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Marchas Populares (recordação em vídeo)

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Santo António é uma espécie de “segundo padroeiro” de Lisboa. O primeiro é São Vicente, como mostra o brasão lisboeta. Mas, a verdade é que é Santo António que acaba por ser mais festejado do que qualquer outro.

As marchas populares realizaram-se em Lisboa quase sem interrupções desde 1932. Não houve entre 1974 e 1980 (por opção política) e volta a não haver este ano, por causa do covid-19.

10 de junho, comemorações discretas

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O Presidente da República assinala hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas com um programa mínimo no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, onde estarão apenas os dois oradores e seis convidados.

Devido à pandemia de covid-19, Marcelo Rebelo de Sousa cancelou as comemorações do 10 de Junho que estavam previstas para a Região Autónoma da Madeira e África do Sul e optou por fazer em Lisboa uma cerimónia “pequena, simbólica”, como seu entender deveriam ter sido celebrados o 25 de Abril e o 1.º de Maio.

A cerimónia terá início às 11:00, com o içar da bandeira e o hino nacional executado pela Banda da Força Aérea, no exterior do Mosteiro dos Jerónimos, onde haverá uma guarda de honra formada por cadetes dos três ramos das Forças Armadas, e está previsto que termine pelas 11:40, após a intervenção do chefe de Estado.

Os seis convidados presentes correspondem aos primeiros lugares da lista de precedências do Protocolo do Estado, que é encabeçada pelo chefe de Estado, seguindo-se o presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro e os presidentes do Supremo Tribunal de Justiça, do Tribunal Constitucional, do Supremo Tribunal Administrativo e do Tribunal de Contas.

Os Paços do Concelho de Cascais

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Foi descerrada, ao final da manhã do passado dia 7, Dia do Município, a placa que, à entrada do edifício da Câmara, identifica os Paços do Concelho. Veio substituir uma outra, que mencionava ser ali o «Município de Cascais», expressão que, naturalmente, não correspondia à verdade.

Agora, em várias línguas, por ordem alfabética do vocábulo inicial, mas também, por coincidência, pela ordem de maior afluência de visitantes – espanhóis, ingleses, franceses e alemães – a placa dá conta de que é ali a sede principal do poder político-administrativo do concelho, independente de por outros edifícios estarem disseminados, na vila, departamentos e secções.

Fez questão Carlos Carreiras, na sua qualidade de presidente da Câmara, de incutir nos cascalenses a ideia de que os Paços do Concelho também eram, afinal, a sua casa. Ali se gizavam as regras do bom viver político-administrativo, económico e social, mas o espaço, quer pela sua antiguidade quer pelo halo estético que dele imanava, merecia ser usufruído por todos.

E esse desiderato foi conseguido, a 26 de outubro de 2019, com a inauguração do Museu da Vila, cujo percurso ocupa todo o rés-do-chão do edifício. Mas é possível subir à Sala das Sessões, no primeiro andar, onde podem admirar-se azulejos realizados pelo Mestre Eduardo Leite entre Maio e Novembro de 1940, com temas que, de um modo algo imaginário, se enquadram na vivência da vila de Cascais: Cascais, porto de pesca; a baía de Cascais como local de confrontos navais; Cascais aristocrática e Cascais campestre e saloia…

Nem sempre, porém, a sede da Câmara foi este palácio dos Condes da Guarda. Funcionava, antes de 1935, num outro edifício, que, embora largamente modificado no seu interior, mantém a fachada alta com torre sineira e relógio, também no Largo 5 de Outubro, do lado norte. E, em plantas do século XVI, identifica-se na praça, justamente em frente desse edifício, um círculo inscrito num quadrado: pensa-se que se trata da localização do pelourinho, que desapareceu há séculos.

Essa distinção entre Câmara e Palácio dos Condes da Guarda, está, por exemplo, bem patente numa notícia de 29 de Setembro de 1904, em que se dá conta, com todo o pormenor, da chegada da corte a Cascais e as festas de recepção ao rei D. Carlos. Aí se escreve, a propósito das iluminações à noite:

«A câmara municipal tinha a fachada iluminada com lanternas.

Das casas particulares, salientava-se, na praça D. Luiz, o chalé do sr. conde da Guarda, com 61 balões […]».

