O urbanismo de Oeiras tem procurado preservar os vários centros históricos do conselho. Pelo menos, gaba-se disso. No site da Câmara Municipal lê-se que “a reabilitação e salvaguarda dos Centros Históricos assume uma estratégia de Gestão Global e Integrada de toda esta complexa realidade entendida como um valor patrimonial local, não só em termos físicos mas também cultural, histórico, económico e sobretudo, social”, contexto em que a autarquia tem procurado orquestrar uma ação coerente, adquirindo edifícios degradados, renovando-os e devolvendo-os à vida comunitária.
“Habitar Oeiras” e “Habitação Jovem nos Centros Históricos” são programas que atuam nessa renovação do parque habitacional, com os quais se tenta manter de pé o património histórico edificado e trazer população jovem para o coração dos núcleos urbanos.
Ninguém diz que não se tem feito obra. Mas muitos dizem que a coisa anda demasiado devagar. Argumentam que um concelho tão rico como Oeiras já poderia ter a casa arrumada no que diz respeito a estas questões.
A verdade é que, no site da CMO, a última notícia sobre recuperação de um edifício na zona histórico de Oeiras data de dezembro de 2019, quando a autarquia anunciou que na Rua Marquês de Pombal, números 3, 5 e 7, em plena vila de Oeiras, foram criados 11 fogos para arrendamento jovem.
A lista de candidatos a este tipo de habitação é longa. São centenas de nomes de malta entre os 18 e os 35 anos que esperam vir a ser contemplados com um apartamento na zona histórica.
(edital onde se publica a lista de candidatos)
E há muitos edifícios por recuperar, ainda. Numa curta ronda pelas ruas entre o Palácio do Marquês de Pombal e a Igreja Matriz, edifícios que datam do século 18, encontrámos vários casos de edificações arruinadas e devolutas mas, também, alguns sinais de iniciativas para alguns deles virem a ser recuperados.
Entretanto, a Câmara Municipal diz que, até agora, já adquiriu dezenas edifícios no âmbito do Programa Habitação Jovem dos Centros Históricos (Paço de Arcos, Oeiras, Algés, Dafundo, Barcarena, Leião, Porto Salvo, Carnaxide e Queijas), muitos com obras já concluídas, outros em diferentes fases desse processo de recuperação, mas todos eles destinados a serem sorteados pelos candidatos ao programa em referência, em investimentos que somam vários milhões de euros.
Não se nega que estas coisas custam um dinheirão, mas o investimento é compensado pelas mais-valias trazidas pela preservação patrimonial, seja em termos culturais como económicos, por alavancarem várias atividades conexas como, por exemplo, o turismo.
Mas depois reparamos que a CMO poupa noutros pormenores, um tanto ou quanto incompreensivelmente. Por exemplo, nos canteiros de flores colocados nos postes de iluminação pública ou nas varandas do Palácio do Marquês de Pombal. São de plástico. Não precisam de jardineiro nem de serem regadas periodicamente.
Carlos Bernardes, presidente da Câmara de Torres Vedras, foi encontrado morto em sua casa, esta tarde. Tinha 53 anos, apenas.
Segundo a GNR, tinha ferimentos de arma branca no pescoço e foi encontrada uma faca junto ao corpo. Uma Brigada de Investigação de Homicídios da Polícia Judiciária de Lisboa deslocou-se ao local para averiguar as causas da morte.
No entanto, a hipotética causa da morte de Carlos Bernardes foi já avançada pelo candidato do PSD à Câmara de Torres Vedras, Duarte Pacheco. Numa mensagem publicada no Instagram, Duarte Pacheco escreve que “nada justifica que se ponha termo à vida. Para tudo há solução. Mas agora só posso desejar que descanses em paz e que Deus te receba no seu reino!!”
Presidente da Câmara desde 1 de dezembro de 2015, Carlos Bernardes, já tinha anunciado que se iria recandidatar à autarquia, este ano, mantendo o apoio do PS. O autarca tinha sido vice-presidente durante 10 anos, entre 2005 e 2015, quando assumiu a presidência por renúncia de Carlos Miguel, que assumiu funções no Governo.
Um político, um notário e um agente imobiliário (e mais outras 5 pessoas) são suspeitos de integrarem grupo que se apropriou de imóveis por usucapião. O esquema fraudulento terá alegadamente lesado dezenas de proprietários, lê-se no Correio da Manhã.
Usucapião é o direito de invocar ter sido possuidor de uma coisa durante um longo período, tornando-se assim proprietário ao fazê-lo.
