Passam hoje seis meses sobre o registo dos primeiros dois casos de infeção por covid-19 em Portugal.
Desde então, a situação já foi considerada alarmante, passou a esperançosa e agora é preocupante.
Portugal regista hoje mais três mortos e 390 novos casos de infeção por covid-19, segundo o boletim epidemiológico diário da Direção-Geral da Saúde. Os dados fornecidos indicam que as três vítimas mortais foram registadas na região de Lisboa e Vale do Tejo, que já contabiliza 671 mortos por covid-19.
Segundo foi dito pela ministra da Saúde, Portugal tem neste momento 177 surtos ativos de covid-19, 86 dos quais no Norte, onde nos últimos dias se registou um número crescente de surtos epidémicos. Os restantes surtos dividem-se da seguinte forma: nove no centro, 61 na Região de Lisboa e Vale do Tejo, nove no Alentejo e 12 no Algarve.
A maioria dos índices relativos à epidemia estão com tendência a subir, caso do índice de transmissibilidade (RT) apurado entre 24 e 28 de agosto que registou “uma tendência ligeiramente crescente”. Este índice já esteve abaixo de 1 e agora é de 1,16, segundo Marta Temido.
Sobre o futuro, a ministra disse que “hoje estamos mais preparados para enfrentar um eventual recrudescimento da pandemia. Temos mais recursos, mais organização e mais experiência”.
Ficam os cidadãos descansados com estas palavras? Acreditamos que não, mas enquanto não houver uma vacina ou tratamento eficaz, a responsabilidade na prevenção dos contágios continua a ser de todos. Além das regras definidas pelas autoridades sanitárias, todos devemos ter bom-senso e noção das responsabilidades.
O recomeço das aulas volta a gerar grande ansiedade em pais e alunos sufocados com um sistema que privilegia o marranço e o “bico-calado”.
Já há muitos anos, José Veiga Simão, Ministro da Educação nacional (1970-1974) no governo liderado por Marcelo Caetano, percebeu a gravidade desta praga.
Eu era rapaz. Trabalhava no Ministério. E os encontros de elevador com o senhor ministro a caminho do oitavo andar, rechearam-me de bons conselhos e de dúvidas sobre os professores.
Veiga Simão aspirava por criatividade e detestava os licenciados à procura emprego… como professores, por exemplo.
Segundo arquivos reservados de Marcelo Caetano, Veiga Simão era membro do extinto Movimento Democrático Português e amigo pessoal de Almeida Santos, fundador do PS.
A “Primavera Marcelista”, antes do 25 de Abril de 1974, abriu portas aos jovens para os cursos técnicos e para o liceu. A abertura aumentou imenso o número de professores.
Dessa fornada saiu Manuel de Gusmão, uma excepção à regra dos que apenas queriam um ordenado.
Manuel de Gusmão, hoje um poeta e ensaísta, tradutor e professor universitário, era um incentivador, um conversador, um verdadeiro pedagogo. Igual a muitos que nos deixaram saudades e nos abriram o caminho do pensamento livre e da escrita criativa.
Os outros do ordenado debitavam matéria. Infelizmente, esta última tendência prevaleceu e foi catastrófica para o País que hoje temos.
Aulas de 90 minutos são crime
O sistema de ensino português tornou-se assim numa crueldade que afasta os alunos do prazer da cultura e da instrução. As aulas com duração de 90 minutos são um contra-senso. Ninguém consegue ficar empenhado numa tarefa durante tempo tento, sentado e para mais em idade jovem.
A culpa é de quem? A culpa é dos professores que não explicam isso ao senhor Mário Nogueira, ditador estalinista, que fez da FENPROF uma versão sindical dos guardas soviéticos.
Infelizmente os professores renderam-se a essa falsa protecção da FENPROF e aceitaram ser professores-administrativos, que passam a vida a fazer cursos de formação, fora de horas e pagos do bolso de cada um deles.
Os professores afastaram-se do dialogo e preferiram debitar matéria o tempo todo, sem queixa ou lamúria. Embarcaram na aberração de aulas de 90 minutos.
