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Migrações, um problema que não se resolve com palavras

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As imagens dos dez mil migrantes – na maioria haitianos – abrigados debaixo de uma ponte, crianças, mulheres, homens, jovens sem mais nada que a roupa que tinham vestida, à espera de uma autorização para “entrarem nos Estados Unidos” são chocantes.

O que é que faz uma pessoa decidir deixar o seu país, o resto da sua família, pegar na mulher e nos filhos e passar as maiores privações até chegar a uma “terra prometida” na esperança de ali encontrar o que não tem na sua própria terra?

Na voragem das notícias, não há dia em que não se veja mais uma nova migração. As câmaras de televisão tentam dramatizar o mais possível a mensagem que pretendem passar, mostrando cenas de crianças, de bebés ao colo, de mulheres desamparadas e jovens de olhar vazio, manipulando telemóveis à procura dos familiares que já conseguiram “dar o salto”. Tal como nós, em tempos sem televisão à vista, já demos o salto também em busca de melhores dias noutras terras. Mas não desta maneira a que nos habituaram a ver.

Ninguém se esqueceu ainda dos jovens marroquinos que se lançaram ao mar para chegarem a uma porção da Espanha no Marrocos, Ceuta, do outro lado das redes. Foram oito mil a tentarem a sorte que lhes foi madrasta por terem sido devolvidos ao país de origem.

As migrações dos sírios em fuga da guerra no seu país, através de bem organizadas redes que os faziam atravessar o mediterrâneo em frágeis botes de borracha, dos afegãos em fuga dos talibãs, a concentrarem-se nos campos de refugiados na Turquia, o trampolim para a etapa a caminho do Eldorado, a Europa.

Quando nos dizem que existem atualmente mais de 258 milhões de migrantes temos de ficar atentos. Representam 3,4 % da população mundial. Nesta altura, em cada 30 pessoas, uma é migrante.

Há nesta altura 3,1 milhões de pessoas a requerem asilo fora dos seus países de origem. Aqui na União Europeia, em 2019, eram contabilizadas 21,8 milhões de pessoas com nacionalidade de um país terceiro.

Tal invasão já não tem nada a ver com a necessidade dos países importarem mão-de-obra barata na medida em que, quem lhes bate à porta, está fora de qualquer contexto. Desembarcam em praias, atravessam linhas de fronteira sem documentos, entram e esperam as “ajudas humanitárias” que sabem estarem disponíveis ou lhes foram prometidas à partida dos seus lares pelos agentes controladores desses fluxos migratórios.

Guterres bem pode fazer dramáticos discursos sobre o assunto, e traçar linhas para resolver o problema, governantes bem podem fazer discursos de solidariedade e condescência e deixarem entrar umas dezenas para ficarem bem na fotografia do politicamente correcto.

Não se pode confundir estes fenómenos das migrações com a contratação de trabalhadores a prazo que acabam por se diluir na rede dos ilegais na Europa.

Mas o fenómeno não diminui, há sempre uma nova vaga. E há sempre uma nova vinda de gente de países longínquos à conta das redes e à sombra de beneméritas organizações não governamentais. E há sempre um telemóvel para se ligar a quem já veio antes.

Só se procura fora de casa o que não se encontra em nossa casa e as razões para fugir em busca de melhores dias noutras paragens são múltiplas: guerra, perseguição étnica, religiosa, racial, política, cultural, busca de novas oportunidades, trabalho.

Aqueles migrantes debaixo da ponte, muitos deles haitianos fugidos do Brasil onde se encontravam antes, vêm agora juntar-se aos mexicanos que saltam o muro da fronteira entre o México e os Estados Unidos da América.

Os estados “invadidos” por essa gente sem papéis começam a não ter soluções para resolver os problemas básicos daquelas pessoas. Ninguém consegue prever o que tudo isto vai originar a longo prazo. Não é com campos de refugiados que se resolve o problema, nem com palavras inspiradas de boas vontades.

Dois novos livros apresentados nas ruínas de Freiria

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Foram apresentados nesta tarde de domingo, 19, no agradável cenário da villa romana de Freiria, dois livros: o que reúne os trabalhos  premiados nos XIII Jogos Florais da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana e o mais recente romance de José Luís Sabido, intitulado Um Anjo e Quatro Virgens.

