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Futebol não é para dar pontapés em jornalistas

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“Estás a filmar para quê? Hem? (grunhidos indecifráveis)… “Que te fodo, caralho! Tás a perceber?”

Este foi o monólogo de um agressor a um repórter de imagem da TVI, depois do jogo com o Moreirense. O Futebol Clube do Porto empatou, os portistas estavam naturalmente chateados, um deles decidiu logo ali expurgar a raiva em vez de ir para casa bater na mulher ou nos filhos.

A agressão aconteceu no exterior do estádio em Moreira de Cónegos, vários repórteres de imagem gravavam a saída do presidente do F.C.Porto, Pinto da Costa aproximou-se de um deles, disse alguma coisa e, nesse momento, o repórter da TVI foi agredido por um dos acompanhantes de Pinto da Costa (que não é nenhum dos que estão com ele nas imagens da aproximação aos repórteres de imagem). Uma coisa sem explicação.

O agressor está identificado, a TVI garante que vai acionar meios legais para que a agressão não passe em branco, este tipo de coisas não devia acontecer em lado nenhum, muito menos à volta de um espetáculo futebolístico, ou lá como queiram chamar a um jogo de futebol. Por enquanto ainda é jogo, embora às vezes pareça combate.

Escola abandonada em Lisboa

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A Escola Secundária Afonso Domingues, em Marvila, Lisboa, foi encerrada em 2010 porque era ali que ia amarrar a terceira ponte sobre o Tejo, uma ponte ferroviária onde iria passar o TGV.

O comboio de alta velocidade nunca foi implementado, a ponte nunca se construiu mas a escola fechou para sempre. Hoje é um escombro.

11 anos depois, continua a ser um bom edifício de paredes sólidas. As portas e janelas é que não aguentaram a iniciativa privada de quem se entretém a pilhar locais abandonados. E muita coisa ficou para trás… muitos armários, material escolar, quadros de sala de aula, instalações elétricas e cablagem de eletrónica, material das oficinas dos cursos profissionais.

O abandono deste equipamento escolar é inaceitável. O abandono do edifício é incompreensível. Não sendo escola poderia ser qualquer outra coisa, poderia servir como centro cultural, centro de saúde, qualquer coisa que ajudasse a melhorar a vida de bairros deprimidos como são Marvila e o Beato, ou até mesmo Chelas, onde vivem cada vez mais pessoas sem emprego.

A escola Afonso Domingues foi inaugurada no início do ano lectivo de 1956, era uma escola ampla, de corredores largos, pé direito alto, além das salas de aula, tinha oficinas e laboratórios, campos de jogos e zonas arborizadas. Fez parte da rede de escolas especializadas em cursos técnico-profissionais das áreas de desenho, electricidade, electrónica, química e mecânica…

Covid-19: zero mortes

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Nas últimas 24 horas não há registo de mortes relacionadas com covid-19. Pela primeira vez em oito meses, Portugal não registou qualquer óbito em 24 horas. O boletim epidemiológico regista mais 196 infetados, 365 doentes internados (mais 17 que ontem) e 91 em unidades de cuidados intensivos (menos sete do que no domingo).

O índice de transmissibilidade (Rt) do coronavírus SARS-Cov-2 subiu para 0,99. Os números anteriores deste indicador, divulgados na sexta-feira, apontavam para um Rt de 0,98.

Portugal está atualmente na terceira fase do plano de alívio das restrições impostas para controlar a pandemia e que prevê uma quarta e última etapa com início a 03 de maio.

No que toca à vacinação, de acordo com o site Our World in Data, Portugal tem 8,08% da população completamente vacinada contra a covid-19, já acima da média total da União Europeia neste indicador, que está em 7,87%.

Os nomes gravados na pedra da igreja

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Um dia, em 2020, o cidadão Lionel Delalleau aproximou o nariz daquelas pedras riscadas e percebeu que se tratava de escrita, que eram nomes em português, nomes de pessoas e nomes de localidades. E desta descoberta fortuita se chegou à conclusão que estavam ali, naquela parede, o testemunho da passagem de soldados portugueses que combateram na I Guerra Mundial.

São vários os nomes gravados naquelas pedras, alguns já estão meio apagados pela erosão da chuva e do vento. Mas outros lêem-se bem: José António Sousa, de Aveiras; MMJ (iniciais) de Alcochete; Fernando Gaio, são os mais fáceis de decifrar.

