A produção de vacinas contra o covid-19 foi apresentada à opinião pública mundial como a salvação da Humanidade, nesta guerra contra um coronavírus muito poderoso. Na União Europeia foi delineada uma estratégia para tornar a população da EU autoimune, mas as coisas estão a derrapar.
Estão a ser anunciados alegados problemas de produção e consequentes atrasos na entrega das encomendas contratadas das vacinas da empresa alemã Pfizer/Biontech e da britânica Oxford/AstraZeneca. Há uma terceira vacina aprovada na Europa do laboratório americano Moderna.
manchete do Diário de Notícias em 15 janeiro 2021
Outras vacinas estão ainda atrasadas no processo de testes e irão demorar mais alguns meses até estarem prontas para aprovação pelas autoridades de Saúde europeias.
O que realmente se passa não está a ser explicado às pessoas. Há notícias pouco sustentadas de que os atrasos se devem a “obras” numa das fábricas da Pfizer na Bélgica. Uma desculpa difícil de engolir… A Oxford/AstraZeneca fala apenas em “baixa de rendimento”. Talvez estas empresas devessem contratar uma boa agência de comunicação, daquelas que inventam qualquer coisa para safar a cara de quem lhes paga.
manchete Correio da Manhã em 23 janeiro 2021
A verdade, porém, pode ser politicamente chata. O site de notícias Eurointelligence veio denunciar que o problema se deve ao facto da Comissão Europeia ter negociado preços muito abaixo do que outros clientes das farmacêuticas estão a pagar. Assim, a produção está a ser desviada para quem paga mais. E quem está a pagar mais e não tem tido qualquer problema com as entregas de vacinas contratadas? O Reino Unido, por exemplo.
Neste momento, o Reino unido tem já quase 10% da população vacinada e a União Europeia ainda não passou dos 2%. É verdade que o Reino unido começou a campanha de vacinação uns dias antes, mas essa antecipação não justifica a diferença de andamento dos diferentes processos de vacinação da população.
E qual é a diferença de preço de que estamos a falar? Segundo a mesma fonte, a Comissão Europeia acordou com a Pfizer um preço 24% mais barato que os ingleses estão a pagar pela mesma vacina. No caso da Oxford/AstraZeneca a diferença de preços é de 45%, diz o Eutointelligence. Sendo assim, compreendem-se que surjam problemas de produção para os estados-membros da UE.
Ao negociar preços baixos, a Comissão Europeia parece ter estado mais preocupada em poupar recursos financeiros do que em garantir a imunização da população o mais rápido possível. Poupar dinheiro é válido, exceto quando isso se faz à custa de vidas. A confirmar-se este cenário, os dirigentes europeus vão ter um problema para resolver, nas ruas e nos parlamentos de toda a Europa comunitária. O mercantilismo das farmacêuticas é condenável mas a falta de previsão de que uma coisa destas podia acontecer é indesculpável.
As recentes partidas de Cutileiro e de Cruzeiro Seixas sugeriram-me que não seria, quiçá, despropositado lançar despreocupado olhar sobre o que tem sido, nas últimas décadas, o papel das artes plásticas em Cascais.
De Cutileiro temos aquele Camões de braços cruzados, que observa hoje, como quem não quer a coisa, os comensais do Conversas na Gandarinha, ou seja, no que foi, certamente, o claustro interior do Convento de Nossa Senhora da Piedade dos Carmelitas Descalços e é hoje o Centro Cultural de Cascais. Antes, porém, a escultura esteve no átrio dos Paços do Concelho, um Camões de olhar matreiro, como quem diz «o que é que tu vens aqui fazer? Que queres tu destes autarcas e dos funcionários do palácio?». Era cínico, convenhamos, aquele ar de braços cruzados, ainda por cima com apenas um olho, como que a troçar do pagode. Ali não podia ficar e mandaram-no para o convento, o que o épico não levou nada a mal, mais sossegado está, no alto dos seus três metros e, entre um petisco e outro, lá haverá quem lhe aprecie o gesto magano.