Tudo o que debitam está ao alcance de um clique num motor de busca na internet. Descuram a interpretação, a comunicação e o estímulo.
O ditado “ensina a pescar em vez de dar o peixe” não fez escola no pensamento do senhor Mário Nogueira que ninguém ousa enfrentar.
Os professores são na sua maioria gente com medo, torturada pela precariedade, semprte de mala-feita para andar de de terra em terra.
E quanto mais lhes malharem, mais medo terão. Do ministério e da FENPROF. Vivemos em democracia. Mas na Educação estamos no “País dos Sovietes”, por culpa dos próprios professores.
Os críticos dirão que se trata de marketing político, os beneficiários dirão que devia ser sempre assim todos os meses, mas trata-se de uma decisão que vai cair bem na opinião pública: o governo decidiu pagar um abono de família extra a todas as crianças até aos 16 anos de idade.
Diz o governo que a medida vai beneficiar cerca de um milhão de crianças e jovens. É muita gente e diz bem dos níveis de pobreza na sociedade portuguesa. Esta medida insere-se no Programa de Estabilização Económica e Social e deverá custar aos cofres do Estado cerca de 32 milhões de euros.
O processamento do abono de família extra vai ser neste mês de setembro e irá abranger, portanto, todas as crianças e jovens até aos 16 anos, que se enquadrem no primeiro, segundo e terceiro escalões de rendimentos. Setembro foi escolhido por ser o mês do reinicio das aulas com as inerentes despesas em manuais escolares, cadernos de atividades, mochilas, lápis e borrachas.
De acordo com as regras fixadas no decreto-lei 37 de 2020, este abono extra não exige qualquer requerimento, cabendo à Segurança Social apurar que famílias têm direito.
A razão do limite de idade de 16 anos para se ter direito a este reforço do abono de família é que carece de explicações. É discriminatória e não faz nenhum sentido, a não ser que no meio de tanto voluntarismo o governo tenha querido poupar alguma coisa.
A eleição presidencial entrou na agenda política e os analistas começam a alinhar os candidatos, na grelha de partida.
Não faltam eminências para os lugares de trás, mas, com o PS a não acertar uma em todo este século XXI, o atual Presidente é já considerado virtual vencedor da corrida. Ainda que, no final de uma gestão errática e perdulária, em que não minorou nenhum dos problemas que hoje enfrentamos, se viva a maior crise desde a II Guerra.
Em nota de rodapé, até já aparecem os costumeiros candidatos de outros partidos de esquerda que, no seu habitual tabu, só demonstram as dificuldades que atravessam. E nem o desgastado BE, por mais “marisa” que seja a sua proposta, escapa…
Novidade será mesmo André Ventura, um “génio” em comunicação e que se tem afirmado por discursos extremados com que, não raro, afronta os valores que diz defender. Embora concentre uma razoável fatia de “mercado”, atualmente em rotura com o sistema, sente-se que não demonstra perfil, nem habilidade política, para garantir uma saída airosa para a crise que denuncia. Esta candidatura, a nadar nas águas do protesto, esgotará, contudo, outras sempre à espreita, tais como a do meu amigo Tino de Rans… um “sempre-em-pé”.
A outra “novidade”, Ana Gomes, a sofrer um luto a que me associo, deu ontem conta de “continuar em reflexão pessoal”. Neste caso, trata-se de uma diplomata brilhante e que prestou relevantes serviços a Portugal, na questão de Timor e não só, mas que sempre se destacou por “reflexões pessoais”, muitas vezes sem reflexão e equilíbrio. E a única vez em que pareceu assumir uma alternativa política, ainda nos tempos de Ferro Rodrigues, depressa manifestou falta de vontade, ou incapacidade para elaborar um programa e liderar um núcleo consistente.