Toda a história do edifício e seu valor patrimonial (está o edifício classificado como Imóvel de Interesse Municipal, por determinação de 5 de Maio de 2006) encontra-se consignada no livro A Casa dos Azulejos de Cascais. De Palácio dos Condes da Guarda a Paços do Concelho (2009).

Não há dúvida, porém, que o que chama a atenção de quem passa é, seguramente, o conjunto de painéis que, na fachada do edifício, enchem os vãos entre as janelas do andar nobre. Os santos aí representados estão devidamente identificados e, como os classificou José Meco, estamos perante painéis «magníficos», que «marcam a passagem para o estilo neoclássico», «excelentes exemplares produzidos na Real Fábrica de Louça, ao Rato»: os quatro evangelistas (Marcos, Mateus, Lucas e João) foram pintados por Francisco de Paula e Oliveira; os restantes são de Francisco Jorge da Costa; S. João de Brito, S. Pedro e S. Paulo devem-se ao pincel de Alves de Sá, em 1969, da Fabrica Viúva Lamego.

Uma Casa que, na verdade, bem enobrece a vila de Cascais.

Despejo selvagem em Lisboa

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Um senhorio fez justiça pelas próprias mãos e num Estado de direito isso é algo que não se pode fazer, caso contrário passamos a viver no far-west onde os cowboys matavam índios a eito.

Pedimos ao advogado Varela de Matos para comentar este caso.

Polícia bom

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É evidente que esta imagem traduz uma atitude intolerável.

A primeira versão deste tipo de palavra de ordem que eu conheço data do século XVIII ou XIX, quando a tropa americana que andava a dizimar índios dizia que “índio bom é índio morto”.

Naquela época não havia o conceito de racismo, e os soldados americanos conquistavam terra que tinha dono e matavam sem pudor os indígenas.

A conquista e a colonização dos territórios que vieram depois a constituir os estados Unidos da América foi feita à custa do genocídios dos índios norte-americanos… o que aconteceu na América talvez tenha sido muito pior do que aconteceu com as colonizações em África e na Ásia, porque na América os índios foram reduzidos à ínfima expressão, são hoje um povo diminuto e sem voz política e esse crime imenso ficou sem castigo…

Índio bom é índio morto…

A expressão é tão forte e transmite tanto ódio que foi depois adotada por vários movimentos políticos e ativistas.

Não me custa acreditar que os nazis a tivessem usado… judeu bom é judeu morto.

Não me custa acreditar que o Ku Klux Klan diga que negro bom é negro morto.

A versão “polícia bom é polícia morto” creio que surgiu nos grupos mais radicais de defesa dos direitos da população negra nos Estados Unidos… por oposição aos fascistas e racistas brancos.

Trata-se essencialmente de uma guerra de palavras feias que apelam a sentimentos feios.

Agora, a mesma frase apareceu numa manifestação contra o racismo e a violência policial e há quem tente reduzir a manifestação a esse cartaz. Mas olhem que não… havia mais mil cartazes nessa manifestação que não desejavam a morte de ninguém…. E, porventura, nessa manifestação, havia muita gente que já foi vítima de violência policial direta ou indiretamente.

A associação sindical dos profissionais da polícia de segurança pública, o sindicato mais antigo na PSP e, creio, ainda o mais representativo, condenou esse cartaz e mais alguns que por lá apareceram com o mesmo teor e fez queixa no ministério público por incentivo ao ódio…

Eu não só acho que a ASPP fez muito bem como também acho que devia fazer o mesmo contra os vários tipos que se dizem polícias e que incitam igualmente ao ódio em mensagens, comentários e posts de vários grupos racistas no Facebook…

Eu gostaria também que a ASPP não desse nenhum tipo de cobertura institucional a atos como o que levou à morte de um homem ucraniano detido no aeroporto pelo SEF e que foi encontrado morto com as mãos e os pés atados…

E gostaria que a ASPP tivesse defendido o polícia sindicalista que corajosamente confirmou a existência na polícia de atos racistas e de violência contra os cidadãos. Manuel Morais é um homem íntegro, era vice-presidente da ASPP, mas não mereceu o apoio dos seus pares… e isto, mais do que tudo o resto, mostra bem que há muita coisa para mudar na polícia.

