Início Site Página 365

Escritor Luís Cardoso vence Prémio Oceanos

0

É o primeiro prémio literário atribuído a um escritor timorense. Luís cardoso diz que este prémio vai contribuir para dar visibilidade a uma literatura que ainda só está a dar os primeiros passos.

O nome dos premiados foi hoje anunciado numa cerimónia via internet, com discursos no Youtube, da qual apresentamos aqui um resumo.

O Prémio Oceanos 2021, organizado no Brasil, destaca anualmente as melhores obras publicadas em língua portuguesa.

Segundo o vencedor do Oceanos 2021, as abóboras mencionadas no título “O Plantador de Abóboras” e no romance funcionam como uma metáfora sobre Timor-Leste, que ainda se sustenta da exploração de petróleo, mas precisa voltar a produzir e a plantar uma alternativa de riqueza sustentável.

A propósito desta obra, Duas Linhas entrevistou Luís Cardoso, em julho passado, em Oeiras, onde o escritor reside.

Cinema do Agapito é um supermercado

3

O negócio está primeiro e só depois virá a cultura. É o que atesta claramente o supermercado do Pingo Doce na Rua da Graça, em Lisboa, que devorou o antigo Royal Cine. Toca a comer melões, sentados em casa no sofá de olhos colados na TV!

O atual supermercado era uma bela sala de cinema com 900 lugares, mandado construir por Agapito Serra Fernandes um galego da alimentação e restauração. Agora pertence à quinta maior empresa importadora portuguesa, que não exporta nada. Ao contrário da auto europa que é o quarto maior importador e ao mesmo tempo o maior exportador nacional.

O Royal Cine foi inaugurado em 1929 no local onde onde existiu o ascensor da Graça. Essa ideia já foi má. Mas pior foi quando o cinema fechou em 1976 para mais tarde se ser esventrado para se tornar num supermercado. Sobrou a fachada e pouco mais.

Agapito Serra Fernandes já tinha construído o bairro operário Estrela Vermelha, que felizmente não foi transformado num vulgar hotel.
O galego seria maçom e por isso espalhou estrelas vermelhas por todo o Bairro da Graça.
E pôs duas colunas gigantes à entrada do Royal Cine com o riso e o choro. Ou seja o Sol e a Lua. Agapito Serra Fernandes gabou-se de ser o primeiro a projectar “As Sombras Brancas nos Mares do Sul”, um filme de som síncrono de W. S. Van Dyck, em 1930.

Onde estava o Royal Cine e onde poderíamos ter cultura… vendem-se agora melões do Chile, papaia do Brasil, ameijoas do Vietname.

A poluição dos carros elétricos

0

Um dos principais problemas ainda por resolver para uma efetiva descarbonização da mobilidade automóvel está na indústria. E em muitos aspetos da construção de um carro, os modelos elétricos provocam mais poluição que os carros com motores de combustão.

Esta confissão foi feita pela Volvo Cars, empresa sueca que tem feito um grande investimento para se adaptar aos elétricos e que pretende deixar de produzir carros com motores de combustão a partir de 2030.

A Volvo fez um estudo que incidiu sobre os seus próprios modelos, principalmente tendo o XC 40 como principal alvo. O estudo analisa o ciclo de vida de alguns dos modelos da Volvo e, no caso do XC 40 comparando com o CX 40 Recharge, as conclusões são interessantes.

No que diz respeito à produção destes dois veículos, o XC 40 Recharge tem uma pegada ecológica apenas ligeiramente inferior que a do XC 40 combustão. Para compensar, o veículo elétrico precisa de ultrapassar os 110 mil kms de serviço. Só a partir desse ponto passa a ser verdadeiramente benéfico. Mas quando chegar aos 200 mil kms (que está considerado como fim de vida para o veículo), o elétrico terá gerado apenas menos 15% de carbono que o modelo a combustão.

Onde o veículo elétrico polui mais não é, evidentemente, no dia-a-dia, na circulação rodoviária. O principal problema está nas baterias de iões de lítio. Estas baterias obrigam a uma mineração muito poluidora, a uma refinação igualmente danosa para o ambiente e a uma reciclagem que ainda ninguém sabe bem se será possível de executar.