De João Cutileiro há outra escultura em Cascais, junto à Capitania e a lota, na Rua das Flores. Um hino à actividade piscatória do burgo, na figura de um pescador de braços no ar, mostrando na mão direita um peixe, qual trofeu, na alegria de ter visto coroado o seu labor, jubiloso motivo que o escultor repetirá na Póvoa de Varzim e em Alvor. Usou para o moldar o azulino cascalense – e fez muito bem.
A terceira escultura, de 1983 como as outras duas, espreita junto à porta do antigo castelo da vila e chama-se Guerreiro. Sem luta não se obtém autonomia, sem guerra não se alcança a paz, sem domar ventos e aproveitar marés se não pesca… E Camões lá esteve para contar a epopeia dos descobrimentos, porque foi em Cascais que, de regresso da descoberta do caminho marítimo para a Índia, desembarcou Nicolau Coelho, que correu a dar a nova a D. Manuel, que estava em Sintra.
Cutileiro, pois, o ilustrador-mor de momentos altos da história da nossa vila.
Cruzeiro Seixas esteve como responsável pela galeria da Junta de Turismo, numa altura em que os senhores que mandavam no turismo local estavam cá, conheciam bem o ambiente e tudo faziam para que a Costa do Sol (assim se chamava) brilhasse aqui e lá fora, e privilegiavam as actividades culturais (as artes, o teatro, as iniciativas musicais…). Cruzeiro Seixas foi um dos derradeiros responsáveis pela galeria das Arcadas, quando ali praticamente todas as quinzenas se inauguravam exposições, com pompa e circunstância, vernissages que eram sempre agradável ponto de encontro de artistas e apreciadores de Arte cá do burgo. Imprimiu ele à galeria um ar bem avant la lettre, mormente quando se propôs a fazer uma exposição erótica. Não fez. Que de imediato a proposta chegou a ouvidos moralistas e – aqui d’el-rei! – está o mundo virado do avesso. Cruzeiro Seixas aguentou mais uns tempos e zarpou para outras paragens, não sem ele próprio ter ali exposto juntamente com outros companheiros do Surrealismo português.
Os anos 60
Ao repensar o que foram, nos anos 60, as Artes Plásticas em Cascais, a primeira imagem que surge é, precisamente, a da Junta de Turismo da Costa do Sol.
A Junta reunia representantes das forças vivas do concelho no domínio da promoção turística e Joaquim Miguel de Serra e Moura e a sua equipa cedo perceberam quanto a Arte propiciaria a vinda de turistas.
Pode parecer estranho ainda hoje, uma vez que raro seria o turista a comprar quadros e, sobretudo, a levá-los para o estrangeiro. É que não se trata de negócio, de aumento de divisas: trata-se de imagem! Hoje, há especialistas de imagem; Serra e Moura percebeu-o, quiçá intuitivamente. Mostrar a obra dos nossos artistas e, até, a dos que nos visitavam ou a dos membros da colónia estrangeira aqui radicada era uma forma de dar a conhecer a nossa gente, os nossos costumes, a nossa Arte!
Teve a Junta uma programação regular. De quinze em quinze dias quase, como se disse, uma exposição nova, individual ou colectiva, com o respectivo catálogo, obedecendo também ele à mesma imagem. Anualmente, para o Salão da Costa do Sol os artistas eram convidados a inspirarem-se em recantos típicos da região e a Junta adquiria os premiados. Um espólio que terá levado sumiço após a Revolução de Abril.
Também Teodoro dos Santos, presidente da Estoril-Sol, navegou nas mesmas águas. A galeria do Casino teve como principal impulsionador o professor Calvet de Magalhães, que, por ser director da Escola Francisco Arruda, tinha a noção clara do papel educativo da Arte, a todos os níveis. Outros se lhe seguiram até Nuno Lima de Carvalho, a quem devemos não apenas o ter agarrado os salões da Primavera e do Outono que a Junta deixara de fazer, como, de modo especial, os salões de Arte Infantil e de Pintura Naïf (sic), ambos abertos à comunidade nacional e estrangeira.
Propunha-se, com o primeiro, incentivar para a Arte os mais pequenos, pois ninguém podia garantir que, entre esses, não estariam já os génios de amanhã. Um Museu de Arte Infantil seria, em Cascais, iniciativa invulgar e do maior alcance. Não teve apoio das entidades locais.
