Por mais que se tente, é difícil ter a noção concreta do que é viver na rua. Quando faz frio e nos tapamos com mais um cobertor ou ligamos o aquecimento da casa, estamos longe de imaginar o sofrimento dos que não têm cobertor nem sequer casa, como é a situação do senhor Manuel Ildefonso.
Nos dias e noites de intempérie, o senhor Ildefonso abriga-se numa das muitas ruínas do centro histórico de Sintra.
A vila do romantismo é governada por gente que tem pedras dentro do peito. Há anos que este homem pede uma habitação camarária à autarquia de Sintra. E há anos que o autarca lhe nega esse direito. A luta é demasiado desigual. A autarquia, que tem muitos gabinetes cheios de técnicos e de advogados, só precisa de esperar que Ildefonso morra de hipotermia numa noite de frio, ou de pneumonia numa noite de chuva, ou de fome num dia de indiferença.
cartaz de protesto de Manuel Ildefonso
O senhor Ildefonso já fez o seu testamento. Temos a certeza que Basílio também.
O PCP assinala hoje os seus 100 anos com 100 ações, em mais algumas dezenas de locais, estando previsto um desfile, em Lisboa, em que vai participar Jerónimo de Sousa, secretário-geral dos comunistas.
“100 anos, 100 ações”, “umas mais singelas, outras mais temáticas, como as definiu Jerónimo, são as iniciativas com que o partido substituiu o comício do centenário no Campo Pequeno, em Lisboa, anunciado há um ano e que foi cancelado devido à pandemia de covid-19.
O Campo Pequeno, em Lisboa, é um local simbólico para o partido, dado que foi aí que se realizou o primeiro grande comício do PCP a seguir ao 25 de Abril, com Álvaro Cunhal (1913-2005), o líder histórico dos comunistas portugueses.
Agora, espalhadas pelo país, haverá um “vasto conjunto de iniciativas, centrado nos problemas do país, dos trabalhadores e do povo”, sob o lema da “Liberdade, Democracia, Socialismo”, em defesa de “direitos, a melhoria das condições de vida e o progresso social, contra a exploração e o empobrecimento”.
Em Lisboa, e com um número limitado de participantes aos 100 – um por cada ano de vida do partido – realiza-se um desfile por vários locais da capital associados a um século de vida do partido.
Um grupo de 100 militantes, da JCP e do PCP, começa o desfile na Rua do Arsenal, onde trabalhava o operário que foi secretário-geral dos comunistas portugueses Bento Gonçalves, que morreu no Tarrafal, segue até à Rua da Madalena, onde, no n.º 225 – 1.º, o partido foi criado, em 06 de março de 1921, na sede da Associação dos Empregados de Escritório.
O desfile segue depois até à rua António Maria Cardoso, onde foi a sede da polícia política, que prendeu, torturou e matou militantes do PCP, passa pelo Largo do Carmo, local onde, em 25 de Abril de 1974, Marcelo Caetano se rendeu ao Movimento das Forças Armadas (MFA), que derrubou a ditadura de 48 anos, a mais antiga da Europa.
Já no Rossio, decorado com dezenas de postes com a bandeira vermelha do partido, a exemplo do que acontecerá no Porto e noutras cidades, haverá canções e discursos, o último dos quais será de Jerónimo de Sousa.
As comemorações do centenário do partido vão prolongar-se até 2022, e em fevereiro o PCP lançou o livro “100 anos de luta ao serviço do povo e da pátria pela Democracia e o Socialismo”, de 300 páginas, que ilustra, em mais de 900 fotografias e imagens, momentos marcantes da história dos comunistas, das greves nos anos 1900 até à “revolução dos cravos”.
Fundado em 06 de março de 1921, em Lisboa, o Partido Comunista Português (PCP) é o mais antigo partido político, esteve 47 anos na clandestinidade durante o Estado Novo e foi central na resistência à ditadura.
Teve como secretários-gerais José Carlos Rates (1923-1925), Bento Gonçalves (1929-1942), Álvaro Cunhal (1961-1992), Carlos Carvalhas (1992-2004) e é atualmente liderado por Jerónimo de Sousa, desde 2004.