Blessy nunca foi palco de combates, a aldeia era um local de retaguarda e de treino militar. O Corpo Expedicionário português acampou ali. Naquela parede estão, porventura, os últimos sinais de soldados portugueses mortos em combate.

Outros sobreviveram e até casaram. Há registos dessa época de vários casamentos celebrados naquela igreja de soldados portugueses com mademoiselles francesas. Um português não se podia limitar a fazer riscos nas pedras da igreja…

Foi o caso de José Barbara, soldado mecânico, casou e ficou mesmo por ali. Um neto, igualmente chamado José Barbara, foi um notável piloto de corridas automóveis, bem conhecido em França.

Até agora, em Blessy, da passagem dos portugueses havia apenas os registos do padre que celebrou os casamentos dos soldados com meninas da terra, agora há uma parede da igreja a pedir que olhem com olhos de ver e que transformem aquilo numa atração para turistas que gostem de História.

Aliás, segundo confessou o autarca de Blessy, Jean Marc Furgerot, estas gravações são suficientemente importantes para obrigar a modificar o projeto de renovação que foi delineado para o edifício da igreja. Também o cônsul honorário de Portugal em Lille, Bruno Cavaco, já se comprometeu a zelar pela preservação daquelas pedras gravadas.  

Interessante é também percebermos que aquilo que começou por ser, aos olhos de muitos, um acto de vandalismo, acaba por se tornar num testemunho histórico. Por sorte, não parece haver ali nenhum palavrão…

Igreja de Blessy, Lille, França (imagem Google Maps)

(esta descoberta foi noticiada em primeira mão pelo LusoJornal de França)

25 de abril em Oeiras

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Foi talvez a evocação mais singela deste 25 de abril, mas foi seguramente a mais exemplar. O Movimento Evoluir Oeiras homenageou uma das muitas vítimas anónimas da PIDE, a jovem Olga Maria Alves.

A narração dos factos coube ao jornalista António Perez Metelo que lembrou os trágicos acontecimentos de agosto de 1972. A Olga era então uma estudante de Medicina e estava casada com o colega de Faculdade, Nuno Cunha Porto. Foram ambos presos pela PIDE, em março de 1972, mas a Olga saiu da cadeia logo em maio desse ano. Por estarem casados, passou a poder visitar o marido no Reduto Norte da Prisão de Caxias, onde ele aguardava o julgamento no Tribunal Plenário da Boa Hora.
Numa manhã desse Verão de 72, a Olga tomou um comboio da Linha de Cascais, no Cais do Sodré, acompanhada por uma amiga, que ia, também ela, visitar o companheiro preso. Nessa carruagem entraram cinco PIDES, que iam ‘pegar ao serviço’ em Caxias àquela hora. Ao reconheceram a ex-presa, não pararam de a insultar e provocar com piadas soezes de tipo sexual, bem como com ofensas pessoais contra ela e contra o marido. O assédio manteve-se durante toda a viagem, perante o silêncio dos outros passageiros. A perseguição verbal continuou no apeadeiro da estação de Caxias e a Olga, de cabeça perdida, para livrar-se daquela alcateia de predadores, atravessou a via férrea a correr e é mortalmente colhida pelo rápido que vinha de Cascais e não tinha de parar em Caxias. A Olga teve morte instantânea. Tinha 25 anos.
Os cinco PIDES escapuliram-se logo do local, mas a amiga da Olga, corajosamente, manteve a sua visita, lançando, assim, o alerta aos presos de Caxias acerca da tragédia ocorrida. O Diretor da Cadeia, inspetor da PIDE Parra da Silva, muito alarmado, furtando-se ao seu dever, chamou cobardemente um dos presos para que fosse ele a dar a notícia ao camarada que esperava em vão a visita da sua mulher. Não houve qualquer processo contra os PIDES e a notícia nunca chegou às páginas censuradas dos jornais. Mas a Olga foi hoje lembrada, em Oeiras.

