Início Site Página 397

Otelo, o Óscar do 25 de abril

0
morreu Otelo Saraiva de Carvalho

Óscar, foi o nome de código que Otelo usou durante a operação militar que depôs o regime do chamado Estado Novo que, na verdade, caiu de podre e velho.

Otelo Saraiva de Carvalho foi o estratega dessa operação, executada com sucesso pelos operacionais coordenados por ele, entre os quais o capitão Salgueiro Maia que teve um papel decisivo no teatro de operações, tanto no Terreiro do Paço como no Largo do Carmo.

Otelo e os outros capitães fizeram um golpe de estado cavalheiresco, sem derramamento de sangue. Tomaram o poder, derrubaram o regime, não quiseram nada e entregaram tudo ao povo e à sociedade civil.

Na hora da morte de Otelo, viva o 25 de abril!!

A história divertida do Príncipe Sadack em Lisboa

1

O porteiro do restaurante foi saudado em arábe:

كيف حالك يا صبي (queriam dizer, mais ou menos: “como estás, ó pá!”). 

E o porteiro engasgou-se num “Hung!”. 

Nicha Cabral fazia parte da comitiva, percebeu a dificuldade, e assumiu-se como tradutor. Os príncipes queriam que os clientes desocupassem o primeiro andar no restaurante na Rua da Misericórdia, para ficarem à vontade.

ضع القمل على الطاولات في الطابق الأرضي (queriam dizer, mais, menos: “Ponham esses gajos no rés do chão)

E assim aconteceu. 

Depois sentaram-se todos, a falar “bouadi-lá ah-bá-lá”, para um lado e para o outro. E Nicha Cabral, célebre nas corridas de automóveis, traduzia as exigências bizarras do Príncipe-Mais-Mandão Iben Sadack de bigodes, magro e pele morena como um magrebino do deserto escaldante.

Príncipe Sadack garante petróleo em barda

Minutos depois, chega ao restaurante Roby Amorim, grande repórter, enviado por José Mensurado, um monstro do jornalismo que atravessou a ditadura e mais 20 anos da democracia de Abril.

O Principe-Mais-Mandão Iben Saddack diz que irá enviar vários navios de petróleo para as refinarias portuguesas – traduziu Nicha Cabral. Quando se negociava a importação difícil de petróleo do Irão. 

Pelo meio da entrevista, comeu-se do melhor e bebeu-se whisky a rodos.

O dono do Tavares Rico gaguejava: -Sua Majestade, acha que pode beber? 

Nicha Cabral traduziu e o Principe-Mais-Mandão encolorizou-se:

هذا الرجل الذي يرعى الثيران

(queria dizer mais ou menos: esse gajo que vá pastar bois)

Foram todos parar aos calabouços

A festa durou a noite toda. Às 9 da manhã o jornal O Século era vendido em todo o País com a manchete: “Negoceia-se em Teerão. Mas encontram-se árabes em Lisboa e o tema também é petróleo”, referindo-se às negociações em curso sobre o chamado “Acordo de Teerão” no âmbito da OPEC.

Uma hora depois os sete cavalheiros árabes estavam presos nos calabouços da Pide. A 500 metros do Tavares Rico. A brincadeira acabara mal.

As roupas e o carro foram alugados para aquela noite pela grupo composto por Jorge Correia de Campos (que fazia de príncipe Iben Saddack), “Nicha” Cabral (corredor de Fórmula 1), Manecas Mocelek (gerente do Stones e do Ad-Lib, discotecas do jet set lisboeta), Frederico Abecassis, Manuel Correia (com um impressionante maço de notas), Michel da Costa (o famoso cozinheiro e hoteleiro, o único que falava árabe) e Eduardo Oliveira Rocha. 

Tudo aquilo era apenas uma aposta em como não seriam reconhecidos. Ganharam e claro pagaram com os costados na prisão. Aquilo tinha sido um desaforo à ditadura. Faltavam ainda 4 anos para o 25 de Abril de 1974.

