Início Site Página 338

Quando nasce não é para todos

0

Acordo com o despertador do Sol. Calças de ganga, t-shirt ao acaso, sorvo o café amargo da cafeteira nova. Leio com amargura a guerra tão longe, mesmo à frente dos meus olhos. Não gosto de a ver em directo, enjoam-me as peças jornalísticas fechadas com a poesia dos repórteres e rostos de crianças, a repetição em off do que as imagens mostram, os pormenores que não interessam para nada, o ecrã cheio de rodapés, quadrados e quadradinhos. Um reality show…

Fecho o portátil, subo, chego à graça do jardim com os pulmões a acusarem a instalação permanente de nicotina. O café não saiu expresso mas nada digo à miúda gira com uma mancha lilás no cabelo.

Olho a grandiosidade de Lisboa, tiro uma foto ao sol, subo ao bairro onde nunca caí em graça. Compras feitas, desço a rua até ao fim, apenas para comprar arroz basmati, sem bater em fundo algum.

Vou ao café virtual. Os “amigos” zangam-se com os “amigos”, quase toda a gente manda postas de pescada das quais faz bandeiras sobre a guerra. Quero fugir delas, provavelmente hão-de desaparecer quando os media mudarem para outra frente de combate. E lá voltaremos às postas de pescada, seja qual for o tema. Abraço o gato que insiste em não me deixar fazer mimos e ainda me morde, o sacana.

À noite, acabo por ver um noticiário televisivo enquanto faço o jantar. Cozinhar faz-me mexer, ajuda a escoar um pouco a ansiedade que as tristes notícias provocam. E, de dia para dia, são ainda mais horrendas, com mais refugiados, com mais alvos civis, com mais guerra. A guerra não tem regras. Sei que posso fazer alguma coisa, pequena que seja, para contrariar o horror escancarado na televisão, mas sei também que não posso mudar o mundo. Se pudesse, bombardeava tudo, tudo que acabasse com a estratégia, com o armamento massivo, sem piedade alguma, obviamente com proteção dos civis, os homens na outra linha da frente também. Todos são vítimas. Mas bombardeava tudo, quero lá saber das regras da NATO e da União Europeia! Quero esfregar a cara do Putin num pudim!

Calço os ténis, começo a caminhada sem olhar para a beleza de Lisboa, levo os olhos pregados no chão. Preciso de pisar estes sentimentos de horror, de raiva. Violência gera violência mesmo que à distância.

Regresso à janela acompanhada com um copo de vinho e uma cigarrilha. Ponho os olhos no céu estrelado. “A nossa vida conquistará a morte e a luz conquistará a escuridão” diz Volodymyr Zelensky. Afinal há poesia no meio da guerra.

Deito-me mas levanto-me de seguida. Visto o avental, faço uma papa de farinha Maizena. Preciso de um doce para conseguir engolir este mundo  amargo, azedo, sem Sol.  

PORTUGAL FASHION ACOLHE OITO MODELOS UCRANIANAS

0

Decorre no Porto, o Portugal Fashion. Uma semana dedicada à costura, alta costura de preferência. Quem vir os trapitos que cobrem os corpos dos e das manequins há de estranhar, por vezes. Quem veste aquilo? É uma pergunta recorrente, misto de desprezo e inveja… mas, na verdade, muitas vezes, aquilo não é roupa que se vista. É mensagem, é panfleto, pode até ser política. Mas é essencialmente exibição.

Por exemplo, este rapaz veste uma roupa desenhada por Andreia Reimão, parte de uma coleção que pretende retratar “homens de escritórios, (des)controlados e respeitados, mas sempre presos aos seus cubículos. A falta de liberdade nesse espaço faz com que sonhem com algo maior, uma utopia”, diz a criativa. Perceberam?

Na imagem seguinte, vemos a representação do que sobra, do que foi descartado… uma ideia de Marcelo Almiscarado. Diz ele que “a coleção foi feita com o que não foi utilizado em coleções anteriores”. Uma espécie de reciclagem, portanto. Interessante, na nossa opinião.