Ana Gomes será certamente uma escolha “normal” para gente da “esquerda bem-pensante”, preferível à de um Sampaio da Nóvoa que, sem nunca ter apresentado o certificado de licenciatura que diz possuir, e sendo neste país de faz-de-conta o único embaixador que não é oriundo da carreira diplomática, parece fora da corrida. Seria uma escolha incontestada como Conselheira de Estado, “posto” a que o seu próprio Partido, que a considera uma divisionista, talvez nunca tenha a lucidez de a promover.
E óbvio que, a assistir à luta entre dois rottweillers, um de esquerda e o outro de direita, e ainda que sofrendo danos colaterais, vencerá folgadamente o atual “caniche”. Por demais desgastado e desbocado que se apresente…
E é neste cenário tão pobre que, nas minhas próprias “reflexões pessoais” engendrei esta estória. Diz o pessoal de Assumar que tal se passou na Urra, enquanto os da Urra asseguram que foi em Assumar. Vá lá os portugueses, muito menos os alentejanos, se entenderem…
Consta que um tal Miguel de Alcagoitas, herdeiro de tradições nobiliárquicas e sportinguista de gema, constantemente se gabava dos feitos desportivos do seu “clube”… ao caso ser dono de um “pitbull” que era “campeão do mundo e arredores”:
– Com o meu Rastêrinho, é que ele na se mete! – Desdenhava, contudo, o Manel Marmelo, firmado em traves vermelhas e encarnadas, estas últimas do Benfica.
– Ó Manel, nem penses. Ainda ontem ganhei mil euros com ele, em Lisboa. O meu pitbull esfarrapou o campeão de lá. Se eu não o tirasse, até o matava.
– Tá bêm, tá bêm, mas, acredite vossemecê, que com o mê Rastêrinho…
Conversa mole, que se arrastou por tempo demais lá na tasca da aldeia, até o Manel entornar o copo de vinho com um desdentar que só podia ser mal recebido:
– Olha que o meu pitbull, dá cabo do teu cão. – Destemperou o Miguel.
– Olhe, que não. Olhe, que não…
Uma observação que é um clássico da política e que caiu muito mal, levando o “visconde de Alcagoitas” a propor um desafio:
– Olha, que eu vou buscar o meu pitbull…
– Tá bêm, espero por vossemecê em minha casa.
Pouco depois, o tal Miguel chegou, não sem avisar:
– Olha que o meu pitbull derrete o teu cão.
– Solte-o vossemecê e cada um fica com o sê prejuízo.
– Se é assim que tu queres…
Concordou o outro, já cansado da farronca de quem lhe desvalorizava o curriculum. E, soltando o animal, logo o açulou para o quintal do Manel:
– Força, campeão! Dá cabo dele!…
Segundos depois, “caim-caim-caim”, o pitbull saiu de frosques, de fatiota esfarrapada e mais coxo do que os touros de Barrancos antes da estocada final:
– É Marmelo, eu não acredito. Mas de que raio é a raça do teu cão, que nem o ouvi ladrar?
– Vossemecê nunca ouviu dizêre, que cão que ladra na morde! Na sei respondêre, mas quando um cigano mo deu, era ele ainda canito, disse-me que era um… cão crudilo.
Terminam mais ou menos por esta altura, maioritariamente, as férias dos portugueses. Voltar ao trabalho significará, para a maior parte, recair numa rotina que não os satisfaz profissionalmente. A depressão pós-férias tem a vindo a aumentar, caso típico de quem, entretanto, tem podido efetivamente divertir-se melhor e mais longe, ao contrário do que acontecia há umas décadas.
O estado do dolce far niente é necessário para retemperar energias, para desligar de preocupações, para desobedecer a horários. Não é fácil, pois, quebrar este quadro de indolência contente, de um dia para o outro, até porque em muitos casos o regresso é feito a todo o gás, sem contemplações em graduar-se a carga de trabalho.
Contudo, na verdade, o mal estar e ansiedade que muitos sentem têm a ver com o facto de não haver real satisfação naquilo que fazem. Ora isto advem de vários fatores, por vezes combinados, o que faz com que em Portugal haja um sentimento de frustração generalizada no que ao emprego diz respeito.