Um dia, um cão de estimação inspirou um jovem empresário a fazer biscoitos e bolos para os melhores amigos do homem. Daí a uma “pet bakery” abrir em Algés, concelho de Oeiras, foi um passo. Mesmo em plena pandemia de Covid-19 e com as dificuldades resultantes dos confinamentos impostos pelo estado de emergência para travar a progressão da doença, o empresário mantém o optimismo.
Tiago Silva revelou ao Duas Linhas: “A empresa tem dois anos e começou por ser uma pastelaria para pessoas. Eu fazia biscoitos para o meu cão Rossi e a partir daí, em vez de fazer para pessoas, decidi fazer para animais. Felizmente tem corrido muito bem até porque abrimos a loja em plena pandemia”. “Foi um desafio, mas apostámos tudo no online”, acrescentou.
Apesar dos visitantes da loja passarem a mensagem para amigos e conhecidos, é graças às novas tecnologias que o negócio vai existindo. “Nós temos muitas vendas através do nosso site e também temos seguidores nas redes sociais e através daí vão para o nosso site e acabam por encomendar. “Entre a comida mais tradicional para cães e gatos, existem bolos, biscoitos e “vários snacks para eles roerem” das mais variadas formas e cores, para além de outros produtos.
Ora, por norma, o amigo de quatro patas tem de ser vigiado na alimentação, mas Tiago Silva afirma que tomam todos os cuidados. “Nós temos a veterinária da nossa fábrica que acompanha o processo de produção e todos os biscoitos são enviados para análise num laboratório antes de serem comercializados”. E como se fabricam estes petiscos? “Não utilizamos ingredientes que eles não possam comer, açúcares, chocolates, nada. Usamos muita fruta, iogurtes, tapioca, tudo produtos que eles podem comer nas quantidades que o possam fazer, os donos podem estar mais do que sossegados”.
Qualquer raça canídea pode consumir os produtos, mas existe um detalhe: “No que toca à idade [do cão], recomendamos a partir dos quatro meses. Antes disso são pequenininhos, mas a partir dos quatro meses podem comer à vontade e temos clientes de todas as idades, sem problema nenhum”, revela o empresário.
Facebook Rossi Pet Bakery
O pedido mais invulgar que foi feito a esta pastelaria fora do comum chegou quase ao mesmo tempo da sua abertura ao público: “Tivemos um bolo de casamento de dois cães, uma vez. Foi há dois anos, esse pedido”, lembra Tiago Silva, que revelou que o bolo tinha a forma de um osso com os nomes dos “noivos de quatro patas”.
Uma das dificuldades que o empresário lembra resultantes da pandemia foram os atrasos com fornecedores de matérias primas. “Houve fornecedores que fecharam por causa de surtos de Covid-19 nas fábricas, outros porque algum dos produtos que mandamos vir é de fora de Portugal e começaram a haver cada vez mais atrasos”, acrescentou. Mesmo com esses obstáculos, o objectivo continua a ser a aposta no mercado online e não põe de lado a hipótese de expandir o negócio.
Portugal registou hoje 28 mortes relacionadas com a covid-19 (o mesmo número de ontem) e 949 novos casos de infeção (mais 119 que ontem). O boletim da Direção Geral de Saúde revela também que estão internados 1.583 doentes (menos 125 do que na quinta-feira), o valor mais baixo desde 25 de outubro. Nos cuidados intensivos Portugal tem hoje 383 doentes (menos 16 em relação a quinta-feira), o valor mais baixo desde 12 de novembro.
Desde março de 2020, Portugal já registou 16.486 mortes associadas à covid-19. Das 28 mortes registadas nas últimas 24 horas, 17 ocorreram em Lisboa e Vale do Tejo, cinco na região Norte, três na região Centro e três no Alentejo.
De acordo com os últimos dados da Direção Geral da Saúde, Portugal tem atualmente 972.183 pessoas vacinadas: 692.960 com a primeira dose e 279.223 com a segunda dose.