Há anos falava-se muito de um notário onde tudo alegadamente era permitido: Carlos Melon, falecido em 2009. O homem era objeto de graçolas de alguns dos seus colegas. Desnecessárias, porque a situação piorou.
Não falemos de António Figueiredo, o presidente do Instituto de Registos e Notariados, durante 11 anos, envolvido no caso Vistos Gold. Num email, o ex-ministro Miguel Macedo terá chegado alegadamente a escrever “estás sempre a facturar”. O que foi desvalorizado por Figueiredo, como linguagem de amigos.
Nem falemos na compra de um apartamento por Henrique Granadeiro que alegadamente adquiriu com 510 mil euros em dinheiro vivo e um quadro. Alegadamente na presença de uma notária. Facto noticiado pela SIC . Vale a pena ler o que escreveu o Observador em 2017.
Falemos da condenação do acórdão do Tribunal de Braga que condenou, há 3 anos, um notário de Barcelos acusado de ter colaborado numa burla a uma idosa como a TVI noticiou.
Lidar com notários tornou-se difícil. São profissionais liberais que ao mesmo tempo fazem fé pública absoluta. Acumulam-se os casos… Era uma vez uma notária que foi certificar o sabor único da Coca-Cola, incluindo a Coca-Cola Zero. É outro caso. De loucos!
Nasci amante da liberdade e da justiça e entendo o Estado como uma pessoa de bem, que deve promover o desenvolvimento económico e a inclusão social. Isso fez de mim um social-democrata ou um socialista, que tanto faz. Marimbo-me para discussões semânticas, que só servem para erguer muros.
No início dos anos noventa, tive a honra de pertencer ao “núcleo duro” de um PS que, farto da podridão que roía o “cavaquismo”, tinha melhor solução para Portugal. Para, no final dessa árdua batalha, ouvir do atual Secretário-Geral das Nações, por quem nutro muito respeito, uma pergunta tão natural como a que foi feita a D. Afonso IV, no fim da Batalha do Salado:
– E agora… que queres fazer?
Alguém me sugerira para Alto-Comissário da Luta Contra a Pobreza, um cargo em que, até benevolamente, poderia influenciar numa das prioridades em que ambos comungávamos. Porém, vencida aquela batalha, nada quis. E bom conhecedor da espécie humana, apenas fiz uma “exigência”:
– Só quero que, quando esta malta começar a roubar, me ouças.
Algum tempo depois, com provas de que “algo não ia bem” no Ministério da Saúde e na Fundação para a Prevenção e Segurança Rodoviária, entendi solicitar um encontro. Concedido de imediato, o PM até me recebeu no alto da escadaria do Palácio de São Bento:
– “Candinho”, hoje, só me caem desgraças. Desculpa, mas vais ser recebido pelo meu Adjunto. No fim, falamos.
E assim aconteceu. No final de um café com o Adjunto Armando Vara, que, por acaso, fora o “cérebro” da tal Fundação, o “Toninho” fez questão de me interpelar:
– Então, que tal?
– Então… nada! Pois se ele é um dos principais visados…
– Mas o Vara garante-me que está tudo certo.
– E eu garanto-te que está tudo errado.
E lá me despedi, não sem antes ter ouvido algo como:
– És sempre a mesma coisa…
Anos depois, honrada, mas ingloriamente, António Guterres haveria de abandonar o seu próprio cargo para sair daquele “pântano”. Veio, depois, a “tanga” de Durão Barroso e o “traje-de-luzes” de Santana Lopes, até o poder tombar para Sócrates, em que, na altura, milhões de portugueses acreditaram.
E foi já nesse palco que tive ensejo de interpelar João Cravinho, um ministro de feitio muito difícil, mas sobre quem nunca recaíram suspeições. Confrontado com o endividamento do Estado na construção de rodovias, defendeu ele então que o fazia na convicção de que o impulso económico que tal investimento iria gerar, acabaria por o tornar lucrativo. E com essa me calou.
E assim andámos, até 2009, quando João Cravinho também notou que “algo não ia bem” na Administração. E a partir daí, é sabido que encabeçou uma luta inglória pela aprovação de leis anticorrupção. Esforço de que saiu um “aborto” legislativo, que eu próprio designei como “Manual de Direitos e Garantias dos Políticos Corruptos”. Isto, após uma sinuosa discussão na AR, em que pontificou o “pensamento político” de José Sócrates, suportado pelos “do costume”.
