S. António, Tenente-coronel do Exército Português!

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A procissão cascalense em honra de S. António nasceu em 1959, por iniciativa de Joaquim Miguel de Serra e Moura, presidente da Junta de Turismo da Costa do Sol. Santo António era o orago da paróquia do Estoril, na Cidadela de Cascais venerava-se uma imagem de grande tradição e, por conseguinte, tínhamos aí ingredientes para uma celebração religiosa rodeada de pompa, suscetível de ser proveitosa para o turismo da região.

Far-se-ia, pois, cortejo alegórico da Cidadela até à igreja de Santo António; o santo passaria aí a noite e regressaria no dia seguinte. E a alegoria estava ligada ao facto de, na batalha do Buçaco, por ocasião da 3ª invasão francesa, a 27 de setembro de 1810, quando, no duro da refrega, parecia que tudo estava já perdido, «de repente, vê-se descer do alto montanhoso, como que impelido por uma força gigantesca e admirável, um regimento de infantaria. É o bravo 19. Carrega sobre os invasores duma forma extraordinária. […] E quem era o soldado misterioso que, à frente do 19, carrega sobre os Franceses? Santo António!»

Descrição entusiasmada de Ataíde de Oliveira, que Ferreira da Andrade transcreveu no seu Cascais Vila da Corte.

O citado 19 era o Regimento de Infantaria nº 19, aquartelado em Cascais, em cuja capela de Nossa Senhora da Vitória a imagem do Santo se venerava. Por isso, no cortejo, o Santo, montado em mula branca, devidamente ajaezada, era escoltado por soldados fardados à moda da época.

Ficou acordado que os festejos se fariam um ano em Cascais, no outro em Pádua, cidade que, como se sabe, reivindica a designação «Santo António de Pádua».  E assim todos se contentavam. Ficaram suspensas essas manifestações de 1968 a 1981, ano em que se retomam por iniciativa da Sociedade Propaganda de Cascais.

Em virtude desse comportamento do heroico Santo – «a feliz intercessão do mesmo Santo tem concorrido para tão felizes resultados» –, o Príncipe Regente D. João decreta, a 26 de Junho de 1814, no Rio de Janeiro, que «se eleve ao posto de tenente-coronel de Infantaria e com ele haverá o respectivo soldo, que lhe será pago na forma das minhas ordens […] e o soldo se assentará nos livros a que pertencer, para lhe ser pago em seus devidos tempos».

Longa história teve, como é de supor, esse soldo. E pode consultar-se na Biblioteca Digital de Cascais o livrinho de 78 páginas, publicado pela Imprensa Nacional em 1906, sobre a «Iniciativa Patriótica da Instituição Memorativa do Regimento de Infantaria nº 19 de Cascaes…», que previa o seu destino, mostrando, aliás, grande preocupação em alojar, condigna e até gratuitamente, em colónias de casas económicas, a população necessitada. Uma história digna de se contar!

Voltando, porém, ao ‘nosso’ tenente-coronel, importa dizer que, por D. João ter feito o decreto de promoção no Brasil, ele aí teria de vigorar. Anota, por conseguinte, Ferreira de Andrade, que, em 1889, aquando da proclamação da República, o Governo brasileiro suprimiu o soldo, o qual, a rogo dos Franciscanos, continuou, no entanto, até 1904, altura do seguinte despacho da Presidência do Conselho:

«O Coronel António de Pádua vai quase em três séculos de serviço. Nomeio-o general e ponho-o na reserva».

«Desde então», comenta Ferreira de Andrade, «Santo António figura no Anuário Brasileiro como oficial de reserva».

As voltas que, neste mundo, até um Santo taumaturgo dá!…

2 comments

  1. Mais um texto maravilhoso que mistura a cor da ficção com a trama da realidade histórica. Até o Poder, no auge da veneração, eleva a patente do santo, feito soldado pela crença popular, pelo bom desempenho na IIIª Invasão Francesa.
    Mas a delícia maior é ver o António de Pádua ou de Lisboa, já promovido a coronel, passar a general por séculos de bons serviços e logo depois à reserva…
    Só mesmo José D´Encarnação podia descobrir estas narrativas de pormenores tão invulgares para compor as suas tão apreciadas crónicas.

  2. Como Português e antigo militar, agrada-me sobremaneira a ideia de ter um comandante com o estatuto de Santo António!Tomei conhecimento desta interessantíssima história quando há uns anos atrás reuni com os meus antigos camaradas de armas num almoço convívio no RI19 em Chaves, onde pela primeira vez vi a imagem do nosso famoso Tenente Coronel.A qualquer de vós que me lê, peço que se por acaso tiver acesso a alguma imagem do Santo António tenente coronel, devidamente fardado, a fineza duma fotografia que muito agradecerei. A ideia é procurar um ceramista que me faça uma réplica do nosso comandante que guardarei com carinho. Grato em antecipação, cordialmente, ds.

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