Continuamos em estado de emergência e em confinamento
Apesar da tendência para a diminuição dos fatores da pandemia, o país continua sob estado de emergência e a população obrigada a confinamento de sexta a segunda-feira. Convém não esquecer que a circulação entre concelhos em Portugal continental volta a estar proibida entre as 20:00 de hoje e as 05:00 de segunda-feira, período em que as pessoas que circulem na via pública podem ser interpeladas pela polícia e ser multadas, em caso de infração às regras estabelecidas no âmbito do estado de emergência para combater a pandemia de covid-19.
A proibição de circulação entre concelhos aplica-se a todos os municípios do continente, independentemente do nível de risco de transmissão do novo coronavírus SARS-CoV-2. Além desta restrição, continuam em vigor o confinamento obrigatório, em que a principal regra é ficar em casa, a proibição de vendas ou entregas ao postigo em qualquer estabelecimento do ramo não-alimentar, a proibição de venda ou entrega ao postigo de qualquer bebida mesmo nos estabelecimentos autorizados ao take-away. Não esquecer, ainda, que se mantém a proibição de permanência em espaços públicos de lazer. Isto é, não se pode sentar no banco do jardim, mas pode circular no jardim.
Para 11 de março está marcada a apresentação do plano de desconfinamento por parte do primeiro-ministro, António Costa, que se limitou a confirmar, na semana passada, que a abertura começará pelas escolas, sem especificar quais e em que data.
Uma equipa de investigação da Universidade de Columbia descobriu um método algorítmico que determina se existe uma relação entre o mês de nascimento e o risco que o indivíduo tem de desenvolver certas doenças. A notícia foi avançada pela Medical Xpress há cinco anos.
Curioso como sou, descubro sem surpresa que Março é o mês do coração frágil. A quem o dizes, Universidade de Columbia!
Não é que eu tenha nascido em Março que Março tem forte influência sobre mim, melhor dito, sobre o meu estado de espírito. Na realidade, sou oriundo do nono dia do nono mês do nono ano da década de 30 do século passado. Assunto arrumado.
Ok, sou idoso (velho já não se usa), ganhei o estatuto de prioritário com direito a passar à frente nas filas (nunca acontece talvez um dia aconteça), ser atendido prioritariamente (idem idem, aspas aspas), e…sei lá que mais regalias para mim desconhecidas na prática por, de facto, nunca as ter experimentado. Talvez um dia, diz o meu indisciplinado optimismo.
Março está para mim como as quartas-feiras, mas ao contrário. Das quartas-feiras espero tudo, dos Marços não espero nada. Além da respectiva colocação no calendário, as quartas-feiras dão mais hipóteses de tudo. Repetem-se todas as semanas.
Nas quartas-feiras parece que recebo um aditivo emocional de capacidade activa com assinalável resultado na produtividade. Tudo me corre bem, acabo mais depressa o que faço e fico disponível para fazer mais. As quartas-feiras deviam ser sempre para mim dias de fecho de edição, dias de reuniões de trabalho, dias de pedir aumentos de ordenado, coisas assim…
Março é mais manhoso. Dá-me onze meses para o esperar, para o temer, para desejar ir para outro planeta onde só hajam 11 meses e nenhuma seja Março.
Foi em Março que me encontrei naquela situação de estar sobre a linha em que se passa para o outro lado. Era véspera do Dia Internacional da Mulher, 7 de Março de 2007. A minha sorte foi ser uma quarta-feira, o tal dia em que tudo me corre bem. O SNS tomou conta de mim, fez o diagnóstico, preparou-me para o que viria a seguir e, no dia 9, manhã cedo, estava a ser anestesiado para uma grande intervenção de peito aberto. Cinco horas depois, três bypasses depois, 14 anos depois, Março ficou registado como um renascimento. O que não me impede de sentir um friozinho quando me aproximo da chegada deste terceiro mês do ano. É mês de outras más recordações, mãe e pai partiram nesse mês com cinco anos de separação. E aqui estamos nós de novo em Março.
