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A “sodade” de Cesária e a “saudade” de Maro

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É frequente ouvirmos músicas que nos fazem lembrar outras. Nem sempre é plágio. Muitas vezes, as semelhanças devem-se à chamada “inspiração”. Ouviram uma música e fazem algo parecido. Inspirado e não copiado.

Vem isto a propósito de algumas pessoas encontrarem semelhanças entre a “Saudade, Saudade” de Maro e a “Sodade” de Cesária Évora. Um exemplo:

Acreditamos que as semelhanças se resumem ao título das canções e ao balanço rítmico do refrão de ambas que é sustentado pela repetição da palavra “saudade”.

De resto, Cesária dá 10 a zero à jovem Maro. Talvez daqui a muitos anos, alguma semelhança entre as duas possa surgir.

Em resumo, são duas canções distintas. É a nossa opinião. Cesária canta a saudade do emigrante pela terra, Maro canta a saudade de alguém que já morreu. São distâncias diferentes. Cesária cantava a esperança do regresso. Maro canta sem esperança… “I’ve tried, alright / But it’s killing me inside / Thought you’d be by my side always”.

Outros casos

Não é a primeira vez que se fala em plágio no Festival da Canção. Recorde-se que, em 2018, Diogo Piçarra desistiu do Festival da Canção depois de ter visto o tema que interpretou ser comparado a uma canção religiosa gravada e editada pela IURD. Em 2021, Pedro Gonçalves foi igualmente visado por este tipo de crítica. A canção de sua autoria, “Não Vou Ficar”, soava a algumas pessoas demasiado parecida com “Guilty Conscience”, da artista de hip-hop 070 Shake.

À sombra da alfarrobeira!

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O Bairro da Pampilheira – de que já aqui se falou (por exemplo, na edição do dia 28, p. p.) ­– pode considerar-se privilegiado em termos de espaços verdes, ou seja, daquelas zonas aonde os vizinhos poderão ir passear, respirar e… deitar o coração ao largo.

Na sua zona ocidental, passa o Rio dos Mochos (esta, a designação popular) e houve o cuidado de limpar as suas margens, alindá-las de canteiros floridos, dotá-las de bancos e criar aí um circuito entre a Av. Raul Solnado e a Rua Gomes Leal. Um passeio a não esperdiçar e a permitir a partilha com a muita passarada que aproveita os altos pinheiros, os zambujeiros e as moitas para, inclusive, nidificar. Um nicho ecológico em boa hora devidamente salvaguardado.

Desse lado, Pampilheira ainda se prolonga para norte até à Rua Dr. António Manuel Costa Matos, ainda que à urbanização dessa rua haja sido dado o nome de Jardins de Birre. Birre é para noroeste. Nesse ângulo da Pampilheira existiram pedreiras, de que restam hoje, além das ruínas de duas serrações de pedra, os montes de terra que, ao longo de décadas, a exploração de pedra foi gerando. Já se pensou em aproveitar esse espaço para evocar essa actividade que, dos anos 40 a 70, trouxe enorme riqueza a Cascais. Por enquanto, todo esse espaço está… em repouso!

Na metade oriental da Pampilheira – onde ficam, nomeadamente, o Hospital CUF Cascais e o Centro de Distribuição Postal (ainda que venha ‘Cobre’ nos seus endereços oficiais, nem tudo pode ser perfeito…) – dois espaços atrás dos prédios da Rua Eça de Queiroz, onde se preservaram vetustos pinheiros, foram ajardinados e dotados de bancos, mesas, recipientes para lixo…

Junto à Cozinha com Alma, devido à movimentação dos moradores (recorde-se que, em tempos de António Capucho, aí se quis fazer uma escola de trânsito para a pequenada aprender as regras, a exemplo da Escola de Trânsito da Abóbada), nessa zona se conseguiu um parque infantil, dotado de minipista para as bicicletas da pequenada. Está muito bem.

Para sul, corre o Ribeiro do Cobre, que passa, pois, nas traseiras dos equipamentos colectivos para que se reservou essa área sudeste do bairro residencial: o referido hospital, o Centro de Inspecções, o Centro de Distribuição Postal, a Fábrica de Máscaras do município… É esse ribeiro que limita a Pampilheira do lugar do Cobre e do Bairro Santana. As suas margens estão habitualmente limpas; pelo leito correm, de vez em quando, líquidos que não são propriamente água das chuvas, mas o sítio é ameno, nicho de muita passarada também (há casais de periquitos africanos que por lá estacionam com frequência) e, porventura, um dia, igualmente poderá ser alvo de uma reconversão de lazer.

