A grandeza de Jorge Sampaio

- Por entre as brumas dum passado recente pouco glorioso, possa esta reflexão contribuir para orientar os portugueses na atribulada travessia que nos espera.

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                           – A evocação necessária

A sarar das feridas da covid-19, e fragilizados por outras “pandemias” crónicas, milhões de portugueses desesperam por um futuro melhor: uma “dor de alma” que exige um debate aberto e sereno sobre um modelo de desenvolvimento que, desperdiçando sucessivas ajudas externas, nos fez tombar na estagnação económica e social.    

Num momento em que se traça um PRR sem precedentes, quiçá a derradeira oportunidade para se inverterem trajetórias desastrosas, ainda duas outras pertinentes razões obrigariam a promover uma profunda reflexão. Porque, a curto prazo, não se vislumbram alternativas políticas credíveis na sociedade portuguesa e, sobretudo, porque a “meteorologia internacional” anuncia fortes tempestades:

– desde logo, com o “parzinho” sino-americano a preparar umas “bodas recheadas de efeitos especiais” e a comprometer a segurança e o bem-estar da Humanidade;

– mas, também, as derrapagens totalitárias e nacionalistas que estão a lançar o caos ideológico e político, até no seio da própria Europa;

– a que se juntam as alterações climáticas e as vagas incontroladas de imigrantes;

– e a que acresce a subtil, mas não menos inquietante ascensão de elites financeiras que, sedentas de lucro e poderio, condicionam governos que já não representam os seus povos, arrasam economias outrora sustentáveis e determinam opções à escala global.

Perante tão inquietantes sinais, com o saber, a razão e a ética a serem diariamente desprezadas por uma classe política que não cessa de cercear direitos e liberdades, eis-nos conduzidos a Jorge Sampaio, alguém que soube ler a História e ousou enfrentar os ventos dominantes.

A avaliação de qualquer personagem histórica também se faz por comparação. Alguém admite que, com Jorge Sampaio na Presidência, Portugal inteiro não estivesse hoje envolvido num aceso debate, quando se traça um PRR à medida de corporações de interesses de todos os matizes, muito mais preocupadas com a sua própria sobrevivência do que com o nosso futuro coletivo? Aceitaria aquele estadista, sem discussão pública, um PRR que perspetiva investimentos de 15% no setor produtivo, afinal o motor de 85% da riqueza nacional? Com Jorge Sampaio na Presidência, e em plena campanha eleitoral autárquica, alguém se atreveria a acenar com verbas fabulosas a Administrações à beira do colapso e que diariamente batem indecorosos recordes de indiferença e despesismo, desde o Governo à Presidência?

Admitindo que estes argumentos possam ser considerados especulação pessoal, passo a factos. Comparem-se os dez anos da Presidência de Jorge Sampaio, com o que de importante ocorreu, em Portugal, nos últimos dez dias: Alguém, alguma vez, ouviu aquele estadista fazer reparos ao “prazo de validade” dum qualquer PM, sobretudo na véspera dum congresso partidário decisivo para o futuro próximo do nosso país? Alguma vez se atreveu a desenvolver boletins clínicos sobre o estado de saúde dum qualquer cidadão? Porventura, terá alguma vez saído a público, a demarcar-se de prémios salariais decididos por Governos sob a sua responsabilidade?

Dez dias são muito tempo e outras oportunas questões ainda poderemos colocar: Imagina-se que Jorge Sampaio não ficasse “varado”, perante um Congresso partidário em que a unicidade só foi quebrada pela exposição de alguns “monos” vazios de ideias, anunciados como putativos sucessores do PM? Sob a sua Presidência, seria possível que um PM concedesse uma entrevista televisiva a um dos principais “compadres dos donos-disto-tudo”, afirmando que, “só por ironia”, também fora acrescentada à lista de sucessores uma nova militante que, enquanto ministra, se limitou a “dar falsa sensação de segurança”? Um PM que, depois de reiterar total confiança em todos os seus “generais”, e sobre a elaboração do PRR, nos fornece, e passo a citar, a seguinte explicação: “Estamos a trabalhar muito seriamente para estudar a possibilidade deste ano se poder fazer…”

Ultrapassada a pandemia, recomenda o bom senso que os portugueses leiam as realidades e implementem “medidas sanitárias” tendentes a limitar os estragos de outras “pragas”, ainda mais devastadoras.  E perante as terríveis convulsões que se adivinham, seria dever da “engrenagem da governação” que se desenredasse de intrigas palacianas, despidas de sentido de Estado, e pusesse à discussão pública as formas de alcançar os grandes desígnios nacionais.

Uma utopia num país em que a vida só se anuncia fácil para aqueles que, a coberto de paraísos fiscais, já hoje reservam lugar nos mesmos condomínios fechados em que os poderosos do mundo procuram refúgio, conforto e segurança.

(notas da redação: Cândido Ferreira foi diretor de campanha na primeira eleição presidencial de Jorge Sampaio. Por motivos alheios à vontade do autor, esta crónica publica-se com vários dias de atraso, pelo que pedimos desculpa ao autor e aos leitores).

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