Dizem as notícias que estão na Alfândega do Porto oito manequins ucranianas e que uma marca de roupa vai apresentar uma coleção dedicada ao protesto contra a guerra. Política.

Evelina Skulska, apenas Eva no mundo da moda, é uma delas. Não quis ir para a guerra, está no catwalk do Portugal Fashion. A miúda vai ficar por cá durante uns tempos, mas é evidente que se a vida aqui não lhe correr de feição acabará por rumar sem dificuldades para Paris ou Londres, Nova Iorque, para alguma das capitais mundiais da moda. Lá a concorrência será maior que em Lisboa ou no Porto, mas o passaporte ucraniano pode abrir muitas portas, nas atuais circunstâncias.

A 50.ª edição do Portugal Fashion arrancou na quarta-feira e decorre até sábado na Alfândega do Porto. Passarão por lá nomes consagrados da moda portuguesa como Miguel Vieira, Katty Xiomara, Luís Onofre, Diogo Miranda ou Alexandra Moura, segundo a organização.

O Portugal Fashion é um projeto da responsabilidade da Associação Nacional de Jovens Empresários, tem financiamentos públicos enquadrados no programa Portugal 2020. Ou seja, em parte a coisa faz-se com dinheiro proveniente da União Europeia, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.

O QUE FAZ SUBIR OU DESCER O PREÇO DOS COMBUSTÍVEIS

0

O preço que o consumidor final paga pelos combustíveis não depende dos chamados “mercados”. Depende da vontade dos gestores das petrolíferas e dos produtores de petróleo.

Não é preciso jogar na bolsa para sabermos que os argumentos para as subidas e descidas das cotações variam entre as “perceções”, os “medos” e as “expetativas” dos “mercados”. Fatores aleatórios impossíveis de serem verificados. Não tem nada a ver com o balanço entre a oferta e a procura. Ou seja, o petróleo aumenta porque meia dúzia de sheiks e de oligarcas de várias nacionalidades combinam jogo entre si.

Haver uma guerra na Ucrânia afeta tanto a produção de petróleo como a guerra que há 8 anos despedaça o Iémen (bombardeado e invadido pela Arábia Saudita), onde neste momento estão 27 milhões de pessoas a morrer de fome, segundo a ONU. Ou a guerra na Síria, 11 anos de conflito ainda sem fim à vista e que envolve os exércitos da Síria, da Turquia, guerrilhas curdas e sírias e, ainda, operações especiais dos EUA.

Entre guerras civis e guerras convencionais, ao todo há 28 conflitos em curso, neste ano de 2022. E só agora é que o petróleo se sobressaltou.

A seara irá renascer

0

Há muito que não hesito em arriscar opiniões que, com o andar do tempo, se confirmam. Começo assim por recordar que, logo a 28 de fevereiro, no quarto dia da invasão russa, em antevisão publicada com o título Muito Cuidado com o homo larapiens, deixei registado:

A Rússia, perante o desenho de uma humilhante derrota militar na Ucrânia, e enquanto a China vacila em avançar no Oriente, já ameaça com armas nucleares. Uma decisão psicopática que, a ser tomada, acabará por fazer implodir uma parte substancial do Império Romano do Oriente, em favor dos Impérios Chinês e Otomano, sempre à espreita. Em Portugal, espera-se uma reorientação política assente na morte súbita do PCP e na decadência do Chega, consequências previsíveis de alinhamentos e apoios irracionais.

Podia ter adicionado o BE neste desalinho, mas apenas me cingi às formações políticas nacionais que, em proveito próprio e vergonha dos seus dirigentes, se submetem a quem pretende atingir o espaço europeu a que irremediavelmente pertencemos. Ou, como é o meu caso, a que temos orgulho de pertencer…

Essas minhas bem fundamentadas previsões estavam suportadas na rápida e firme reação europeia e no impasse militar que cedo se verificou, no teatro de guerra. Mas assentavam, sobretudo, nas declarações extremadas do líder russo, um dos grandes “serial-killers” da História da Humanidade. E é ainda assim, em crescente tensão, que, semanas depois do início do conflito, vemos uma China intentada em não arriscar os seus investimentos e avanços, mas somente em retirar benefícios do caos instalado. E que vemos o psicopata Putin apostado em esmagar uma Europa, crente de que pode vergar a Ucrânia pelo terror. Mas, é um facto, também ele se encontra tolhido por uma comandita que, não sofrendo de tamanha paranoia, teme pela sua autodestruição caso enverede por armas não convencionais.

