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Casas baratas

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São apenas 31 apartamentos, espalhados um pouco por todo o país, que estão disponíveis para arrendamento acessível, num projeto público que visa “contribuir para dar resposta às necessidades habitacionais das famílias cujo nível de rendimento não lhes permite aceder no mercado a uma habitação adequada às suas necessidades”, conforme se pode ler num comunicado do Ministério das Infraestruturas e da Habitação.

As habitações a concurso são de tipologias T0, T1, T2, T3 e T4 e as candidaturas para o arrendamento das casas do Programa de Arrendamento Acessível podem ser submetidas até 24 de janeiro de 2022.

As casas estão localizadas nos concelhos de Coimbra, Figueira da Foz, Vila Real, Vila Nova de Gaia, Santarém, Almada, Setúbal, Moita, Amadora, Mafra, Vila Franca de Xira, Santiago do Cacém, Évora, Beja e Lagos e os interessados podem candidatar-se através do site IHRU Arrenda. As rendas para T2 ou T3 rondam os 250 €, dependendo da região do país.

Aliás, neste site as pessoas podem candidatar-se não só às casas do Programa de Arrendamento Acessível mas, também podem candidatar-se ao Regime de Arrendamento Apoiado (para cidadãos com rendimentos muito baixos e que isenta os senhorios de IRS ou IRC).

Qualquer pessoa ou conjunto de pessoas (uma família, um grupo de amigos, etc.) pode registar uma candidatura a alojamento no âmbito do Programa de Arrendamento Acessível, desde que o seu rendimento total seja inferior a um valor máximo definido pelo programa.

O legado de João Baptista Coelho

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            Tive o primeiro contacto com João Baptista Coelho quando recebi, na redacção do Jornal da Costa do Sol, datada de «Tires, 8 de Novembro de 1989», a carta que acompanhava a oferta do seu primeiro livro, Porta Aberta (Fig. 1), edição de autor, com o pedido de que «se a leitura do texto vos merecer atenção, honrar-me-ia, sobremaneira, que em qualquer das vossas futuras edições a ele fizessem uma crítica objectiva». Acrescentava: «A capa do livro é resultado do produto final dum concurso aberto entre os alunos do 12º ano do Curso Técnico-Profissional de Artes Gráficas ministrado na -Escola António Arroio no ano de 1988/1989, sob a orientação do Professor Vítor Silva. Prestaria, assim, as minhas homenagens a todos quantos quiseram ajudar a dar à estampa esta obra».

Na contracapa, ao lado da fotografia, que apresento (Fig. 2), recordava que nascera em Lisboa a 19 de Abril de 1927 e que «sem formação académica específica, cursara o Instituto Comercial de Lisboa e desenvolvera a sua actividade profissional de contabilista nos campos das artes gráficas e da indústria metalo-mecânica. Só a partir de 1985, após 45 anos de trabalho, encontrou o tempo necessário para escrever poesia. Tarde. Tarde, demais».

Essa ideia – a pena de ter chegado tarde – foi perpassando pelos seus versos. Assim, no mais recente livro em que foram publicados poemas seus (Cinzelar as palavras como as pedras… em S. Domingos de Rana, edição da Associação Cultural de Cascais em 2009), não hesita em confessar:

E se essa Porta Aberta ele a pensou «para que possam libertar-se os sons e as rimas que vislumbrei e ouvi no meu percurso», o certo é que foi mordidela boa, essa do bicho da poesia, pois João Baptista Coelho cada vez mais se esmerou no burilar das frases, de modo que – concorrendo assiduamente aos Jogos Florais organizados um pouco por todo o País – foi arrecadando prémios sobre prémios. Poderá ter sido, porventura, o poeta que mais prémios ganhou na sua vida. Já lhe perdi a conta. Mais de um milhar, creio, e cerca de 250 primeiros!

            Entusiasta por esse tipo de iniciativa, logrou que Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana lançasse mão ao lançamento anual de Jogos Florais. Tive ocasião de trabalhar com ele nessa organização e João Baptista Coelho era duma eficiência extraordinária a preparar tudo para a reunião do júri: os trabalhos divididos por modalidades, os que não poderiam ser aceites por não corresponderam às normas… Ele próprio teve ocasião de sugerir os temas a tratar. A eficiência em pessoa!