Quanto aos pintores naïf, cuja tradição vinha dos «Pintores de Domingo» de Belém, foi Lima de Carvalho o maior impulsionador deste tipo de manifestação artística a nível nacional, reconhecido internacionalmente. A sua proposta de erguer em Cascais um Museu de Arte Naïf também não colheu apoio e um museu com essas características acabou por ser concretizado, com o maior êxito, em Guimarães, sob a designação de Museu de Arte Primitiva Moderna.
Nos anos 60 – como pela Europa fora – a Arte estava no seu auge e tanto na Junta como no Casino faziam questão em expor os maiores artistas nacionais, de tal forma que pode afirmar-se, sem medo de errar, que não houve artista de renome que não tivesse exposto numa ou noutra destas galerias. E mais: nenhum que não considere, hoje, ter sido o apoio então recebido que muito o ajudou a guindar-se até onde está!
No quadro dos artistas ‘locais’, Mário Silva, Michael Barrett, Victor Belém, Jorge Marcel, Correia de Morais, Guilherme Parente… são alguns dos nomes a não esquecer!
O toque de génio
Se Cutileiro e Cruzeiro Seixas foram génios, ao escultor Óskar Guimarães coube a honra de iniciar – num toque génio! – o movimento que, na actualidade, todas as juntas de freguesia prosseguem: como presidente da Junta de Freguesia de Cascais criou, nas novas instalações, a Galeria JF, por onde também começou a correr o rio da imaginação criativa dos nossos artistas.
Cascais assistiu, aliás, nesses anos 80, a uma incomparável explosão artística. E justo é que se homenageie Teresa Black, que faleceu, aos 90 anos, a 6 de Agosto do ano passado e que terá, seguramente, contribuído para que a sua grande amiga Paula Rego pensasse no legado de parte da sua obra a Cascais, pois foram colegas de curso na Slade School of Fine Artes, em Londres.
Teresa Black no seu ateliê, na Malveira da Serra (1974)
Foi em 1983 que nasceu a «Viragem», Associação dos Artistas Plásticos de Cascais, cuja 1ª exposição se realizou, em 1984, na Galeria da Cidadela. Teresa Black, que se fixou na Malveira da Serra, foi secretária da direcção da Viragem até 1988 e, em 1989, fundou,com os artistas Ló, Garizo do Carmo e Ormond Fannon, o Grupo Pitágoras, que logrou atingir plenamente os seus objectivos: expor em conjunto em vários pontos do País, convidando artistas locais para se juntarem a eles.
Fundadores do Grupo Pitágoras: Garizo do Carmo, Ormond Fannon, Ló e Teresa Black (da esq. para a dir.)
Depois, abriram e fecharam alguns espaços que se propunham ser galerias de exposição. Dentre eles merece referência a iniciativa da Sociedade Musical de Cascais, que destinou para galeria um dos seus átrios e que, ainda que de existência fugaz – pelos anos 1998 e 1999 –, acabou por albergar um significativo conjunto de exposições não apenas individuais (recordamos a de Mário Silva, a de Cristina Leiria…) mas também institucionais (dos bombeiros, da Capitania do Porto, da Associação Cultural de Cascais sobre a ocupação romana…).
No Jornal da Costa do Sol, Adelaide Félix garantiu durante anos uma rubrica sobre exposições de arte e as iniciativas de artistas tiveram sempre lugar de destaque nas colunas deste semanário. Enfim, ontem como hoje, Cascais não tem deixado os seus créditos por mãos alheias no que às Artes Plásticas diz respeito. E ainda bem!
Dia a dia aumenta o horror do que se passa nos hospitais. Honra aos enfermeiros, médicos e auxiliares que estão lá a fazer frente a um vírus bestial. Todos corremos risco de contágio, mas quem trabalha nos hospitais corre risco maior.
Triste é ver o povo a alinhar com discursos pseudomoralistas a propósito de tudo e de nada. Numa situação de crise aguda, como esta, em que as estruturas de assistência médica estão mesmo a colapsar, há quem insista em por a política partidária à frente de tudo o mais.
Uma crise tão aguda como a que se vive, por exemplo, no Hospital de Torres Vedras que já pediu ao Governo a ativação de ajuda internacional para reforçar o hospital local com cinco médicos e 10 enfermeiros face à evolução da pandemia da covid-19 no concelho.