Nem tudo foi mau em Março.
Em 2008, tinha oportunidade de regressar à minha terra do coração, Angola, após 33 anos de ausência. Um lindo projecto de Comunicação Social apelava para a minha participação. E foi também em Março de 2015 que calhou fazer o regresso dessa excepcional experiência profissional.
E aqui estamos de novo em Março em vésperas de celebrarmos a Mulher, com o devido respeito e gratidão.
No início de março, a CIP – Confederação Empresarial Portuguesa- anunciou a realização de uma conferência intitulada “As Mulheres e o Emprego: um tema do Homem“, prevista para dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Com um painel exclusivamente composto por homens, a conferência tem apenas uma senhora como moderadora, e vai ser encerrada por um homem. A polémica não tardou em instalar-se nas redes sociais: as críticas acusam a CIP de hipocrisia, machismo, reprodução do patriarcado, falta de noção, entre outras.
A Confederação não tardou a falar com a comunicação social, alegando que queriam discutir “entre líderes masculinos, o que trava a ascensão de mais mulheres a cargos de gestão” e queriam ainda “desmaterializar o Dia da Mulher, celebrá-lo como um legado histórico e não como um dia de luta”. O presidente da CIP garante que foram mal interpretados, até porque não querem dizer qual o papel da mulher na sociedade e sim questionar o que está a ser feito nesse sentido. Se não perceberam, basta ver os comentários nas contas que a CIP tem nas redes sociais. Mansplaining disfarçado de boas vontades, acusam muitas pessoas. Faz lembrar aquela famosa conferência sobre direitos das mulheres na Arábia Saudita onde o auditório era composto apenas por homens.
Falta de noção ou hipocrisia? Recordo que na própria CIP, existem 107 lugares em órgãos sociais, e as mulheres ocupam apenas cinco destes. É muito improvável que os veteranos líderes desta entidade não se tenham apercebido das brutais dificuldades que ainda hoje a mulher portuguesa enfrenta no mercado laboral, o qual faz tábua rasa da Constituição da República e ri-se na cara do Código do Trabalho. Alguns exemplos: dizer a uma mulher de 39 anos que ela é “uma sénior com currículo de júnior” porque não se entende que a precariedade é rainha há vários anos é de uma falta de carácter atroz; jamais um homem ouviria isso. Outro exemplo: há uns anos atrás, um alto dirigente de um hospital da Grande Lisboa desconfiou do período de amamentação de uma das suas funcionárias, mãe de um filho pequeno. De acordo com a imprensa, ela queixou-se que esse dito responsável a chamou ao gabinete e obrigou a mostrar-lhe os seios, apertando-os, para comprovar que ainda tinha leite materno. Desconheço até hoje os resultados do tradicional “inquérito para apurar responsabilidades” e sequer se foram aplicadas ao suposto autor de tal ideia as sanções previstas na Lei Geral de Trabalho em Funções Públicas.
A hipocrisia machista demonstrada por esta Confederação chega ao extremo de dizer que foram mal interpretados, como se a culpa fosse (pasme-se) de quem percepcionou (mal, dizem eles) as generosas intenções desta conferência. Garantem que foi uma boa iniciativa mal comunicada. Ou seja, o estagiário/trabalhador precário/ trabalhador com o contrato prestes a expirar do departamento de comunicação da CIP que fez o trabalho que se prepare, porque como todos nós sabemos, a culpa é do mordomo. A corda sempre rebenta do lado mais fraco, e à cautela, essa pessoa sobre quem vai recair o castigo por ter falhado na tal estratégia de comunicação pode ver-se na necessidade de entregar o currículo ao orador final da conferência, que por acaso é o CEO de uma empresa de trabalho temporário. A culpa não é de quem cometeu o mau comportamento, é sempre do alvo do mau comportamento; já vi isto em bullies. Só as ideias distorcidas, anacrónicas e acéfalas que esta Confederação mostra ter sobre o papel da mulher na sociedade portuguesa já dão uma ideia sobre a raiz da escandalosa e persistente disparidade entre os sexos. Há quem peça que se abra uma investigação para saber até que ponto estão a ser bem gastos os fundos concedidos pelo Projecto Promova.
