Ary, construtor de palavrões

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É comum dizer-se que os arquivos da RTP são uma fabuloso tesouro da História contemporânea portuguesa e não há maior verdade. Há umas décadas, o arquivo da RTP era num armazém infetcto no Fato, ali para as bandas de Sacavém, perto do bairro da Portela, onde milhares de bobinas de película e fita de arrasto estiveram décadas ao sol, ao frio e à chuva. Muita coisa se perdeu e muita coisa foi roubada.

Agora, digitalizaram esse espólio e talvez nunca a RTP tenha gasto tão bem o dinheiro que os contribuintes lhe entregam todos os meses quando pagam a conta da eletricidade. Pagamos mas podemos, se quisermos, usar e abusar do arquivo da RTP. Não é só a possibilidade de rever coisas antigas, é a oportunidade de aprender com os documentários e os programas do tempo em que se fazia televisão por dever de serviço público, depois de abril de 74 até ao surgimento dos canais privados, no início da década de 90 do século XX.

Um longo intróito para chamar a atenção para o documentário sobre Ary dos Santos, o poeta rebelde, humano e generoso. Ary, filho do legionário que não conseguiu evitar que o filho fosse poeta e comunista. Ary que detestava o pai que o tinha enviado para um colégio de padres católicos onde ele nunca quis estar. Ary, que saiu de casa aos 16 anos para se libertar e vaguear solitário por entre uma multidão de gente que o rodeava. Ary, o provocador que militou no Partido Comunista talvez, apenas, para provocar os outros. Ary, o homem que escreveu canções que adivinhavam que alguma coisa estava para mudar, para melhor ou para pior, isso logo se veria, como foi o caso da “Tourada”, com música de Fernando Tordo e que cantada por este venceu o Festival da Canção de 1973.

Com bandarilhas de esperança
Afugentamos a fera
Estamos na praça da primavera

Nós vamos pegar o mundo
Pelos cornos da desgraça
E fazermos da tristeza graça

Depois da revolução de 1974, Ary “declamou poemas seus e de outros grandes poetas portugueses em celeiros, estábulos, palanques improvisados, estádios, clubes e colectividades populares”. Nunca até então aquele povo tinha escutado poesia assim.

É isto que se pode aprender no documentário que estou a referir e que só pode ser visto no site da RTP. Onde também podemos ver Carlos do Carmo a falar do amigo e a dizer coisas como esta: “Eu dizia-lhe sempre, Zé Carlos eu não sou um cantor de intervenção. Eu canto fado. Procura que seja sempre entendível e amável. O povo tem de ser tratado com amor. Não é preciso fustigá-lo. Já basta a sua dor”.

Ou ouvir Fernando Tordo contar como Ary lhe pediu para escrever uma música onde ele pudesse por muitas palavras. Muitas palavras de onde nasceu uma das mais fabulosas canções de sempre e que se chama “Estrela da Tarde”.

Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia

Ary quis escrever canções em vez de livros, porque o povo não sabia ler. Era a década de 70, depois de 48 anos de fascismo e salazarismo. A obra livresca acabou por surgir, pela compilação de 600 poemas escritos para serem cantados, quase todos.

Ary, o gin ao pequeno-almoço e a cirrose que o matou. No testamento, deixou tudo o que tinha à empregada que lhe tratou da casa durante anos e os direitos dos poemas e canções ao PCP. Ary dos Santos, 1936 – 1984.  

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