Há, contudo, um motivo de regozijo maior, determinante, aliás, destas considerações: é que o espaço, até não há muito tempo vago e sem préstimo, junto da Rua Fernão Lopes, entre as oficinas e os prédios, foi reabilitado. Primeiro, ali se criara mui oportuno parque de estacionamento gratuito; e agora, no espaço sobrante, fez-se o arranjo que as fotos documentam. Aplaude-se!

Talvez um que outro ponto de luz ali pudesse ter sido colocado; mas louve-se o desenho, a plantação de espécies autóctones com rega automática e, sobretudo, o realce dada às árvores aí existentes! Exacto! A mostrar que, afinal, em clima dito atlântico, temos vegetação mediterrânica aí! Mantiveram-se os carrascos, os olivões (nome que o povo dá aos oliveirões, as oliveiras bravas, não enxertadas) e… uma alfarrobeira! Quem diria? E é justamente sob ela que se colocaram dois dos bancos! Abençoados! Já no espaço arranjado a poente, por detrás da antiga padaria, se preservara uma figueira e um almecoqueiro!

Em suma: espaços para lazer não faltam (e até temos mais um, junto à Rotunda dos Bombeiros Voluntários, a espreitar os arranha-céus que do lado de lá vão crescendo…). Vamos é torcer para que não falte ânimo para deles, mui serenamente, usufruir!

FESTIVAL DA CANÇÃO 2022, caixinha de surpresas!

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O Festival da Canção 2022 foi uma caixinha de surpresas. A canção vencedora, intitulada “Saudade, Saudade” não era, de todo, a que reunia maior favoritismo. A canção é da autoria de Maro, uma ilustre desconhecida do público. Maro não deu nas vistas… e a canção que escreveu e interpretou também não… até que venceu! Afinal, acabou por arrebatar as duas pontuações máximas (12+12), quer do júri quer do público.

Maro, de seu nome Mariana Secca, de pai italiano, é uma estrangeirada. Estudou e viveu no estrangeiro, nos Estados Unidos. Agora vive em Oeiras.

A canção será uma espécie de tributo a um avô da cantora. Maro vendeu essa ideia, desde a primeira eliminatória. Os portugueses são sensíveis a esse tipo de lamechices. A palavra “saudade” é uma espécie de património imaterial da portugalidade. Apesar do título, a canção é quase toda cantada em inglês.

O refrão:

  Saudade Saudade Nothing more that I can say   Says it in a better way

No YouTube, à hora a que escrevemos esta crónica, o vídeo da canção já ultrapassou meio milhão de visualizações.

POLÍCIAS E PEDREIROS

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Os agentes da PSP sempre se queixaram de ter salários baixos. A perceção que o público tem é que no interior da corporação se vive em permanente tensão. Os índices de suicídios ajudam a essa perceção.

Quem acompanhou o nascimento da sindicalização na PSP, sabe bem que sempre existiu exploração laboral. Horas extraordinárias de trabalho sem pagamento, trabalho em férias e folgas sem remuneração, é o que transpira para fora da PSP. Infelizmente, os sindicatos não conseguiram acabar com isso.

A notícia de hoje diz respeito à intenção do comando distrital da PSP de Faro usar mão-de-obra dos agentes, em trabalhos de construção civil nas instalações da polícia. Ou seja, trabalho não pago, certamente a ser prestado fora das horas de serviço. Costuma chamar-se a isto escravatura.

A ideia será recuperar instalações para albergar as equipas do Corpo de Intervenção que irão ser deslocadas para o Algarve durante o verão.

A ASPP, Associação Sindical dos Profissionais de Polícia, já denunciou publicamente a pretensão do comando distrital de Faro e pediu ao diretor nacional da PSP para repudiar a ideia.

A acomodação dos agentes da PSP deslocados, sempre foi um problema. Muitos dormem em dormitórios nas esquadras, tantas vezes sem condições de salubridade ou de dignidade. A corporação devia abrir concurso público para a manutenção das suas instalações, em todo o país. Transparência e respeito pelas regras na gestão orçamental é o que se exige.

A GUERRA E O CAPITALISMO

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A Rússia ameaça aumentar o preço do seu petróleo e gás. É uma forma de retaliação que não surpreende ninguém, face às dificuldades económicas que lhe estão a ser impostas pelo resto do Mundo. A Europa pensou que bastaria não incluir os combustíveis e derivados nas sanções, para agradar a Moscovo?