A partir daí, com o Ministério Público amarrado de pés e mãos, e sem qualquer alteração legislativa em sentido contrário, assistiu-se à pilhagem das instituições. Com a corrupção a galopar em Portugal, e caso único talvez no mundo, em 2011 não havia registo de um só dirigente político ou autarca, magistrado ou quadro superior da administração pública ou privada, civil ou militar ou de qualquer jornalista influente, detido em prisões. Certo?
Enquanto cidadão e patriota, sempre me bati, antes e depois do 25 de Abril, pelos valores que enformam a minha própria identidade. Desenvolvi, assim, uma larga ação em áreas da política, mas de que nunca retirei qualquer benefício material. Sobra-me a vontade de continuar firme e do lado certo da História, lealmente com os oprimidos e afrontando quem abusa do poder, em benefício próprio.
Não são estes, porém, os valores que hoje orientam o PS. E por isso, até num apelo à consciência de muitos socialistas que nunca se reverão nas práticas atuais, atrevo-me a proclamar:
– Obrigado, João Cravinho, pelos inimigos que arranjaste!
No dia 22 de Abril teve uma queda em casa com perda dos sentidos (desconhecemos a razão da queda). Foi vagamente assistida pelos bombeiros locais (o 112 entendeu que não era caso para enviarem uma VMER) e foi levada para o Hospital do Barreiro onde deu entrada dentro das urgências às 13h45. Apresentava um ferimento na nuca com sangue, tinha náuseas e vómitos.
Os bombeiros informaram-me que devido ao facto de entrar na maca teria prioridade, mas eu não a poderia acompanhar. Até cerca das 15h45 como não obtive qualquer informação sobre o seu estado lembrei-me de recorrer à ajuda de uma pessoa conhecida, funcionária naquele hospital, para tentar obter alguma informação. Alguns minutos depois essa pessoa conseguiu chegar junto da minha mãe e gentilmente efectuou uma chamada do seu telemóvel pessoal, colocando-me em contacto com ela. Queixou-se que ainda não lhe tinham feito nada, necessitava de ir à casa-de-banho, tinha fome e sede.
A partir das 16h e durante algum tempo consegui, através de um corredor por outro edifício paralelo, chegar a poucos metros da minha mãe onde em curtas visitas de poucos minutos fui tentando acompanhar o seu estado e fazendo com que ela se sentisse acompanhada. Estava “estacionada” no meio de uma sala improvisada, que na verdade é uma espécie de corredor / ponte que une dois blocos hospitalares. Apesar dos seus pedidos, as auxiliares ou enfermeiras recusaram-se a leva-la à casa de banho, tendo que urinar na própria maca.
Segundo indicaram, não podia beber água porque iria fazer exames. A minha mãe não comia nem bebia qualquer líquido desde o pequeno-almoço. Poderia ter siso colocada a soro para compensar estas carências, mas não foi….Não lhe fizeram qualquer curativo no ferimento da cabeça. A fronha da maca esteve do principio ao fim com uma mancha de sangue na zona da cabeça.
Ás 18h continuava a aguardar que lhe fosse feito algum exame… Eu aguardava junto à sala de espera na esperança vã de ser chamado para me transmitirem alguma informação. Tendo perdido a paciência, dirigi-me à recepção e exigi que me fosse dada alguma informação, realçando o facto de que a minha mãe poderia ter um traumatismo, já tinha vomitado tudo o que havia para vomitar, estava fraca e há horas sem comer nem beber. Segundo o sistema informático, estava indicada para ir fazer um TAC. Pedi o livro de reclamações e preenchi relatando o que se tinha passado até essa hora.
Por volta das 18h30 a minha mãe foi finalmente levada a fazer o TAC e recolha de sangue para análise. Numa das minhas curtas e fugazes visitas disse-me que estava a ficar com frio e sugeriu-me que fosse a casa dela buscar um roupão. Aproveitei a ida a casa para trazer também o seu telemóvel por forma a que pudesse comunicar mais facilmente. Voltei ao hospital.
Entretanto a porta do edifício por onde durante a tarde conseguia chegar perto da minha mãe já tinha sido fechada e por isso dirigi-me à entrada principal das Urgências e pedi ao segurança que me deixasse entrar para entregar o roupão e o telemóvel à minha mãe. Entrei e permaneci alguns minutos junto dela. Voltou a queixar-se de fome, sede e que estava urinada sem que alguém fizesse alguma coisa. Tentei que bebesse alguma água de uma garrafa que lhe levei, mas cumpridora como era recusou-se sempre pois foi lhe dito que não podia porque poderia a qualquer momento ter de ir fazer mais exames.
