Machismo marialva em vésperas do Dia da Mulher

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No início de março, a CIP – Confederação Empresarial Portuguesa- anunciou a realização de uma conferência intitulada “As Mulheres e o Emprego: um tema do Homem“, prevista para dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Com um painel exclusivamente composto por homens, a conferência tem apenas uma senhora como moderadora, e vai ser encerrada por um homem. A polémica não tardou em instalar-se nas redes sociais: as críticas acusam a CIP de hipocrisia, machismo, reprodução do patriarcado, falta de noção, entre outras.

A Confederação não tardou a falar com a comunicação social, alegando que queriam discutir “entre líderes masculinos, o que trava a ascensão de mais mulheres a cargos de gestão” e queriam ainda “desmaterializar o Dia da Mulher, celebrá-lo como um legado histórico e não como um dia de luta”. O presidente da CIP garante que foram mal interpretados, até porque não querem dizer qual o papel da mulher na sociedade e sim questionar o que está a ser feito nesse sentido. Se não perceberam, basta ver os comentários nas contas que a CIP tem nas redes sociais. Mansplaining disfarçado de boas vontades, acusam muitas pessoas. Faz lembrar aquela famosa conferência sobre direitos das mulheres na Arábia Saudita onde o auditório era composto apenas por homens. 

Falta de noção ou hipocrisia? Recordo que na própria CIP, existem 107 lugares em órgãos sociais, e as mulheres ocupam apenas cinco destes. É muito improvável que os veteranos líderes desta entidade não se tenham apercebido das brutais dificuldades que ainda hoje a mulher portuguesa enfrenta no mercado laboral, o qual faz tábua rasa da Constituição da República e ri-se na cara do Código do Trabalho. Alguns exemplos: dizer a uma mulher de 39 anos que ela é “uma sénior com currículo de júnior” porque não se entende que a precariedade é rainha há vários anos é de uma falta de carácter atroz; jamais um homem ouviria isso. Outro exemplo: há uns anos atrás, um alto dirigente de um hospital da Grande Lisboa desconfiou do período de amamentação de uma das suas funcionárias, mãe de um filho pequeno. De acordo com a imprensa, ela queixou-se que esse dito responsável a chamou ao gabinete e obrigou a mostrar-lhe os seios, apertando-os, para comprovar que ainda tinha leite materno. Desconheço até hoje os resultados do tradicional “inquérito para apurar responsabilidades” e sequer se foram aplicadas ao suposto autor de tal ideia as sanções previstas na Lei Geral de Trabalho em Funções Públicas.

A hipocrisia machista demonstrada por esta Confederação chega ao extremo de dizer que foram mal interpretados, como se a culpa fosse (pasme-se) de quem percepcionou (mal, dizem eles) as generosas intenções desta conferência. Garantem que foi uma boa iniciativa mal comunicada. Ou seja, o estagiário/trabalhador precário/ trabalhador com o contrato prestes a expirar do departamento de comunicação da CIP que fez o trabalho que se prepare, porque como todos nós sabemos, a culpa é do mordomo. A corda sempre rebenta do lado mais fraco, e à cautela, essa pessoa sobre quem vai recair o castigo por ter falhado na tal estratégia de comunicação pode ver-se na necessidade de entregar o currículo ao orador final da conferência, que por acaso é o CEO de uma empresa de trabalho temporário. A culpa não é de quem cometeu o mau comportamento, é sempre do alvo do mau comportamento; já vi isto em bullies. Só as ideias distorcidas, anacrónicas e acéfalas que esta Confederação mostra ter sobre o papel da mulher na sociedade portuguesa já dão uma ideia sobre a raiz da escandalosa e persistente disparidade entre os sexos. Há quem peça que se abra uma investigação para saber até que ponto estão a ser bem gastos os fundos concedidos pelo Projecto Promova.

Num tom jocoso, permito-me sugerir que na próxima conferência-bem-intencionada-como-o-inferno-manda, convidem o cidadão algarvio Zezé Camarinha, o magistrado Neto de Moura e o Diácono Remédios. 

E como se não fosse suficiente, ontem mesmo vejo incrédula numa rede social uma publicidade a um conhecido restaurante lisboeta. Mais uma estratégia de marketing para sobreviver em tempos de pandemia, dirão alguns, e até seria apenas isso, não se desse o caso de se aproximar o dia 8 de Março. Numa foto, com a legenda “Vamos ter consigo até às 21h30”, surge uma jovem e bela mulher, fotografada apenas do nariz para baixo, envergando o que parece ser um vestido de alças, negro e decotado, em que uma das alças está para baixo e o seio desnudado está parcialmente tapado por um copo de pé alto com o que parece ser vinho branco. As mãos da moça estão pousadas em cima do balcão, em volta do copo, com as palmas para cima.

imagem do Instagram

Dispararam os comentários na rede social onde foi postado o anúncio: houve quem perguntasse se o conhecido restaurante se tornou um bordel, se as mulheres eram um prato de comida, houve quem questionasse se a qualidade da comida era grande coisa para justificar uma estratégia destas e até se gracejou por não haver um contraponto masculino equivalente, isto é, a imagem de um belo Adónis seminu a publicitar tais serviços. Na maioria, alega-se que já basta de o corpo feminino ser objectificado e usado para vender.

E como nestes tempos a hipocrisia parece que deixou de ser defeito de carácter para ser regra comportamental, o dito restaurante, para tentar emendar a mão, até sugeriu numa postagem um livro de Bernardine Evaristo, que aborda os temas do feminismo, da sexualidade e do patriarcado. Como diz o povo, “tarde piaste”. 

O que diriam sobre isto tudo Carolina Beatriz Ângelo, Maria Lamas, Ana de Castro Osório, Regina Quintanilha, Adelaide Cabete, Maria José Estanco, Manuela Azevedo, Guilhermina Suggia, Maria de Lourdes Pintasilgo, Maria Helena Vieira da Silva, Natália Correia, Snu Abecasis e Catarina Eufémia? O que diriam todas as mães trabalhadoras e resistentes anti-fascistas que lutaram e sofreram durante anos, décadas até!, para que chegássemos hoje aos direitos que (ainda) temos (isso é pano para outras mangas…)? 

Parece que o feminismo faz mais falta do que muitos pensam. Desde tenra idade. Não queremos assinalar em vão o Dia Internacional da Mulher. Queremos continuar a luta, porque esta, pelo andar da lenta carruagem, só acaba no próximo século – e estou a ser optimista. Não queremos workshops de maquilhagem ou flores que cedo murcham; a mulher portuguesa merece justiça em todos os quadrantes. 

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