Ou seja, o benefício de se conduzir um carro elétrico não é verdadeiro, enquanto a industria continuar a poluir e a reciclagem das baterias não se fizer.

mina de lítio

O Acidente de Camarate – 3

0

6 – LIVROS SOBRE CAMARATE

Todos os livros editados defendem a “tese do atentado”.

O último porém, constitui uma análise minuciosa dos milhares de páginas que, ao longo de tantos anos, foram escritos sobre este tema e desmonta esta espécie de armadilha que se tem querido impingir ao povo português, tentando convencê-lo de estratégias de atentado, que nunca tiveram uma base sólida nem nunca foram provadas.

O título do livro “O Grande Embuste”, só por si, diz tudo, e eu acrescento o seguinte:

Na tarde do dia do acidente, o Comandante Inácio Passos, disse-me que tinha vindo “cá abaixo” para transportar o Primeiro-Ministro para o Porto no seu Cessna 414, novo, oferecido aos distintos passageiros pela RAR (Refinarias de Açúcar Reunidas). Por outro lado, um avião da TAP saía de Lisboa para o Porto à mesma hora e, finalmente, havia também o Cessna 421 venezuelano, velho, repleto de avarias e SEM SEGURO.~

Estavam, pois, três aviões à disposição da ilustre comitiva.

Como poderiam os sabotadores saber que avião tomaria Sá Carneiro, se os próprios pilotos só disso foram informados em cima da hora? Estariam preparados para instalar bombas em três aviões diferentes? E como poderiam entrar no Aeroporto de Lisboa e penetrar no “lado ar” com armas e bagagens? Por ali só poderiam passar pilotos e técnicos de aviação minuciosamente revistados. E como poderiam deslocar-se dentro do “lado ar”, se só viaturas oficiais fornecidas pelas operações do aeroporto com motoristas seus, podiam ali circular? Passar para esse lado era, e é, como atravessar a fronteira. Naquela época, antes da entrada em vigor do Tratado Schengen, as exigências para deixar alguém passar para o lado ar eram ainda mais rigorosas.

7 – FACTOR FADIGA

Da parte da tripulação houve, claramente, falta de rigor no cumprimento dos procedimentos operacionais e graves erros e omissões na solução da situação de emergência com que se confrontou; mas há uma razão de fundo para justificar esta actuação: a tripulação encontrava-se em estado de FADIGA EXTREMA.

Em condições normais, o Comandante Jorge Albuquerque não teria sequer aceitado fazer este voo. Tinha trabalhado muito nos dias anteriores, tinha aterrado nesse dia depois das 3 da manhã, num voo no qual experimentou falhas e paragem de motores. Se esta tripulação pertencesse aos quadros de uma empresa, seria obrigada a respeitar o tempo mínimo de repouso e o avião não teria sido autorizado a voar nas condições técnicas em que aterrou.

Já da parte da entidade que escolheu e planeou o transporte da comitiva neste avião, não parece existir explicação plausível, uma vez que o estado do Cessna 421 venezuelano era conhecido de todas as pessoas que, naquela época, trabalhavam em aviação geral.

8 – SABOTAGEM

Qualquer um pode defender que a morte destas altas individualidades foi devida a uma sabotagem perpetrada por criminosos e/ou que maléficas forças estranhas, ainda que nunca identificadas, influenciaram ou provocaram o trágico desfecho que conhecemos. Mas o que não pode ser ignorado é que, quando o motor crítico de um avião com as características do Cessna 421, pára à descolagem e não são seguidos os procedimentos adequados, as várias resistências aerodinâmicas surgidas, principalmente a combinação do torque e do factor P (assimetria), não conseguem ser vencidas com a potência do único motor que resta. São fenómenos explicados através de princípios da Física, princípios imutáveis, isto é, são “factos e não opiniões”!

9 – CONCLUSÃO

O acidente de Camarate começou a desenhar-se muito antes de ter ocorrido.

Dada a quantidade de anomalias graves de que o avião padecia, todas elas classificadas de “NO GO” (não vá voar!), aquele Cessna 421 A “Golden Eagle” deveria estar terminantemente proibido de voar.