Presidiu à cerimónia a Professora Fernanda Gonçalves, presidente da Junta, que se fez acompanhar pelo seu executivo. Pelo júri do concurso, esteve José d’Encarnação, que, depois de aludir à importância cultural da iniciativa, nomeadamente por ter partido de uma Junta de Freguesia, disse alguns dos trabalhos premiados nas categorias de quadra, soneto, poesia e ensaio, terminando pela apresentação, em conjunto com a autora, Fátima Camilo, do 1º prémio da modalidade ‘Ensaio’ intitulado «O tremoço de Freiria».

José Luís Sabido, canteiro, de 83 anos, tem ocupado os seus dias com a pintura e a escrita. Depois de haver publicado dois livros sobre a sua terra natal – «Tires, Terra de Canteiros» (2003) e «Tires – Quando eu Era Pequenino» (2005) – escreveu o romance Os Cavalos do Senhor Morgado, que versa a problemática dos trabalhadores rurais e outros antes do 25 de Abril, e agora Um Anjo e Quatro Virgens, que retrata a baixa lisboeta dos anos 50 e 60, o ambiente em torno das famílias forçadas a emigrar para que os filhos não fossem para a guerra, a vivência nos Estados Unidos na 2ª metade do século XX, com a guerra no Vietname e os intensos conflitos religiosos. Tudo escrito numa linguagem simples, um enredo que prende do princípio ao fim.

José Luís Sabido a autografar a sua obra

A grandeza de Jorge Sampaio

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                           – A evocação necessária

A sarar das feridas da covid-19, e fragilizados por outras “pandemias” crónicas, milhões de portugueses desesperam por um futuro melhor: uma “dor de alma” que exige um debate aberto e sereno sobre um modelo de desenvolvimento que, desperdiçando sucessivas ajudas externas, nos fez tombar na estagnação económica e social.    

Num momento em que se traça um PRR sem precedentes, quiçá a derradeira oportunidade para se inverterem trajetórias desastrosas, ainda duas outras pertinentes razões obrigariam a promover uma profunda reflexão. Porque, a curto prazo, não se vislumbram alternativas políticas credíveis na sociedade portuguesa e, sobretudo, porque a “meteorologia internacional” anuncia fortes tempestades:

– desde logo, com o “parzinho” sino-americano a preparar umas “bodas recheadas de efeitos especiais” e a comprometer a segurança e o bem-estar da Humanidade;

– mas, também, as derrapagens totalitárias e nacionalistas que estão a lançar o caos ideológico e político, até no seio da própria Europa;

– a que se juntam as alterações climáticas e as vagas incontroladas de imigrantes;

– e a que acresce a subtil, mas não menos inquietante ascensão de elites financeiras que, sedentas de lucro e poderio, condicionam governos que já não representam os seus povos, arrasam economias outrora sustentáveis e determinam opções à escala global.

Perante tão inquietantes sinais, com o saber, a razão e a ética a serem diariamente desprezadas por uma classe política que não cessa de cercear direitos e liberdades, eis-nos conduzidos a Jorge Sampaio, alguém que soube ler a História e ousou enfrentar os ventos dominantes.

A avaliação de qualquer personagem histórica também se faz por comparação. Alguém admite que, com Jorge Sampaio na Presidência, Portugal inteiro não estivesse hoje envolvido num aceso debate, quando se traça um PRR à medida de corporações de interesses de todos os matizes, muito mais preocupadas com a sua própria sobrevivência do que com o nosso futuro coletivo? Aceitaria aquele estadista, sem discussão pública, um PRR que perspetiva investimentos de 15% no setor produtivo, afinal o motor de 85% da riqueza nacional? Com Jorge Sampaio na Presidência, e em plena campanha eleitoral autárquica, alguém se atreveria a acenar com verbas fabulosas a Administrações à beira do colapso e que diariamente batem indecorosos recordes de indiferença e despesismo, desde o Governo à Presidência?