1 – Vocação
A urgência maior é ganhar dinheiro. Para pagar contas, subsistir, aguentar o dia a dia. Sem emprego na área de eleição ou formação, muitos portugueses aceitam um trabalho para o qual não estão vocacionados. Tal situação não gera propriamente felicidade, embora se possa ser profissional da mesma forma se houver brio pessoal.
2- Salário
Convenhamos que no nosso país a esmagadora maioria das pessoas é mal paga. Com salários baixos, a motivação não será a mesma do que aquela que poderia haver se o empenho fosse monetariamente compensado. Não se trata de ambição ou ausência de profissionalismo, trata-se de justiça. O tempo da escravidão já foi.
3 – Horários
Há imensa gente a trabalhar com horários dificeis que, frequentemente, não se adequam a circunstâncias familiares, por exemplo, pelo que alguma vida pessoal pode ficar comprometida. Por muito que o trabalho dê prazer, os afetos de quem nos é próximo também fomentam o bem estar de forma inequívoca.
4- Ausência de opinião e escolha
Na maior parte dos trabalhos, o funcionário não tem qualquer voto na matéria, inclusivamente naquilo que lhe diz diretamente respeito. A sua opinião ou preferência não é simplesmente ouvida nem tida em conta. Esta mecanização cria frustrações e ressentimenros que ampliam o mal estar no local de trabalho e na vida pessoal.
5 – Não reconhecimento
Em Portugal são parcas as palavras de reconhecimento pelo que se faz. É tudo visto como uma obrigação e, assim sendo, quem trabalha cumpre simplesmente o dever. A falta de agradecimento ou congratulação por algo que se fez bem é comum e faz estragos na valorização do trabalhador, mais do que se pensa. O ser humano precisa de estímulo precisamente porque não é uma máquina.
Por vezes, muitas vezes, estes condicionantes surgem combinados. Desta forma, como exigir a alguém que sinta o maior prazer em regressar ao emprego? Se por um lado já sabemos que devemos estar gratos por termos um, por outro, e já num patamar acima de reflexão e consciencialização, compreende-se a angústia que é deixar o verão do contentamento rumo ao panorama de sacrifício e esforço que muitas profissões acarretam pelas razões mencionadas.
Posto isto, este é o tempo da despedida de dias mais soltos e livres. É aproveitar e esperar utopicamente que o mundo do trabalho o seja um pouco mais também.
Tem sido notícia recorrente a realização de festas consideradas ilegais, um pouco por todo o país. A ilegalidade está relacionada com as regras de distanciamento físico e de aglomeração de pessoas no combate ao covid-19 que proíbem ajuntamentos com mais de 10 ou 20 pessoas, consoante a região do país. Em Sintra, em pleno Parque Natural Sintra Cascais, as noites têm sido de farra, conforme mostra o vídeo.
A Câmara de Lisboa tem autorizado construções controversas porque entre a necessidade de preservar ou demolir e reconstruir, a opção tem sido quase sempre a segunda. E assim nascem aberrações a fazer lembrar a traça da Brandoa, às portas da capital.
A Brandoa nasceu na década de 1960 e ainda hoje passa por ser o caso mais grave de sempre de luvas na área da construção civil. Embora ninguém acredite.
O exemplar mais recente dessa arquitetura de caixote fica na Calçada da Estrela a poucos metros da residência oficial do primeiro-ministro e da Assembleia da República. E deveria envergonhar o arquitecto Manuel Salgado, braço direito do presidente Medina.
No lugar deste mamarracho existia um edifício bem desenhado, que foi demolido para dar lugar a um cubo de cimento. A porta de garagem foi enfiada a martelo nessa coisa que rebenta a correnteza de edifícios característicos da calçada. Todos a precisarem de obras de manutenção.
Nos anos 80, a zona já tinha sofrido alguns “bombardeamentos” de adeptos dos prédios de varandas com marquises. Nesses tempos, as gentes tratavam a casa por casota. Imperava até a ideia de recuar os edifícios, como se a cidade tivesse de ser atravessada por auto-estradas de cem em cem metros.