Voltando à vaca fria… o cartaz de que se fala é uma provocação, não favorece a causa dos que lutam contra o racismo, beneficia a extrema-direita que encontra neste tipo de cenas o seu palco para propagandear as suas alarvidades.

PSP identifica jovem do cartaz de ódio

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Com grande eficiência e eficácia, a PSP diz já ter identificado o jovem que empenhava um cartaz de ódio à polícia, exibido na manifestação contra o racismo e a violência policial que se realizou simultaneamente em Lisboa e no Porto.

Esta segunda-feira, a PSP divulgou um comunicado a explicar que tem diligências em curso para identificar mais alguns dos manifestantes que “exibiram cartazes com inscrições de incentivo à violência contra polícias e, portanto, passíveis de se constituírem como ilícitos criminais”, sendo que um deles já está mesmo identificado.

A polícia anunciou ainda que “os factos foram comunicados ao Ministério Público da Comarca do Porto” e que “a PSP exercerá o direito de queixa relativamente aos ilícitos criminais que dela necessitem”. É ainda explicado que os agentes não procederam a qualquer identificação durante a manifestação no Porto por considerarem que “essa intervenção poderia ser incorretamente interpretada e, consequentemente, potenciadora da ocorrência de indesejáveis desordens num evento que se pretendia pacífico”.

A indignação justa e a honestidade necessária

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A fotografia de um homem jovem branco a exibir um cartaz onde se lê “polícia bom é policia morto” vai ser objeto de queixa por parte da direção da ASPP, o mais antigo sindicato da PSP.

A imagem surgiu nas redes sociais, na sequência da manifestação contra o racismo que se realizou em Lisboa e no Porto, mas não se sabe em qual das manifestações essa pessoa tomou parte nem, sequer, se a imagem foi captada numa destas manifestações. Que se saiba, a imagem em questão não foi obtida por nenhum dos repórteres que acompanharam as manifestações. Na verdade, pode tratar-se de uma imagem falsa, produzida propositadamente para provocar reações mais extremadas no seio da PSP.

Os sindicalistas da PSP dizem que “não são este tipo de mensagens que contribuem para a construção de uma sociedade mais justa, mais livre e mais igual”. E têm toda a razão.

Acreditando que as manifestações foram acompanhadas de perto por agentes da PSP e, até, de elementos da segurança do Estado, há quem estranhe que a pessoa em questão não tenha sido detida e identificada na ocasião.

A fotografia que apresentamos aqui é uma réplica adulterada da que surgiu nas redes sociais e que indignou muita gente, nomeadamente agentes da PSP. Tem outra mensagem, usem-na da melhor maneira.

Covid-19 não sabe ler

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Afinal, não teria sido necessário fechar livrarias nem quiosques de jornais porque, segundo disse agora a diretora-geral da Saúde “o risco da transmissão do covid-19 através do papel é muito pequeno”. Bastaria ter decretado medidas de limitação ao número de clientes dentro de cada loja como, de resto, foi feito recentemente.

Questionada pelo jornal regional As Beiras, na habitual conferência de imprensa diária sobre a situação pandémica, sobre os receios de cafés e outros estabelecimentos relacionados com a disponibilização de jornais e revistas aos clientes, Graça Freitas afastou o perigo de contaminação do papel.

“O risco é, de facto, baixo. Devemos continuar a ler, a utilizar o suporte papel”, frisou, apelando diretamente a cafés e outros estabelecimentos e instituições para “continuarem” a assinar a imprensa, nomeadamente a regional.

“Podemos continuar a ir às livrarias comprar livros, podemos continuar a ir às bibliotecas, podemos continuar a ler jornais ou revistas” em casa ou nos cafés ou noutros estabelecimentos, assegurou Graça Freitas.

A diretora-geral sublinhou apenas que “cabe aos utilizadores terem algum cuidado no manuseamento” de jornais e revistas e cumprirem as “regras de higiene que deviam ter sempre, com covid ou sem covid”, ou seja, lavar bem as mãos, antes e depois.

No caso do Duas Linhas, como privilegiamos a edição online, não tem o problema de ficar contaminado através de folhas de jornal muito manuseadas e sujas. Mas deve, igualmente, lavar bem as mãos, principalmente se está a usar um teclado que possa ter sido utilizado por mais alguém.