Guarda florestal com pistolão à cintura

O Príncipe-Mais-Mandão, Jorge Correia de Campos, confessou-me anos mais tarde:

– Ó Ze! Aquela malta do antigo regime não tinha sentido de humor. Aconteceu tudo muito rápido. O jornalista apareceu porque, naquele tempo, os jornais avençavam toda a gente. Até o porteiro do Tavares. E eu sabia lá.

Jorge Correia de Campos foi um dos homens mais fixes e divertidos que conheci. Faleceu há pouco, para tristeza de meia Lisboa boémia. Foi dono da Quinta da Penha Longa, de uma bela quinta em Viseu, de várias minas e não sei mais o quê?. 

Conheci-o num fogo na Serra de Sintra, em 1980. Ia eu com a equipa da RTP fazer umas imagens às 20 horas! Apareceu o Jorge de revólver Colt cano longo na cintura e um todo-o-terreno Portaro, feito por Hipólito Pires. Julguei-o uma nova espécie de guarda-florestal artilhado com 345 Magnum. 

Criar cabras para cortar árvores

Meteu-nos no seu Portaro, lá por uns caminhos e acabámos sem gasóleo às duas da manhã, muito para cima do rio da Mula. Numa zona ardida. Esperámos até às 5 da manhã e fomos rebocados para o o convento da Penha Longa, onde estão sepultados os antepassados do Jorge, na Igreja.

O caseiro Alcides criava a pedido do Jorge cabras francesas para as dar a certas pessoas. Caso contrário era difícil cortar uma simples árvore podre ou arranjar um caminho.

Almeida Santos e Veiga de Simão quiseram comprar os 400 hectares. Foram postos na rua, quase pelas orelhas.

Tinha-se descoberto que Veiga de Simão era um comunista infiltrado no governo de Marcelo Caetano.  E que teria passado certas informações. Marcelo era padrinho de Jorge Correia de Campos e de Marcelo Rebelo de Sousa.

Os arquivos de Marcelo Caetano

Jorge tinha acesso aos arquivos explosivos de Marcelo. Mas nunca os usou.

– Ó Ze! Eu era incapaz de fazer uma coisa dessas. Já me custou sair dos calabouços da PIDE com a malta.  O meu padrinho ligou para aqueles cabrões. E ordenou: “Soltem já os rapazes”. E eles nem pestanejaram. Nunca gostei de favores. Mas pensei ser melhor aproveitar e pôr-me ao fresco. Ainda levávamos um enxerto de porrada.

Os japoneses com bolsos cheios de dinheiro

Quando vendeu a Penha Longa não lhe era permitido sequer construir um novo curral para as cabras.  Quis dividir a propriedade em 200 unidades para construír casas enfiadas na serra, como na Suíça, dizia-me. Mas, claro! nunca conseguiu. Não havia dinheiro que chegasse para fazer certas pessoas mudarem de ideias.

Certo dia o grupo japonês Aoki chegou com os bolsos cheios. E as portas abriram-se.  Fizeram o curral? Não. Fizeram um Hotel que parece um bolo de noiva kisch e enxamearam quinta de casas. Três dessas muitas casas valem agora o que Jorge recebeu pela quinta de 400 hectares, um convento e uma igreja monumental.

– Não te chateies Jorge! Viveste como um príncipe. O teu filho disse-me que foste sem avisar, mas como um príncipe. Ainda bem. És o gajo mais rijo e porreiro que eu conheci. Um abraço, companheiro.

Quando Basílio Horta ofendia Mário Soares (vídeo)

0


Razão tem Guilherme Leite que conduz uma  luta justa contra a reeleição de Basílio que tem sido um desastre em Sintra. Hospitais vendidos a particulares. Hospitais prometidos que não passaram ainda do papel, etc.
Na campanha para as presidenciais de 1991, na RTP 1, Basílio Horta insinuava que Mário Soares era “padrinho” de pessoas que praticavam ações fora-da-lei que nunca foram provadas em tribunal.