Se fôssemos fazer agora uma investigação do acidente, com o rigor do GPIAA (Gabinete de Investigação e Prevenção de Acidentes) e seguíssemos todas as fases da investigação, ou seja, a Informação Factual, a História do Voo, a Análise, as Conclusões e Recomendações de Segurança, chegaríamos à conclusão de que não foram respeitados os procedimentos de “antes da descolagem”; não se verificou a quantidade combustível a bordo nem a sua distribuição; a descolagem foi feita NÃO a partir do princípio da pista de serviço, como deveria ter sido, mas a partir de uma posição em que foi desperdiçado mais de metade do seu comprimento; aquando da paragem do motor crítico, o hélice deste motor não foi posto em “bandeira” e, finalmente, houve engano na seleção da válvula do combustível que foi posta erradamente na posição “OFF”, desligada, o que impediu que o motor esquerdo, alimentado através dos tanques da asa contrária, tivesse arrancado para, no derradeiro momento, salvar a situação.

Verificaram-se, portanto, erros humanos em cadeia (Human Factors); houve falta de coordenação, NÃO tendo o piloto à direita (monitoring pilot) servido como barreira de segurança para interromper a sucessão de erros cometidos.

Esta sucessão de falhas e de omissão de procedimentos que deu origem ao acidente, foi confirmada não apenas por peritos nacionais, como os que fizeram os relatórios da DGAC, mas também por peritos vindos, expressamente, de fora como o da Cessna, pelo investigador independente de acidentes de aviação, Mr. Eric Newton, pelo professor da Universidade de Edimburgo, Mr.J.K. Mason, pelo Armed Forces Institute of Pathology, pelos peritos da National Transportation Safety Board e por outras prestigiadas personalidades do mundo aeronáutico internacional.

Podemos, por fim, evocar a memória de sábios para quem a conclusão de que esta tragédia não resultou de um atentado mas sim de um acidente, seria óbvia. Refiro-me, em especial, a Sir Isaac Newton, a Jacob Bernouli e a Gaspar Coriolis.

Victor Brito

Link para a 1ª parte deste artigo

Link para a 2ª parte deste artigo

Isaltino Morais melhora

0

O presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, internado com covid-19 no Hospital CUF Tejo, saiu da Unidade de Cuidados Intermédios.

Isaltino Morais está, agora, num quarto de enfermaria e, segundo divulgou a autarquia, apresenta “melhorias no seu estado de saúde”.

Em comunicado, a autarquia refere que  todas as pessoas com quem Isaltino Morais manteve contactos próximos nos dias anteriores a ser internado foram devidamente avisadas.

“Foram testadas 28 pessoas, tendo todas tido resultado negativo”, refere a nota que estamos a citar.

Boletim covid

Portugal registou hoje mais 14 mortos associados à covid-19 e mais 2.216 infeções, revela o boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Segundo a DGS, aumentou o número de pessoas internadas com a doença nas últimas 24 horas: são hoje 948 (mais 37 do que no domingo) e 135 delas estão em unidades de cuidados intensivos (mais uma).

A maior parte dos novos casos foi diagnosticada na região Norte (683), seguindo-se a região de Lisboa e Vale do Tejo (662), o Centro (480), o Algarve (218) e o Alentejo (50).

Das 14 mortes, cinco ocorreram na região do Algarve, quatro em Lisboa e Vale do Tejo, três na região Norte e duas na região Centro.

Supremo confirma condenação de Ventura

0

O Supremo Tribunal de Justiça confirmou a condenação de André Ventura por segregação racial. A decisão diz respeito aos insultos proferidos pelo deputado Ventura contra uma família residente no bairro da Jamaica, no Seixal.

André Ventura não aceitou a decisão da 1ª instância, recorreu e tem vindo a perder em todos os tribunais de recurso. Agora chegou ao Supremo. Falta-lhe recorrer para algum tribunal internacional. Como o partido a que preside vive de subsídios estatais (como todos os outros partidos), dinheiro para os recursos não lhe faltam. E tempo também não.