Carlos Matos Gomes, militar de abril, no seu discurso, falou do passado: “as ditaduras são tristes, sombrias, trazem prisões e torturas, guerras e mentiras. Esse era o regime que foi derrubado: um regime de velhos de chapéu e de jovens de camuflado.” E falando do passado acabou por referir os desafios que o futuro apresenta: “o 25 de abril é o futuro. Foi o futuro quando terminou uma guerra absurda e sem fim, foi o futuro quando deu a voz aos portugueses, quando lhes restituiu a soberania. Foi o futuro quando deu direitos às mulheres, aos trabalhadores, às minorias, aos objetores, aos excluídos por motivos de orientação sexual, religiosa ou de origem geográfica. Mas o 25 de abril também foi futuro quando permitiu a continuidade de fenómenos de caciquismo, de prepotência, de má gestão, de corrupção.”

O futuro também foi o mote do discurso de Carla Castelo, palavras mais focadas na realidade da autarquia que o Movimento Evoluir Oeiras pretende alterar: “a liberdade é um pilar fundamental do desenvolvimento, e o desenvolvimento não se pode medir apenas em valores de Produto Interno Bruto, ou de rendimentos per capita. Quem o faz, escolhe não ver as condições de privação de liberdade que são a pobreza, as desigualdades sociais, a degradação ambiental, da saúde e da qualidade de vida, a falta de democraticidade e de envolvimento dos cidadãos na discussão pública sobre questões fundamentais para as suas vidas”, disse a dirigente do Movimento Evoluir Oeiras.

As políticas promovidas pelo movimento foram aqui lembradas: “queremos um concelho que contribua para a redução das emissões de gases com efeito de estufa, que aposte na eficiência energética e nas energias renováveis, que promova a oferta de transporte público, a mobilidade ativa e a adaptação do território e dos edifícios, prevenindo riscos e melhorando o conforto e a saúde.”

“Abril, em plena primavera, é um belíssimo mês para discutirmos como queremos viver e para imaginarmos os futuros possíveis, que queremos criar e deixar às próximas gerações”, finalizou Carla Castelo.

A propósito das vacinas

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grafismo inspirado na capa do Le Monde Diplomatique, edição portuguesa

Sempre evitei opinar sobre matérias que não domino. Na qualidade de médico, para poder falar, com rigor, de uma matéria tão complexa como as vacinas, teria de perder meses. O mesmo não acontece enquanto cidadão, pois adquiri várias certezas inabaláveis, as únicas sobre que me debruço.

E a primeira dessas certezas, já por mim escrito e reescrito, é que, com o desenrolar da Covid-19, cedo ficou evidente o apagamento da comunidade médico-científica, impotente perante a teia montada pela indústria farmacêutica.”

Em março de 2020, já eu denunciava a influência nefasta deste poderoso lóbi, que, entretanto, dera em assumir o controlo da investigação clínica, à escala global. Mais e pior, era flagrante a existência de outras pressões inadmissíveis: sobre poderes políticos e entidades sanitárias, que pareciam insuspeitas; sobre algumas das revistas médicas mais conceituadas do mundo; e, até, pela “compra” de pareceres técnicos a profissionais que, como prostitutas, emitiram teses falsas e colocaram certos procedimentos em dúvida, sem fundamentação válida. A absurda “troca” da baratucha cloroquina, pelo caríssimo rendesivir, com o aval da OMS, é só uma página deplorável de um romance de péssima qualidade.

Mas, falando agora de vacinas, talvez a revelação de uma “inconfidência” de Eva Blinker, Secretária de Estado do Orçamento da Bélgica, nos ajude a compreender alguma coisa.

Os preços que a União Europeia acertou, para a aquisição da vacina da Astrazeneca, foi 1,78 €/cada dose.

Já em relação às outras:

Moderna – 14,7 € (8,25 vezes mais)

Pfizer – 12 € (6,74 vezes mais)

Cure Vac – 10 € (5,61 vezes mais)

Sanofi/GSK – 7,56 € (4,24 vezes mais)

Johnson & Johnson – 6,90 € (3,87 vezes mais)

Será que isto não justifica um tremendo investimento em contrainformação e até no levantamento de obstáculos em diversas instâncias? Será que este “pequeno nada”, de muitos biliões, deve ser menosprezado ao vermos a intolerância de “reguladores” que, em contramão, facilitam a vida aos concorrentes e apontam o dedo aos (raros) efeitos adversos da vacina AstraZeneca, a mais escrutinada de todas? Uma vacina que até é produzida segundo métodos clássicos e de que há um saber mais profundo?