Os anos passaram, as exigências estéticas subiram, mas com a chegada de Manuel Salgado ao pelouro do urbanismo a coisa tornou-se catastrófica. Salgado desatou a largar verdadeiras “bombas” deste tipo na cidade.
Deu seguimento ao que Krus Abecassis já tinha feito com as Amoreiras na zona tradicional de Campolide e Campo de Ourique. Ainda hoje não se compreende qual foi o verdadeiro contributo daquelas torres fantasiosas para a qualidade de vida dos lisboetas.
Quem viajar pela Europa, por Barcelona, Viena, Paris, Madrid ou pelas cidades italianas, por exemplo, observará a procura da harmonia. À exclusão de Roterdão que foi arrasada na 2ª Grande Guerra. Aí os holandeses perderam a cabeça, mas já se arrependeram.
Um outro deslize, coisa mais pequena, aconteceu no Casco Velho de Barcelona, onde foi erguida uma torre descomunal para os serviços municipais. Mas há 15 anos, o povo de Barcelona reduziu a torre a um terço e a coisa normalizou-se.
À semelhança de Siena, em Itália, onde os bairros têm bandeiras próprias e onde se discutem as cores exactas de cada edifício, será necessário criar agora, em Lisboa, assembleias de bairro para deitar abaixo o que se fez de mal e repor as traças e as tradições.
Lisboa tem mais de mil anos de existência. Cada casa, rua, ruela, praça ou degrau contam uma história, uma luta, um caminho na procura da felicidade. Ninguém quer voltar ao antigamente, mas tão pouco queremos que Lisboa venha a ser a Brandoa de há 60 anos.
Já não se nota tanto, mas sempre houve a tendência, nos estudos históricos, de seguir o que o filósofo Hegel (1770-1831) defendera: a um período de análise segue-se o de síntese, o qual, por seu turno, gera novas e mais fecundas análises.
Recorde-se, por exemplo, que, no caso da história de Portugal, Oliveira Marques ousou fazer essa síntese: História de Portugal desde os tempos mais antigos até ao governo do Sr. Marcelo Caetano – Manual para uso de estudantes e outros curiosos por assuntos do passado pátrio, 2 volumes,Edições Agora, Lisboa, 1972. Foi o sucesso que se conhece, inclusive devido à inexistência, então, de manuais de síntese e de manifesta intenção didáctico-pedagógica. Na verdade, possuo também a 12ª edição, que teve (pasme-se!) uma tiragem de 10 000 exemplares, de Palas Editores, uma versão já «até à presidência do Sr. General Eanes».
Seguiu-se-lhe o monumental Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, publicado entre 1963 e 1971, aqui já com a intervenção de especialistas nos vários períodos e temas. Esse esquema voltaria a ser usado, na década de 90, na Nova História de Portugal, da Editorial Presença, também dirigido por Joel Serrão; nos 8 volumes da Editorial Estampa (a partir de 1993), sob direcção de José Mattoso; e nos 15 volumes da História de Portugal: dos tempos pré-históricos aos nossos dias, do Ediclube (1998), dirigidos por João Medina. Ou seja, nestes escassos vinte anos, cinco largas sínteses, o que constitui prova de quanto se investigou logo a seguir aos primeiros anos da liberdade no nosso País!
O testemunho mais representativo, a nível ocidental, dessa alternância análise / síntese foi, todavia, a Enciclopédia ou Dicionário Racional das Ciências, Artes e Profissões, obra publicada em França no século XVIII, por iniciativa de d’Alembert e Diderot, vasto empreendimento em 35 volumes, a que não foi alheio o terramoto de 1755. E compreende-se porquê: num período em que se preconizava o uso da Razão, de preferência às interpretações de teor religioso herdadas da Idade Média, o facto de – de um momento para o outro – quase no coração do Ocidente, inesperado e gigantesco cataclismo ter destruído uma cidade e, com ela, todo um manancial de memórias acumuladas ao longo de séculos, levou os intelectuais e os governos a porem a mão na consciência: há que salvaguardar a nossa memória!