Como foi possível o Partido Socialista vir, depois disto, a apoiar Basílio que, nesse debate, até defendeu que Portugal devia ter continuado a combater nas colónias? Que aquilo era Portugal. Dito 17 anos depois do 25 de Abril, já com o suficiente distanciamento histórico, para se ter lucidez.

Basílio Horta revelou-se nesse debate um político reles, acusando Mário Soares de “não ter ideias”, quando foi Soares o mentor da adesão de Portugal à União Europeia, por exemplo. 
Mário Soares, como Cunhal, Sá Carneiro ou Freitas do Amaral são figuras incontornáveis da nossa História moderna, que devolveram a Democracia aos portugueses, com base no golpe militar de 1974.

O Partido Socialista devia rever rapidamente o apoio a Basílio e pô-lo na rua. Força Guilherme Leite! Sintra merece um homem justo e livre. Basílio Horta envergonha profundamente o PS.

Berardo não quer pagar 5 milhões

0

Afinal, Joe Berardo não pretende acatar a decisão do juiz de instrução criminal, que lhe mandou apresentar uma caução de 5 milhões para aguardar o julgamento em liberdade. Sabe-se agora que o advogado de Berardo apresentou um pedido de impugnação dessa medida, argumentando que não existe qualquer perigo de fuga, uma vez que o empresário não tem residência em nenhum outro país no Mundo e que apenas tem a nacionalidade portuguesa.

Quando a medida foi decretada pelo juiz Carlos Alexandre, o mesmíssimo advogado disse que nos 20 dias de prazo, iria ser feito “um esforço para cumprir”, ressalvando que tal só não aconteceria se houvesse alguma “impossibilidade”, facto que teria de ser comunicado “junto das fontes competentes”. Na altura, o advogado explicou até que a caução de cinco milhões de euros podia ser cumprida, por exemplo, através de entrega de um bem ou de um imóvel como garantia desse valor. Mas já então o advogado estaria apenas a ganhar tempo para preparar esta ação que, em primeira instância, se limita a arrastar o mais possível processo de prestação da caução.

A medida cautelar foi decretada a 2 de julho. O prazo terminaria a 22. No dia 20, foi noticiado que o empresário Berardo já teria apresentado “uma proposta de pagamento da caução de cinco milhões de euros”. Pelos vistos, a proposta é não pagar, de todo.

No Diário de Notícias
No Observador…

Uma notícia baseada num despacho da agência Lusa, replicado quase sempre na íntegra pelos outros media, mas que o tempo se encarregou de desmentir.

A impugnação da medida de coação decretada pelo juiz parece ser um expediente para evitar que Carlos Alexandre mande Joe Berardo para uma cela, apesar deste não ter cumprido a decisão judicial. Vamos ver quem ri por último.

Alcoólicos públicos

0

O público não sabe se o eurodeputado Paulo Rangel é alcoólico ou se a cena retratada no vídeo que anda por aí foi caso único ou episódico. Seria importante saber. Conversas informais com quem parece conhecer um pouco melhor o eurodeputado, dizem que não foi a primeira vez nem terá sido a última. Dizem que Paulo Rangel é um solitário. Não constituiu família. E que afoga mágoas e vergonhas nos copos, volta e meia.

Os amigos, correligionários e adversários políticos compreensivos e solidários, não parecem preocupados com a possibilidade de Paulo Rangel precisar de algum tipo de ajuda. De um ombro amigo e confidente, de alguma terapia emocional, de um remédio para os fantasmas que habitam os terrores que o afligem. Pelo que se tem lido nas redes sociais que dizem tanto desprezar, parecem mais preocupados em condenar o autor anónimo do vídeo e os inúmeros “mensageiros” que o têm divulgado pelas redes sociais.

É o lado mais fácil desta questão, a invocação de princípios cavalheirescos que se quebram na primeira quezília política. Quem não viu já a forma como eles se insultam “cordialmente” no hemiciclo?

