No rescaldo das eleições presidenciais

- Esta é uma crónica suscitada por outra, ditada há um ano, precisamente em finais de janeiro de 2020 e que intitulei: Foi no domingo passado. Ditosos tempos, em que Portugal era um “paraíso”...

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Tendo visitado Lisboa, escrevi então que “foi no domingo passado que passei… à porta do Teatro Nacional, no Rossio, um dos locais mais emblemáticos e nobres da nossa capital”.

Pouco interessado em comprar “bilhete” de ingresso, mas incapaz de desprezar os “cartazes” à vista de todos, reitero que por ali me quedei, surpreendido com o bizarro “programa de sessões contínuas” que, dia e noite e ao vivo, se desenrolava. 

Referi-me então, mais concretamente, à “obra em exibição” promovida por pedintes e sem-abrigo, que por ali haviam acampado: um “espetáculo público” que feria os olhos e a consciência de milhares de espectadores portugueses e estrangeiros que, como eu, cruzavam o coração da cidade de Lisboa; uma vergonha nacional, tanto mais que fora esse o palco escolhido, na quadra natalícia de 2019, por alguns dos mais altos dignitários da Nação para aí chorarem lágrimas de crocodilo e, como sempre, prometerem um rápido e feliz final.

Face a tal “produção artística”, sem querer senti-me obrigado a meditar na síntese lapidar de Damião de Góis sobre a pobreza em Lisboa e também na saga do mais famoso “sem-abrigo” português, de seu nome Luís de Camões.

E, sem querer, não deixei de registar o contraste entre essa “peça” que ameaçava lotações esgotadas, com o verdadeiro teatro representado dentro de portas e que, esse ano, até merecera a justa atribuição do Prémio Pessoa.  

E, ainda que o não desejasse, como podia eu impedir o pensamento de se soltar por essa amarga evidência, que é a pilhagem dos nossos impostos por uma classe política sem rosto nem alma, insaciável e insustentável? Por uma “elite” que administra tão bem o erário público que, só em Lisboa, “mantém mais tropa fandanga” a comer à custa dessa “praga”, do que todos esses “inimigos da sociedade” dispersos pelo país? 

E até deixei registo de que, entretanto, tal “atividade económica” havia ganho novos desenvolvimentos em marketing, com vários “artistas de rua” a exibirem letreiros de elaborada execução técnica e a invocarem as mais comoventes razões para os pedidos de auxílio: esta desgraça e mais aquela… afinal a demonstração pública do abandono a que estão votados pelos poderes públicos e do falhanço do SNS e da SS.

Para, no final, ainda afirmar que “bastaria desmobilizar essa legião de lambe-botas e parasitas e pagar diretamente aos interessados, para se pôr fim a tal farsa e ainda se poupar uma pipa de massa”. 

Já pagante quanto basta de taxas que são das mais altas do mundo, e prestando ajuda a várias ONG e não só, desde Guterres – um “anjinho” que firmou o rendimento mínimo – que não costumo “contribuir para estes peditórios”. No entanto, naquele início de 2020 entendi abrir uma exceção e deixar uns cobres. Coração de manteiga, fui tocado por um criativo cartaz em que o “proprietário da exploração” confessava que o dinheiro era para os víciosenquanto no chão expunha cinco “contentores de recolha”: cerveja, vinho, tabaco, passa e sexo

Perante aquele portento de criatividade e imaginação, e até por que é raro topar alguém capaz de confessar verdades, foi então que resolvi premiar aquele “visionário” que, muito à frente do seu tempo, arrasava pela positiva os direitos consignados na própria Constituição da República Portuguesa. 

Pois não é verdade que a lei fundamental apenas consagra o direito a um vício… o da extorsão dos dinheiros públicos, por parte dos responsáveis pelas Instituições? Adivinhem em qual dos “contentores” investi umas moedazitas?…

E depois queixem-se que, em total despropósito, tenha associado esta “divina comédia” a um tal Botas que, ao menos, assumia que beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses.

Tanta volta para concluir que no domingo passado, sem que me fosse possível um regresso ao “Teatro Nacional”, hoje deserto, ainda assim consegui assistir a uma “reposição teatral” quiçá mais comovente: uma “peça” composta por milhões de portugueses conformados, por outros tristes e por alguns já zangados… Adivinhem em quem votaram?

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