«Hamlet» visto por Avilez

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O palco está aberto. Cenário nu. Duas portas, uma de cada lado, no meio de paredes brancas. Observa-nos, no cadeirão, uma dama de pernas cruzadas, vestido branco, manto verde, luvas brancas, grinalda prateada, máscara nos olhos à moda do Carnaval de Veneza. Caem-lhe das orelhas dois penachos verdes também. Cabeleira ampla sob um toucado verde. Incide sobre ela o único foco de luz. Observa o vaivém dos arrumadores. Descruza as pernas agora, que já tarda o início do espectáculo. Percebemos que há uma rampa larga, a terminar quiçá atrás dum balcão com espelho. Aí se miram os espectadores. E a senhora deve estar a pensar: «Quando é que esta gente se acomoda? Se me balancear um pouco e pousar o queixo na mão, qual pensador, é capaz de ser melhor». Quem será a personagem para, assim sentada, nos receber?         

19 h 20 m. Vamos começar. «O uso da máscara é obrigatório durante todo o espectáculo». Apagam-se as luzes. A senhora foi-se embora. Lá no cimo, o saxofone de Elmano Coelho. Saberemos depois que aparecerá de vez em quando a sublinhar uma passagem…          

Assim é. O shakespearianodrama de Hamlet, milhares de vezes encenado em todo o mundo, assume, aqui, pelas mãos de Carlos Avilez e de toda a equipa do Teatro Experimental de Cascais uma roupagem diferente. Sim, é bem original o recorte do guarda-roupa (de Fernando Alvarez), a fazer jus ao que sempre nos habituou. As paredes brancas são, afinal, ecrãs por onde deslizam fantasmas, teias, ora roxas, ora vermelhas, consoante a cena que observam. João Vasco é a voz que vem de longe. Um achado!            

«Quebra-se-me o coração, mas tenho que calar a minha boca». «Se tratares cada pessoa segundo o seu mérito quem escapará ao chicote?»… «Vai para um convento e vai depressa!». «A loucura dos grandes não pode caminhar sem vigilância». Densidade de um texto, superiormente traduzido por Sophia de Mello Breyner Andresen.            

E vem a espalhafatosa alegria dos comediantes. E ensaia-se uma dança à moda antiga, como que para espantar demónios. No duelo de esgrima, sentimos – ainda! – a maestria de Mestre Eugénio Roque, bem continuada por seu discípulo Tiago da Cruz. Ele que tanto gostaria de ter assistido a esse doloroso final!…

É verdade, esquecemo-nos da senhora. Descobrimos, nos ‘textos de apoio’, que é Maria João Pinho; que a destinada ao convento é Bárbara Branco, de seus 22 aninhos; que o protagonista, José Condessa, anda pelos 24. Temos no rol, claro, os veteranos da companhia: Teresa Côrte-Real, Luíz Rizo, Sérgio Silva… Veterano é também Miguel Loureiro. Por entre eles, como Bárbara e José Condessa, os formados na Escola Profissional de Teatro de Cascais (EPTC): Renato Pino, Rodrigo Cachucho, Miguel Amorim… Mas, agora reparo que me estou a embrenhar pelos nomes e, neste caso, algo me diz que não deveria. Sim, há que notar a falta de Manuel Amorim, que há bem pouco nos deixou e a quem este espectáculo também serve de homenagem.          

Regozija-se Carlos Avilez por lhe ter sido dada a oportunidade de, pela segunda vez, encenar «Hamlet», um espectáculo que «não se faz sem amor, sem amizade, sem um profundo respeito por todos». É por isso que, para ele, não há nomes, só um: Hamlet!

E, ao verem José Condessa incarnar Hamlet com este nível absolutamente invulgar, uma interpretação colossal, a pedir meças a quantos actores ingleses – e não só! – esta personagem interpretaram, Carlos Avilez, João Vasco, os docentes da EPTC e toda a companhia sentir-se-ão realizados: prepararam o terreno, lançaram boa semente e bem suculentos frutos aí estão! 

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