Pouco depois das 20h ligou-me através do telemóvel e disse que foi informada que teria de ir fazer nova colheita de sangue, pois a que efectuaram antes não tinha sido suficiente. Preparei-me para mais uma longa espera e permaneci junto à entrada das Urgências até por volta das 21h. Entretanto a minha mãe insistiu comigo ao telefone para que eu fosse jantar, uma vez que eu também não tinha almoçado e o resultado dos exames certamente ainda demoraria umas 2 horas. Fui a casa comer alguma coisa e entretanto enviei-lhe uma mensagem para saber como ela estava. Com alguma dificuldade e sem os óculos que lhe foram retirados, escreveu-me da melhor forma que pode que estava com fome e que não lhe podiam dar nada sem saber se teria de fazer mais algum exame. Quando estava dentro do carro para voltar ao hospital ligou-me a dizer que as auxiliares tinham pedido para que lhe levasse umas calças de pijama para a vestirem quando tivesse alta. Estacionei, voltei a casa, coloquei a roupa dentro de um saco e regressei ao hospital. Passava das 22h.
Novamente junto à sala de espera das urgências à espera de que a qualquer momento alguém me chamasse com alguma informação, resultados dos exames… alguma coisa. Passava das 23h e decidi de saco da roupa na mão pedir ao segurança para deixar entrar, ao que acedeu. A maca da minha mãe tinha entretanto sido deslocada para o canto da sala improvisada. Um canto escuro, mal iluminado onde durante o dia a luz entrava pelas janelas laterais, mas aquela hora aquele espaço tornou-se sombrio. Continuava a queixar-se de fome e sede. Tal seria a sua carência que aceitou à primeira a minha sugestão de beber da garrafa que eu levava. Muito a medo bebericou apenas um pequeno trago. Ainda tentei que comesse uma peça de fruta que eu levei comigo, mas por receio de contrariar as indicações não o fez. Desabafou comigo que tinha perguntado se não lhe faziam um curativo na ferida da cabeça e que lhe responderam que depois em casa ela podia limpar com água oxigenada (!)…
Perguntei a uma auxiliar que estava por perto se mais de 3 horas passadas não seria já altura para se conhecer o resultado dos exames (o TAC feito às 18h30 e as segundas análises feitas por volta das 20h30). Respondeu que não era com ela, que devia de perguntar a uma enfermeira. Indicou-me um gabinete que não tinha ninguém, procurei por isso noutro gabinete. Durante quase 15 minutos tentei captar a atenção de alguma enfermeira colocando-me à porta de do gabinete. A primeira que me apareceu não me deixou terminar a frase e como se eu não estivesse ali entrou no gabinete virando-me as costas. Quando finalmente consegui encarar um enfermeira de frente e esta parou para indagar o que eu queria, fiz a mesma questão que tinha feito à auxiliar e esta respondeu-me que não era com elas, que teria de perguntar ao médico de serviço. Indicou-me o número do gabinete e sem mais demora dirigi-me a ele.
O médico de serviço estava sozinho no gabinete e rapidamente lhe fiz o relato que já repetira anteriormente. Mandou-me sentar e muito tranquilamente foi perguntando o nome da minha mãe enquanto consultava no computador. Respondeu-me que os resultados das análises já estavam no sistema. Estava tudo normal. Fez um print do resultado e entregou-me. Disse-lhe que a minha mãe também tinha feito um TAC e este respondeu que também estava tudo normal com o TAC. Fez um print do resultado e entregou-me. Acrescentou então que até “já ia dar alta” à minha mãe. Por momentos atravessou-me no cérebro uma questão: se eu não tivesse ido aquele gabinete pedir informações quanto mais tempo a minha mãe passaria esquecida naquela maca…Perguntei-lhe se não tentaram saber a razão da minha mãe ter caído, ao que me respondeu que isso (ela) teria de de ir realizar depois exames mais aprofundados. Que é como quem diz, por conta dela, não naquele dia e muito menos no seu turno, pelo que entendi. E quanto a medicação, vai receitar alguma coisa? Perguntei eu. Se tiver tonturas tome Ben-U-Ron e Betaserc. A minha perplexidade acerca da prescrição do Ben-U-Ron impediu-me de decorar o nome do Betaserc e por isso pedi que escrevesse. Digitou então no computador e imprimiu a receita. Ainda meio surpreendido com toda a passividade do médico, atirei mais uma pergunta. A minha mãe vai ter alta já? Não vai ficar algum tempo em observação? Não, vou dar indicação para a prepararem para ter alta, respondeu-me ele.