Covid-19: Sintra é onde a epidemia mais se propaga

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As autoridades sanitárias vão diminuir a realização de testes de despiste do covid-19. Segundo informou a ministra da Saúde, o número de testes realizados aproxima-se do milhão, neste momento já foram feitos mais de 900 mil testes e a aceleração que foi feita no mês de maio vai agora ser reduzida.

Marta Temido sublinha que após semanas “muito intensas de rastreio generalizado” a determinadas atividades e grupos profissionais, que permitiram detetar a concentração de casos, o “foco vai agora deslocar-se para outra área”.

“Parece-nos que devemos agora transitar para um trabalho mais focado em casos concretos sintomáticos”, afirmou a ministra da Saúde, que destacou a importância da metodologia “intensiva de rastreio” entretanto seguida.

Marta Temido deu como exemplo que dos 255 novos casos detetados na região de Lisboa e Vale do Tejo nas últimas 24 horas, 101 foram identificados na sequência dos 14 mil testes feitos nas duas últimas semanas, por serem casos assintomáticos.

As atenções continuam centradas na Área Metropolitana de Lisboa onde, em alguns municípios, os índices de contágio são muito altos.

Dos 342 novos casos de infeção no país registados no boletim da Direção-Geral da Saúde de hoje, 255 são na região de Lisboa e vale do Tejo e, desses, 80% concentra-se em cinco concelhos, a saber: Sintra (158 casos em 4 dias), Lisboa, Amadora, Loures e Odivelas.

Em números totais, os cinco municípios mais afetados a nível nacional são:

  1. Lisboa 2614
  2. Vila Nova de Gaia 1592
  3. Sintra 1558
  4. Porto 1414
  5. Matosinhos 1292

As autoridades sanitárias acreditam que não vamos ficar livres do covid-19 tão depressa quanto gostaríamos e a ministra da Saúde anunciou que está a ser constituída uma reserva de equipamentos para garantir a continuação do combate à pandemia.

Amanhã, segunda-feira, chegará “mais um voo” com “cerca de 20” ventiladores, acrescentou. No total, Portugal comprou 1.151 ventiladores, dos quais 717 já estão em território nacional ou em trânsito nas embaixadas e 434 estão por entregar.

A ministra aproveitou para atualizar os números relacionados com os equipamentos distribuídos desde o início da pandemia: 57 milhões de máscaras cirúrgicas e 11 milhões de máscaras FFP2 e FFP3.

“Estamos a preparar uma nova reserva estratégica”, frisou Marta Temido, reiterando que Portugal “não pode baixar a preparação para a doença”, que passa por três fatores: equipamentos de proteção individual, rede de referenciação em medicina intensiva, “que está a ser revista”, e capacidade laboratorial.

Portugal contabiliza pelo menos 1.479 mortos associados à covid-19 em 34.693 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS), divulgado hoje.

Alfama, vazia e triste

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Despido da tradicional folia, sem turistas e com os poucos moradores que resistiram aos despejos, o bairro lisboeta de Alfama vive hoje dias de saudade. O cancelamento dos arraiais e das marchas, devido à pandemia, transformou-se num “silêncio magoado”.

“É muito triste, a gente tinha sempre muita gente. Era um bairro, nesta altura do Santo António, em que estava tudo enfeitado, era uma alegria, mas agora parte das pessoas também já não moram cá, umas morreram, outras foram despejadas”, conta Maria Helena Dias, de 84 anos, à porta de casa.

Perante a “desgraça” da pandemia da covid-19, a alfacinha apoia o cancelamento das Festas de Lisboa, inclusive arraiais e marchas populares. “Se Deus quiser, para o ano, havemos de estar cá todos”, perspetiva, sem deixar de apregoar que “Santo António é Alfama”.

“Devido ao turismo, despejaram as pessoas. Devido ao vírus, os turistas fugiram. Por isso, o bairro está vazio e, claro, as pessoas estão muito tristes, porque nesta altura todas as ruas estavam enfeitadas, toda a gente estava a viver os santos populares”, afirma a presidente da Associação do Património e da População de Alfama (APPA), Maria de Lurdes Pinheiro, em declarações à agência Lusa.