            Recordo que, por exemplo, na noite de 21 de Janeiro de 2011, houve ocasião,  na Biblioteca Municipal de Cascais – São Domingos de Rana, de o homenagearmos, devido a ter publicado, com o apoio da Câmara Municipal, “Um outro Livro de Job (30 Retratos de uma Peregrinação)”. Mais uma das sessões «Noites de Poemas», dinamizadas por Jorge de Castro. Para esse livro me foi dada a oportunidade de escrever o prefácio, de que peço licença para transcrever esta passagem:

“Job se sentiu João Baptista Coelho e, por isso, em 31 sonetos (uma das formas poéticas que mais aprecia e que bem sabe burilar), contou-nos de si, dos seus vagueares, altos e baixos, sonhos, quimeras, oiros, cálices de inebriante medronho, tragos de fel bem amargo… «Uma história igual à de mil outros cidadãos», «de grandes, de pequenos, de meãos». Grão que se torna gente; que teve hora de brincar; que plantou «a velha árvore do pecado»; vagabundo; a dureza do pão-trabalho e a incandescência do pão-amor; a Poesia, «bálsamo na vida tão cinzenta», «oração que me atavia»…”.

E, decididamente, João Baptista Coelho, viagem feita, jaz escravo ganhador:

Exímio em construir sonetos, sabia manusear a quadra com o espírito arguto e bem sagaz que a autenticidade da quadra requer:

            Tendo-lhe falecido a esposa, Ilídia, que sempre o acompanhava, João Baptista Coelho retirou-se um pouco mais e, a dado momento, deixámos de ter notícias dele. Perguntávamos a A, B e C e ninguém sabia. Vagamente, de um filho, juiz, de quem ele amiúde falava e que morava na «outra banda», mas de quem não tínhamos o contacto nem sabíamos o nome. O telefone deixou de existir, o endereço electrónico também e todos os amigos e admiradores se interrogavam: «Para onde foi o Baptista Coelho?».

            A notícia do seu falecimento, no passado dia 20 de Dezembro – aos 94 anos, portanto – foi dada aos amigos por Jorge Castro no seu blogue https://sete-mares.org/, donde tomo a liberdade de recortar o seguinte depoimento, que vinha acompanhado por uma foto de 19-10-2012 (Fig. 3):

Jorge Castro

«Dele direi que conheci um homem bom. Companheiro e mestre, fiel e empenhado, em inúmeras sessões de poesia, esposo amantíssimo e de total entrega, ainda que discreto, amigo fiável como poucos, de fino humor e sempre cavalheiro.

»Relembro amiúde o episódio em que, tendo-se esquecido do seu inseparável chapéu dos dias frios, na sala da Biblioteca de São Domingos de Rana, onde desenvolvíamos uma das sessões das Noites com Poemas, ao ausentar-se um pouco mais cedo, para o invariável apoio à sua companheira, regressa, logo mais, constrangido por interromper a sessão, com um impagável «Desculpem, mas esqueci-me da tampa do talento…».

            À Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana legou todos os galardões recebidos. É bem possível que se programe, para daqui a algum tempo, a sua exposição, quiçá na altura em que a autarquia lhe conceda a honra – que não é de somenos! – de lhe atribuir nome de rua, na freguesia onde tão alto elevou o valor da Poesia! Aliás, a Câmara Municipal de Cascais agraciou-o, em 2004, com a Medalha de Mérito Cultural!

            Direi ainda que parte mui significativa da sua obra poética acabou por não ser publicada. Tenho na estante que lhe foi reservada uma série de ‘livros’ (Fig. 4 e 5) que expressamente preparou para me oferecer – como, naturalmente, a outros amigos. Quiçá uma entidade, um dia, se lembre de também essa homenagem lhe prestar. Para já, fica-nos o sentimento de perda. Senti-a neste Natal, porque tinha sempre – e bem a tempo! – uma quadra a condizer, como esta, de 2017:

IMI vai subir

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Em 2022 o IMI vai subir, nunca antes este imposto teve um valor tão alto. O imposto é calculado com base no valor médio do metro quadrado, “medida padrão” definida pelo Governo. E o Governo decidiu que no próximo ano, essa “medida padrão” passa a ser de 512 € por metro quadrado de construção, o que define o chamado valor patrimonial da habitação. O valor do imposto é definido pela taxa de 0,8% para os prédios rústicos e, para os prédios urbanos varia entre 0,3% e 0,45%, margem que permite às autarquias alguma capacidade de “manobra” se quiser aliviar o encargo aos seus munícipes.