Este médico nem sequer voltou a ir junto da minha mãe para avaliar como ela se encontrava. Baseou-se apenas na informação do resultado do TAC e análises que chegaram através do computador…Fui dar a novidade à minha mãe e consegui, finalmente, convence-la a comer a peça de fruta que eu tinha levado. Disseram-me que podia ir buscar o meu carro enquanto preparavam a minha mãe.
Já passava da meia-noite e lá fui buscar o carro que estava estacionado fora do perímetro do hospital. Demorei cerca de 15 minutos até voltar para junto dela. Estava exactamente na mesma, deitada na maca, com a bata do hospital, molhada e com os sacos da roupa que eu trouxe a seus pés. Fui saber o que se passava e responderam que estavam à espera que a casa-de-banho grande ficasse livre para ajudarem a minha mãe a vestir. Já não sai e fiquei a aguardar no corredor. Pouco depois espreitei e vi que tinham decidido colocar um biombo à volta da maca e acabaram por a vestir ali.
Eram 0h35 mais ou menos quando me trazem a minha mãe, pelo seu próprio pé. Fiquei com a sensação que a minha mãe parecia aliviada por ir finalmente sair dali e eu também estava por a poder levar para casa. De tal forma que nem me ocorreu contestar porque razão não colocaram ao menos a minha mãe numa cadeira de rodas. Depois de um breve Boa Noite, a minha mãe deu-me a mão e começamos a andar pelo corredor. Não teremos andado mais do que 3 metros quando a minha mãe levanta o braço para se apoiar na parede e começa a desfalecer. Só tive tempo de a amparar para não cair abruptamente no chão. Pela primeira vez após tantas horas vi e senti preocupação e sinais de urgência no pessoal hospitalar. Vi a minha mãe inanimada com os olhos abertos, sem encontrarem a sua pulsação e a ficar vermelha. Ajudei as enfermeiras a colocar a minha mãe na maca, pediram-me para sair e aguardar. Percebi assustado que era grave. Muito grave.
Esperei nervosamente 40 longos minutos. Quando tinha acabado de dizer ao segurança que ia entrar por ali a dentro ele diz-me que querem falar comigo na outra ala do hospital. Esperava-me a chefe do serviço acompanhada de 3 ou 4 enfermeiras em posição de formatura da tropa. Já não havia nada a fazer. A minha mãe não resistiu a uma paragem cardio-respiratória. A segunda enfermeira disse-me para me dirigir no dia seguinte a uma funerária que me explicariam e tratariam de tudo e outra enfermeira entregou-me dois sacos de plástico com os pertences da minha mãe. Fiquei praticamente sem acção. Não consegui trazer a minha mãe de volta a casa…Tinha 70 anos..
Devido aos contornos que envolveram o falecimento da minha mãe foi pedida a realização de uma autópsia. Resolvi fazer este relato porque entendo que esta situação é demasiado grave e tem ser denunciada. Aliás, todas as situações como esta o devem ser, por forma a evitar que se continuem a repetir. É vergonhoso!
Embora com pouca esperança, porque vivemos numa República das Bananas terceiro-mundista, espero e desejo que seja apurada a responsabilidade pela má assistência que foi prestada à minha mãe.. Tenho fracas possibilidades financeiras, pelo que alguém que me possa prestar algum aconselhamento jurídico, por pequeno que seja e livre de honorários ficarei muito agradecido.
Joana Emídio Marques é jornalista no Observador, antes trabalhou noutros jornais, sempre na área da cultura. Escreve sobre livros, espetáculos, arte, teatro, dança, exposições. E escreveu, agora, na sua página do Facebook uma crónica sobre assédio sexual de que foi vítima.
A cena passou-se em 2002, quando ela procurava confirmar a aquisição da editora Assírio e Alvim pela Porto Editora.
“No ano de 2012 começou a correr a notícia de que a Porto editora ia comprar a mais importante chancela de poesia a Assírio e Alvim, cujo catálogo tinha nomes como Herberto Helder. Para quem está fora do meio literário isto pode não significar nada. Para quem trabalha no meio era uma cacha (um furo jornalístico) e eu queria-o para mim. Era “amiga”, no facebook, do editor e homem forte da Porto Editora, que já então me enviava mensagens pseudo-sexutoras (não é erro, inventei esta palavra). Aceitei jantar com ele para falarmos da compra da Assírio.