Bem apoiado pelos seus conselheiros e eivado, também ele, das ideias iluministas («devemos ser guiados pela luz da Razão»!…), o Marquês de Pombal enviou a todos os bispos, em 1758, um questionário sobre três questões principais a nível local: as povoações (27 perguntas), as serras (13 perguntas) e os rios (20). Subjaz, portanto, a este inquérito uma preocupação de índole histórica (centrada nas povoações) e outra de teor geográfico: as serras e os rios. Em suma, um retrato total do País! De resto, para que nada faltasse, havia, em todos os pontos, a recomendação final de que era importante acrescentar «qualquer outra coisa notável que não vá neste interrogatório». As respostas deveriam ser enviadas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino e caberia ao Padre Luís Cardoso a compilação dos resultados obtidos.
Questionário enviado aos bispos porquê? – perguntar-se-á. Primeiro, por continuarem a ser autoridade respeitada; depois, porque eles o remeteriam aos seus párocos. E, na verdade, os padres é que sabiam! Eles é que estavam mais em contacto directo com a população, conheciam a palmo o território que lhes fora entregue, haviam estudado e até teriam documentação complementar no seu cartório paroquial.
E foi assim que surgiram as chamadas Memórias Paroquiais, recolha ímpar do que se sabia até então acerca de cada uma das 4073 freguesias existentes!
E logo o nome é significativo: memórias! Não se privilegiavam os documentos, que não muitos existiriam sobre o que se pretendia saber: que conventos, hospitais, templos, tradições religiosas, feiras, coisas antigas, personalidades notáveis, que estragos o terramoto provocara… Preferia-se o contacto com testemunhos vivos (Ai, os anciãos, aquela ‘biblioteca’ que tem de ser sempre bem aproveitada!…). E os párocos constituíam, não há dúvida, o veículo mais adequado, fiel e de confiança, para se chegar à fala com todos e se atingirem, assim, esses conhecimentos.
Em relação ao território cascalense, temos as mui circunstanciadas respostas dadas pelo reitor da igreja matriz de Cascais, Padre Manuel Marçal da Silveira, datadas de 6 de Abril de 1758, depois de se haver informado, como explicita logo no início, «com as pessoas mais nobres, cientes e peritas desta minha freguesia de Nossa Senhora da Assunção, matriz desta antiga vila de Cascais».
Já o cura da igreja da Ressurreição – a outra paróquia da vila – é muito menos explícito e sucinto que Marçal da Silveira e explica porquê:
«Estas são as notícias que pude alcançar, conforme as informações que me deram, porque não sou desta terra e há poucos anos assisto nela».
Transcreve Ferreira de Andrade, no seu Cascais Vila da Corte (p. XXVII-XXX), uma outra «sugestão» de resposta ao questionário por parte da freguesia da Ressurreição, subscrita pelo pároco Leandro dos Santos e Gusmão, que declara, no final, ter recorrido a «pessoas antigas» e a «notícias e individuações que me deram e eu tenho visto». Curioso, o termo ‘individuações’, que significa narrativas minuciosas.
A freguesia da Ressurreição abrangia também o Estoril e, por isso, temos apenas mais três respostas ao questionário do Marquês:
– A do cura António Coelho de Avelar, da freguesia de Nª Srª dos Remédios, Carcavelos, verdadeiramente sucinta, como que para despachar, tantos são os itens em que declara «não tenho que dizer». Veja-se, para exemplificar, a resposta à questão dos danos: «Padeceu bastante ruína no terramoto de 1755; porém, vão-se reparando»!
– A do cura Joaquim Coelho da Silva, de S. Domingos de Rana, datada de 8 de Abril de 1758, que também dá a impressão de ter sido feita só por fazer, sem parágrafos. Em três penadas, a resposta ao quesito 15: «Os frutos desta terra e desta freguesia são vinhos e pão de pragana, os maiores lucros deste povo procedem da abundância de pedra de cantaria».
