas concessionárias das paragens de transportes públicos, as instituições de ensino superior, a atividade hoteleira e alojamento local não procedam à colocação de cinzeiros ou não procedam à limpeza dos resíduos produzidos.

A fiscalização é da responsabilidade da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), das câmaras municipais, Polícia Municipal, Guarda Nacional Republicana, Polícia de Segurança Pública, Polícia Marítima e das restantes autoridades policiais.

A instrução dos processos e a aplicação das coimas para quem não cumprir competem à ASAE e à câmara municipal respetiva, sendo que o dinheiro será distribuído pelo Estado (50%), entidade autuante (20%) e entidade que instruiu o processo (30%).

Estas coisas acabam sempre por ser um negócio para alguém…

Já é tarde para amar

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Os portugueses estão a ler menos. A prova dos nove é a falência das editoras. É o que a vai acontecer à Editora Cotovia, fundada há 32 anos por André Jorge e dirigida pela culta e bela Fernanda Mira Barros nos últimos dois.

Em 90, José Saramago chocou-me numa conversa com uma frase curta: a leitura nunca foi coisa de muitos portugueses. Mas eu julguei ser mágoa de Saramago. Ainda ele vivia para os lados da Calçada da Estrela.

Vítor Direito, que veio do Diário de Lisboa, da República e do A Luta para fundar o Correio da Manhã com muito sucesso, em 85 tinha-me dito: todos os dias os jornais perdem três leitores.

Hoje percebe-se que as palavras de ambos eram premonições.

Tirando o fenómeno pontual de José Rodrigues dos Santos, que anda nos 80 mil exemplares vendidos por título, os portugueses abandonaram jornais, livros, editoras e livrarias.

O amor por um livro ou por um jornal são hoje uma anedota.

Comprávamos livros no Círculo de Leitores a bochechos. Os livros iam substituindo os bibelôs nas prateleiras. E os jornais eram lidos e relidos, e serviam para embrulhar peixe, limpar vidros, envolver a panela de arroz e muito mais coisas.

Bebia-se uma bica, lia-se o jornal. Colecionavam-se os livros de bolso RTP, Europa-América e a Colecção Vampiro. Também se lia o Tio Patinhas e o Major Alvega. Lia-se tudo até a Crónica Feminina

O fecho agora anunciado da Editora Cotovia magoou-me porque André Jorge tinha um notável portfolio de 1500 título escolhidos com rigor elitista.

Adivinhava-se o fim. A Editora Cotovia tinha os dias contados, mesmo com a pragmática Fernanda Mira Barros ao leme. Assumiu a direcção da editora PARA salvar o amor de André Jorge.

Mas os tempos são de espuma. Para vender seria necessário fazer concessões. Como tem feito Moita Flores, que corre atrás dos leitores, tal como Alice Vieira, que já escreve pelas escolhas do patrão Leya, segundo diz.

Em sentido contrário teimam ainda José Luís Peixoto, José Água Lusa e Gonçalo Tavares.

Muitos escritores e os jornalistas ainda escrevem por amor às palavras, às personagens, aos leitores. Mas os leitores fogem, uns porque continuam a futilizar-se, outros porque se trancam num elitismo preguiçoso

Vasco Teixeira, patrão da Porto-Editora, afirmou sem paninhos quentes: basta abrir um manuscrito e ler 10 páginas para se perceber se um livro é bom. Há muita gente a escrever bem. A questão é saber se conseguem ser moda.

Um escritor escreve um livro para estar apenas 2 meses em exposição. Depois lixo.Venha outro livro.

Sem leitores não haverá escritores. Voltaremos em breve ao tempo das trevas, quando os livros eram lidos nas praças públicas e as notícias anunciadas com trompetas.

Obrigado Fernanda Mira Barros pelo esforço. Já é tarde para amar a palavra escrita com sentido e mestria. Chegou o Face, o Tinder e mais.

Quando se fecha o computador e se pega num livro… ups! Já é tarde para amar.

Às 8 da manhã toda a gente tem de começar a rotina.