Não por acaso ele marcou o jantar num fim de semana em que a sua mulher estava num festival literário no México. Mas esta ligação eu só fiz muito depois. Fomos a um restaurante (caro) ali ao fundo da rua do Alecrim, um que serve sushi. Ele, cavalheiro a ajudar-me a despir o casaco, a puxar a cadeira para eu me sentar. Estava eu a ficar bem impressionada, quando ele tira do bolso uma caixinha de comprimidos que espalhou na palma da mão e aproximou do meu rosto e lançou: estás a ver? Não tenho aqui nenhum comprido azul.
Eu, que acabara de conhecer o homem e não queria parecer burra, forcei o meu cérebro a tentar entender a “piada” mas não consegui. “Oh, soltou ele” não te faças de sonsa”. Assim, logo a tratar-me por tu e a insultar-me de forma velada. Nesse momento eu entendi (se nasces mulher aprendes cedo a descodificar alusões sexuais): o homem estava a mostrar-me, a dizer-me que não tomava Viagra. E aquilo que era para mim um jantar de trabalho tornou-se logo ali uma humilhação.
“Como fazia sempre, tinha deixado o meu carro estacionado na Rodrigues Sampaio, junto à porta do DN. Ele ofereceu-se para me dar boleia até lá. Aceitei. Erro meu. Quando parou o carro e ia dar-lhe os tradicionais 2 beijos de despedida, o Manuel Alberto Valente ainda achou por bem começar a tentar beijar-me na boca, com uma descontração que mostrava que ele deve ter feito isto centenas de vezes.
Eu afastei-me e sai do carro. Em silêncio chamei-o de velho porco, em silêncio humilhado chorei até Setubal. Contei isto a vários amigos, mas não mais. Queixei-me ao (na altura) assessor de imprensa da Porto Editora, Rui Couceiro, que reconheceu “haver esse problema”, como quem aceita que pode chover num dia de sol.
Se fores mulher, ser tratada sem vergonha nem respeito, é apenas mais um dia normal na tua vida. O Manuel Alberto Valente, acabou no final do ano passado, por ser afastado da Porto Editora. Hoje em dia é cronista do Expresso. Colega do Henrique Raposo que veio a público pedir às mulheres que digam nomes. Aqui está um nome, caro Henrique. E tenho mais. Mas talvez não dê jeito ouvir”, conclui Joana Emídio Marques.
Na senda de Harvey Weinstein, Manuel Alberto Valente arrisca, agora, tornar-se no paradigma a abater. Confirmando-se as suspeitas reveladas por Joana Emídio Marques de “que ele deve ter feito isto centenas de vezes”, esta acusação pode gerar um efeito dominó, caso surjam outras. Nas redes sociais, Manuel já arde na pira onde as feministas pretendem que ele expie os pecados.
A versão portuguesa do movimento #metoo está aí e de garras de fora. Se fugir à regra das “meias tintas” tão tradicional dos portugueses, muita gente vai ter problemas para voltar a polir a sua imagem pública.
Tudo começou há algumas semanas com a atriz Sofia Arruda a explicar que tinha ficado anos sem trabalhar num canal de televisão por não ir para a cama com quem à época mandava na tal chafarica, logo seguida por Catarina Furtado que confirmou a banalização do bullying sexual ao dizer que fora assediada por três pessoas em cargos superiores hierárquicos. É o tal efeito de dominó que estas coisas têm… mas, ao contrário das anteriores, Joana “chamou o boi pelo nome”. O Manel que se cuide.
Manuel Alberto Valente (foto que circula na internet)
Portugal registou hoje duas mortes atribuídas à covid-19, 454 novos casos de infeção pelo coronavírus SARS-CoV-2 e uma nova redução do número de internamentos em enfermaria e cuidados intensivos, segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS).
De acordo com o boletim da DGS, estão hoje internados em enfermaria 302 doentes, menos 22 em relação a sexta-feira, e 84 em unidades de cuidados intensivos, menos cinco.
Desde o início da pandemia Portugal já contabilizou 836.947 casos confirmados e 16.976 óbitos.
Ao nos termos esquecido da verdadeira natureza do ser humano, pusemos em perigo a natureza, a economia, a indústria, as relações humanas, a educação, a cultura, a saúde, a justiça, a prosperidade, todos os sistemas em que ele coabita, este planeta, as suas civilizações e sabemos lá se outros planetas, outras formas de vida e de civilizações. Sim, porque uma coisa devemos ter aprendido, lá por não considerarmos a existência de outras formas de vida ou por as desconhecermos, isso não quer dizer que estas não existem. Porque ao termos desconhecido as consequências de certos atos nossos ou por não as termos considerado, isto não quer dizer que estes não fossem possíveis que não estivessem a ocorrer.