O consumo desregrado de álcool leva à habituação. Afinal de contas, o vinho é uma droga legalizada. Quando um alcoólico interrompe o consumo, manifestam-se sintomas de abstinência que podem levar a pessoa a continuar a consumir para prevenir ou aliviar esses sintomas. Em alguns casos, os sintomas de carência manifestam-se durante meses após a interrupção. Em termos médicos, o alcoolismo é considerado uma doença tanto física como psicológica. Assim, um alcoólico precisa de apoio quando quer libertar-se dessa teia.

A Organização Mundial de Saúde estima que existam mais de 200 milhões de pessoas com alcoolismo em todo mundo, o que corresponde a 4,1% da população com mais de 15 anos de idade. Muitos portugueses estão nesse rol. O alcoolismo em Portugal é um flagelo que assola muitas famílias. A coberto das bebedeiras, matam-se esposas, filhos e amantes. É recorrente vermos essa situação retratada nos títulos e prosas da imprensa nacional. Alguns exemplos:

O vídeo de Paulo Rangel a caminhar aos esses nas ruas de Bruxelas é por isso um mau exemplo, a todos os níveis. Quando os pares de Paulo Rangel se mostram tão compreensivos e tão desculpabilizantes e tão alarmados com a denúncia e tão irritados com os denunciantes, estão a prestar um mau serviço à sociedade e ao amigo.

Um mau exemplo que adquire dimensão nas redes sociais, onde não faltam apoios a Rangel. Muitos compreendem a necessidade de se apanhar uma bebedeira e, pelos vistos, aceitam que um eleito para um cargo de representação política o faça em público.

Carlos Alexandre e Ivo Rosa

1

No mesmo Tribunal Central de Instrução Criminal trabalham dois únicos juízes, Carlos Alexandre e Ivo Rosa. Mas só de um deles se fala. Só o juiz Carlos Alexandre tem palco, só as suas diligências processuais têm eco na imprensa. Parece que o outro passa o tempo a dormir.

Fala-se muito de fugas de informação, de quebra de segredo de justiça, mas naquele tribunal isso só acontece, aparentemente, com os processos em que o juiz Carlos Alexandre está envolvido. Será que ninguém mais repara nisso?

Nos últimos tempos foram notícia as detenções para interrogatório de alguns dos grandes devedores do Banco Espírito Santo. É natural que as pessoas gostem de ver a justiça funcionar, de ver os ricos e poderosos entalados pelas malfeitorias de que estão indiciados. Mas não se aceita que um arguido, que é depois mandado para casa em liberdade, tenha de passar várias noites num calabouço de esquadra de polícia à espera da disponibilidade do juiz de instrução. Este tipo de atuação não é justiça. Também não sei como lhe chamar.

Às vezes parece que as decisões e a atuação de Carlos Alexandre são uma questão de fé. Da fé dele. Ele acredita nas decisões que toma e no modo como as executa. Pena que, depois, isso não se reflita na decisão final dos tribunais que julgam os casos.

Para diluir o “efeito Carlos Alexandre” no Tribunal Central de Instrução Criminal, o governo decidiu recentemente a incorporação de mais sete juízes. A decisão terá ainda de ser discutida no Parlamento, coisa que não se faz de um dia para o outro, por mais urgente que pareça ser.  

O medo de ver copos vazios

1

Ao longo dos anos vamos sendo surpreendidos com frases, textos, discursos, cartazes, de tal modo ridículos que nos levam a temer pela sanidade mental dos seus autores. Penso que sei a resposta a estas perguntas mas, antes de a dar, deixo alguns exemplos do que acima escrevi.

Não vou ser exaustivo, porque quero escrever uma crónica e não um livro, embora tivesse “material” para um volume.

Exemplos:

Num momento de euforia, pela aprovação da Lei de adoção por casais do mesmo sexo, o Bloco de Esquerda espalhou cartazes com uma fotografia de Cristo e a frase “Jesus também tinha 2 pais”. Original, mas… pouco consensual. E um tanto confuso. 