O futuro próximo não augura nada risonho, num Portugal em que ainda se respiram ares “quase paradisíacos”. Na verdade, a vida não está fácil para ninguém, incluindo para a generalidade de uma classe política atoleimada e claramente atolada em areias movediças.

Incito-vos, no entanto, a que não percamos a esperança em dias melhores. Quem sabe se, no fim desta guerra, e uma vez instalados novos equilíbrios e desequilíbrios que hoje se constroem e destroem pelo troar das armas, este cantinho à beira do Atlântico até nem sairá beneficiado?

Ao colo da “Senhora Dona Esperança”, que, como se sabe, “é sempre a última a morrer”, relembro-vos um verso de uma emblemática canção da minha juventude, que afirmava: “somos um povo que cerra fileiras e que parte à conquista do pão e da paz”.

No momento presente, em que impera a desorientação, a perplexidade e o horror, e perante um futuro que se adivinha turbulento, acredito que todos os sonhos ainda são possíveis. Passada a tempestade, e tal como nos idos tempos de abril, em que ocorreram profundas mudanças em Portugal, acredito que, em breve, se possa dar um grande salto, rumo a uma sociedade melhor.  

Mas, para que tal aconteça, será necessário, “apenas”, que saibamos recuperar o sentido da honra e da dignidade humana, bem como a autoestima e a independência económica, hoje também enredadas em becos sem saída. Estas deverão constituir as preocupações centrais de qualquer cidadão português sensato e lúcido, na previsível busca de novas lideranças políticas, que não deixarão de se afirmar no atual vazio.  

A grande incógnita, de momento, é saber se, neste terramoto político-ideológico a que se assiste, a “geração mais bem preparada de sempre” conseguirá enformar uma alternativa capaz, afinal um dos mitos mais presentes na nossa longa História.

Não quero terminar esta crónica, sem vos anunciar que constato uma boa novidade nestas lusitanas paragens: com o poder político-económico em degradação, e já quase incapaz de controlar a opinião pública, e a classe média em grave crise, é notório que muitos portugueses começam a interessar-se, finalmente, pelo nosso destino coletivo; e, sempre que isso aconteceu no passado, nunca deixaram de despontar novas searas em Portugal, por mais queimada que tivesse ficado a nossa terra.

Tenho a firme convicção de que o Império Romano do Ocidente, em decadência durante todo o século XX, irá sair reforçado em breve. E, de novo, com sede numa Europa que, ao fim de milénios, finalmente se unifica em torno de valores que são o garante do futuro da Humanidade.

Sempre fomos um país muito fértil… na coragem, na audácia e até na poesia!

Força, Portugal!

A emoção foi rainha no Salão Preto e Prata

0

O espectáculo solidário «Paz na Ucrânia» mereceu lotação quase completa, devido ao proselitismo dos rotários e seus amigos.

Coube, de facto, ao Rotary Club de Oeiras – que agregou a si os clubes da zona (Algés, Alfragide, Carnaxide, Cascais-Estoril, Parede-Carcavelos e Sintra) – a iniciativa, prontamente acolhida por uma série de entidades que decidiram estar presentes em palco: Clube de Carnaxide de Cultura e Desporto, Escola de Dança Eva Vieira de Almeida, Sítio Azul (Academia de Dança do Estoril),  Mais Música (Grupo Juvenil do Coro de Santo Amaro de Oeiras), Oeiras Dance Academy, ArteMove Escola de Dança, Lev’Arte, Mosaico Espiritual.