De realçar que este preço por metro quadrado – que em 2021 foi de 492 euros – esteve congelado durante dez anos, entre 2010 e 2020.

Neste momento, já se sabe que a maioria das autarquias decidiu manter a taxa do IMI a cobrar aos munícipes em 2022. Apenas sete decidiram reduzir este imposto. Por ordem alfabética:

Barcelos baixa de 0,45% para 0,34%

Braga baixa de 0,34% para 0,33%

Gondomar baixa de 0,42% para 0,41%

Loures baixa de 0,37% para 0,36%

Maia baixa de 0,37% para 0,36%

Setúbal baixa de 0,43% para 0,40%

Seixal baixa de 0,36% para 0,35%

Uma casa pequena, com 100 metros quadrados, pagará um imposto a rondar os 245 € por ano. E se tiver quintal, paga também pelo quintal. Ou se tiver um terraço, paga. Claro que pagará mais quanto maior for a casa.

Para ficar isento do IMI tem de morar numa barraca e estar desempregado.

Se um dia o cidadão contribuinte precisar de reparar a habitação, na Câmara Municipal encolhem os ombros, os autarcas não têm nada a ver com isso. Pode não ter dinheiro para as obras, mas livre-se de não ter dinheiro para pagar o IMI.

Trata-se de um imposto odiado pela generalidade dos contribuintes. Além de pagar várias taxas relacionadas com a habitação, desde os esgotos à recolha de resíduos sólidos, mais a taxa de recursos hídricos, imposto especial sobre consumo de eletricidade, contribuição para o audiovisual, imposto sobre o consumo de gás, taxa de ocupação de subsolo, taxas e taxinhas que são oneradas pelo consumo (mas que não levam em linha de conta o número de pessoas que vivem na residência), o cidadão ainda paga o IMI que se destina a garantir os orçamentos camarários. Sim, pagamos os salários dos presidentes de Câmara, vereadores e respetivos funcionários. É para isso que serve o IMI.

Revolta na cadeia de Paços de Ferreira

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Trezentos e cinquenta e oito reclusos do Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira apresentaram queixa ao Conselho Superior de Magistratura contra a Juíza do Tribunal de Execução de Penas, Cristina Augusta Teixeira Cardoso, que analisa os processos naquela prisão. O facto foi tornado público num comunicado da APAR, Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso.

A revolta fica patente pelo número de signatários da queixa: 358. É muita gente, demasiada gente para a questão passar despercebida.

Na queixa, os reclusos dizem que todos os processos avaliados por esta juíza são mais penalizados, em comparação com outros processos avaliados por outros juízes ou outros Tribunais de Execução de Penas.

Os reclusos dizem que a juíza Cristina Cardoso não aplica o princípio de que ninguém pode ser condenado mais de uma vez pelo mesmo delito. Não importa se o recluso tem tido bom comportamento ou se revela potencial de reinserção social, segundo a acusação a juíza apenas aprecia o crime cometido e invariavelmente adia a aplicação de medidas de flexibilização da pena até ao limite que a Lei lhe permite.

recorte da queixa dos reclusos do Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira

A queixa seguiu, veremos que resposta merece do Conselho Superior de Magistratura. Se for como dizem os reclusos, que “basta comparar o exercício desta juíza com o exercício dos seus pares que por intervalos de tempo a substituíram”, talvez a resposta não demore, embora saibamos da lentidão com que se move a Justiça.

Rogério Samora e os preconceituosos

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O Luís Osório diz que o Rogério tinha mau feitio e que não fazia concessões à verdade. Que incomodava com o seu perfeccionismo. Pode ser isso. Mas não. Muitos atores de mau feitio e até mau comportamento são apreciados.

O Rogério foi um galã, era muito giro e geralmente isso cobra-se caro junto dos críticos. Quando se é homem. Pode ser. Mas há outros atores reconhecidos pela beleza que são exaltados pelas elites, como o Alain Delon, por exemplo, com as devidas distâncias, mas a quem não entrevi muito mais do que um rosto belo.