Admitindo que estes argumentos possam ser considerados especulação pessoal, passo a factos. Comparem-se os dez anos da Presidência de Jorge Sampaio, com o que de importante ocorreu, em Portugal, nos últimos dez dias: Alguém, alguma vez, ouviu aquele estadista fazer reparos ao “prazo de validade” dum qualquer PM, sobretudo na véspera dum congresso partidário decisivo para o futuro próximo do nosso país? Alguma vez se atreveu a desenvolver boletins clínicos sobre o estado de saúde dum qualquer cidadão? Porventura, terá alguma vez saído a público, a demarcar-se de prémios salariais decididos por Governos sob a sua responsabilidade?

Dez dias são muito tempo e outras oportunas questões ainda poderemos colocar: Imagina-se que Jorge Sampaio não ficasse “varado”, perante um Congresso partidário em que a unicidade só foi quebrada pela exposição de alguns “monos” vazios de ideias, anunciados como putativos sucessores do PM? Sob a sua Presidência, seria possível que um PM concedesse uma entrevista televisiva a um dos principais “compadres dos donos-disto-tudo”, afirmando que, “só por ironia”, também fora acrescentada à lista de sucessores uma nova militante que, enquanto ministra, se limitou a “dar falsa sensação de segurança”? Um PM que, depois de reiterar total confiança em todos os seus “generais”, e sobre a elaboração do PRR, nos fornece, e passo a citar, a seguinte explicação: “Estamos a trabalhar muito seriamente para estudar a possibilidade deste ano se poder fazer…”

Ultrapassada a pandemia, recomenda o bom senso que os portugueses leiam as realidades e implementem “medidas sanitárias” tendentes a limitar os estragos de outras “pragas”, ainda mais devastadoras.  E perante as terríveis convulsões que se adivinham, seria dever da “engrenagem da governação” que se desenredasse de intrigas palacianas, despidas de sentido de Estado, e pusesse à discussão pública as formas de alcançar os grandes desígnios nacionais.

Uma utopia num país em que a vida só se anuncia fácil para aqueles que, a coberto de paraísos fiscais, já hoje reservam lugar nos mesmos condomínios fechados em que os poderosos do mundo procuram refúgio, conforto e segurança.

(notas da redação: Cândido Ferreira foi diretor de campanha na primeira eleição presidencial de Jorge Sampaio. Por motivos alheios à vontade do autor, esta crónica publica-se com vários dias de atraso, pelo que pedimos desculpa ao autor e aos leitores).

Lisboa, estacionamentos da EMEL arrasam hortas comunitárias

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Bairro das Caixas, em Alvalade, Lisboa. Aqui existia um conjunto de pequenas hortas comunitárias conhecido por “logradouros de Caldeira Cabral”. A população do bairro parece acarinhar o local, mas a autarquia está a destruí-lo. Segundo denúncia que nos enviaram, os logradouros estão a ser demolidos para dar lugar a estacionamento explorado pela EMEL.

Numa missiva endereçada à vereadora Catarina Vaz Pinto, a que tivemos acesso, uma residente do bairro alerta para “o crime ambiental” em curso, com destruição das hortas e árvores de fruto que eram pertença dos residentes. “Os logradouros de Caldeira Cabral, pai da arquitectura paisagista em Portugal, eram na sua génese um modelo único de sustentabilidade ambiental onde cada morador dispunha de uma horta lavrada em escritura, usufruindo ainda duma zona verde comum para lazer da vizinhança”, lê-se no alerta.

O que está a acontecer no bairro de Alvalade é considerado “absurdo”, até porque “construir um parque de estacionamento numa zona verde protegida pelo PDM de Lisboa” é um atropelo à Lei, na ótica dos residentes.

Nesta luta desigual contra a Junta de Freguesia de Alvalade e a CML, os cidadãos recorrem às redes sociais. No Facebook, na página Alvalade é Verde, estão os pormenores deste conflito que, aparentemente, não faz sentido.

Os logradouros que os residentes queriam preservar estão em ruas e páteos interiores, eram zonas de usufruto dos residentes onde as crianças podiam brincar em segurança. Transformar estes espaços em estacionamento automóvel, numa cidade que se reclama favorável à diminuição do tráfego rodoviário, é visto como um contrasenso.