Isto, enquanto a ministra da Saúde procura meios para enviar doentes para países estrangeiros, porque os hospitais portugueses já não podem mais.
Além dos 291 mortos, o boletim epidemiológico de hoje anuncia mais 6.472 doentes internados – um novo recorde de casos -, mais 52 que ontem, e 765 em unidades de cuidados intensivos (UCI), menos dois do que na segunda-feira.
É comum dizer-se que os arquivos da RTP são uma fabuloso tesouro da História contemporânea portuguesa e não há maior verdade. Há umas décadas, o arquivo da RTP era num armazém infetcto no Fato, ali para as bandas de Sacavém, perto do bairro da Portela, onde milhares de bobinas de película e fita de arrasto estiveram décadas ao sol, ao frio e à chuva. Muita coisa se perdeu e muita coisa foi roubada.
Agora, digitalizaram esse espólio e talvez nunca a RTP tenha gasto tão bem o dinheiro que os contribuintes lhe entregam todos os meses quando pagam a conta da eletricidade. Pagamos mas podemos, se quisermos, usar e abusar do arquivo da RTP. Não é só a possibilidade de rever coisas antigas, é a oportunidade de aprender com os documentários e os programas do tempo em que se fazia televisão por dever de serviço público, depois de abril de 74 até ao surgimento dos canais privados, no início da década de 90 do século XX.
Um longo intróito para chamar a atenção para o documentário sobre Ary dos Santos, o poeta rebelde, humano e generoso. Ary, filho do legionário que não conseguiu evitar que o filho fosse poeta e comunista. Ary que detestava o pai que o tinha enviado para um colégio de padres católicos onde ele nunca quis estar. Ary, que saiu de casa aos 16 anos para se libertar e vaguear solitário por entre uma multidão de gente que o rodeava. Ary, o provocador que militou no Partido Comunista talvez, apenas, para provocar os outros. Ary, o homem que escreveu canções que adivinhavam que alguma coisa estava para mudar, para melhor ou para pior, isso logo se veria, como foi o caso da “Tourada”, com música de Fernando Tordo e que cantada por este venceu o Festival da Canção de 1973.
Com bandarilhas de esperança Afugentamos a fera Estamos na praça da primavera
Nós vamos pegar o mundo Pelos cornos da desgraça E fazermos da tristeza graça
Depois da revolução de 1974, Ary “declamou poemas seus e de outros grandes poetas portugueses em celeiros, estábulos, palanques improvisados, estádios, clubes e colectividades populares”. Nunca até então aquele povo tinha escutado poesia assim.
É isto que se pode aprender no documentário que estou a referir e que só pode ser visto no site da RTP. Onde também podemos ver Carlos do Carmo a falar do amigo e a dizer coisas como esta: “Eu dizia-lhe sempre, Zé Carlos eu não sou um cantor de intervenção. Eu canto fado. Procura que seja sempre entendível e amável. O povo tem de ser tratado com amor. Não é preciso fustigá-lo. Já basta a sua dor”.
Ou ouvir Fernando Tordo contar como Ary lhe pediu para escrever uma música onde ele pudesse por muitas palavras. Muitas palavras de onde nasceu uma das mais fabulosas canções de sempre e que se chama “Estrela da Tarde”.
Era a tarde mais longa de todas as tardes Que me acontecia Eu esperava por ti, tu não vinhas Tardavas e eu entardecia Era tarde, tão tarde, que a boca Tardando-lhe o beijo, mordia Quando à boca da noite surgiste Na tarde tal rosa tardia
Ary quis escrever canções em vez de livros, porque o povo não sabia ler. Era a década de 70, depois de 48 anos de fascismo e salazarismo. A obra livresca acabou por surgir, pela compilação de 600 poemas escritos para serem cantados, quase todos.
Ary, o gin ao pequeno-almoço e a cirrose que o matou. No testamento, deixou tudo o que tinha à empregada que lhe tratou da casa durante anos e os direitos dos poemas e canções ao PCP. Ary dos Santos, 1936 – 1984.
Duzentas e cinquenta e duas pessoas morreram em Portugal por covid-19 nas últimas 24 horas, tendo sido registados 6.923 novos casos de infeção com o novo coronavírus, segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS).