O Rogério era português. Sabemos como nos custa reconhecer os “nossos”, até que alguém lá fora os reconheça primeiro. Pode ser por aí. Mas atores nacionais que já fizeram filmes em Hollywood também não são especialmente agraciados pelos bem pensantes cá.

O Rogério fazia telenovelas, para sobreviver ou viver melhor. Penso que é isso. A participação em televisão é geralmente vista como menorizante. Tendo em conta como as estações portuguesas se guerreiam entre si, com gaffes e sensacionalismos, a cotação das mesmas não é efetivamente grande coisa atualmente. A ser assim, é injusto que um ator – ou atriz – seja reduzido ao seu estatuto televisivo quando outras artes se anteciparam e lhe puseram o rosto e a voz no grande ecrã ou no palco. As elites intelectuais silenciaram-se nesta morte.

No Brasil, essa linha preconceituosa entre teatro, cinema e televisão é, felizmente, quase inexistente. Focam-se no talento individual e esse pode ser transversal. Sempre pensei que os brasileiros são mais abertos, mais descomplexados e mais felizes do que nós.

Gouveia e Melo

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Os aprendizes de Política receberam, nos últimos dias, uma verdadeira lição sobre o modo como se pode destruir um adversário complicado com uma palmada nas costas e um sorriso aberto.

O período natalício (tão bem escolhido) ajudou mas, há que reconhecer, a “jogada” foi brilhante.

Recordemos os factos:

Um trabalho bem feito no planeamento da vacinação contra a Covid fez com que o Vice-Almirante Gouveia e Melo, um nome desconhecido para a imensa maioria dos portugueses, ganhasse, num curto espaço de tempo, uma dimensão espantosa ao ponto de ser transformado em herói nacional.

As entrevistas sucediam-se. Tal como todo o tipo de homenagens que foram de doutoramentos “honoris causa” a condecorações. Considerado o “Homem do Ano”, Gouveia e Melo desdobrou-se em declarações.

Tremendo erro porque, é sabido, a vida dá voltas muito repentinas e a verdade absoluta de hoje pode ser uma incerteza amanhã e uma falsidade no dia seguinte. Por alguma razão os políticos raramente usam frases taxativas. E mais raramente, ainda, não acabam por se arrepender depois de as terem proferido.

Apesar de tudo, a popularidade de Gouveia e Melo subiu, rapidamente, ao ponto de se começar a falar dele como putativo candidato a Presidente da República. O Povo, é sabido, gosta de heróis.

A imagem de um homem fardado a “combater”, na linha da frente, um terrível inimigo, e conseguir êxitos atrás de êxito, por todos reconhecidos, fez aumentar o seu número de admiradores a percentagens impossíveis de alcançar por qualquer político no activo.

Num país descrente dos seus políticos o aparecimento de um homem competente reunia todas as condições para a criação dessas expectativas. Como resultado óbvio, soaram as campainhas de alarme em todas as sedes partidárias.

Há um mês qualquer sondagem séria daria como vencedor certo, para as próximas presidenciais, o Vice-Almirante. Ora, é sabido, os políticos profissionais não gostam de correr riscos. Mesmo sabendo-se que aquele confessara, em entrevista, que não queria seguir outra carreira política que não a militar. E, mais, que sabia que daria “um péssimo político”! Havia que terminar com essas pretensões o mais rápida e eficazmente possível.

Gouveia e Melo ajudou quando, para pressionar a sua ascensão a Chefe do Estado Maior da Marinha, começou com o discurso de “ninguém diga desta água não beberei”, para dar a ideia de que poderia reverter a sua posição sobre uma eventual candidatura ao “mais alto cargo da Nação”!

E é aqui que começa uma verdadeira aula de política dada pelos mais interessados naquele lugar. Em primeiro lugar havia que pôr em causa a verdadeira dimensão do trabalho desenvolvido na Task Force da Vacinação. E o próprio Vice-Almirante.

Daí que, mesmo depois de terem esgotado todos os adjectivos elogiosos, acerca dele, não tivessem qualquer problema em arregimentar os escribas do regime para o denegrirem com artigos de “opinião” em jornais e nas redes sociais.