A Ministra da Cultura de Portugal, Graça Fonseca de seu nome, garantiu, numa viagem ao México, que “uma coisa óptima de estar em Guadalajara é não ver, há quatro dias, jornais portugueses”.

Afirmação que, para além de idiota, ainda que acredite verdadeira, plagiava outra, de uma criatura igualmente estranha, Cavaco Silva.

Este, na qualidade de Primeiro-Ministro, na inauguração da Escola Superior de Comunicação Social, talvez considerando que, assim, incentivava os alunos, garantiu que dedicava apenas “cinco minutos de manhã e cinco minutos à tarde a ler os jornais”. Mais tarde, já como Presidente da República, voltou a garantir que não acompanhava “o dia-a-dia da comunicação social” e que “quase não via televisão, nem lia jornais, há muito tempo”. Nem precisava de ter explicado porque o índice de ignorância provava isso à saciedade.

Passos Coelho, enquanto Primeiro-Ministro, na tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e a Inovação, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, defendeu que “estar desempregado não podia ser um sinal negativo” e que “despedir-se ou ser despedido” tem de representar “também, uma oportunidade para mudar de vida”.

Os portugueses fizeram-lhe a vontade e deve estar felicíssimo por nem todos os estudantes terem seguido o seu conselho, e emigrado, já que, assim, conseguiu uma oportunidade para mudar de vida. É, hoje, professor dando razão a Confúncio: “Quem sabe fazer, faz. Quem não sabe… ensina!” E nem sequer se queixará da eventual redução de ordenado porque se lembrará do discurso em que afirmou, durante a discussão do Orçamento do Estado para 2012, que Portugal só conseguiria sair da crise “empobrecendo”.

Deve estar nas suas sete quintas! Assim se mantenha por muitos e longos anos.

João Soares, foi forçado a sair de Ministro da Cultura (aquele edifício devia ser alvo de um exorcismo) depois de ter prometido, numa publicação no Facebook, esbofetear dois colunistas do “Público”. Augusto M. Seabra tinha escrito um texto onde criticava a nomeação de João Soares para aquele cargo, este não gostou e publicou um post na rede social com a frase: “Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para umas salutares bofetadas.”

Por acaso também sou contra as agressões a cronistas e concordei com a demissão, embora o considerasse um bom Ministro.

Num debate parlamentar, onde estava em causa a atribuição de prémios na EDP, o então Primeiro Ministro, José Sócrates, ficou furibundo com Francisco Louçã quando este acentuou que “de intervenção em intervenção” Sócrates ia “ficando um pouco mais manso”. O antigo primeiro-ministro respondeu com: “Manso é a tua tia, pá”.

Foi desagradável ter mudado o género à Senhora mas ele lá saberá os motivos.

Todos lembrarão a “luta” travada no Parlamento entre o então deputado do PS Eduardo Cabrita e o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio. O governante tinha afirmado que, entre o Governo e o PS, «em circunstância alguma se fez depender a redução do IRC da redução do IVA e do IRS».

No entanto, o presidente da comissão parlamentar acusou Núncio de «faltar à verdade» e, quando o secretário de Estado se preparava para contestar, tentando ligar o microfone, o deputado socialista impediu-o, fisicamente. Não chegaram a vias de facto, o que lamento, mas… andou lá perto. Foi uma sessão animada.

Francisco Rodrigues dos Santos, no encerramento do congresso em que foi eleito líder do CDS-PP, a 26 de Janeiro de 2020 garantiu, para quem o quis ouvir, que “Seremos um partido que se tornará sexy, mas não por defendermos ideias que não são as nossas, mas por rejeitarmos negociar os nossos valores, mas por utilizarmos estratégias de comunicação acutilantes, disruptivas, atuais, que suscitem o interesse daqueles que nos seguem.”