E lá vamos, mas não vemos o futuro tenebroso que nos espera

Perdoai-lhes senhor…

Deus não ajuda, o Santuário de Fátima vai ter de despedir trabalhadores. As primeiras notícias davam conta da intenção de despedir cerca de um terço dos 308 trabalhadores, informação mais tarde corrigida para “cerca de 50 trabalhadores”, segundo vem agora transcrito na maioria dos órgãos de comunicação social.

As razões são meramente administrativas: poucos peregrinos, poucas receitas, qualquer gestor materialista sabe que nestas circunstâncias tem de diminuir os custos operacionais. Que Deus lhes perdoe, até porque, como bem sabemos, o dinheiro não cai do céu.

O cartoon de Hélder Dias.

Monte da Lua tem funcionário fantasma

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Há dúvidas pertinentes que se adensam em torno de uma contratação na empresa pública Parques de Sintra – Monte da Lua. Neste enredo participam a Câmara Municipal de Sintra, a referida empresa, o contratado e o PS, numa sequência aleatória. Para esclarecer as dúvidas, alguns vereadores da oposição já pediram explicações ao presidente da Câmara, que nunca lhes respondeu, dizem esses vereadores. E agora chegou-nos pelo correio uma carta anónima dirigida aos accionistas da PSML – Parques de Sintra Monte da Lua, que é uma empresa pública participada quer pelo Estado quer pela própria autarquia de Sintra.

extracto da carta anónima enviada para os acionistas da Parques de Sintra Monte da Lua.

A carta insurge-se contra a contratação de um secretário identificado como sendo Rui Miguel Sérgio Mateus. Os argumentos são vários, a saber: o contratado será já assessor do presidente da Câmara; o contratado não terá habilitações para o cargo que lhe foi designado; o contratado receberá um salário muito elevado, por comparação com outros trabalhadores com mais habilitações académicas; o contratado nunca terá sido visto no local de trabalho. Entre mais alguns argumentos, estes são os principais e que, caso se confirmem, indiciam um tratamento de favor em benefício do contratado.

Rui Mateus não é visto na PSML porque, realmente, continua a assessorar o presidente da Câmara. Muitas vezes é ele quem abre a porta do veículo onde Basílio Horta se faz transportar, outras vezes carrega-lhe a pasta de documentos, algumas vezes toma nota de contactos a pedido do chefe da autarquia. Terá sido contratado pela PSML como secretário, mas a quem ele realmente presta serviço é ao presidente da Câmara.

Na verdade, nos corredores dos Paços do Concelho, Rui Mateus é tido como assessor do senhor presidente. É assim que o tratam. Dizem-nos que funciona num gabinete ao lado do gabinete do presidente e que utiliza um veículo da Câmara Municipal com motorista à disposição. Mas oficialmente nunca terá sido nomeado como tal. É uma espécie de pequena “eminência parda”.

As normas e a ética na contratação pública

Segundo as normas, o Presidente de Câmara pode nomear duas secretárias ou secretários, um chefe de gabinete e um assessor ou assessora. Podia ter nomeado o Rui Mateus, mas parece que optou por não o fazer. E no entanto o homem existe e está lá, trabalha, alguém lhe paga. Será que o salário da PSML serve para pagar a assessoria ao presidente da Câmara? E quem lhe pagou e a que título, antes de celebrado o contrato com a PSML? No mandato anterior, os vereadores da oposição tentaram esclarecer esta relação de Rui Mateus com a autarquia, dizem nunca ter obtido respostas oficiais.

A estas questões, enviadas por email para a autarquia, o gabinete de imprensa da Câmara Municipal de Sintra respondeu assim: “Confirmamos o que é do conhecimento público, a atividade desenvolvida por Rui Mateus na autarquia decorre de contrato celebrado com uma empresa externa que assegura um conjunto de serviços nas áreas de comunicação/assessoria e que está publicado na plataforma base.gov.pt, onde estão descriminadas as respetivas obrigações. Estamos perante um contrato, desde 2014, no valor de 1579,50 euros mensais. Relativamente às restantes questões, esta autarquia não comenta denúncias anónimas.” Infelizmente, na resposta é omitido o nome da empresa contratada.