– O cura de Alcabideche, Fortunato Lopes de Oliveira, também deixou itens por responder e estendeu-se mais na enumeração dos lugares e seus fogos.
Afinal, nem tudo eles sabiam – ou preferiram não dizer!
Contudo, quiçá não seja inoportuna uma pergunta, que tem a ver com aquele provérbio «casa roubada, trancas à porta»: o terramoto trouxe destruição em grande, muita gente morreu e o Marquês decidiu pôr trancas, para salvaguardar as memórias ainda vivas; o covid está a fazer os estragos que se conhecem – a que trancas vamos lançar mão?
Há muito, muito tempo, o Mundo era muito muito diferente. E no entanto, as praias de Lisboa já seriam praias ou estariam muito perto da orla marítima. Talvez não fossem praias de areia dourada, seriam zonas de mangal ou algo semelhante, terrenos lodosos quase de certeza.
Muito antes do bicho homem ter aparecido, quem se banhava por ali eram outros animais que já não existem, mas que deixaram rasto da sua presença.
Precisamente na praia da Parede, perto de Cascais, há um trilho de pegadas de dinossauro que, por milagre, está preservado até hoje.
A grande maioria das pessoas que vão até à Parede estende a toalha por ali e nem dá conta do chão que pisa. Mas é normal que seja assim. As covas ficam cheias de água salgada quando a maré baixa e as crianças brincam, chapinham na água. Quando a maré sobe, as pegadas ficam ligeiramente submersas.
Trata-se de um trilho curto, alguns metros apenas. O muro e os acessos à praia que ali foram construídos, certamente que taparam alguma parte desse trilho. Felizmente que sobrou alguma coisa para podermos ver, ainda. Parece que há um segundo trilho mas, confesso, sem alguém que me ajudasse não foi possível detectar esse segundo trilho.
Este trilho de pegadas de dinossauro de que falamos foi identificado como tal há relativamente pouco tempo. Uma equipa de investigadores portugueses e espanhóis estudou as pegadas apenas visíveis na maré baixa e após remoção substancial de areia pela maré, e atribuiu-o ao Albiano Superior, há cerca de 100 milhões de anos, um intervalo para o qual o registo fóssil mundial é escasso em saurópodes. Estes dinossauros deixaram pegadas no litoral de um mar de pequena profundidade e de águas quentes, pois, durante o Albiano, a Península Ibérica estava mais a sul e o clima era tropical.
Duas Linhas falou com o geólogo Pedro Nogueira, da Universidade de Évora, para tentar perceber como foi possível que estes vestígios tenham resistido ao desgaste do tempo durante 100 milhões de anos.
Pergunta: Levando em linha de conta os efeitos da erosão, das alterações provocadas pelos movimentos tectónicos, é razoável pensar que as pegadas tenham resistido 100 milhões de anos? Ou será que, por exemplo, nessa época a praia da Parede estaria longe do mar?
Resposta: Existem pegadas e outras marcas de locomoção desde períodos bem mais remotos que os 100 milhões de anos, só para dar um exemplo bem conhecido em Portugal, em Penha Garcia existem marcas de locomoção de trilobites que possuem mais de 450 milhões de anos. A condição para se preservarem é apenas que não tenham sido erodidas… A região da Parede situa-se num sector designado por bacia lusitaniana, que é uma faixa litoral que vai desde Espinho até Setúbal e nessa faixa a tectónica não afectou de forma significativa as rochas.No período em que as pegadas foram feitas a região deveria corresponder a uma zona litoral e com águas pouco profundas, daí os animais ao caminharem terem deixado as pegadas. Caso as pegadas tivessem sido feitas em solos secos, muito facilmente os agentes erosivos da altura as teriam apagado. Podemos ver o mesmo fenómeno hoje em dia, se um animal (ou o homem) deixa pegadas em solo, facilmente elas são apagadas pelo vento ou pela chuva. Se essas pegadas forem numa zona alagada mas pouco profunda é possível que se preservem pelo facto de novos sedimentos (lamas ou argilas) se depositarem por cima, fossilizando-as.Este é aquele princípio que os geólogos denominam de causas actuais que diz que se um fenómeno (causa) na atualidade provoca determinados efeitos, esse fenómeno no passado terá provocado os mesmos efeitos.