E assim, vimo-nos a braços com situações e circunstâncias desumanas, destruidoras, avassaladoras, calamitosas e sem capacidade para as compreendermos, para nos organizarmos e para respondermos de forma adequada e atempadamente.
Criámos a energia nuclear e a bomba atómica num planeta de dimensões reduzidas que é uma anarquia de nações, de zonas e de civilizações. Fizemo-lo sem termos desenvolvido em simultâneo uma ciência da mente humana e um conhecimento verdadeiro sobre o ser humano Despojámo-lo de valores morais e da sua espiritualidade porque se afirmava que estes eram inexistentes, simplesmente porque, na altura, não podiam ser medidos. Negacionismo in extremis, ou seja, negámos algo simplesmente porque o desconhecíamos. Denegriram-se e mataram-se pessoas, negou-se e proibiu-se o conhecimento avançado por elas só porque afirmavam que a Terra era redonda ou que era a Terra que rodava em torno do Sol. Isto simplesmente porque aqueles, que detinham o poder na altura, assim acreditavam e diziam que era impossível provar o contrário. No entanto estas eram verdades, continuaram a ser verdades e continuam a ser verdades.
Negámos e despojámos o ser humano das suas qualidades humanas, das suas responsabilidades pelo seu humanismo e pela humanidade. A insanidade, a doença, a desresponsabilização, a criminalidade e a destruição dos ecossistemas aumentaram exponencialmente. E, a guerra moderna culminou na ameaça da destruição de todas as obras do ser humano. Nenhuma civilização consegue progredir em direção à sua sobrevivência contínua, sem assumir a sua verdadeira natureza, o seu conhecimento, os seus atributos, as suas limitações e as suas aspirações.
É imperioso que o novo “normal” seja muito diferente do “normal” que conhecemos, da normalidade que nos foi imposta e a que nos habituámos. O ser humano é diferente do universo físico. Quando o reduzimos à sua dimensão física, vemos os seus piores e mais tenebrosos comportamentos, seja a nível físico, mental, emocional, espiritual, social ou ético. É como se deixássemos para trás exatamente as qualidades e as características que o distinguem do universo físico e até das outras espécies animais. E, no entanto, são exatamente essas qualidades e características que o fazem feliz, que o levam a conseguir viver em harmonia com os seus semelhantes, com as outras formas de vida e até com o universo físico que o rodeia.
O ser humano é basicamente bom. Há um autor, filósofo e humanista, que diz que existem apenas 2% de seres que são realmente maldosos que querem destruir, causar o caos e que oprimem de facto os outros. Fazem-no de forma encoberta, dissimulada, fingindo serem amigos e quantas vezes declarando que o são, tudo para que confiemos e acreditemos neles, para que os sigamos e assim não serem apanhados. Existem outros 18% que estão debaixo da influência negativa destes, quantas vezes sem se darem conta disso.
Ou seja, os restantes 80% dos seres humanos, da população, são bons, querem o seu próprio bem assim como o bem dos outros e de tudo aquilo de que dependem e que afetam com as suas vidas. Trabalhemos, pois, com eles e, em conjunto, sejamos mais compreensíveis, mais afáveis, mais simpáticos, mais responsáveis, mais construtivos, mais justos, mais dinâmicos e, juntos, criaremos um Mundo melhor, mais sustentável e mais harmonioso!
Quando comecei a escrever este artigo, a petição tinha 5.498 assinaturas. Trata-se de uma petição online onde se pede a criação de um hospital veterinário público. Um serviço público de veterinária seria uma ferramenta fundamental para a diminuição dos abandonos e o socorro a animais maltratados.
Hoje, ir ao veterinário não é uma decisão que se tome de ânimo leve. Uma consulta, com análises clínicas ou a toma de vacinas, pode ficar em 30 ou 40 euros. Há muito boa gente que não pode gastar esse dinheiro com o seu animal de companhia porque, pura e simplesmente, não tem. A pobreza não devia ser ainda mais castigada pela impossibilidade de providenciar cuidados veterinários aos animais que nos acompanham e tornam os dias menos difíceis e menos solitários.
A petição pede um hospital veterinário público, mas na realidade devia pedir pelo menos um em cada sede de concelho. Não sei de que zona do país são os autores da petição, mas supondo que possam ser de Lisboa, porque razão não pedir o mesmo para o Porto, Coimbra, Faro, Odemira ou Mafra?
