O sexo e Lisboa

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Samantha é uma Relações Públicas bem sucedida, anda por volta dos 50, o seu desporto favorito é sexo. Seja moreno, loiro, novo ou velho, Samantha vê em cada homem um potencial orgasmo. Mudou-se para Lisboa com as amigas, a reboque de Madonna, a diva do grupo. “Where’s the party” é a música que melhor a define.

Carrey é escritora, as suas crónicas sobre “a cidade encantada” são um sucesso cá e lá. Anda por volta dos quarenta, gosta muito de sexo mas, de uma forma escondida, ainda acredita no príncipe encantado. “Open your heart to me” é a música de almofada.

Charlotte é uma das curadoras mais amadas de Nova Iorque e rapidamente conquistou o mesmo estatuto em Portugal. Dirigiu o Museu Berardo, demitiu-se entretanto. É a mais inocente do grupo, acredita piamente no “felizes para sempre”. É incapaz de fazer sexo sem se apaixonar mas apaixona-se muitas vezes. No duche canta em repeat “Like a virgem”.

Miranda é a mais pragmática de todas, uma advogada tubarão admirada e temida no meio. Não tem sonhos de Cinderela, o sexo é para usar e descartar. “Beautiful stranger”, a música do duche.

Maravilharam-se com Lisboa, os bares, as lojas para turista, sem pé rapado, a surgirem em catadupa. No entanto detestam os tuck tuck, coisa medieval, e não percebem como é que as portuguesas conseguem andar de saltos altos na típica calçada. Ai os sapatos da Carrie parados no guarda-fatos…

Samantha, claro, já conhece toda a gente em toda a parte. A vida da nova iorquina é uma aventura permanente numa cidade que, não obstante, considera ter parado no tempo.

Um dia o tempo parou. O maldito vírus chegou a Portugal e ao mundo, o confinamento foi obrigatório, os voos cancelados. Madonna foi embora, elas acabaram por ficar. Por um lado sentiam-se tranquilas em Lisboa, por outro, inquietas pelas notícias vindas de Nova Iorque e dos EUA onde “aquele cujo nome não pode ser invocado” ignorava a pandemia. Ignorava todos, aliás.

Ficaram sitiadas na casa de Samantha por ser a maior e ter o melhor bar. Bateram o record de Cosmopolitans por dia e começaram a ressacar de… sexo. Foi assim durante dois meses.

Chegado o Estado de Calamidade saíram finalmente à rua mas os horários impostos eram uma frustração. Como iam conhecer homens em bares abertos durante o dia?  Voltar para casa às oito da noite? Nem os adolescentes.

Com o uso obrigatório de máscara, enfiaram-se nas lojas de luxo. Máscaras Dior, Dolce Gabbana, Vivienne Westwood, a fazer pandã com roupa, sapatos malas, até brincos. A imaginação era o limite mas a vida nocturna continuava diurna.

Chegou então o dia. A ideia partiu de Charlote. Porque não inscreverem-se? O vírus estava controlado, a taxa Rt baixava de dia para dia, em último caso, podiam usar máscara o tempo todo! Fez-se silêncio, uma gargalhada colectiva. De novo o silêncio. Samantha  recusou-se a tal humilhação. Inscrever-se num site de encontros? Jamais.

Carrie, Charlotte e Miranda acharam piada e alinharam na coisa. Divertiram a tirar fotos de perfil originais, sem rosto exposto, claro, completamente fashion. Foi um gozo a invenção dos dados de perfil, lá chegaram às fotos finais e aos nomes falsos, claro. Entraram no Tinder.

Ri-me compulsivamente, disse que estava a inventar, mas o João teimou que sabia de fonte segura que era tudo verdade. Continuei-me a rir. Bebemos um shot, perguntei timidamente se ele andava por lá. Disse um sim, sumido.

O João é um querido, um cavalheiro, deve haver mais como ele. Vai daí decidi: Vou inscrever-me no Tinder, aposto que vou encontrar gente interessante”. Devolveu-me um sorriso ternurento que espelhava a minha inocência. “Miúda, 99,9% dos homens que estão lá só procuram uma coisa: dar uma queca. Nada mais”. Fiquei chocada. “Uma, apenas uma, isso é uma regra? 

Olhei-o nos olhos, fiz um sorriso irónico. ” Queres beber outro shot?”

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