Por último, os residentes avisam que as obras de requalificação nos logradouros da Rua Antónia Pusich e Rua João Lúcio estão a impermeabilizar os solos e que, quando chover a sério, Lisboa vai ter mais uma zona de risco de inundações, “prevendo-se um cenário terrível” temem os moradores.

Na véspera de ser preso, deixaram João Rendeiro sair do país

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Quando o Tribunal Constitucional, há dias, confirmou as decisões anteriores dos tribunais penais, João Rendeiro já não estava em Portugal para ser incomodado com a decisão. O ex-banqueiro foi para Londres, fora do espaço da União Europeia, vai ser difícil trazê-lo de volta. Também Paulo Guichard, outro ex-administrador do BPP, igualmente condenado, decidiu ir arejar até ao Brasil.

Rendeiro foi condenado a cinco anos e oito meses de prisão pela prática dos crimes de falsificação informática e falsificação de documento.

Agora, os autos contra o antigo banqueiro transitaram em julgado. Seria suposto que o tribunal emitisse o mandato de condução à prisão. Mas em Londres, João Rendeiro vai continuar livre.

Quando a sentença foi lida, em 14 de maio de 2021, a juíza Tânia Loureiro Gomes, que presidiu ao coletivo de juízes, disse que os arguidos são “condenados de forma exemplar e expressiva porque os factos que praticaram são graves” e a comunidade não entenderia que assim não fosse. É verdade. Mas a comunidade também não entende como foi possível que os arguidos, perante a inevitabilidade da condenação, tivessem podido sair do país.

Os factos que levaram a esta decisão judicial ocorreram entre 2003 e 2008. Ou seja, 18 anos depois os culpados ainda não estão detidos. O tribunal deu como provado que os arguidos João Rendeiro, Fezas Vital, Paulo Guichard e Fernando Lima retiraram, no total, 31.280 milhões de euros para a sua esfera pessoal. O dinheiro subtraído nunca foi devolvido, o Estado apenas arrecadou alguns imóveis em nome de João Rendeiro.

O colapso do BPP, banco vocacionado para a gestão de fortunas, verificou-se em 2010, já depois do caso BPN e antecedendo outros escândalos na banca portuguesa. O banco tinha como um dos fundadores e principal acionista o empresário Pinto Balsemão, que sempre apoiou publicamente (e em prémios de gestão chorudos) as performances de João Rendeiro.

Em defesa de boas causas

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Porquê esse meu foco sobre a população reclusa e suas famílias, incluindo milhares de crianças inocentes? Certamente para apoiar uma das franjas mais vulneráveis da nossa sociedade, mas, naquele momento, também para alertar para emergentes problemas de saúde pública e a que os diversos poderes nem davam troco.

Quem bem quiser conhecer um país, terá de descer às suas prisões. Qualquer coisa não bate certo, quando Portugal é dos destinos mais seguros do mundo e mantém a mais alta taxa de reclusão de toda a Comunidade Europeia.

Não podendo oferecer visitas guiadas às lusas catacumbas, que são as prisões, exponho alguns “retratos” que revelam duras realidades, desconhecidas por muitos portugueses intoxicados pela propaganda de gente sem escrúpulos, nem valores.

Nos últimos anos, forte com os fracos e fraca com os fortes, a máquina infernal da nossa Justiça deteve preventivamente mais de cem mil cidadãos, depois nem sequer acusados ou considerados inocentes.

Vítimas de abusos de poder, erros e até falhas processuais, fedem em minúsculas celas, sem salubridade nem higiene, centenas de pessoas que são feitas da mesma massa que nós. A que há ainda que somar milhares de pilha-galinhas, a quem também é negada formação cívica e profissional digna desse nome.

Em vez de locais de reinserção social, muitas das nossas prisões não passam de cárceres onde, ao arrepio das leis de um Estado de direito e social, se praticam abusos inconcebíveis, assim se instilando ainda mais ódio e violência na sociedade. E até o SNS falha inapelavelmente, com as nossas estatísticas a acusarem as mais altas taxas de mortalidade e de suicídio em toda a Europa.

