O medo de ver copos vazios

O que levará alguns dos nossos governantes, e outros políticos, a proferir barbaridades em discursos que pretendiam eloquentes? O que fará com que cidadãos que, à partida, era suposto terem um quociente de inteligência elevado, caiam no ridículo pela tentativa de serem originais?

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Ao longo dos anos vamos sendo surpreendidos com frases, textos, discursos, cartazes, de tal modo ridículos que nos levam a temer pela sanidade mental dos seus autores. Penso que sei a resposta a estas perguntas mas, antes de a dar, deixo alguns exemplos do que acima escrevi.

Não vou ser exaustivo, porque quero escrever uma crónica e não um livro, embora tivesse “material” para um volume.

Exemplos:

Num momento de euforia, pela aprovação da Lei de adoção por casais do mesmo sexo, o Bloco de Esquerda espalhou cartazes com uma fotografia de Cristo e a frase “Jesus também tinha 2 pais”. Original, mas… pouco consensual. E um tanto confuso. 

A Ministra da Cultura de Portugal, Graça Fonseca de seu nome, garantiu, numa viagem ao México, que “uma coisa óptima de estar em Guadalajara é não ver, há quatro dias, jornais portugueses”.

Afirmação que, para além de idiota, ainda que acredite verdadeira, plagiava outra, de uma criatura igualmente estranha, Cavaco Silva.

Este, na qualidade de Primeiro-Ministro, na inauguração da Escola Superior de Comunicação Social, talvez considerando que, assim, incentivava os alunos, garantiu que dedicava apenas “cinco minutos de manhã e cinco minutos à tarde a ler os jornais”. Mais tarde, já como Presidente da República, voltou a garantir que não acompanhava “o dia-a-dia da comunicação social” e que “quase não via televisão, nem lia jornais, há muito tempo”. Nem precisava de ter explicado porque o índice de ignorância provava isso à saciedade.

Passos Coelho, enquanto Primeiro-Ministro, na tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e a Inovação, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, defendeu que “estar desempregado não podia ser um sinal negativo” e que “despedir-se ou ser despedido” tem de representar “também, uma oportunidade para mudar de vida”.

Os portugueses fizeram-lhe a vontade e deve estar felicíssimo por nem todos os estudantes terem seguido o seu conselho, e emigrado, já que, assim, conseguiu uma oportunidade para mudar de vida. É, hoje, professor dando razão a Confúncio: “Quem sabe fazer, faz. Quem não sabe… ensina!” E nem sequer se queixará da eventual redução de ordenado porque se lembrará do discurso em que afirmou, durante a discussão do Orçamento do Estado para 2012, que Portugal só conseguiria sair da crise “empobrecendo”.

Deve estar nas suas sete quintas! Assim se mantenha por muitos e longos anos.

João Soares, foi forçado a sair de Ministro da Cultura (aquele edifício devia ser alvo de um exorcismo) depois de ter prometido, numa publicação no Facebook, esbofetear dois colunistas do “Público”. Augusto M. Seabra tinha escrito um texto onde criticava a nomeação de João Soares para aquele cargo, este não gostou e publicou um post na rede social com a frase: “Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para umas salutares bofetadas.

Por acaso também sou contra as agressões a cronistas e concordei com a demissão, embora o considerasse um bom Ministro.

Num debate parlamentar, onde estava em causa a atribuição de prémios na EDP, o então Primeiro Ministro, José Sócrates, ficou furibundo com Francisco Louçã quando este acentuou que “de intervenção em intervenção” Sócrates ia “ficando um pouco mais manso”. O antigo primeiro-ministro respondeu com: “Manso é a tua tia, pá”.

Foi desagradável ter mudado o género à Senhora mas ele lá saberá os motivos.

Todos lembrarão a “luta” travada no Parlamento entre o então deputado do PS Eduardo Cabrita e o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio. O governante tinha afirmado que, entre o Governo e o PS, «em circunstância alguma se fez depender a redução do IRC da redução do IVA e do IRS».

No entanto, o presidente da comissão parlamentar acusou Núncio de «faltar à verdade» e, quando o secretário de Estado se preparava para contestar, tentando ligar o microfone, o deputado socialista impediu-o, fisicamente. Não chegaram a vias de facto, o que lamento, mas… andou lá perto. Foi uma sessão animada.

Francisco Rodrigues dos Santos, no encerramento do congresso em que foi eleito líder do CDS-PP, a 26 de Janeiro de 2020 garantiu, para quem o quis ouvir, que Seremos um partido que se tornará sexy, mas não por defendermos ideias que não são as nossas, mas por rejeitarmos negociar os nossos valores, mas por utilizarmos estratégias de comunicação acutilantes, disruptivas, atuais, que suscitem o interesse daqueles que nos seguem.”

O rapaz tem uma relação pouco sexy com a Gramática Portuguesa mas, com muito boa vontade, talvez consigamos adivinhar o que ele quereria transmitir.

Finalmente, recordo o célebre desabafo do Almirante Pinheiro de Azevedo, a 12 de Novembro de 1975, no Terreiro do Paço. Milhares de trabalhadores estavam contra o resultado de negociações entre empresários e sindicatos.

Pinheiro de Azevedo tentava explicar não ser  “possível um acordo entre as duas partes, empresários e vocês!” e até acrescentava que “estou ao vosso lado e até dia 27 sairá a portaria.”

Não adiantou. Os manifestantes continuaram a insultá-lo e a considerá-lo fascista. Pinheiro de Azevedo, a partir da varanda, respondeu-lhes: “vão bardamerda mais o fascista”.

Como escrevi, no início da crónica, podia escrever um livro só com exemplos destes. Daí ter tentado perceber o que levará tanta gente, que supomos inteligente, a proferir estes disparates e conclui que a única explicação era a de sofrerem de “cenosilicafobia”. Palavrão que significa a “fobia caracterizada pelo medo paralisante e irracional de ver copos vazios.”

Isto só pode ser gente que passa o dia a encher copos para combater o “medo paralisante e irracional”. E deve dar resultado. É preciso ficar com coragem para fazer estas figuras.

1 comment

  1. Esta criado o grupo dos “alcoólicos públicos”, para contrabalançar com, o veterano grupo dos, “alcoólicos anónimos”

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