Não será exagero afirmar que, se habitualmente interpretam bem as peças que escolheram para apresentar, os corpos de baile esmeraram-se, numa entusiástica atitude de quem sabe que, através da dança, das singulares coreografias, da sua entrega, se está a mostrar que a Paz é possível e que a Arte, em todas as suas múltiplas manifestações, pode eficazmente contribuir para a maior união entre os povos. Vimos danças bem variadas ao som de bem variados géneros musicais. E que bem que se dançou! E como o espectáculo se desenrolou sem pressas nem atropelos mas num ritmo pausado, como quem diz temos pressa de ver a Paz mas queremos tranquilamente fazer saborear os movimentos artísticos que mui gostosamente ensaiámos. Pela Arte vamos lá!

Quase no final, a actuação do Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra (desta feita de capas caídas, em luto pelo presidente da Associação Académica que nessa tarde morrera em consequência dum acidente). José Afonso, Luiz Goes – por eles – estiveram connosco, na proclamação dos valores da Amizade e da Luta sem tréguas pela Liberdade: «Traz outro amigo também!», junta-te aos que sentimos a dor dos inocentes. Momento forte este, que as capas negras ainda mais robusteceram!

Houve, todavia, quatro outros momentos que provocaram calorosos aplausos e não permitiram ignorar uma que outra lágrima furtiva que teimou em escorrer por muitas faces presentes: as «Estrelinhas», bonito nome dado a jovens, a meninos e a meninas da Escola Ucraniana do Estoril, envergando os seus vistosos e garridos trajos típicos, actuaram no princípio, mais duas vezes entre os conjuntos (como eloquentes páginas de separação entre os capítulos dum livro) e, apoteoticamente, no final! Uma alegria esfusiante, as cores amarelo e azul clara da bandeira voltejavam, o ritmo electrizava. Quanto não gostaríamos que fossem esses ritmos e não os das bombas nem o sinistro ronco dos aviões em voo rasante a ecoar por terras de Ucrânia! Quanto não gostaríamos! E os rostos suaves e miudinhos mereciam que essoutros sons destruidores num ápice desaparecessem. O quadro final, então, de bandeiras portuguesa e ucraniana a ondular numa prece (dir-se-ia!), calou bem fundo nos espectadores, arrancou fartos aplausos, um traiçoeiro nó se nos apertou na garganta! Em pleno século XXI, não pode ser! Não pode ser!

Houve, após o espectáculo, as falas protocolares – dos organizadores, do Presidente da Câmara de Cascais, do representantes da Embaixada da Ucrânia… Agradecimentos, votos, anseios…

E saímos, em silêncio. O autocolante que puséramos na lapela gritava PEACE, nessa língua ora universal em que, afinal, todos acabamos por nos entender. Só quem devia é que não se entende…

Espectáculo rotário foi. Os fundos recolhidos reverteram integralmente para as vítimas da guerra, através do RI District 2232 da Ucrânia. E há que dar os parabéns aos organizadores porque um espectáculo desta envergadura foi montado em pouquíssimo tempo e correu muito bem, com um profissionalismo invejável! Que a necessidade e a urgência aguçaram o engenho!

(Ilustrações gentilmente cedidas pelo Gabinete de Comunicação da Estoril-Sol e também retiradas da página do Facebook do Rotary Club de Oeiras)

NOTÍCIAS DA GUERRA

0

Uma chamada de atenção para notícias sobre a guerra da Ucrânia que, eventualmente, não tenham atraído tanta atenção dos leitores, como seria suposto. Com a devida vénia aos respetivos autores e proprietários.

QUANDO A NATUREZA DECLARA GUERRA

0

A Ilha de Moçambique já enfrentou milhares de ciclones e tempestades tropicais. Aquelas casas e as muralhas do forte militar, há 500 anos que resistem ao desgaste do vento, do mar e da água que cai do céu. Há sempre coisas que se estragam e vidas que se vão mas, com tempo, tudo se regenera.

Desta vez foi duro. O ciclone Gombe estragou e matou ao longo da costa moçambicana. Desde a Tanzânia até à cidade da Beira, a devastação é imensa. Mais de 200 mil famílias desalojadas. Casas derrubadas, colheitas perdidas, vidas ceifadas.