Ainda que só muito ao de leve tenha mergulhado nos “aldrabados” ensaios clínicos das vacinas, e nos seus resultados, é notório para mim, como para toda a gente minimamente informada, que, enquanto as demais têm uma espécie de “livre-trânsito”, o licenciamento da Astrazeneca tem passado por exigências nunca postas às outras.  

Para terminar, e a pretender reforçar a confiança dos portugueses, acrescento que já levei a primeira dose da Astrazeneca e EXIJO, conforme é boa prática médica, que não cometam o disparate de me quererem administrar uma segunda dose de marca diferente.

A comemorarmos um feriado que me é querido, mas que apresenta contornos ainda mais burlescos do que os do ano passado, atrevo-me a concluir: 25 de abril, sempre! Vampiros… nunca mais!..

Sintra: GNR acabou com festa ilegal

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Notícia da agência Lusa: a GNR acabou hoje com uma festa ilegal com mais de 70 pessoas que decorria numa discoteca, em Sintra, no distrito de Lisboa, em desrespeito às regras para combater a pandemia de covid-19, informou a força militar.

Em comunicado, a GNR esclareceu que na sequência de uma denúncia de que a discoteca estaria a funcionar, os militares deslocaram-se de imediato para o local, confirmando tratar-se de uma festa ilegal.

“No decorrer da ação, foi desencadeada uma operação policial para identificar as pessoas que se encontravam presentes e cessar o evento, tendo sido possível identificar 71 cidadãos em incumprimento do dever geral de recolhimento domiciliário”, referiu a nota.

Ainda segundo a GNR, foram levantados os respetivos autos de contraordenação e apreendidas 22 doses de haxixe e cinco doses de metanfetaminas.

As autoridades identificaram ainda o proprietário da discoteca, um homem de 33 anos, tendo os factos sido remetidos ao Tribunal Judicial de Sintra.

Deputado Ventura julgado por ofensas

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Diz a notícia que André Ventura vai ser julgado no próximo dia 10 de maio. A queixa foi apresentada por uma família que se sentiu ofendida quando o deputado Ventura, então candidato Ventura à Presidência da República, no debate com Marcelo Rebelo de Sousa na SIC, exibiu uma fotografia de Marcelo no bairro da Jamaica e disse que o Presidente tinha ido visitar a “bandidagem”.

Recordando as palavras do deputado Ventura: “gostava de mostrar ao candidato Marcelo Rebelo de Sousa esta fotografia e gostava de lhe perguntar se ele se recorda desta fotografia. Ora, nesta fotografia o candidato Marcelo Rebelo de Sousa juntou-se com bandidos, um deles é um bandido verdadeiramente, que tinham atacado uma esquadra policial, e quando o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi ao bairro da Jamaica foi visitar os bandidos, não foi visitar as polícias…”, ao que Marcelo respondeu que ninguém tinha sido julgado ou condenado pelos alegados factos mencionados pelo candidato Ventura e, ainda, que um Presidente da República deve agregar e não dividir e não deve, também, atribuir aprioristicamente bondades ou maldades seja a quem for.

Ventura insistiu na injúria, acrescentou ainda que “esta fotografia não engana, porque esta fotografia não foi tirada depois na esquadra de polícia, foi tirada só, entre aspas e vão-me desculpar a linguagem, foi tirada à bandidagem.”

Pois, os injuriados pensam que bandido terá sido o deputado Ventura, em mais um eventual crime de racismo, com intuito de humilhar as pessoas negras que vivem em bairros sociais, com o objetivo de ganhar popularidade eleitoral.

Segundo a notícia, a defesa não exige indemnizações nem penas pesadas ao injuriador. Apenas que se retrate publicamente. Isto é, que peça desculpa.

25 de Abril: calados que nem ratos!

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Nada fazia prever a vitória do Movimento dos Capitães. O capitão Armando Ramos e a sua coluna das Caldas da Rainha tinham sido aprisionados em 16 de Março. Um mês e pouco antes do 25 de Abril, quando se dirigiam para Lisboa, para derrubar a ditadura.

Os capitães de Abril insistiram e o capitão Salgueiro marchou sobre a Praça do Comércio, em Lisboa, onde ficavam todos os ministérios importantes.

Mas o confronto decisivo deu-se na Rua do Arsenal, a caminho do Cais do Sodré, quando apareceram os poderosos tanques M47. Tanques contra os chaimites.