A Europa vai sofrer porque as sanções impostas à Rússia afetam igualmente quem as decreta. A questão energética é apenas parte do problema. Afeta o preço dos produtos. Quem paga é o consumidor final, é evidente. Mas há ainda a questão alimentar. A Europa depende de terceiros para ter comida na mesa. O pão, por exemplo. O trigo que usamos vem precisamente da Rússia. O nosso pão alentejano é feito com cereal russo, o que não deixa de ser enternecedor. Ou seja, não há de faltar muito tempo para produtos como carcaça ou pão de forma serem exclusivos de gente rica.

Por mais descidas de impostos sobre os combustíveis que o Governo venha a decidir, o problema não se resolve. O imposto sobre os combustíveis vai ser revisto semanalmente, o que não impedirá o aumento dos preços. Terá apenas um efeito ligeiramente moderador. Se a guerra não parar e a economia não aguentar, pode até acontecer que os governos europeus tenham de passar a controlar administrativamente o preço dos produtos. Uma chatice para os capitalistas…

Media, redes sociais e política: descrédito

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No passado, acreditávamos no que líamos nos jornais ou víamos nas televisões. Hoje, ficamos a pensar se será verdade. E que verdade?

O descrédito nos meios de comunicação é grave, porque precisamos de mensageiros e temos de acreditar na informação que nos trazem, caso contrário perdemo-nos totalmente e deixamos de conseguir comunicar uns com os outros.

Também convém amadurecer a informação que nos chega antes de começar a disparar emoções nas redes sociais. As redes sociais influenciam os media, que influenciam as redes sociais. Tudo isto influencia a política, que já influenciou os media. Andamos numa roda de informações imparciais e falsas que não são toleráveis no mundo desenvolvido.

(opinião publicada igualmente na página do Facebook de Isabela Figueiredo)

VIDA DE ARTISTA

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FBO é uma banda de Cascais que toca em bares e procura preencher a agenda de concertos. Fomos encontrá-los em Mafra, no restaurante-bar Beija-me.

Foi uma conversa sobre a itinerância das bandas musicais que procuram uma oportunidade para brilhar e uma “estreia mundial” do 4º single do 2º álbum da banda, “Podia Ter Dito”.

Manifestação Contra as Mortes nas Prisões Portuguesas

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Manifestação contra as mortes nas prisões portuguesas, realizada dia 12 de março de 2022, em frente ao Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Os manifestantes foram para a rua pedir justiça. Nas cadeias portuguesas, nos últimos 5 anos, morreram 303 reclusos, 66 dos quais foram considerados suicídios. Os restantes, não se sabe. As mortes não são investigadas, dizem os familiares dos reclusos. As autópsias não são divulgadas, dizem eles.

Cabe à Polícia Judiciária investigar as mortes nas cadeias. Todas as mortes. Segundo a APAR, associação portuguesa de apoio ao recluso, das 303 mortes dos últimos 5 anos apenas seis terão sido investigadas.

JARDINS, ESGOTOS E AMBIENTE

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Há uns anos, a autarquia de Mafra teve uma iniciativa interessante. Em vez de autorizar um projeto urbanístico de construção de blocos de apartamentos num terreno no centro da Venda do Pinheiro, comprou o terreno e fez um jardim. Nesse espaço acomodou ainda um estacionamento automóvel, paragens de autocarros de transporte público e escolares. Foi uma obra estruturante para a localidade.

Chamou-lhe Parque Ecológico e Intermodal. O projeto incluiu a reabertura a céu aberto do troço do leito do rio Lizandro. Na pequena biblioteca municipal que foi para ali transplantada, há uma zona dedicada à “interpretação” do rio.

Desencanar o pequeno rio foi bom. A maioria dos habitantes da região nem sonhava que havia ali um rio a passar por baixo das casas. O pior são as descargas poluentes que periodicamente poluem a água e empestam o ar. No passado dia 8, aconteceu mais uma vez. De tal modo que, manhã cedo, já lá andava uma empresa especializada em tratamento de resíduos.

A nosso pedido, a Blueotter prestou o seguinte esclarecimento, por escrito:

“Por solicitação do cliente Águas do Tejo Atlântico (AdTA), do Grupo Águas de Portugal, procedeu-se à limpeza de um descarregador do Parque Ecológico da Venda do Pinheiro. Em particular a aspiração de águas existentes no interior do descarregador, a remoção de areias existentes no interior do descarregador, a lavagem das paredes e do fundo do descarregador, a aspiração das águas provenientes das lavagens e o encaminhamento para destino final licenciado.”