O boletim epidemiológico de hoje revela também que estão internadas 6.420, mais 303 em relação a domingo o que representa um máximo diário de internamentos, das quais 767 em unidades de cuidados intensivos (mais 25 nas últimas 24 horas).
Desde o início da pandemia, Portugal já registou 10.721 mortes associadas à covid-19.
Portugal é hoje o país em pior situação de infeções e mortes diárias por milhão de habitantes na média dos últimos sete dias, de acordo com sites que recolhem informação estatística sobre a pandemia da covid-19.
Nos sites ourworldindata.org e Eyedata (ferramenta de análise de dados estatísticos criada pela Social Data Lab para a Agência Lusa) Portugal surge como o país que tem índices mais elevados de infeções e mortes por milhão de habitantes.
A seguir a Portugal, surgem Andorra, Montenegro, o Reino Unido, Líbano, Estónia e Estados Unidos.
Com mais de 25 milhões de infetados e mais de 424 mil mortos, os Estados Unidos são o país com os maiores números globais no que toca ao impacto do SARS-CoV-2, o coronavírus que provoca a doença covid-19.
Tendo visitado Lisboa, escrevi então que “foi no domingo passado que passei… à porta do Teatro Nacional, no Rossio, um dos locais mais emblemáticos e nobres da nossa capital”.
Pouco interessado em comprar “bilhete” de ingresso, mas incapaz de desprezar os “cartazes” à vista de todos, reitero que por ali me quedei, surpreendido com o bizarro “programa de sessões contínuas” que, dia e noite e ao vivo, se desenrolava.
Referi-me então, mais concretamente, à “obra em exibição” promovida por pedintes e sem-abrigo, que por ali haviam acampado: um “espetáculo público” que feria os olhos e a consciência de milhares de espectadores portugueses e estrangeiros que, como eu, cruzavam o coração da cidade de Lisboa; uma vergonha nacional, tanto mais que fora esse o palco escolhido, na quadra natalícia de 2019, por alguns dos mais altos dignitários da Nação para aí chorarem lágrimas de crocodilo e, como sempre, prometerem um rápido e feliz final.
Face a tal “produção artística”, sem querer senti-me obrigado a meditar na síntese lapidar de Damião de Góis sobre a pobreza em Lisboa e também na saga do mais famoso “sem-abrigo” português, de seu nome Luís de Camões.
E, sem querer, não deixei de registar o contraste entre essa “peça” que ameaçava lotações esgotadas, com o verdadeiro teatro representado dentro de portas e que, esse ano, até merecera a justa atribuição do Prémio Pessoa.
E, ainda que o não desejasse, como podia eu impedir o pensamento de se soltar por essa amarga evidência, que é a pilhagem dos nossos impostos por uma classe política sem rosto nem alma, insaciável e insustentável? Por uma “elite” que administra tão bem o erário público que, só em Lisboa, “mantém mais tropa fandanga” a comer à custa dessa “praga”, do que todos esses “inimigos da sociedade” dispersos pelo país?
E até deixei registo de que, entretanto, tal “atividade económica” havia ganho novos desenvolvimentos em marketing, com vários “artistas de rua” a exibirem letreiros de elaborada execução técnica e a invocarem as mais comoventes razões para os pedidos de auxílio: esta desgraça e mais aquela… afinal a demonstração pública do abandono a que estão votados pelos poderes públicos e do falhanço do SNS e da SS.
Para, no final, ainda afirmar que “bastaria desmobilizar essa legião de lambe-botas e parasitas e pagar diretamente aos interessados, para se pôr fim a tal farsa e ainda se poupar uma pipa de massa”.
Já pagante quanto basta de taxas que são das mais altas do mundo, e prestando ajuda a várias ONG e não só, desde Guterres – um “anjinho” que firmou o rendimento mínimo – que não costumo “contribuir para estes peditórios”. No entanto, naquele início de 2020 entendi abrir uma exceção e deixar uns cobres. Coração de manteiga, fui tocado por um criativo cartaz em que o “proprietário da exploração” confessava que o dinheiro era para os vícios, enquanto no chão expunha cinco “contentores de recolha”: cerveja, vinho, tabaco, passa e sexo.