No meu caso pessoal, por exemplo, temos em casa 5 cães e 4 gatos. Já foram mais mas, infelizmente, os animais têm vidas relativamente curtas. Mas, com 9 animais a cargo, a grande maioria proveniente de associações de proteção animal sobrelotadas ou resgatados da rua, ter acesso a um serviço público de veterinária seria um alívio importante, confesso.
No início deste artigo, a petição tinha 5.498 assinantes. Dez minutos depois, quando terminei de escrever isto, contava com 5527. Vinte e nove assinaturas em 10 minutos, não é mau. Eu também já assinei.
O palco está aberto. Cenário nu. Duas portas, uma de cada lado, no meio de paredes brancas. Observa-nos, no cadeirão, uma dama de pernas cruzadas, vestido branco, manto verde, luvas brancas, grinalda prateada, máscara nos olhos à moda do Carnaval de Veneza. Caem-lhe das orelhas dois penachos verdes também. Cabeleira ampla sob um toucado verde. Incide sobre ela o único foco de luz. Observa o vaivém dos arrumadores. Descruza as pernas agora, que já tarda o início do espectáculo. Percebemos que há uma rampa larga, a terminar quiçá atrás dum balcão com espelho. Aí se miram os espectadores. E a senhora deve estar a pensar: «Quando é que esta gente se acomoda? Se me balancear um pouco e pousar o queixo na mão, qual pensador, é capaz de ser melhor». Quem será a personagem para, assim sentada, nos receber?
19 h 20 m. Vamos começar. «O uso da máscara é obrigatório durante todo o espectáculo». Apagam-se as luzes. A senhora foi-se embora. Lá no cimo, o saxofone de Elmano Coelho. Saberemos depois que aparecerá de vez em quando a sublinhar uma passagem…
Assim é. O shakespearianodrama de Hamlet, milhares de vezes encenado em todo o mundo, assume, aqui, pelas mãos de Carlos Avilez e de toda a equipa do Teatro Experimental de Cascais uma roupagem diferente. Sim, é bem original o recorte do guarda-roupa (de Fernando Alvarez), a fazer jus ao que sempre nos habituou. As paredes brancas são, afinal, ecrãs por onde deslizam fantasmas, teias, ora roxas, ora vermelhas, consoante a cena que observam. João Vasco é a voz que vem de longe. Um achado!
«Quebra-se-me o coração, mas tenho que calar a minha boca». «Se tratares cada pessoa segundo o seu mérito quem escapará ao chicote?»… «Vai para um convento e vai depressa!». «A loucura dos grandes não pode caminhar sem vigilância». Densidade de um texto, superiormente traduzido por Sophia de Mello Breyner Andresen.
E vem a espalhafatosa alegria dos comediantes. E ensaia-se uma dança à moda antiga, como que para espantar demónios. No duelo de esgrima, sentimos – ainda! – a maestria de Mestre Eugénio Roque, bem continuada por seu discípulo Tiago da Cruz. Ele que tanto gostaria de ter assistido a esse doloroso final!…
É verdade, esquecemo-nos da senhora. Descobrimos, nos ‘textos de apoio’, que é Maria João Pinho; que a destinada ao convento é Bárbara Branco, de seus 22 aninhos; que o protagonista, José Condessa, anda pelos 24. Temos no rol, claro, os veteranos da companhia: Teresa Côrte-Real, Luíz Rizo, Sérgio Silva… Veterano é também Miguel Loureiro. Por entre eles, como Bárbara e José Condessa, os formados na Escola Profissional de Teatro de Cascais (EPTC): Renato Pino, Rodrigo Cachucho, Miguel Amorim… Mas, agora reparo que me estou a embrenhar pelos nomes e, neste caso, algo me diz que não deveria. Sim, há que notar a falta de Manuel Amorim, que há bem pouco nos deixou e a quem este espectáculo também serve de homenagem.
Regozija-se Carlos Avilez por lhe ter sido dada a oportunidade de, pela segunda vez, encenar «Hamlet», um espectáculo que «não se faz sem amor, sem amizade, sem um profundo respeito por todos». É por isso que, para ele, não há nomes, só um: Hamlet!
E, ao verem José Condessa incarnar Hamlet com este nível absolutamente invulgar, uma interpretação colossal, a pedir meças a quantos actores ingleses – e não só! – esta personagem interpretaram, Carlos Avilez, João Vasco, os docentes da EPTC e toda a companhia sentir-se-ão realizados: prepararam o terreno, lançaram boa semente e bem suculentos frutos aí estão!