As casas reerguem-se com pouco, são frágeis, biodegradáveis, basta que as pessoas recuperem as forças. Já as comodidades da modernidade são mais difíceis de reaver. Os postes de eletricidade ficarão caídos durante bastante tempo, as estradas são mais difíceis de refazer.

Portugal tem na Ilha de Moçambique um inestimável espólio histórico, arquitetónico, cultural. Um tesouro esquecido. O socorro tarda a chegar…

Yolanda Teixeira Duarte vive ali. Conta que “nos três primeiros dias ninguém teve nada para comer. Quem tinha alguma coisa, deu tudo.” Mas continua a não haver eletricidade nem água potável canalizada.

Nestes dias de aflição, 15 parturientes deram à luz num hospital à luz da vela. É assim, quando a natureza declara guerra.

A assistência médica é um problema crónico para populações que vivam longe das cidades maiores. Antes do ciclone chegar, o escritor José Eduardo Agualusa (residente na Ilha) refugiou-se em Maputo. “Fugi para Maputo, via Nacala, com a Kianda. Ela esteve muito doente há poucos dias, acaba de recuperar, e não a quero ver outra vez mal, sem médicos nem medicamentos. Aquilo foi uma desgraça…” disse-nos Agualusa.

A distância não impediu de saber novidades sobre o sucedido com a vizinhança: “A cidade de pedra aguentou melhor, mesmo assim muitas casas ficaram sem telhado, e outras sem portas e janelas. Na cidade de Macuti caiu quase tudo. Ficámos sem electricidade, sem água e sem net… Agora é esperar que não venha a seguir uma epidemia de cólera ou um surto de malária.”

A Ilha e muitas localidades na costa moçambicana precisam de apoio, de uma mão que ajude tanta gente a ficar de pé outra vez.

Como já foi divulgado aqui antes, em Portugal a Caixa Geral de Depósitos tem uma conta solidária com o IBAN PT50 0035 0646 00016756530 20. Quaisquer dúvidas, esclareçam-nas por email  info@makobo.co.mz com Ruy Santos.

OUTROS HERÓIS

0

Parece indesmentível que a sociedade civil russa está em luta contra o regime. A cena que todos já vimos da jornalista que apareceu em pleno noticiário do canal 1 da televisão pública, com um cartaz contra a guerra na Ucrânia, é exemplo disso.

Os jornalistas sempre foram alvos a que todas as ditaduras dão especial atenção. Um dos pilares das ditaduras é o controlo sobre a informação. Por isso, o jornalismo independente dos interesses do Estado nunca foi bem tratado pelos regimes absolutistas. Em Portugal, foi assim no tempo da ditadura do Estado Novo.

Na Rússia, a Amnistia Internacional refere que há mais de 150 jornalistas fugidos do país e a existência de vários casos de autocensura para evitar a prisão. Há órgãos de comunicação social encerrados compulsivamente, casos do Nastoyashchee Vremya (Tempo Atual), uma filial da Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade, a TV Rain, a rádio Eco de Moscovo (sedeada na Letónia), os sites Meduza, Znak.com, Mediazona, Republic e Sobesednik e, ainda, o portal de ativismo de base Activatica, além dos serviços em russo da BBC, Voz da América e Deutsche Welle. Até mesmo o Novaya Gazeta, um marco do jornalismo independente liderado pelo Nobel da Paz 2021 Dmitry Muratov, removeu os artigos sobre a invasão da Ucrânia. E há o bloqueio no acesso às redes sociais Facebook e YouTube.

O parlamento russo aprovou leis que criminalizam a liberdade de expressão. Há já registos de milhares de detenções, depois das novas leis terem entrado em vigor. A Amnistia Internacional, mais uma vez, refere haver cerca de 13.800 manifestantes detidos arbitrariamente, por terem participado em manifestação contra a guerra em 70 cidades russas. Os detidos testemunham a prática de espancamentos, humilhação e outras formas de maus-tratos. Muitas relataram ter-lhes sido negado o acesso a advogados.