Perante aquele portento de criatividade e imaginação, e até por que é raro topar alguém capaz de confessar verdades, foi então que resolvi premiar aquele “visionário” que, muito à frente do seu tempo, arrasava pela positiva os direitos consignados na própria Constituição da República Portuguesa.
Pois não é verdade que a lei fundamental apenas consagra o direito a um vício… o da extorsão dos dinheiros públicos, por parte dos responsáveis pelas Instituições? Adivinhem em qual dos “contentores” investi umas moedazitas?…
E depois queixem-se que, em total despropósito, tenha associado esta “divina comédia” a um tal Botas que, ao menos, assumia que beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses.
Tanta volta para concluir que no domingo passado, sem que me fosse possível um regresso ao “Teatro Nacional”, hoje deserto, ainda assim consegui assistir a uma “reposição teatral” quiçá mais comovente: uma “peça” composta por milhões de portugueses conformados, por outros tristes e por alguns já zangados… Adivinhem em quem votaram?
Passado 2020, dei comigo a pensar que também ele, como o 2019, fora filho de uma magana. O 19 por nos ter brindado com o vírus; o 20 por o não ter conseguido extirpar.
E a expressão, que me saltou assim de repente, sem eu a esperar nem pedir, fez-me regressar à infância, quando ouvia meu pai ou minha mãe, na brincadeira ou não, chamarem alguém de «filho duma magana». Nunca percebera exactamente o que isso poderia significar; mas, pelo jeito da expressão facial de um ou de outra, eu compreendia que, umas vezes, era brincadeira inofensiva, dirigida a alguém que tinha pregado alguma ‘peça’ e o pessoal ria de bom grado, que o fulanito a pregara a preceito; doutras, minha mãe assumia um ar grave, de coisa séria, e eu deduzia daí que a ‘peça’ fora grave, maldade a merecer castigo e a atribuição do epíteto carregado do seu forte sentido depreciativo.
Corri, pois, agora, ao dicionário, a descobrir o que era isso de magana. Como substantivo e como adjectivo. Como adjectivo – olá!… – tem logo que se lhe diga: «jovial», «namoradeira», «concupiscente». Portanto, assim a modos de atiradiça, é preciso cuidado com ela, que gosta de brincar, mas… Como substantivo, fia mais fino. Surge-me, em primeiro lugar, a informação de que é uma música antiga. E lá vou eu ao google a ver que tipo de dança ela é; nada mais consigo saber além de que se trata de uma antiga tocata; quiçá os melómanos saibam dizer-me. Depois, «mulher desenvolta e lasciva». Vi também o masculino – magano – e saiu-me esta: «Mercador de escravos que enfeitava os negros para agradar os compradores»! Ora toma!
A origem etimológica não oferece dúvida: deriva da palavra castelhana «magaña» (leia-se ‘maganha’), com o significado de «ardil, astúcia, engano».
Vai mais além o Dicionário do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, quando comenta: «Para evitar expressão menos polida, é muito frequente chamar-se ‘filho duma magana’ a quase tudo que nos desagrade e também a quase todos». Acho que, neste caso, também o Eduardo me saiu cá um filho duma magana!… Tão polido, tão polido, que misturou aí um ‘desagrade’ que pouco terá a ver com isso!…
Seja como for, fico na minha: o 2019 foi, de pleno direito, o filho duma magana; e o 2020 também! E alimentamos a esperança de que este ora começado não vá pelo mesmo caminho. Para já, brincando, brincando, está-nos a fazer a vida negra, o filho duma magana!
(o autor também publicou esta crónica em Notícias de S. Braz)
Onze casos positivos de covid-19 entre funcionários do estabelecimento Prisional de Caxias levou ao rastreio geral naquela cadeia, descobrindo-se então que estão infetados 84 reclusos e 20 trabalhadores.
Num comunicado, a Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais esclarece que, neste momento, todos os reclusos infetados estão isolados dos restantes “e sob acompanhamento permanente de profissionais de saúde”, e que os trabalhadores foram mandados para casa.~
A DGRSP garante que, conforme determina o plano de contingência, “foram reforçados os procedimentos sanitários e de segurança que implicam o fim das atividades comuns, incluindo visitas, o incremento da monitorização da saúde dos reclusos e a imposição de máscara cirúrgica aos trabalhadores e reclusos em todos os momentos e espaços”.