A cena dos insultos aconteceu durante um debate com Marcelo Rebelo de Sousa, na campanha para as presidenciais. Ventura lembrou-se de exibir uma fotografia onde se vê Marcelo com alguns residentes do bairro da Jamaica, quadro que serviu para Ventura dizer que Marcelo tirava fotografias com “bandidos”.

É assim que André acaba de se juntar ao rol dos condenados pela justiça portuguesa. Se alguém lhe chamar bandido, talvez nenhum tribunal leve a mal.

E qual é a sentença que tanto incomoda Ventura? Por decisão do tribunal, tem de pedir desculpa publicamente à família insultada. Tem de dizer, “desculpem-me”.

Caos no aeroporto de Lisboa

4

Os protestos são motivados pela discriminação que as pessoas sentem. Nenhum passageiro proveniente de países europeus com índices de pandemia muito elevados é sujeito a um tratamento semelhante a este que é proporcionado a quem vem de fora da Europa.

Ontem aterrou um avião com cerca de 280 passageiros, proveniente de Moçambique. Antes de embarcar as pessoas foram obrigadas a fazer um teste e, à chegada a Lisboa, obrigadas a fazer um segundo teste.

Os testes são pagos pelo bolso de cada um. Quem não tem dinheiro, não passa a alfândega.

Famílias com dois ou três filhos gastam uma fortuna em testes. A duplicação dos testes, à entrada e à saída do avião é um absurdo. Não tem nenhuma justificação. Até porque estas pessoas ficam sujeitas a uma quarentena de 14 dias.

Entretanto já há uma petição pública para obrigar à reposição dos voos regulares com Maputo, onde se contestam os pressupostos que levaram a fechar fronteiras com 7 países africanos, um dos quais Moçambique.

Nas redes sociais, grassa a revolta. O empresário Nuno Rocha, por exemplo, diz sentir vergonha em ser português. E faz as contas a uma viagem num voo humanitário, a 1800 euros por cabeça e a 200 euros em testes à entrada e saída do avião, para uma família de 5 pessoas.

Outro viajante, mais famoso, de nacionalidade moçambicana, diz já ter sofrido muito em vários aeroportos, mas nada que se pareça com o que lhe aconteceu agora em Lisboa…  algo a que ele chamou “desorganização tão bem organizada”.

Dois depoimentos que devem ser lidos na íntegra, por todos nós, mas principalmente por quem tem a capacidade de emendar o que está a ser mal feito.

Tony Carreira contra segredo de justiça, no caso da morte da filha

0

Um ano depois da morte da filha, Tony Carreira deixou um desabado no Facebook, onde critica a justiça portuguesa.

Com 1 milhão de seguidores no Facebook, Tony partilhou a sua estranheza pelas investigações ao acidente que vitimou a filha Sara continuar em segredo de justiça.

“Já sei que não é normal acidentes de viação estarem em segredo de justiça e até me foi dito que tal ajudaria a proteger a investigação. Verifico hoje que não, e é minha convicção de que tal só serviu para ‘esconder’ uma investigação demorada e sobre a qual tenho pouquíssima informação ao fim de um ano!”, diz Tony Carreira.

Facebook de Tony Carreira

O cantor relata que tentou falar com a procuradora que tem o caso, no Tribunal de Santarém, mas que a referida senhora não o quis receber.

“Respeitando que tenham mantido o processo em segredo de justiça, deparo-me agora com muitas noticias sobre o caso, com informações detalhadas que, caso venham a ser verdade, mancham mais uma vez a justiça portuguesa”, escreve Tony Carreira, referindo-se a notícias que surgiram no Diário de Notícias e que, de certo modo, diminuem a eventual culpa que pode caber a Ivo Lucas, o namorado de Sara Carreira e que conduzia o carro.

Na verdade, poucos acreditam que o veículo iria a 128 km/h. Olhando para o estado em que o carro ficou. Mas vai ser preciso que o relatório seja tornado público.