A resposta da Blueotter não explica como aconteceu o derrame do esgoto para o leito do rio. A verdade é que o esgoto está tão próximo do rio que é de supor que, em tempos, os esgotos urbanos seriam vazados diretamente para o Lizandro. Esperemos que já não seja assim.

Até porque o jardim público pode ter algum potencial ecológico. Algumas aves andam por aqui, as pessoas começam finalmente a acarinhar os patos e há uma garça real que volta e meia aparece por aqui… se nos aproximamos ela foge, ainda não merecemos a sua confiança, e como ela tem razão… mas é um pássaro magnífico…

A Garça Real é frequente em Portugal. Vive em zonas húmidas, gosta de água doce mas também frequenta zonas costeiras. Gosta de peixe, mas aqui tem de se contentar com ratos, insetos e caracóis.

Depois da garça real se ir embora, dando uma volta pelo parque, reparamos que há algum lixo espalhado um pouco por todo o lado.

É evidente que quem cuida do jardim apanha o lixo, mas é evidente que o empenho não é grande porque nas zonas onde é preciso fazer alguma ginástica para lá chegar, o lixo permanece dias a fio.

A escola secundária é ali mesmo ao lado, boa parte destes papéis e plásticos deve vir de lá… talvez não fosse má ideia a escola organizar umas sessões de limpeza do parque, englobando essa atividade na disciplina mais relacionada com a natureza… ou com a cidadania.

O ESPETÁCULO DA GUERRA

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Na batelada de jornalistas, repórteres e enviados das televisões portuguesas às bordas da guerra, há gente muito respeitável. Mas não é desses que aqui venho falar.

Depois, há dois ou três que nos mexem com os nervos, combatem a inteligência e perturbam a percepção do conflito.

Do Penim já não vale a pena falar. O RAP encarregou-se, em tempo, do golpe de parricídio.

Mas, por exemplo, é incontornável falar do irritante José Rodrigues dos Santos que achou que a Ucrânia seria um bom palanque para ir para a rua fazer um pouco de storytelling. Nada de jornalismo, só storytelling. Outros lugares, com menor carga de melodrama e menos exposição pessoal, não lhe teriam feito valer a pena levantar o rabiosk da cadeira .

Uma guerra mundial é chata. Mas torna-se insuportavelmente incomodativa se for comentada pelo José Milhazes. O Milhazes sabe tanto de Rússia e União Soviética como eu sei de Avenidas Novas. Ambos andámos por lá, à noite. Eu podia ir à televisão falar durante horas sobre o Quarteto e o Vá-vá. Sem despeito. O Milhazes não, fala com o asco do que lhe ficou atravessado, no goto. E fá-lo com aquele ar de polvo-voador e voz de falsete que me deixa a imaginar que posso apenas estar a ver o “quem quer casar com o agricultor da guerra”.

Milhazes, o escritor, também o jornalista, começa a resposta numa entrevista de televisão com a expressão “ora, nem mais!”, depois de ter começado a resposta anterior com um “ora aí está!”… tantos séculos depois de na Mesopotâmia terem inventado o “media training”, Milhazes ainda aqui vai.

Para mim, o zé-milhazismo é uma ideologia czarevich desprezível. Ponto.

Nos horrores da necrofagia da guerra pode aparecer sempre mais alguém. Chegou entretanto o expectável Pedro Abrunhosa, esse repentista da lucubração. Diz que levou apenas duas horas a fazer aquilo que nunca conseguiu deixar de fazer, poesia épica do estilo “se eu fosse um dia o respirar, e tu perfume de ninguém…” Ele aí está agora, deslumbrado, encandeado com o brilho da solidariedade.

Parece que a TVI abriu o noticiário, hoje, com um cintilante “nariz de cera”. Uma tal pivô da televisão ucraniana, agora entre nós, começou o jornal com duas frases em língua própria para depois entregar à pivot portuguesa, residente, que logo explicou “vejam como esta pivô da televisão ucraniana, agora entre nós, começou o jornal em língua ucraniana…”

Que me perdoem os visados. Valor informativo, nenhum. Mas está aberto o espectáculo da guerra.

(crónica publicada também no Facebook de João Salvado)