Valeu sempre a pena, o 25 de 74

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Vivi o meu 25 de Abril a ser acordado ao som fanhoso de um transistor AIWA que o meu pai me dera como se hoje fosse um iPOD de grande companhia. Ouvia nele as músicas da época que soavam de fora, um modernismo ruidoso ou muitos sucessos da música portuguesa, principalmente canções, já que as proibidas ouvia em casa de amigos mais velhos que conspiravam.

“Um e dois e três era uma vez um soldadinho…” Eu tinha 19 anos, já tinha a mania que era fotógrafo, fazia curtas metragens com uma Beaulieu Super 8, uma câmara que alguns profissionais underground usavam em França. Saí de casa para ver os soldados passar. Levei primeiro a máquina fotográfica, uma Nikon F com uma objectiva normal, comprada por mim com o meu primeiro ganho, como desenhador. Eu era estudante de Belas-Artes e queria ser, como fui, arquitecto.

Nunca tinha vivido um sobressalto daqueles. Lisboa era então uma cidade agitada pois, ao contrário de hoje, não era um museu urbano, mas um organismo mantido vivo e vibrante, por trabalho, cultura, cinema de autor, teatro alternativo, bares e casas de putas, bêbados e jornalistas, miúdas de mini-saia, carros pretos e autocarros de dois andares. Eram muitos os signos daquela Lisboa diversa. Tenho saudades dessa cidade.

O 25 de Abril foi a festa que sabemos e vivemos, que logo se tornou confuso quando o Spínola apareceu na RTP a apadrinhar a revolta dos bravos soldados e dos corajosos capitães, num timbre de voz que fazia adivinhar um novo-velho regime. Depois a revolução ganhou asas e voou e o povo na rua tomou conta da festa, brava no entusiasmo e louca na infantilidade política. Mal sabíamos então que os filhos daquele povo, e os netos, viriam anos mais tarde a encafuarem-se meses e meses em casa, obedientes, medrosos, por causa de um vírus vindo da China, depois de se terem acalentado ao vírus mortal do déficit, que poucos anos antes trouxe o FMI em vez do MFA!

Como fotógrafo perdi muito facto, era um puto que fotografava mas a minha objectiva não apanhava tudo, aliás impossível, tanta era a confusão e a catadupa de acontecimentos. Vi os soldados a desviarem autocarros para a margem Sul, vi o assalto à Embaixada de Espanha, vi o povo como um rio no 1º de Maio de 74, onde toquei Soares e Cunhal no Estádio da alegria no trabalho.

A reconquista da Liberdade depois do 25 de Novembro foi tramada, e a consolidação da dita democracia ainda mais tramada. Um tempo cheio de dramas. A morte de Sá Carneiro na queda da avioneta em Camarate, onde estive, as bombas do MDLP, mais tarde os crimes das FP 25 nunca julgados e que deixaram livres os criminosos de 17 crimes de sangue.

Hoje Portugal avançou mas também recuou muitos passos atrás. Temos 3 milhões de pobres, muitos deles trabalham, outros estão reformados a patacos, a democracia está refém dos que manobram os vários poderes à volta da política. Vivemos hoje um regime mais decadente do que aquele que caiu na rua em Abril de 74. Mas o 25 de Abril valeu a pena se a alma não for pequena.

fotografia de Luiz Carvalho

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