Num tom jocoso, permito-me sugerir que na próxima conferência-bem-intencionada-como-o-inferno-manda, convidem o cidadão algarvio Zezé Camarinha, o magistrado Neto de Moura e o Diácono Remédios.
E como se não fosse suficiente, ontem mesmo vejo incrédula numa rede social uma publicidade a um conhecido restaurante lisboeta. Mais uma estratégia de marketing para sobreviver em tempos de pandemia, dirão alguns, e até seria apenas isso, não se desse o caso de se aproximar o dia 8 de Março. Numa foto, com a legenda “Vamos ter consigo até às 21h30”, surge uma jovem e bela mulher, fotografada apenas do nariz para baixo, envergando o que parece ser um vestido de alças, negro e decotado, em que uma das alças está para baixo e o seio desnudado está parcialmente tapado por um copo de pé alto com o que parece ser vinho branco. As mãos da moça estão pousadas em cima do balcão, em volta do copo, com as palmas para cima.
imagem do Instagram
Dispararam os comentários na rede social onde foi postado o anúncio: houve quem perguntasse se o conhecido restaurante se tornou um bordel, se as mulheres eram um prato de comida, houve quem questionasse se a qualidade da comida era grande coisa para justificar uma estratégia destas e até se gracejou por não haver um contraponto masculino equivalente, isto é, a imagem de um belo Adónis seminu a publicitar tais serviços. Na maioria, alega-se que já basta de o corpo feminino ser objectificado e usado para vender.
E como nestes tempos a hipocrisia parece que deixou de ser defeito de carácter para ser regra comportamental, o dito restaurante, para tentar emendar a mão, até sugeriu numa postagem um livro de Bernardine Evaristo, que aborda os temas do feminismo, da sexualidade e do patriarcado. Como diz o povo, “tarde piaste”.
O que diriam sobre isto tudo Carolina Beatriz Ângelo, Maria Lamas, Ana de Castro Osório, Regina Quintanilha, Adelaide Cabete, Maria José Estanco, Manuela Azevedo, Guilhermina Suggia, Maria de Lourdes Pintasilgo, Maria Helena Vieira da Silva, Natália Correia, Snu Abecasis e Catarina Eufémia? O que diriam todas as mães trabalhadoras e resistentes anti-fascistas que lutaram e sofreram durante anos, décadas até!, para que chegássemos hoje aos direitos que (ainda) temos (isso é pano para outras mangas…)?
Parece que o feminismo faz mais falta do que muitos pensam. Desde tenra idade. Não queremos assinalar em vão o Dia Internacional da Mulher. Queremos continuar a luta, porque esta, pelo andar da lenta carruagem, só acaba no próximo século – e estou a ser optimista. Não queremos workshops de maquilhagem ou flores que cedo murcham; a mulher portuguesa merece justiça em todos os quadrantes.
A lógica dos números da pandemia é uma batata. Uns dias sobem, outros descem. Ontem subiram. Hoje desceram. O registo no boletim epidemiológico da Direção Geral de Saúde diz que tivemos 28 mortes relacionadas com a covid-19, o valor mais baixo desde 27 de outubro, e 830 novos casos de infeção com o novo coronavírus, menos 149 que ontem.
O boletim da DGS revela também que estão internados 1.708 doentes (menos 119 do que na quarta-feira), o valor mais baixo desde 26 de outubro. Nos cuidados intensivos Portugal tem hoje 399 doentes (menos 16 em relação a quarta-feira).
1800 enfermeiros com medo do desemprego
A agência Lusa noticiou que o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) enviou uma carta ao primeiro-ministro e à ministra da Saúde sobre o possível despedimento de cerca de 1.800 profissionais por cessação de contrato de trabalho a termo, o que considera “profundamente intolerável”.
