Quando nasce não é para todos

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Acordo com o despertador do Sol. Calças de ganga, t-shirt ao acaso, sorvo o café amargo da cafeteira nova. Leio com amargura a guerra tão longe, mesmo à frente dos meus olhos. Não gosto de a ver em directo, enjoam-me as peças jornalísticas fechadas com a poesia dos repórteres e rostos de crianças, a repetição em off do que as imagens mostram, os pormenores que não interessam para nada, o ecrã cheio de rodapés, quadrados e quadradinhos. Um reality show…

Fecho o portátil, subo, chego à graça do jardim com os pulmões a acusarem a instalação permanente de nicotina. O café não saiu expresso mas nada digo à miúda gira com uma mancha lilás no cabelo.

Olho a grandiosidade de Lisboa, tiro uma foto ao sol, subo ao bairro onde nunca caí em graça. Compras feitas, desço a rua até ao fim, apenas para comprar arroz basmati, sem bater em fundo algum.

Vou ao café virtual. Os “amigos” zangam-se com os “amigos”, quase toda a gente manda postas de pescada das quais faz bandeiras sobre a guerra. Quero fugir delas, provavelmente hão-de desaparecer quando os media mudarem para outra frente de combate. E lá voltaremos às postas de pescada, seja qual for o tema. Abraço o gato que insiste em não me deixar fazer mimos e ainda me morde, o sacana.

À noite, acabo por ver um noticiário televisivo enquanto faço o jantar. Cozinhar faz-me mexer, ajuda a escoar um pouco a ansiedade que as tristes notícias provocam. E, de dia para dia, são ainda mais horrendas, com mais refugiados, com mais alvos civis, com mais guerra. A guerra não tem regras. Sei que posso fazer alguma coisa, pequena que seja, para contrariar o horror escancarado na televisão, mas sei também que não posso mudar o mundo. Se pudesse, bombardeava tudo, tudo que acabasse com a estratégia, com o armamento massivo, sem piedade alguma, obviamente com proteção dos civis, os homens na outra linha da frente também. Todos são vítimas. Mas bombardeava tudo, quero lá saber das regras da NATO e da União Europeia! Quero esfregar a cara do Putin num pudim!

Calço os ténis, começo a caminhada sem olhar para a beleza de Lisboa, levo os olhos pregados no chão. Preciso de pisar estes sentimentos de horror, de raiva. Violência gera violência mesmo que à distância.

Regresso à janela acompanhada com um copo de vinho e uma cigarrilha. Ponho os olhos no céu estrelado. “A nossa vida conquistará a morte e a luz conquistará a escuridão” diz Volodymyr Zelensky. Afinal há poesia no meio da guerra.

Deito-me mas levanto-me de seguida. Visto o avental, faço uma papa de farinha Maizena. Preciso de um doce para conseguir engolir este mundo  amargo, azedo, sem Sol.  

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