Com o avanço da pandemia e as prisões sobrelotadas, havia que tomar medidas cautelares urgentes para se evitarem maiores riscos em milhares de reclusos e também entre as dezenas de milhares de cidadãos que os rodeavam.

No entanto, não seriam estas degradantes condições, que são sistematicamente condenadas por todas as instâncias internacionais e que envergonham qualquer pessoa de bem, que teriam o condão de demover uma classe política que só reage em função de votos fáceis. Não fosse o sacudir do sistema prisional, que temia maiores perigos e se encontrava em rotura, e, por certo, nunca teria sido promulgada a lei que, então, concedeu a liberdade a dois mil reclusos.

Esta seria, afinal, uma medida justa e que se revelou sensata, não tendo acarretado nenhum impacto na criminalidade: menos de 1% de reincidentes e, mesmo assim, só pequenos delitos. Nesta análise, será ainda preciso ter presente que vários reclusos foram postos em liberdade sem dinheiro, sequer, para chegar a casa, enquanto outros, sem garantia de sobrevivência no exterior, até optaram por voltar à prisão.

Mas nem tudo é fel no nosso país: realço que alguns guardas prisionais abriram as suas próprias bolsas quase vazias para que alguns desses libertados não tivessem de ir pedir esmola, ou roubar, para usufruírem da liberdade.

Todas estas verdades são bem conhecidas, mas não comoveram os Serviços de Reinserção Social e os Tribunais de Execução de Penas, que, logo a seguir, não aliviaram, nem aliviam práticas extremadas, muitas delas sem qualquer critério. Pelo contrário, apostadas em impedir visitas, limitar saídas precárias e travar liberdades condicionais, até se optou por não mais aplicar a nova lei aos reclusos que, entretanto, já podiam dela gozar. E foi assim, rapidamente, que as prisões voltaram a transbordar.

Superando as práticas irregulares das demais instituições sob a jurisdição da Constituição da República Portuguesa, os Serviços Prisionais pouco mais fizeram do que suspender os direitos legais de cidadãos sob a sua dependência, a que devem criar condições para um equilíbrio emocional e uma reinserção eficaz, na sociedade.

Controlada a pandemia, e num momento em que a DGS e a OM anunciam um forte alívio nas medidas sanitárias em todo o país, impõe-se que as entidades responsáveis promovam a rápida reversão de despropositadas e até injustas restrições em vigor nos estabelecimentos prisionais, eventualmente recorrendo ao parecer técnico de entidades com reconhecida competência.

Rómulo Mateus, o responsável máximo pelos serviços prisionais, tem hoje nas mãos a honrosa e urgente missão de equilibrar as regras correntes na área que dirige com as que vigoram nas demais instâncias sob a dependência de um Estado que se diz de direito e social.   

(Reflexão sobre o livro “Covid-19 – A Tempestade Perfeita” (no prelo), a propósito das magras medidas de “desconfinamento”, recentemente anunciadas no sistema prisional).

Rui Rio aprendeu que um saloio não é um parolo

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Em Sintra, Rui Rio foi confrontado com uma declaração sua feita em  2010 durante um congresso do PSD, quando disse que “um saloio é um parolo”. Rui Rio não só disse isto em Mafra, coração da chamada região saloia, como o disse a um dos indefetíveis defensores da identidade saloia, o ator Guilherme Leite.

Onze anos depois, foi a hora de Rio comer sopa fria. Guilherme Leite confrontou o dirigente do PSD com aquelas afirmações, num momento em que Rio estava numa arruada de promoção do candidato do PSD em Sintra.

Apesar de haver vários repórteres de jornais, rádios e televisões a acompanhar a comitiva de Rui Rio, nada disto foi reportado por esses jornalistas. Limitaram-se a divulgar as habituais banalidades da política de circunstância.

Guilherme Leite é candidato independente, cabeça-de-lista do Nós Cidadãos em Sintra. Desde que anunciou a sua candidatura que afirma que o faz apenas porque Rio não foi capaz de enfrentar os interesses instalados no PSD local que rejeitaram a candidatura de Marco Almeida, um autarca de longa data em Sintra e considerado por muitos como o candidato mais capacitado para ser eleito e dirigir bem a Câmara Municipal.