Desenterraram processos antigos, criticaram o modo da selecção para Chefe de Estado Maior da Marinha, criaram mal-estar nas Forças Armadas.

De seguida anteciparam a sua nomeação para esse cargo demitindo o titular do cargo, que tornou público o seu desagrado.

Finalmente foi-lhe dada posse numa cerimónia sem qualquer brilho, com a ausência de quase todas as principais figuras das Forças Armadas e do próprio Primeiro-Ministro. Algo impensável há poucas semanas.

A partir deste momento Gouveia e Melo não tem qualquer possibilidade de se candidatar à Presidência da República e, mais, não terá vida fácil no seu novo cargo. Isto porque não contará com o apoio de muitos militares nem, com toda a certeza, dos políticos. Sequer (e principalmente) daqueles que o nomearam. Razão tinha ele quando afirmou que daria um péssimo político.

Pode ser que tenha aprendido que, ao contrário da vida militar, na política os principais inimigos são os que estão ao seu lado. Ou atrás!

Há cenas de Lisboa para ver no Casino!

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Chamaram-lhe burro!

«Me chamavam de burro e repeti sete vezes!», declarou Waldemar Maramgoní, quando lhe perguntaram como fora a sua infância. Repetiu sete vezes quer dizer «chumbei sete vezes no mesmo ano»!

Permita-se-me que, antes de entrar no assunto que me traz aqui hoje, eu conte uma das histórias que mais me tocou na vida de professor.

Aquela aluna era das mais assíduas nas aulas. Sempre atenta. Quando, porém, li seu primeiro teste, fiquei siderado: como era possível uma aluna do 1º ano da Faculdade de Letras cometer tantos erros e não conseguir escrever uma frase direito?

Era meu hábito entregar os testes por ordem crescente de classificações, para dar oportunidade de um suspiro geral quando anunciava a primeira positiva. Uma maldade que, creio, alguns estudantes me não perdoavam, mas o que eu queria era que tomassem consciência do lugar em que estavam na escala, para mais os atiçar!

A outra maldade era, no final da entrega, ler os disparates, sem, porém, identificar o autor. Nesse dia, peguei em quatro ou cinco frases da aluna. Provocaram risadas gerais e todos se perguntavam como é que aquilo era possível.

Não acredito no acaso e, umas semanas antes, eu entrevistara no Rádio Clube de Cascais, um dos oftalmologistas mais credenciados no País e no estrangeiro, que descobrira a forma de curar a dislexia, doença de que muita gente, afinal, padece, sem disso se aperceber. Manifesta-se, por exemplo, na troca de letras e de palavras. Por isso Waldemar Maramgoní era «burro» e não conseguia passar de classe. E só o descobriu aos 35 anos!

Mais sorte teve, pois, a minha aluna.

Depois de se terem rido à vontade, eu fiz silêncio e falei à turma:

            – Vocês riram-se e têm razão. Não é possível cometer tantos erros. E eu explico: o vosso colega sofre de uma doença, que porventura ainda ninguém lhe disse qual era e que eu lhe vou dizer: dislexia!

Expliquei o que era – e compreenderam.

Na altura, eu exercia as funções de Presidente do Conselho Pedagógico e fiz, de imediato, uma circular a todos os docentes: «Esta aluna, enquanto não puder ser tratada da enorme dislexia que tem, não pode ser sujeita a provas escritas, só orais». E dei aos pais o contacto do especialista que entrevistara. Voltei a encontrá-la pela Faculdade e soube que, daí prá frente, a vida escolar lhe correra muito melhor.

O Waldemar disléxico

Está provado: os disléxicos têm especial tendência para o que lhes proporciona gestos, actividade diferente, que não seja a intelectual propriamente dita. As Artes são, por esse motivo, a vereda por que se encaminham, mormente se têm a sorte de para ela serem levados por quem realmente os compreendeu.

Assim sucedeu, felizmente, com Waldemar Maramgoní, que desde cedo encarreirou pela Arte. Nascido em S. Paulo (Brasil), em 1972, teve a sorte de a mãe logo aos 10 anos, ao verificar as suas aptidões, o ter incentivado a desenhar e a pintar. E aí o temos hoje!

Em Setembro de 2018, depois do seu percurso brasileiro, Maramgoní veio instalar-se em Lagos. Com ele travou conhecimento Pedro Lima de Carvalho, da galeria do Casino, que o desafiou: descubra Lisboa!

