25 de abril em Oeiras

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Foi talvez a evocação mais singela deste 25 de abril, mas foi seguramente a mais exemplar. O Movimento Evoluir Oeiras homenageou uma das muitas vítimas anónimas da PIDE, a jovem Olga Maria Alves.

A narração dos factos coube ao jornalista António Perez Metelo que lembrou os trágicos acontecimentos de agosto de 1972. A Olga era então uma estudante de Medicina e estava casada com o colega de Faculdade, Nuno Cunha Porto. Foram ambos presos pela PIDE, em março de 1972, mas a Olga saiu da cadeia logo em maio desse ano. Por estarem casados, passou a poder visitar o marido no Reduto Norte da Prisão de Caxias, onde ele aguardava o julgamento no Tribunal Plenário da Boa Hora.
Numa manhã desse Verão de 72, a Olga tomou um comboio da Linha de Cascais, no Cais do Sodré, acompanhada por uma amiga, que ia, também ela, visitar o companheiro preso. Nessa carruagem entraram cinco PIDES, que iam ‘pegar ao serviço’ em Caxias àquela hora. Ao reconheceram a ex-presa, não pararam de a insultar e provocar com piadas soezes de tipo sexual, bem como com ofensas pessoais contra ela e contra o marido. O assédio manteve-se durante toda a viagem, perante o silêncio dos outros passageiros. A perseguição verbal continuou no apeadeiro da estação de Caxias e a Olga, de cabeça perdida, para livrar-se daquela alcateia de predadores, atravessou a via férrea a correr e é mortalmente colhida pelo rápido que vinha de Cascais e não tinha de parar em Caxias. A Olga teve morte instantânea. Tinha 25 anos.
Os cinco PIDES escapuliram-se logo do local, mas a amiga da Olga, corajosamente, manteve a sua visita, lançando, assim, o alerta aos presos de Caxias acerca da tragédia ocorrida. O Diretor da Cadeia, inspetor da PIDE Parra da Silva, muito alarmado, furtando-se ao seu dever, chamou cobardemente um dos presos para que fosse ele a dar a notícia ao camarada que esperava em vão a visita da sua mulher. Não houve qualquer processo contra os PIDES e a notícia nunca chegou às páginas censuradas dos jornais. Mas a Olga foi hoje lembrada, em Oeiras.

Carlos Matos Gomes, militar de abril, no seu discurso, falou do passado: “as ditaduras são tristes, sombrias, trazem prisões e torturas, guerras e mentiras. Esse era o regime que foi derrubado: um regime de velhos de chapéu e de jovens de camuflado.” E falando do passado acabou por referir os desafios que o futuro apresenta: “o 25 de abril é o futuro. Foi o futuro quando terminou uma guerra absurda e sem fim, foi o futuro quando deu a voz aos portugueses, quando lhes restituiu a soberania. Foi o futuro quando deu direitos às mulheres, aos trabalhadores, às minorias, aos objetores, aos excluídos por motivos de orientação sexual, religiosa ou de origem geográfica. Mas o 25 de abril também foi futuro quando permitiu a continuidade de fenómenos de caciquismo, de prepotência, de má gestão, de corrupção.”

O futuro também foi o mote do discurso de Carla Castelo, palavras mais focadas na realidade da autarquia que o Movimento Evoluir Oeiras pretende alterar: “a liberdade é um pilar fundamental do desenvolvimento, e o desenvolvimento não se pode medir apenas em valores de Produto Interno Bruto, ou de rendimentos per capita. Quem o faz, escolhe não ver as condições de privação de liberdade que são a pobreza, as desigualdades sociais, a degradação ambiental, da saúde e da qualidade de vida, a falta de democraticidade e de envolvimento dos cidadãos na discussão pública sobre questões fundamentais para as suas vidas”, disse a dirigente do Movimento Evoluir Oeiras.

As políticas promovidas pelo movimento foram aqui lembradas: “queremos um concelho que contribua para a redução das emissões de gases com efeito de estufa, que aposte na eficiência energética e nas energias renováveis, que promova a oferta de transporte público, a mobilidade ativa e a adaptação do território e dos edifícios, prevenindo riscos e melhorando o conforto e a saúde.”

“Abril, em plena primavera, é um belíssimo mês para discutirmos como queremos viver e para imaginarmos os futuros possíveis, que queremos criar e deixar às próximas gerações”, finalizou Carla Castelo.

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