A prática em vigor nos estabelecimentos prisionais tem sido a de não permitir que os reclusos utilizem máscaras faciais de proteção, por “razões de segurança”, o que tem motivado incessantes críticas por parte da APAR – Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso.
Aliás, os surtos de covid-19 têm surgido incessantemente nos diferentes estabelecimentos prisionais portuguesas, o que se comprova sem dificuldade seguindo os alertas na página Facebook da APAR ou as manchetes dos jornais mais recentes. Ficam aqui algumas, à laia de exemplo:
Todos os dias, este brasileiro de Curitiba dá música a quem passa no túnel conhecido por muitos como “Túnel Debaixo do Arco” em Algés, concelho de Oeiras. Guitarra e piano dão corpo aos sons deste viajante que já viveu em Portugal (de 1991 a 1998), voltou ao Brasil e retornou a terras lusas, onde aguarda melhores dias para voltar a terras de Vera Cruz.
Já com seis discos gravados e um canal de Youtube onde apresenta alguns dos seus trabalhos (instrumentais de piano), que espera chegar em breve ao patamar de mil subscritores e mais além, Rodolfo Reichmann anima, contra ventos e coronavírus, o silêncio apenas cortado pelos passos e pelos ruídos de vozes naquela zona de passagem.
Rodolfo Reichmann
“Quando a gente toma uma atitude na vida, não é só uma coisa que pesa, tem vários factores”, diz este músico. “Eu coloquei na balança, pesou pra cá e eu vim”. “A minha vida inteira, a única coisa que eu fiz foi música, nunca fiz nada a não ser tocar”, revela o curitibano, que acrescenta ter estudado 13 anos de piano clássico e 5 de violão, bem como canto coral e até gaita de beiços. “Gaita de boca” como o curitibano lhe chama, achando muita graça à designação portuguesa desse instrumento de sopro bem popular.
Rodolfo Reichmann tem um cantinho para exercer a sua música numa loja de telemóveis e acessórios graças à amizade travada por acaso com o proprietário da loja, e daí até fazer mais amizades, foi uma nota musical ou um passo. “São muito simpáticos comigo, a gente foi ficando amigo, todo o mundo foi se aconchegando, se aproximando, quando dei por isso estava a fazer parte… porque a música faz bem a toda a gente, ela agrega as pessoas”. De manhã, Rodolfo toca violão e à tarde é a vez de um órgão piano. “É um local privilegiado” e “as pessoas estão a ser muito simpáticas comigo, não tenho a reclamar”, sorri o músico, que volta e meia recebe uma moeda para ajudar às despesas.
O piloto britânico Lewis Hamilton (36 anos), sete vezes Campeão do Mundo de Fórmula 1, ainda não assinou a renovação do seu contrato com a Mercedes.
Esta situação tem sido terreno de imensas especulações na longa época morta entre o final do Campeonato em 13 de Dezembro de 2020 na pista de Abu Dhabi e o início da época 2021 marcada para 28 de Março no Bahrain.
Não tendo assinado até 31 de Dezembro de 2020, Hamilton ficou livre para negociar novas condições com a Mercedes para a época seguinte.
Algumas fontes indicam que o impasse entre o piloto e Toto Wolff, patrão da equipa de Fórmula 1 alemã está no diferencial de alguns milhões exigidos pelo piloto, por acréscimo aos 45 milhões de euros que recebe actualmente.
Instagram de Lewis Hamilton
Há indicações de que a questão financeira até podia ser resolvida graças à boa vontade da INEOS, empresa química patrocinadora da Mercedes, em participar no pagamento do “ordenado” de L. Hamilton. Mas nem o piloto nem Wolff se abrem quanto ao assunto. O que é habitual quando estão em jogo tantos milhões.
Wolff diz à imprensa que não há pressa em acelerar a questão do contrato com Hamilton, que há tempo até ao recomeço das actividades nos testes marcados para 12 a 14 de Março no Barhain. “Do meu ponto de vista, tivemos um tamanho sucesso nos últimos sete anos que não há nenhuma razão para não continuarmos” disse Toto Wolff, acrescentando: “se se referem a não termos assinado ainda o contrato, a razão é bem simples. Demos sempre prioridade à conclusão do Campeonato e não estarmos distraídos com discussões muitas vezes difíceis devido à natureza das negociações”.