O acidente de Camarate – 2

1

4 – A ENTIDADE OPERADORA

Não conhecemos em que condições o avião foi contratado nem que “negócio” foi feito por quem encomendou este voo, mas sabemos que em Portugal não havia, então, nenhuma empresa certificada para transportar passageiros, tipo charter ou táxi aéreo. O transporte aéreo de passageiros era prerrogativa exclusiva da SATA e da TAP. Quando muito, uma empresa de outro sector de actividade (caso da RAR), ou um simples cidadão, poderiam adquirir um avião e utilizá-lo para seu próprio serviço, ceder os seus serviços gratuitamente a alguém mas não o poderiam alugar, pois só em 1984, quatro anos depois, foi liberalizado o transporte aéreo no nosso país. Por este motivo, a operação deste avião foi feita sem o apoio operacional, técnico, organizativo e de segurança próprio de uma empresa de transporte aéreo; isto é, não dispunha de qualquer estrutura de apoio atrás de si. Era um voo “PIRATA” feito num avião não menos pirata.

5 – PREPARAÇÃO DO VOO, ARRANQUE, ROLAGEM E DESCOLAGEM

O comandante do avião, chegado ao aeroporto de Lisboa, cerca de 30 minutos antes do ETD (Estimated Time of Departure – tempo estimado da partida), decidiu esperar pelos passageiros antes de passar para “o lado ar”, onde o avião se encontrava e onde a inspeção antes do voo deveria ter sido feita.

O primeiro passageiro a chegar ao aeroporto foi o Dr. Sá Carneiro, que ficou na sala de VIP à espera do Dr. Amaro da Costa. O comandante deslocou-se, então, para o parque Delta, onde o avião estava estacionado, mas os passageiros chegaram apenas cinco minutos depois. Ora, uma inspecção daquele avião, com dezenas de itens a cumprir, demora muito mais tempo.

Era de noite, estava frio, 6º C, e a iluminação no parque Delta era muito fraca, quase inexistente. Não havia nenhum técnico em terra para assistir à saída do avião.

Para verificar visualmente a quantidade do combustível a bordo era necessário subir com um escadote, pois os tanques principais (tip tanks), estão a cerca de 2 metros de altura e, sendo de noite, era preciso utilizar uma lanterna e uma vareta medidora. Sabemos que não havia vareta.

Entrados os passageiros, procedeu o piloto, de imediato, ao arranque do motor direito, que só pegou ao fim de várias tentativas. Iniciou depois o arranque do motor esquerdo, tendo esgotado a bateria sem conseguir que ele pegasse. E, não havendo ninguém por perto para o ajudar, pediu, através do rádio, que a TAP lhe emprestasse um gerador de corrente eléctrica, única maneira de continuar as tentativas de arranque.

Aguardou pela chegada do gerador e lá conseguiu, ao fim de mais 20 minutos de tentativas, fazer pegar o motor esquerdo, embora com um funcionamento irregular e, segundo o mecânico da TAP que ligou o gerador ao avião, sempre a falhar!

O piloto pediu à torre autorização para iniciar a rolagem e descolar imediatamente.

Tinham, entretanto, passado 35 minutos com os passageiros dentro de um pequeno avião sem aquecimento. O comandante, preocupado com o atraso e muito provavelmente pressionado pelos seus passageiros, aproveitou o tempo de espera até que o gerador chegasse, para saber, através da torre, se o avião da TAP, a sair para o Porto àquela mesma hora, ainda tinha reserva para os seus passageiros. Era evidente que se encontrava, psicologicamente, em estado de stress, sentia-se inseguro. Nenhum piloto gosta de voar um avião cujos motores não pegam à primeira.

Descolou de imediato, NÃO a partir do início da pista de serviço, pista 36, como seria normal, mas a partir da interceção desta com um caminho de acesso. O piloto, muito fatigado pelo esforço feito nos últimos dias e naquele próprio dia, com o seu ego em baixo, precisava de mostrar que era profissionalmente competente, não queria atrasar ainda mais a saída e, para poupar tempo, prescindiu de fazer o aquecimento do motor nº 1 e executou uma descolagem do tipo “rolling take off”, recolheu o trem e experimentou a paragem do motor esquerdo, isto é, do motor crítico.