O rapaz tem uma relação pouco sexy com a Gramática Portuguesa mas, com muito boa vontade, talvez consigamos adivinhar o que ele quereria transmitir.

Finalmente, recordo o célebre desabafo do Almirante Pinheiro de Azevedo, a 12 de Novembro de 1975, no Terreiro do Paço. Milhares de trabalhadores estavam contra o resultado de negociações entre empresários e sindicatos.

Pinheiro de Azevedo tentava explicar não ser  “possível um acordo entre as duas partes, empresários e vocês!” e até acrescentava que “estou ao vosso lado e até dia 27 sairá a portaria.”

Não adiantou. Os manifestantes continuaram a insultá-lo e a considerá-lo fascista. Pinheiro de Azevedo, a partir da varanda, respondeu-lhes: “vão bardamerda mais o fascista”.

Como escrevi, no início da crónica, podia escrever um livro só com exemplos destes. Daí ter tentado perceber o que levará tanta gente, que supomos inteligente, a proferir estes disparates e conclui que a única explicação era a de sofrerem de “cenosilicafobia”. Palavrão que significa a “fobia caracterizada pelo medo paralisante e irracional de ver copos vazios.”

Isto só pode ser gente que passa o dia a encher copos para combater o “medo paralisante e irracional”. E deve dar resultado. É preciso ficar com coragem para fazer estas figuras.

O toque

0

O toque entre os humanos, de que a pandemia nos arredou e ao qual, por isso, estamos cada vez a dar maior relevância. Compreende-se aquele grito, por vezes histérico: «Não me toques!». De violência doméstica. E «Ai, não me toques, que me desafinas», como se mui sensível piano fora e a gente pianos desses não quer. Tudo na conta, peso e medida. Uma carícia, sim! Que é aquele toque mágico, despertador de emoções, ternuras, enlevos…

Que se me perdoe o salto. É que todos os animais cá de casa – o labrador, os dois gatos e até o Baltazar, que é o cágado – todos eles adoram carícias! Pode não se lhes dar de comer, mas das carícias… não prescindem!

A magia do toque. O leve tocar de lábios. É como as imagens num jornal: vale mais que mil palavras. Obrigou-nos a pandemia às palavras. Estas, porém, sem aquele prazer do tacto acabam por nos deixar de falta. Decerto também será por isso que das sequelas pandémicas uma se não tem ouvido falar. Essa. Fica-se sem gosto, pode ficar-se sem olfacto; mas o tacto, senhores, isso é que nos maltratava mesmo! O pior é que não perdemos o tacto e proíbem-nos de o usar. Martírio como o de Tântalo; tinha água e quando a ia beber, a estapor esgueirava-se num ápice!… Assim, hoje. Não nos podemos tocar, só à cotovelada ou de punho cerrado. Saudade do aperto de mão e do seu puro significado: estou limpo, nada tenho na mão e quero apertar forte a tua, a selar a amizade que nos une. Como a ternura dos lábios…

Outros são os toques, hoje. As sirenes das ambulâncias e dos carros da polícia. As buzinadelas frenéticas, por dá cá aquela palha, os nervos à flor da pele, não há tempo para esperar. Os toques dos telemóveis. A todo o momento e em todos os lugares. «Desculpe, esqueci-me de o pôr no silêncio!» – quando há atenção de se pedir desculpa. E os botões precisam de ter sinal sonoro, para suprir outros silêncios, que a gente já não consente de ter – e deveria consentir.

Desses ‘toques’ sonoros há dois que particularmente me encantam. O da fonte que tenho na secretária com a água a cair sem salpicos, como nesse achego de lábios. Melopeia sem monotonia. O outro, o do relógio de sala, às meias e às horas. Toque brônzeo. Toque telúrico – que, apesar da forçada ausência de toques humanos, é grande no tempo a nossa dimensão!…

(o autor também publicou esta crónica em Renascimento (Mangualde), nº 803 e no blog Notas & Comentários)

Eurodeputado bêbado nas ruas de Bruxelas

1

Em 2017 “caiu o Carmo e a Trindade” quando o holandês Jeroen Dijsselbloem, numa entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, disse (referindo-se a Portugal) que “não se pode gastar todo o dinheiro em copos e mulheres e depois pedir ajuda”. O Governo português, na altura, empertigou-se todo e coadjuvado por toda a restante classe política, da extrema-direita à extrema-esquerda, pediu o afastamento do ministro holandês da presidência do Eurogrupo.