O ENGULHO GEORGE RUSSELL
Entretanto a Covid atacou e Hamilton teve de abandonar as pistas no último Grande Prémio da época 2020 no Bahrain por ter dado positivo no teste.
Desde logo levantou-se a questão sobre quem iria ocupar o assento do Campeão do Mundo no Mercedes nº 44, ao lado do Mercedes nº 77 do finlandês Valtteri Bottas. Com toda a lógica, a Mercedes convocou o jovem piloto inglês George Russell, que milita na Williams há dois anos. Assinado o acordo de “empréstimo”, tanto mais que a Williams é cliente da Mercedes usando os seus motores, Russell (23 anos em Fevereiro próximo), mudava de cores, vestia-se de Mercedes levando o seu número habitual, o 63. Tudo não passava de uma situação passageira, o “miúdo” (1,85 de altura) não iria fazer frente ao finlandês Valtteri Bottas, o segundo piloto titular da casa alemã.
Do lado da Mercedes, era previsível que Bottas dominasse a corrida e que o jovem inglês fizesse o seu trabalho de aprendiz sem qualquer compromisso. Mas Russell tinha outras ideias…e outros objectivos. Agarrou a oportunidade com ambas as mãos e…supresa, fez a segunda posição para a grelha de partida, ao lado do veterano Bottas. Ninguém esperava tal desempenho em tão pouco tempo de adaptação.
No arranque, Russell sai melhor, coloca-se na frente e domina tudo e todos deixando muitos queixos caídos de surpresa nas boxes. Com a vitória à espera do final da corrida, acontece o incrível, o impensável, o inexplicável.
Na paragem para troca de pneus há confusão nas instruções, os mecânicos montam no carro de Russell os pneus de Bottas. O finlandês, atrás, fica à espera e reparte com os mesmos pneus desgastados, depois de os mecânicos se darem conta do erro. Russell é obrigado a voltar às boxes para receber os seus pneus, cai para quinto, inicia uma recuperação fantástica, chega a segundo, tem um furo, volta às boxes e acaba por terminar num inglório nono lugar, com pedido de desculpas da equipa pela improvável asneira que cometera.
A grande exibição do jovem piloto ficou para sempre registada nos anais da F1. E levantou uma questão pertinente. Afinal, até um piloto considerado estreante na modalidade, pode ganhar um Grande Prémio, desde que conduza um Mercedes. O que, por outro lado, desvaloriza um pouco as sucessivas vitórias de Lewis Hamilton, aquele que igualou Schumacher em títulos mundiais.
E é aqui que se começa a equacionar a hipótese de Russell tomar o lugar de Hamilton, caso este decida parar. As vantagens são visíveis do ponto de vista financeiro. Russell é muito mais barato do que Hamilton. Fontes dizem que ele não chega ao milhão de libras na Williams. Donde…é só fazer as contas.
Do lado dos patrões de Toto Wolff (Daimler, proprietária da Mercedes) a ideia é fazer um contrato de um ano com Hamilton. Do lado de Hamilton, sabe-se que ele prefere compromissos plurianuais como até aqui com a Mercedes, com contratos de três em três anos. O atraso no processo da renovação confunde-se com a hipótese de o Campeão se retirar para ficar com tempo para os seus negócios – roupa, música.
Cortinas de fumo são lançadas todos os dias sobre a questão, com muita especulação pelo meio, com os protagonistas, Wolff e Hamilton dando ar de indiferença e de normalidade em todo o processo.
Depois de recuperar da Covid, Hamilton foi isolar-se nas montanhas (não disse aonde) afirmando que está a fazer a sua preparação física e mental para a época que se avizinha.
E o segundo piloto Valtteri Bottas? Pois ele vai ter de mostrar que merece o lugar para não o perder no final de 2021 a favor de Russell, caso Hamilton assine o papel.
Como se diz nas telenovelas, não perca as cenas dos próximos capítulos deste “ménage à trois” que anima a época da Fórmula 1 confinada.