Assim, quando Rui Rio precisaria que o PSD vencesse em autarquias importantes, em Sintra não tem hipótese.

Espanha quer TGV, Portugal não sabe se quer

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O salazarismo do “orgulhosamente sós” venceu o progresso e a necessidade de um comboio de alta velocidade entre Lisboa e Madrid. Ouvia-se dizer que os espanhóis atingiriam rapidamente Lisboa.

Como se os espanhóis já não estivessem em todos os setores económicos portugueses. Um dos últimos foi o BPI, pela mão dos catalães.

Madrid quer voltar a pôr o TGV em cima da mesa, em nome do regulamento da rede transeuropeia de transportes de… 2013! Espanha já está a executar obras para o projeto de alta velocidade com Badajoz. Para ridículo nosso, o TGV irá terminar na fronteira de Portugal.

Combater a poluição dos aviões

A União Europeia quer um eixo Lisboa – Madrid – Paris para combater a poluição gigantesca da aviação. E também para reforçar a coesão Europeia.
Até agora Lisboa utilizava o Lusitânia-Expresso, mas foi suspenso por causa do covid-19.  Madrid nunca escondeu não gostar deste comboio nocturno por ser pouco rápido e… pouco limpo, dizemos nós, com razão.

Madrid continua assobiar para o ar, quando se fala da reposição do Lusitânia Expresso. A verdadeira razão é ,de certeza, pressionar Portugal a fazer a ligação TGV a Badajoz. 
O mais curioso é que a obra portuguesa será fortemente financiada por fundos estruturais europeus. Mas nem menos assim arranca. Espanha tem uma grande rede TGV. A alta velocidade ferroviária é o futuro numa Europa descarbonizada.

As atuais redes de comboios rápidos em Espanha e Portugal. Fonte https://www.eurail.com/pt/get-inspired/top-destinations/spain-train

Cascais, o mural da Pampilheira

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O estilo de Rocket01 é um misto fantasioso de surrealismo e de retrato, em aquáticos tons de turquesa e verdes, que se tornaram assim a sua típica paleta de cores. Por detrás das suas criações pode sentir-se toda uma mensagem de preservação do ambiente, numa visão optimista de conluio íntimo entre a ciência, a tecnologia e a Humanidade.

O mural da Pampilheira

No seu mais recente mural, realizado de 1 a 11 deste mês de Setembro no Bairro da Pampilheira, em Cascais, é bem visível esse seu estilo, onde harmonicamente se casam a velocidade quotidiana (simbolizada na mota) com a necessidade de parar a fim de se admirar a beleza humana (aqui consubstanciada no rosto duma jovem) e a do mundo envolvente (as flores, os peixes…). O todo envolvido na magia das estrelas por ali espalhadas, como que saídas duma varinha mágica a apontar a importância do sonho!…

Na parede estava um grafito antigo: «I just want to surf», «Eu só quero é surfar!». A frase não ficou, mas a ideia aí está: a vontade de, em liberdade, ir por aí, na contemplação boa da Natureza!

Nas flores imaginamos os pampilhos, que – devido à sua abundância nas searas de outrora – ao sítio deram o nome: Pampilheira. Nos peixes e nas gaivotas saudamos o mar, que, afinal, também está logo ali. E o disco voador lá no cimo é convite expresso a deixar livre a imaginação no seu perpétuo esvoaçar…

Era uma empena desagradável na esquina das ruas Diogo do Couto e Eça de Queiroz. Precisava de… vida! Cumpre, pois, agradecer à Câmara Municipal de Cascais a pronta disponibilidade manifestada para dar cumprimento à sugestão que há um ano lhe foi feita de convidar um artista desta craveira internacional para aí se concretizar um mural.

Feito o contacto com a associação de jovens «Somos Torre», os seus dinamizadores Zeka Robz Stock e Iuri meteram mãos à obra, fizeram todas as diligências necessárias e… o resultado aí está!

A entrevista vídeo é de José d’Encarnação, com edição e legendagem de Carlos Narciso:

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O sexo e Lisboa

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Samantha é uma Relações Públicas bem sucedida, anda por volta dos 50, o seu desporto favorito é sexo. Seja moreno, loiro, novo ou velho, Samantha vê em cada homem um potencial orgasmo. Mudou-se para Lisboa com as amigas, a reboque de Madonna, a diva do grupo. “Where’s the party” é a música que melhor a define.