Hoje, depois de termos visto o eurodeputado Paulo Rangel a caminhar aos esses pelas ruas de Bruxelas, continuamos a achar que uma bezana não passa disso mesmo e que não há Dijsselbloem que nos faça mudar de ideias, mesmo se porventura diz verdades chatas.

Rangel não pede desculpa, argumenta que o vídeo foi filmado “depois de um excesso num jantar de amigos”, o que nos parece ser uma evidência incontestável. Cada qual embebeda-se com quem quer, e faz as figuras inerentes quando nenhum dos amigos se dispõe a levá-lo a casa. Sempre se tinha evitado este tipo de cenas em público.

Paulo Rangel desconhece quem o gravou. Pode até ter sido um desses amigos, sabe-se lá. Na política e no amor tudo é possível. No Twitter, Rangel lembra Sérgio Godinho, cita-o ao dizer  “todos temos glórias, terrores e aventuras”. Outra verdade inabalável. Quem nunca apanhou uma bezana de caixão à cova que atire a primeira pedra.

Mas da fama que Dijsselbloem nos colou à pele, ninguém nos livra. E o vídeo de Rangel há de fazer prova em futuras negociações com os holandeses.

Partido PAN, o poder das eminências pardas

0

As deserções do PAN de figuras mais mediáticas, nunca foram explicadas cabalmente. O partido político não as comenta e os que saem falam em “motivos pessoais” como, por exemplo, foi o caso do líder parlamentar André Silva.

Agora, Francisco Guerreiro veio falar de outro tipo de motivação e garantiu que não era o único. Disse ele, numa entrevista ao Diário de Notícias, que “há uma falta de democraticidade de um partido que continua a não ouvir as bases e não tem nenhuma estratégia estrutural e de futuro.”

O PAN tem a vantagem de ser um partido pioneiro na defesa dos direitos dos animais e é nesse nicho que residiu o seu sucesso eleitoral ao eleger, primeiro, um deputado para, mais tarde, conseguir aumentar a representação parlamentar para quatro. Elegeu igualmente um deputado europeu. E elegeu dezenas de autarcas para assembleias municipais, um pouco por todo o país. Mas, o partido que luta pela abolição do aprisionamento dos animais está a ser acusado, pelos vistos, de querer manter rédea curta nos que foram eleitos nas suas listas.

“Não fui o único a sair. A Cristina Rodrigues, que agora é deputada não inscrita, também saiu, vários membros da direção saíram. Ainda recentemente um deputado municipal numa junta de freguesia de Lisboa também saiu. Portanto são muitas pessoas que estão a sair do PAN…”, diz Francisco Guerreiro na entrevista que estamos a citar.

Tem sido público e notório que no PAN existem centros de decisão à margem da estrutura legal do partido. Foi notícia nunca desmentida que o chamado “grupo de fundadores” retirou confiança política a André Silva e que terá sido essa a causa de o líder parlamentar ter saído.

Publicado pelo Expresso

Do mesmo modo, foi notícia que o mesmo “grupo de fundadores” apoiou a candidatura de Inês Sousa Real à Comissão Política Nacional. Numa eleição em que apenas houve uma lista concorrente, o apoio do “grupo de fundadores” não faz sentido a não ser que seja visto como uma bênção.

Publicado no site da RTP

Estas declarações de hoje do eurodeputado Francisco Guerreiro deverão estar relacionadas com esta realidade num partido onde, aparentemente, são as eminências pardas que decidem. Como se fosse um partido com donos.