Ou seja, muitos russos resistem, muitos russos opõem-se ao regime e a guerra não se desenrola apenas nos campos de batalha.

Para final de história, referir que a tal jornalista do canal 1 foi acusada de “infração administrativa”, terá de pagar uma pequena multa e, eventualmente, cumprir um máximo de 10 dias de prisão, informou o correspondente do Finantial Times em Moscovo, Max Seddon, surpreendido por não ter sido aplicada nenhuma das novas leis que reprimem este tipo de protestos.

MAGIA PRECISA-SE

0

A escalada dos preços começou nos combustíveis. Uma subida tão violenta que vai arrastar tudo com ela. Todos os produtos e serviços estão já a encarecer muito. Hoje, por cada 10 litros de gasóleo, o consumidor gasta mais 4 € do que gastava há 15 dias. E nem os combustíveis low-cost escapam, uma vez que a subida tem sido igual. Hoje, 1 litro de gasóleo low-cost está a 1.979 €.

Os sinais de revolta começam a surgir. Associações de empresas de transportes já ensaiam concentrações e manifestações de protesto, com a ameaça de paralisação total e corte de estradas.

A última vez que os camionistas paralisaram, o país quase fechou. Foi em 2019, quando o Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) decidiu parar e, em poucos dias, deixou de haver fornecimento de combustíveis nos postos de abastecimento e tudo foi parando em cadeia. Nem mesmo a aviação civil escapou.

A chamada desobediência civil pode ter muita força. Quem já tinha idade para perceber o que se passava à sua volta e ainda não perdeu a memória, recorda-se certamente do bloqueio de camionistas na Ponte 25 de abril, em 1994. A coisa resolveu-se a custo com a intervenção da polícia de choque, mas o primeiro-ministro Cavaco Silva nunca recuperou dos danos políticos que o protesto lhe causou.

Hoje, esperamos de António Costa um passe de mágica. Tem de tirar da cartola coelhos, frangos, pão, batatas, açúcar, salsichas, couve, ovos, sardinha em lata, arroz, leite e tudo o mais na quantidade mínima para a malta poder se sentar à mesa e comer.

TEMOS IRMÃOS EM SOFRIMENTO

0

Há pelo menos 15 mortes em Moçambique, em consequência da passagem do ciclone Gombe. Mas há milhares de modos de vida destruídos.

Segundo o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) todos os óbitos aconteceram na região de Nampula. Na zona costeira e na Ilha de Moçambique, os estragos são imensos. Muitas aldeias destruídas e um número imenso de famílias desalojadas. Na região não há água potável, não há energia elétrica, as comunicações são escassas.

O relato de Yolanda Duarte, luso-moçambicana que vive na Ilha de Moçambique, assume que “estamos mal, perderam-se casas, centros de saúde, escolas. Há gente a passar mal mas mal. A situação é grave.” E lança um apelo para que ajudem Moçambique e as populações afetadas, através das organizações que estão no terreno.

A Ilha de Moçambique é um paraíso adiado. Uma pérola do património colonial português, foi ali que Vasco da Gama mandou erguer uma cidade que foi a primeira capital do território sob dominío de Portugal. A cidade ainda existe, passados 500 anos. Uma cidade viva, com gente que cuida dela. São essas pessoas que precisam de ajuda.

(todas as fotografias são de Yolanda T. Duarte)

Numa época em que o Mundo anda tão sensibilizado com a má sorte de povos e territórios devastados na Europa, alguma dessa boa vontade poderia ser redirecionada para Moçambique. Lá longe, precisam de produtos alimentares, sabão, ferramentas para corte de árvores caídas e reconstrução de casas. Precisam de medicamentos. O mais fácil, em termos logísticos, é enviar dinheiro. As ONG que atuam na ajuda a estas pessoas sabem onde comprar o que é necessário e como fazer para levar as coisas até quem necessita delas.

Em Portugal, a Caixa Geral de Depósitos tem uma conta solidária com o IBAN PT50 0035 0646 00016756530 20. Qualquer dúvida, esclareçam-nas por email  info@makobo.co.mz com Ruy Santos.