Salgueiro Maia enviou o tenente Alfredo Assunção para dialogar com os representantes das forças leais ao regime ditatorial. Comandadas pelo brigadeiro Junqueiro dos Reis.

O brigadeiro recusou o diálogo e deu ordem ao cabo apontador José Alves da Costa para disparar. Mas ele não disparou. Repetiu e ele não disparou. Se o tivesse feito os estragos seriam terríveis, por causa das potentes munições dos tanques M47.  Teria assim acabado a revolução e Salgueiro Maia e muitos dos seus homens morreriam de imediato na Rua do Arsenal.

A Praça do Comércio teria ficado arrasada com os tiros dos M47. E o Salgueiro Maia não seguiria para o Largo do Carmo para prender Marcelo Caetano.

Má sorte seria! Agora ainda veríamos tv a preto e branco e compraríamos fiado na mercearia. E calados que nem ratos. Sem autorização sequer para  falarmos mal de nós próprios!

heróis esquecidos

Valeu sempre a pena, o 25 de 74

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Vivi o meu 25 de Abril a ser acordado ao som fanhoso de um transistor AIWA que o meu pai me dera como se hoje fosse um iPOD de grande companhia. Ouvia nele as músicas da época que soavam de fora, um modernismo ruidoso ou muitos sucessos da música portuguesa, principalmente canções, já que as proibidas ouvia em casa de amigos mais velhos que conspiravam.

“Um e dois e três era uma vez um soldadinho…” Eu tinha 19 anos, já tinha a mania que era fotógrafo, fazia curtas metragens com uma Beaulieu Super 8, uma câmara que alguns profissionais underground usavam em França. Saí de casa para ver os soldados passar. Levei primeiro a máquina fotográfica, uma Nikon F com uma objectiva normal, comprada por mim com o meu primeiro ganho, como desenhador. Eu era estudante de Belas-Artes e queria ser, como fui, arquitecto.

Nunca tinha vivido um sobressalto daqueles. Lisboa era então uma cidade agitada pois, ao contrário de hoje, não era um museu urbano, mas um organismo mantido vivo e vibrante, por trabalho, cultura, cinema de autor, teatro alternativo, bares e casas de putas, bêbados e jornalistas, miúdas de mini-saia, carros pretos e autocarros de dois andares. Eram muitos os signos daquela Lisboa diversa. Tenho saudades dessa cidade.

O 25 de Abril foi a festa que sabemos e vivemos, que logo se tornou confuso quando o Spínola apareceu na RTP a apadrinhar a revolta dos bravos soldados e dos corajosos capitães, num timbre de voz que fazia adivinhar um novo-velho regime. Depois a revolução ganhou asas e voou e o povo na rua tomou conta da festa, brava no entusiasmo e louca na infantilidade política. Mal sabíamos então que os filhos daquele povo, e os netos, viriam anos mais tarde a encafuarem-se meses e meses em casa, obedientes, medrosos, por causa de um vírus vindo da China, depois de se terem acalentado ao vírus mortal do déficit, que poucos anos antes trouxe o FMI em vez do MFA!

Como fotógrafo perdi muito facto, era um puto que fotografava mas a minha objectiva não apanhava tudo, aliás impossível, tanta era a confusão e a catadupa de acontecimentos. Vi os soldados a desviarem autocarros para a margem Sul, vi o assalto à Embaixada de Espanha, vi o povo como um rio no 1º de Maio de 74, onde toquei Soares e Cunhal no Estádio da alegria no trabalho.

A reconquista da Liberdade depois do 25 de Novembro foi tramada, e a consolidação da dita democracia ainda mais tramada. Um tempo cheio de dramas. A morte de Sá Carneiro na queda da avioneta em Camarate, onde estive, as bombas do MDLP, mais tarde os crimes das FP 25 nunca julgados e que deixaram livres os criminosos de 17 crimes de sangue.

Hoje Portugal avançou mas também recuou muitos passos atrás. Temos 3 milhões de pobres, muitos deles trabalham, outros estão reformados a patacos, a democracia está refém dos que manobram os vários poderes à volta da política. Vivemos hoje um regime mais decadente do que aquele que caiu na rua em Abril de 74. Mas o 25 de Abril valeu a pena se a alma não for pequena.

fotografia de Luiz Carvalho