A partir deste momento, não dispondo de pista suficiente para abortar a descolagem, deveria ter confirmado que o motor direito estava à potência máxima, ter colocado o hélice do motor esquerdo em “bandeira” e selecionado os flaps para a posição UP, mantendo, ao mesmo tempo, a velocidade Vy, a que assegura a melhor razão de subida com um dos motores parado e mantendo a direcção da pista. Mas, esperançado de que ainda estava a tempo de retomar a marcha do motor parado, seleccionou ou, mais provavelmente, mandou selecionar a respectiva válvula de combustível para a posição “crossfeed” (alimentação cruzada), ou seja, para a asa direita. Esta mudança de depósito foi, contudo, mal feita: em vez de se ter rodado o seletor 90º no sentido dos ponteiros do relógio, rodou-o no sentido contrário, fixando-o na posição OFF, isto é, “desligado”, anulando, assim, a possibilidade, que ainda existia, de evitar a tragédia.

Quando o motor parou, teve também que aplicar força no leme de direção direito, empurrando o respetivo pedal todo a fundo, teve que baixar a asa do mesmo lado com o fim de manter a direcção e o avião a voar, embora a uma velocidade perigosamente baixa, muito perto da velocidade de perda e da “VMC” (velocidade mínima de controlo), tentando evitar que ele virasse, de forma descontrolada, para a esquerda, o que, fatalmente, acabou por acontecer 20 segundos depois da descolagem.

Com efeito, o centro de gravidade do Golden Eagle, com 7 pessoas a bordo, ou seja, com todos os lugares ocupados mais um, encontrava-se descompensado, no sentido traseiro, isto é, estava fora dos limites no sentido longitudinal, enquanto no sentido lateral, estava igualmente desequilibrado para o lado direito, pois os tanques da asa esquerda estavam vazios e os da outra asa estavam cheios.

A agravar estas condições, passou a voar com o hélice esquerdo não em bandeira mas em wind milling (“moinho de vento”), situação em que a resistência aerodinâmica ao avanço imposta por este hélice impede definitivamente o avião de voar. Isto porque, ao arrastar consigo todos os seus componentes – como cilindros, magnetos, alternadores e várias bombas – cria uma resistência maior do que a força de tracção que o motor operativo (o direito) produz para a ela se opor. Os efeitos de assimetria aumentam proporcionalmente.

Por fim, os últimos segundos do voo poderão ter sido passados sem luz no cockpit, dado que o alternador do motor direito, como se disse, se encontrava inoperativo. O motor direito, a trabalhar, gerava, com o sopro do hélice, alguma sustentação aerodinâmica adicional na asa direita, enquanto a asa esquerda, com o respetivo hélice a rodar em “windmilling”, não beneficiou desse aumento de sustentação. Foi por isso que a asa esquerda entrou em perda antes da direita e, consequentemente, foi também por isso que o avião colidiu primeiro contra os obstáculos com esta asa.

Se os procedimentos de emergência tivessem sido executados corretamente, partindo do princípio de que o centro de gravidade estava dentro dos limites, a performance de subida do Cessna 421 ficaria reduzida a apenas 20% da sua capacidade de subida com dois motores. Na medida em que o centro de gravidade se encontrava fora dos limites, o hélice do motor esquerdo não estava em bandeira e o motor direito não deveria dar a potência máxima, o avião não conseguia subir, isto é, para manter a velocidade necessária para voar tinha que descer, trocando a energia gravítica por energia cinética. Como se encontrava a muito baixa altura sobre os obstáculos, ao descer, colidiu com estes.

Note-se que o motor parado era o crítico, aquele que causa maiores dificuldades de controlo do avião quando para e não é posto imediatamente em bandeira.

Para se ter uma ideia da complexidade de operação de alguns bimotores a “piston” é oportuno notar que, nos anos 80 do século passado, num período em que muitos americanos podiam comprar o seu próprio avião, ocorreram, proporcionalmente, bastante mais acidentes fatais com os bimotores do que com os monomotores, porque voar um avião monomotor era e é muito mais simples e constituía tarefa que podia ser desempenhada por um piloto com pouca experiência, ao passo que voar um avião bimotor do tipo do Cessna 421, pressurizado, equipado com motores turbo, com velocidades superiores a 250 knots [um knot equivale a 1.852 km/h], com tecto da ordem dos 30 000 pés, elevada performance com dois motores e com muito baixa performance quando voava só com um, é muito mais complicado e requer um grau de profissionalismo que faltava à maioria dos pilotos que tinham capacidade financeira para os comprar.