Em pleno mês das Festas de Lisboa, estas ruas estreitas, com becos e travessas, estão quase sem ver passar vivalma. Sem a agitação de pessoas a subir e a descer as escadinhas, numa espécie de labirinto sob orientação do rio Tejo, os poucos vestígios de folia são os enfeites nas varandas, alguns a teimar em sair desde os festejos de outros anos.

A pandemia veio pôr a nu alguns dos problemas em Alfama, onde é preciso um equilíbrio entre turismo e moradores, para “não transformar este bairro num deserto, num bairro quase fantasma”, defende a representante. “Precisamos de ter o comércio tradicional, voltar a ter as mercearias, as tabernas, a frutaria, a peixaria e também pessoas a viver dentro do bairro”, reclama.

Proibidos os arraiais em Lisboa, os moradores vão recordar “como se fazia antigamente” e festejar à porta de casa, reunindo a família à volta de um fogareiro para a sardinhada e a troca do manjerico, adianta Maria de Lurdes Pinheiro, perspetivando que não se registem aglomerados e que os festejos do próximo ano possam ser vividos “com mais qualidade em tudo”.

Há três décadas em Alfama, Judite Gomes, de 62 anos, tem raízes transmontanas, esteve emigrada em Paris, mas foi aqui que encontrou um lar. Conhecida por “a francesa” ou “a morgadinha de Alfama”, alcunha que dá nome aos seus três restaurantes, a comerciante assume que “custa imenso” não ter arraiais.

“Não conheço Alfama assim. Infelizmente, nem moradores, nem festas, não há nada”, conta, lembrando que este era “um mês cheio de vida e de alegria”, com a visita de turistas nacionais e estrangeiros.

Compreendendo a decisão de proibir os festejos, a comerciante alerta que é impossível “sobreviver sem pessoas”. Apesar de ter aberto as portas dos seus restaurantes há duas semanas, após meses de confinamento, os clientes tardam em chegar, enquanto os gastos de funcionamento se vão somando, inclusive luz e água.

À entrada do bairro, no miradouro das Portas do Sol, é visível a falta de turistas, com o elétrico 28 a circular vazio e as esplanadas desafogadas. Entre os comerciantes, há quem aproveite para dizer que não faz falta o “turismo de autoclismo”, que era descarregado nos pontos icónicos de Lisboa e descia em direção ao rio, sem acrescentar valor.

Sob o tema “Assim Deus quis”, Alfama conquistou o 2.º lugar no concurso das marchas populares de Lisboa de 2019. Com os arcos alusivos às varinas e pescadores a serem aproveitados para decorar o bairro, a marcha de Alfama espera pelo próximo ano para voltar à rua. No Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, coletividade que organiza a marcha, o salão está carregado de boas memórias, a que se junta hoje a saudade.

“É uma tristeza não haver marcha, é uma tristeza muito grande, muito triste, a gente está habituada, isto é uma folia, só visto”, enaltece Maria Helena Dias, que vive em frente à coletividade, recorda que marchou pela primeira vez em 1955, participando desde os 14 até aos 60 anos.

Filha do bairro, Carina Rocha, de 37 anos, cresceu no meio da marcha, tanto que participa como marchante “há 20 anos, desde 1999”.

“Estamos muito tristes com este cancelamento, mas todos temos consciência de que esta era a decisão mais certa”, sustenta, sem esquecer a mão na cintura, porque “não há nada que possa amenizar a dor, que isto é uma dor mesmo para quem vive as marchas populares”.

Fundado em 1916, o Grupo Sportivo Adicense é uma das coletividades que vão sentir o impacto direto da proibição dos arraiais, que organiza com ‘comes e bebes’.

“É estranho e é triste, numa perspetiva emocional dos sócios e das pessoas. Tem algum impacto na vida da comunidade, não só social, cultural, e também um pouco na vertente económica, mas apesar de tudo as pessoas compreendem a necessidade de este ano não haver santos populares, nem arraial”, observa João Monteiro, secretário do Sportivo Adicense.

No âmbito da pandemia, a coletividade está preocupada com as dificuldades de moradores e comerciantes – foi pedido aos sócios que substituam o pagamento das quotas por entrega de produtos de mercearia que serão entregues no projeto Mesa dos Afetos, da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, para assegurar refeições.

(texto da Lusa editado)