Carrey é escritora, as suas crónicas sobre “a cidade encantada” são um sucesso cá e lá. Anda por volta dos quarenta, gosta muito de sexo mas, de uma forma escondida, ainda acredita no príncipe encantado. “Open your heart to me” é a música de almofada.

Charlotte é uma das curadoras mais amadas de Nova Iorque e rapidamente conquistou o mesmo estatuto em Portugal. Dirigiu o Museu Berardo, demitiu-se entretanto. É a mais inocente do grupo, acredita piamente no “felizes para sempre”. É incapaz de fazer sexo sem se apaixonar mas apaixona-se muitas vezes. No duche canta em repeat “Like a virgem”.

Miranda é a mais pragmática de todas, uma advogada tubarão admirada e temida no meio. Não tem sonhos de Cinderela, o sexo é para usar e descartar. “Beautiful stranger”, a música do duche.

Maravilharam-se com Lisboa, os bares, as lojas para turista, sem pé rapado, a surgirem em catadupa. No entanto detestam os tuck tuck, coisa medieval, e não percebem como é que as portuguesas conseguem andar de saltos altos na típica calçada. Ai os sapatos da Carrie parados no guarda-fatos…

Samantha, claro, já conhece toda a gente em toda a parte. A vida da nova iorquina é uma aventura permanente numa cidade que, não obstante, considera ter parado no tempo.

Um dia o tempo parou. O maldito vírus chegou a Portugal e ao mundo, o confinamento foi obrigatório, os voos cancelados. Madonna foi embora, elas acabaram por ficar. Por um lado sentiam-se tranquilas em Lisboa, por outro, inquietas pelas notícias vindas de Nova Iorque e dos EUA onde “aquele cujo nome não pode ser invocado” ignorava a pandemia. Ignorava todos, aliás.

Ficaram sitiadas na casa de Samantha por ser a maior e ter o melhor bar. Bateram o record de Cosmopolitans por dia e começaram a ressacar de… sexo. Foi assim durante dois meses.

Chegado o Estado de Calamidade saíram finalmente à rua mas os horários impostos eram uma frustração. Como iam conhecer homens em bares abertos durante o dia?  Voltar para casa às oito da noite? Nem os adolescentes.

Com o uso obrigatório de máscara, enfiaram-se nas lojas de luxo. Máscaras Dior, Dolce Gabbana, Vivienne Westwood, a fazer pandã com roupa, sapatos malas, até brincos. A imaginação era o limite mas a vida nocturna continuava diurna.

Chegou então o dia. A ideia partiu de Charlote. Porque não inscreverem-se? O vírus estava controlado, a taxa Rt baixava de dia para dia, em último caso, podiam usar máscara o tempo todo! Fez-se silêncio, uma gargalhada colectiva. De novo o silêncio. Samantha  recusou-se a tal humilhação. Inscrever-se num site de encontros? Jamais.

Carrie, Charlotte e Miranda acharam piada e alinharam na coisa. Divertiram a tirar fotos de perfil originais, sem rosto exposto, claro, completamente fashion. Foi um gozo a invenção dos dados de perfil, lá chegaram às fotos finais e aos nomes falsos, claro. Entraram no Tinder.

Ri-me compulsivamente, disse que estava a inventar, mas o João teimou que sabia de fonte segura que era tudo verdade. Continuei-me a rir. Bebemos um shot, perguntei timidamente se ele andava por lá. Disse um sim, sumido.

O João é um querido, um cavalheiro, deve haver mais como ele. Vai daí decidi: Vou inscrever-me no Tinder, aposto que vou encontrar gente interessante”. Devolveu-me um sorriso ternurento que espelhava a minha inocência. “Miúda, 99,9% dos homens que estão lá só procuram uma coisa: dar uma queca. Nada mais”. Fiquei chocada. “Uma, apenas uma, isso é uma regra? 

Olhei-o nos olhos, fiz um sorriso irónico. ” Queres beber outro shot?”