O Pilot´s Hand Book (Manual do Piloto) destes aviões não inclui no seu capítulo de performance nenhuma curva ou gráfico para voar com o motor crítico parado e o respectivo hélice não em BANDEIRA. Com a posição do passo do hélice em «windmilling», como foi o caso, o avião, simplesmente, NÃO VOA!

Victor Brito

Link para a 1ª parte deste artigo            (continua)

Um depoimento sobre o acidente de Camarate, por Victor Brito

0

1 – INTRODUÇÃO

O acidente de Camarate tem vindo a ser utilizado para alimentar jogos políticos e a maioria dos portugueses está convencida de que a morte do Primeiro-Ministro Sá Carneiro e da sua comitiva se ficou a dever a um atentado. Também os deputados da Assembleia da República, embora não todos, depois de se terem nomeado, até à data, 10 comissões parlamentares continuam a defender esta tese.

Entretanto, eu próprio, que comecei a ministrar os primeiros cursos de piloto de multimotores, em Portugal e todos os pilotos profissionais que conheço, técnicos aeronáuticos, investigadores de acidentes, sabemos, desde o princípio, que, para este avião se ter despenhado, não precisava de ter sido sabotado, ou envenenados os seus pilotos, dadas as condições totalmente opostas às regras de segurança de voo em que o voo foi efectuado.

Não pretendo fazer nenhum juízo sobre se houve crime ou não. Vou falar apenas sobre aspectos de carácter técnico aeronáutico e de performance ou desempenho de aviões do tipo do Cessna 421, Golden Eagle em que o acidente ocorreu.

Já foram lançados vários livros e filmes sobre Camarate, gastaram-se muitos milhões de euros e já se desperdiçou demasiado tempo a alimentar a curiosidade mórbida do povo português com um tema que a todos afectou mas que, por isso mesmo, merecia ser tratado com independência e desligado de paixões políticas. Esta posição não contribui para o prestígio do Parlamento Português. Apenas o último livro com o título “Grande Embuste”, que só agora tive oportunidade de ler, constitui uma investigação isenta que vale a pena conhecer. O autor, o jornalista José Manual Barata-Feio, teve o trabalho e a coragem de pôr a descoberto a enorme quantidade de incongruências e de disparates que, ao longo de 38 anos, foram ditos e escritos sobre este voo.

Lamenta-se que nenhum dos livros tenha sido escrito por pilotos ou engenheiros aeronáuticos. Então por que não fui eu próprio a fazer este livro? É uma boa pergunta; mas, se ma tivessem feito, eu diria que, de facto, tive a ver com a primeira investigação e a única que foi conduzida no próprio local onde o avião se despenhou e antes de os destroços terem sido removidos.

Eu explico:

Em 1980, era administrador de uma empresa sediada no Aeródromo de Cascais, a AEROAVIA, Sociedade Aeronáutica SARL, para a qual tinha obtido a representação da marca CESSNA em Portugal. O Subdiretor Geral da DGAC  (Direcção Geral de Aviação Civil), Coronel Engenheiro Aeronáutico Morgado, telefonou-me no dia a seguir ao acidente a pedir para a CESSNA enviar um técnico da fábrica fazer um exame aos destroços do avião. Falei imediatamente com Bruxelas, sede da CESSNA na Europa, e, prontamente, foi enviado o piloto e mecânico holandês John Diheric que eu já conhecia e que passou dois dias a examinar e a tirar fotografias ao avião acidentado no local onde caiu. Antes de regressar a Bruxelas, teve uma reunião comigo e contou-me tudo o que viu e que eu já suspeitava que tivesse acontecido.

Em resumo:

– Paragem do motor esquerdo à descolagem por falta de combustível.

– As pás do hélice não estavam em bandeira e, por esse motivo, o avião caiu poucos segundos à frente.

– Confirmou no terreno que a manete da bandeira estava à frente, em vez de estar atrás.

– A asa esquerda não tinha combustível e a direita estava quase cheia.

– O hélice do motor esquerdo tinha tocado no solo com pouca velocidade e sem potência, em “moinho de vento”. O hélice do outro motor entrou no solo a rodar e com tração, como demonstravam as pontas das pás dobradas para a frente.