Basílio Horta abdicou de contratar diretamente um assessor de confiança. Talvez o impedimento tenha sido alguma incompatibilidade derivada de dívidas ao fisco. O nome do assessor consta da lista pública de devedores ao fisco. Mas, sendo assim, a PSML deveria sentir o mesmo impedimento. A não ser que não tenha cruzado essa informação.

O certo é que na lista de contactos da autarquia, o nome de Rui Mateus consta como pertencendo ao Gabinete da Presidência e tem mesmo um email @cm-sintra.pt, ou seja, um email que o identifica como trabalhador da autarquia.

Na carta anónima que referimos, há um outro pormenor interessante. Junto com a carta veio uma cópia de um email, onde uma administradora da PSML pede a Rui Mateus para verificar o contrato de trabalho que vai assinar e contribuir com algum melhoramento que entenda sugerir. Uma atitude rara nos dias de hoje. E a simpatia prolonga-se até às simulações possíveis sobre os descontos e subsídios ao salário, para que o trabalhador possa escolher a que mais lhe convém. Neste aspeto, um exemplo a seguir. Também é verdade que a administradora em questão trata o futuro funcionário por tu: “dá os teus contributos e fechamos isto em breve”, diz ela. Devem ser amigos de longa data.

Mais factos. Rui Mateus participa em muitos diálogos oficiais sobre assuntos da autarquia. Uma simples pesquisa na Internet permite encontrar correspondência electrónica endereçada à Câmara Municipal de Sintra por diversas entidades, onde o assessor de Basílio Horta está envolvido, depois de alegadamente ter sido contratado pela PSML.

Contactada por email, a PSML não respondeu a estas dúvidas. Há silêncios reveladores e este será eventualmente um desses casos.

Esta investigação não se destina a prejudicar a imagem de Rui Mateus. Deve ser um funcionário zeloso dos seus deveres, nem temos dúvidas sobre isso. Em tempos, o assessor enquanto assessorava também escrevia para o jornal online Sintra Notícias. Ainda o evento estava a decorrer e já a “notícia” era plantada no pasquim. Uma colaboração que deixou rasto na Internet, como se pode comprovar na imagem seguinte. Sendo assim, parece que ninguém ali sentiu algum conflito de interesses.

Na verdade, o que salta à vista de quem observa esta questão é o enredo político-partidário evidente. A administração da PSML é próxima de Basílio Horta, os amigos comuns são premiados pelos serviços prestados. Rui Mateus está nesse círculo, é próximo do Partido Socialista. Mas talvez não seja suposto que isso justifique nomeações, contratações e pagamentos. Mateus trabalha direta ou indiretamente para Basílio Horta antes deste ter sido eleito presidente da Câmara Municipal de Sintra, em 29 de setembro de 2013. Participou nessa campanha eleitoral, como ele próprio desvenda no seu Facebook pessoal, em fotografias lá expostas e partilhadas a partir da página da Concelhia do PS de Sintra ou da página da campanha de 2013 do PS Sintra e que nós partilhamos aqui, também, apenas dois exemplos.

fotografia publicada no Facebook
fotografia publicada no Facebook

Os críticos da actuação de Basílio Horta na gestão da autarquia consideram que a Câmara Municipal não deveria servir para pagar fidelidades partidárias. A confirmar-se a contratação deste assessor pela PSML, este será mais um caso do amiguismo partidário que está a dar cabo disto tudo.

Quanto à denúncia anónima, só por soberba ou medo alguém se refugia no argumento de que não “comenta denúncias anónimas”. A Procuradoria Geral da República já abriu muitos inquéritos a partir de denúncias anónimas. Quem denuncia e protege a sua identidade é porque teme represálias.

(solicitámos igualmente ao próprio Rui Mateus, através de email, que respondesse a estas dúvidas. Não recebemos qualquer resposta até à data da publicação deste artigo, 2 de setembro 2020, 19h05)