Na carta, o sindicato chama a atenção para um regime excecional de constituição de relações jurídicas de emprego sem termo ou por tempo indeterminado nos órgãos, organismos, serviços e demais entidades do Ministério da Saúde, que está em vigor.
Segundo o sindicato, haverá 1.800 enfermeiros contratados nesses termos e que correm o risco de serem despedidos a qualquer momento. Bastará que os gestores dos hospitais onde estão a trabalhar assim o entendam.
No final de janeiro, por causa dos efeitos da pandemia que levaram muitas pessoas a ficar sem trabalho e sem rendimentos, o Governo decidiu avançar com a suspensão de todos os prazos processuais em processos não urgentes, o que significa que apenas continuam a correr aqueles em que estejam envolvidos direitos fundamentais, tal como acontece nos períodos de férias judiciais.
Mesmo antes desta medida, tinha sido já determinado que as ações de despejo estavam proibidas, principalmente quando o arrendatário, por força da decisão judicial final a proferir, pudesse ser colocado em situação de fragilidade por falta de habitação própria ou por outra razão social imperiosa.
O mesmo acontecerá, por exemplo, com as ações executivas para cobrança de dívidas, relativamente às quais já estavam suspensos os atos relacionados com a entrega judicial da casa de morada de família. Daqui para a frente, além de não ser possível iniciar novos processos, também os que estejam em curso ficam parados, pelo que não será possível, por exemplo, avançar com novas penhoras.
Foi com surpresa, portanto, que vimos cinco famílias serem despejadas das casas onde habitavam, no Catujal, em Loures. Cinco famílias, com crianças, foram dia 1 de março despejadas com uma providência cautelar com efeito imediato e sem direito a defesa. Os moradores, oito adultos e sete crianças, foram acordados pela chegada de um agente de execução, advogado e polícia e foram postos na rua com todos os seus pertences. Sem possibilidades de resistir, oito adultos e sete crianças ficaram, de um momento para o outro, com os pertences na rua e sem abrigo.
Declarações de uma das pessoas despejadas indiciam que instituições supostamente protetoras não estão a desempenhar a função de proteção e segurança social que por Lei lhes cabe desempenhar.
O sossego ainda não voltou ao Bairro dos Navegadores, depois de duas noites com confrontos entre a PSP e alguns moradores, a polícia voltou esta tarde em força ao bairro para, segundo ecos na imprensa, “identificar os moradores que arremessaram pedras, paus e garrafas de vidro aos agentes”.
Acontece que ainda não apareceram vídeos que provem a ocorrência dessas agressões contra as forças policiais, o que não significa que não tenham acontecido. Mas não há. O que há é o relato policial sobre acontecimentos que os moradores negam ter acontecido.
Num contacto estabelecido pelo Duas Linhas com moradores do bairro, foi-nos dito que tudo começou com um desacato familiar. Uma pessoa mais velha, embriagado, discutia na via pública com dois dos seus filhos que tentavam levá-lo de volta a casa. A chegada da polícia não ajudou a resolver o problema, aumentou-o de tal modo que à terceira noite o bairro continua sob tensão. Entretanto, surgiram as primeiras imagens das nódoas negras e cabeças partidas resultantes da ação policial.
Dos três detidos na primeira noite, nenhum ficou sujeito a qualquer medida de coação, o que significa que o tribunal considerou estar perante uma insignificância judicial, apesar do aparato que a PSP resolveu emprestar à situação.
Os números da pandemia subiram. Uma subida no número de mortes, ontem foram 38 e hoje são 41. Subida também no número de novos infetados, ontem foram 691 e hoje são mais 979 novos casos.
No entanto, continua a descer o número de internados. O registo de hoje é de 1.827, menos 170 que ontem e este é o valor mais baixo desde 29 de outubro. Nos cuidados intensivos Portugal estão hoje 415 doentes (menos 31).
Das subidas, a que mais preocupa em termos de futuro será a dos novos casos. Uma percentagem deles irá, tarde ou cedo, para internamento hospitalar e, desses, uma parte terá de ficar em cuidados intensivos. Portanto, enquanto não pararmos os contágios, não nos livramos disto.