– Não conseguiu descobrir qualquer vestígio de explosão provocada por sabotagem.

Fui, por esta via, das primeiras pessoas a saber o que tinha realmente acontecido e nunca pensei que viessem a transformar esta desagradável ocorrência num instrumento político ao ponto de, passados quase 38 anos, ainda se estar a gastar tempo e dinheiro público, tentando demonstrar que não houve acidente nenhum, o que houve foi sabotagem, foi um crime e não um acidente.

Quando me apercebi que se pretendia aproveitar esta ocorrência para fins políticos, não escrevi um livro, mas fiz um artigo, no qual tentei demonstrar que não seria preciso sabotar o aparelho para que este se tivesse despenhado e que, nas condições em que o voo foi executado, o acidente era INEVITÁVEL. Este artigo foi publicado pelo EXPRESSO e por várias revistas da especialidade. Até hoje, não recebi qualquer desmentido ou expressão de desacordo.

2 – CESSNA 421 A, GOLDEN EAGLE, venezuelano

Eram conhecidos, no Aeródromo de Cascais,  e muito comentados os problemas técnicos deste avião bimotor Cessna 421, os quais começaram a evidenciar-se logo no voo “ferry” da Venezuela para Portugal, pois saiu a 4 de Setembro de 1980 e chegou a Portugal a 16 de Outubro, o que, só por si, não precisaria de comentários, já que o movimento de um avião deste tipo pode precisar de 2 ou 3 dias mas nunca de 1 mês e 12 dias para cobrir esta distância. Pelo caminho experimentou avarias de todos os tipos, incluindo paragens de motores e três aterragens de emergência!

No aeródromo onde costumava estacionar era esta aventura muita comentada, não apenas acerca do “ferry” mas acerca do estado dos motores, uma vez que, por baixo do motor esquerdo, era bem visível uma anormal fuga de óleo. Falava-se da avaria nos alternadores, do estado da bateria, das bombas elétricas de combustível, instrumentos de bordo inoperativos, incluindo os indicadores de quantidade de combustível e, o que hoje é impensável, não estava coberto por nenhum SEGURO!

3 – A TRIPULAÇÃO.

Os pilotos que voaram o avião acidentado no dia 4 de Dezembro de 1980 tinham licenças inicialmente emitidas nas antigas províncias ultramarinas. O Comandante Jorge Albuquerque tinha vindo de Moçambique e o outro piloto, Alfredo Sousa, era possuidor de uma licença emitida em Bissau e não tinha qualquer curso de multimotores nem experiência em aviões deste tipo. Nenhum tinha licença de “INSTRUMENTOS”.

O jovem Albuquerque fora obrigado a sair de Moçambique, na sequência dos acontecimentos relacionados com a forma como a descolonização foi feita naquela província, a tal “descolonização exemplar”, não tinha ainda conseguido emprego estável e, já casado e com um filho, precisava, a todo o custo, de assegurar o sustento da família.

Esta aeronave não exigia uma tripulação de dois pilotos, porque fora certificada segundo as regras da FAR 23 e não da FAR 25. Mas até seria mais seguro voar com dois pilotos. Aliás, se este avião constasse do certificado de operador de uma empresa autorizada a fazer transporte aéreo de passageiros, seria mesmo obrigatório ter uma tripulação composta por dois pilotos qualificados no tipo de aeronave em que voavam. Só que, neste caso, do ponto de vista técnico e de segurança operacional, estes 2 pilotos não constituíam, propriamente, uma tripulação, ou seja uma equipa treinada e verificada em voo em que 1+1 são mais do que 2. Neste caso, pelo contrário, 1+1 eram até menos que 2.

Naquela época ainda não existia o curso de CRM (Crew Resource Management), hoje obrigatório, muito menos existia o SMS (Safety Management System) nem estava implantada a sua filosofia embora o respeito pelo check list fosse SAGRADO e fosse obrigatório o conhecimento e prática das emergências, sendo a “falha do motor crítico à descolagem”, de todas, a mais importante e a que mais atenção e treino requeria.

Victor Brito

                                                           (continua)