Pergunta: Que tipo de condições possibilitam que uma pegada impressa em lodo ou lama se mantenha preservada 100 milhões de anos?
Essas pegadas depois de fossilizadas por novas camadas de sedimentos (ainda não seriam rochas) ficariam preservadas. Muito provavelmente depois disso estiveram enterradas por centenas de metros de novos sedimentos que se foram depositando por cima na medida em que o oceano Atlântico foi abrindo e se tornando mais profundo. Quando o oceano recuou a erosão actuou e trouxe novamente esse registo para a superfície. É assim um acaso feliz ter havido a possibilidade de essas pegadas terem voltado à superfície e estarem hoje visíveis.
Pergunta: Será possível que estes vestígios se mantenham mais 100 milhões de anos?
Resposta: É muito pouco provável. Cem milhões de anos é um espaço de tempo que ultrapassa a compreensão humana. A erosão em um ou dois milhões de anos ou até bastante menos fará com estas pegadas e as rochas onde elas se encontram se transformem em minúsculos grãos de areia e sejam levados pelo mar. Outras pegadas que estão enterradas nas camadas de rocha por baixo destas aparecerão e também elas serão erodidas… Em conclusão mais ou menos moral, cabe-nos apreciar o que a natureza nos mostra de momento e aprender a ler o que as rochas nos contam da história e do nosso passado.
São pequenas covas insuspeitas de terem assim tanto valor em termos de História Natural. Ir até à praia da Parede para as admirar é uma espécie de tributo à Natureza. E deixem que o tempo faça o que entender com esses vestígios de tempos longínquos. Afinal, são apenas pegadas na praia.
Na doutrina católica, temos a Indulgência que é a remissão do pecado através do pagamento de uma determinada quantia em dinheiro à Igreja.
Se o pecado for grande, a indulgência será mais pesada, se o pecado for uma coisa de nada será mais leve, digo eu que nunca paguei nenhuma… mas imagino que seja assim. Até admito que o padre tenha uma tabela para indulgências, não sei.
Portanto, desde que o pecador possa pagar, já não vai parar ao inferno, nem ao purgatório… vai pecando e vai pagando pelo perdão… é uma espécie de lavandaria da alma.
Na Justiça há uma cena semelhante… não se chama indulgência, mas sim injunção… confesso que não sabia deste mecanismo da Justiça e que foi agora, há uns dias, ao ler uma notícia sobre o pagamento de injunções para evitar o julgamento… que tomei conhecimento da coisa. Fiquei pasmado…
Lembram-se do caso dos membros do governo, deputados e autarcas que foram ver jogos do Europeu 2016 à borla, a convite de várias empresas… não vou aqui dizer os nomes nem por as fotografias deles, porque não se trata disso, não há aqui nenhuma perseguição pessoal mas, apenas, uma palavra de indignação!
O caso ficou conhecido por Galpgate… a acusação era de recebimento indevido de vantagem… uma espécie de pequena corrupção, se é que a corrupção se pode medir em termos de grandeza… cada qual deixa-se corromper mediante a circunstância e a culpa não se devia medir pelo montante envolvido mas pela ação em si… quem aceita pagamentos para ir à bola, aceitará outros pagamentos por outra coisa qualquer, acho que deviamos partir desse princípio.
Bom, para resumir a história, o caso Galpgate já não vai a julgamento, os acusados aceitaram pagar injunções… pagando, o processo fica suspenso durante seis meses e se, durante esse tempo, os acusados não voltarem a pecar, o caso fica encerrado.
A injunção é feita a pedido do acusado… se o tribunal aceitar esse método de lavar o crime, define-se o montante a pagar e pronto. O cadastro continua limpinho, porque o pagamento da injunção nem sequer pressupõe que o acusado aceite reconhecer alguma culpa naquilo de que o acusam… paga para evitar chatices e exposição pública, paga porque pode.