Mudar as estátuas, manter a História

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Agora anda toda gente empolgada por causa do derrube de estátuas que glorificam passados históricos pouco dignificantes… a primeira a cair foi em Inglaterra, a estátua de um esclavagista glorificado pela História do Império britânico e, agora, pretendem retirar a estátua de Cecil Rhodes, um colonizador ao serviço de sua majestade que amealhou em proveito próprio uma fortuna imensa e teve direito a dar o nome a uma província britânica, a Rodésia.

O senhor Rhodes foi um dos implementadores do apartheid, esse regime político que dava a primazia aos interesses da população branca e sonegava todos os direitos à população negra.

O senhor Rhodes não só era um esclavagista como dedicou a sua vida a tirar de África tudo o que lhe podia valer dinheiro. Foi assim que fundou a de Beers, que hoje é uma das principais companhias de lapidação e comércio de diamantes do Mundo.

Foi portanto um homem de grande sucesso… mas o que a História diz sobre ele depende da geografia onde se sentam alunos e professores. Se for em África, o Sr. Rhodes é um filho da mãe… se for em Londres, o Sr. Rhodes é um pilar do Império… embora o Império já tenha caído, tal qual a estátua do Sr. Rhodes vai cair também.

O Sr. Rhodes confessou, um dia, que gostaria de colonizar os planetas e as estrelas que via quando olhava para o céu em noites limpas, sem luar.

Por causa dos seus empreendimentos, que levaram ao confronto com muitos povos africanos, o Sr. Rhodes é considerado diretamente responsável pela morte de 60 milhões de pessoas. 60 milhões de africanos, pessoas que ele considerava confessadamente inferiores. Um genocídio ao nível do rei Leopoldo da Bélgica, vêm nos livros mas não se ouve falar deles…

Não posso deixar de vos contar uma outra história que vivi na primeira pessoa… estava em Mombaça na costa do Quénia e fui visitar o forte Jesus, uma construção militar portuguesa do século XVI que ainda lá está de pé e bem conservada, é um dos mais interessantes exemplos da arquitetura militar portuguesa em África.

À entrada do forte, além de comprar o bilhete de entrada, tinha a possibilidade de comprar também um pequeno livro, 20 ou 30 páginas, sobre a história do lugar. Também comprei o livro. A visita ao forte é muito interessante, aquilo foi português durante 300 anos e depois passou para as mãos dos ingleses, até à independência do Quénia.

Ler o livro foi ainda mais interessante, porque percebi como os quenianos entendem a História, aquilo a que nós chamamos descobrimentos, a expansão da fé, e a colonização dos territórios ultramarinos. Para eles é uma história de horror, séculos de batalhas e de morte para se livrarem de um inimigo que apenas estava ali para dominar, escravizar e explorar.

Ainda assim, o forte Jesus está lá, é património da Unesco, está bem conservado, rende algum dinheiro com os bilhetes cobrados aos visitantes, mas (para os quenianos)  mais importante porventura que o forte é o livro que conta a verdade (deles) sobre o lugar, o que ele significou durante séculos e o que sofreram as pessoas que defendiam e assaltavam aquelas muralhas. Os portugueses deixaram lá muito sangue, sem dúvida alguma. Um sacrifício estúpido para todos.

A História foi o que foi… os factos são imutáveis, mas temos de saber olhar para o passado com suficiente distanciamento emocional para entendermos o que representou o mal e o que foi bom para a Humanidade.

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