E Waldemar Maramgoní foi descobrir!

O resultado aí está, «através de 24 trabalhos, onde retrata alguns dos bairros mais emblemáticos, como Alfama ou o Bairro Alto, a Baixa Pombalina, o Castelo de São Jorge, o Tejo e algumas cenas do quotidiano alfacinha».

Não direi, como escreveu Pedro Lima de Carvalho, que, «na busca de uma nova leitura artística, baseada em novas questões estéticas que se refletem num desenho primoroso», o artista revela «um vasto conhecimento pictórico e procedimento fundamentado numa arquitetura filosófica». É verdade, mas eu prefiro acentuar o que também se acentuou: Waldemar Maramgoní é «indiferente aos modismos»; ou seja, não há possibilidade de o associar a determinada corrente estética. É ele mesmo! E acrescento: doutra maneira não poderia ser, atendendo ao seu passado e características.

Por isso nos brinda com instantâneos carregados de cor, quase agressivos (dir-se-ia), porque é de sua natureza chamar a atenção, vincar o que vê. É provável que não sejam tantos os fios que se vêem no quadro escolhido para capa do catálogo, a riscar a fachada da igreja da Madalena. E, se calhar, também não há tantos candeeiros. Outro pintor deixaria da mão esses pormenores e recriaria o ambiente a seu jeito. Maramgoní prefere, ao invés, mostrar o que é. Que, para ele, a realidade carece de ser mostrada em tons sanguíneos, quentes, quase «naïf», no rigor dos pormenores. Para que melhor se compreenda e aprecie. Um realismo que nos deixa perplexos e, afinal, acaba por nos encantar!

Caso é para dizer: bendita dislexia!

Ómicron é bom de bola

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O jogo entre o Leixões e o Mafra, da 16.ª jornada da II Liga de futebol, foi adiado devido a casos positivos de covid-19 no plantel mafrense, informou hoje o clube em comunicado.

O jogo estava agendado para a próxima quarta-feira, tendo os dois clubes concordado em adiar a realização da partida, que ficou para o dia 2 de fevereiro, às 15:30.

Com 15 jornadas disputadas, o Mafra é atualmente o oitavo classificado da II Liga, com 23 pontos, enquanto o Leixões segue na 12.ª posição, com 18 pontos.

Com este acordo, evita-se novo escândalo como o que se registou no jogo em que o Benfica derrotou por 7 a zero a equipa do Belenenses SAD, quando a equipa do bairro do Restelo estava afetada com um surto de covid-19 e só conseguiu juntar 9 jogadores para o início do jogo.

Após esse jogo e a chuva de críticas que gerou, as autoridades futebolisticas portuguesas decidiram que nenhum jogo poderá ter início se alguma das equipas não apresentar um mínimo de 13 jogadores.

Hoje almirante, amanhã Presidente?

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Foi promovido a almirante e nomeado Chefe do Estado Maior da Armada. Todos o conhecem como o “almirante das vacinas”, por ter sido o coordenador da campanha de vacinação contra o covid-19.

A maioria das pessoas admira-o. É a pose. É a altura. É o sorriso de Gioconda. É a farda. Mas há quem venha a terreiro destapar alegadas patifarias. O que é um ato de coragem, nas atuais circunstâncias.

Joana Amaral Dias, numa crónica no Diário de Notícias, diz que o novo almirante “não é quem parece ser”. Diz a cronista que Gouveia e Melo é “um homem apostado em urdir intentonas contra colegas, em engendrar rasteiras que derrubem quem lhe faça frente ou apenas dele discorde”. Sem esmiuçar, a crónica espraia-se pelas guerras palacianas nos corredores dos altos comandos militares, por processos judiciais e acusações de corrupção. Na crónica, Joana Amaral Dias dá a entender que sabe mais do que escreveu, talvez para alimentar a curiosidade sobre próximos escritos.

Ou seja, a ser verdade o que a psicóloga menciona, temos um novo Chefe do Estado Maior da Armada exímio na luta política “com poucos escrúpulos e ilimitadas ambições”.

Já o texto oficial, difundido pela agência Lusa, diz que o “submarinista” terá ganho a admiração do povo quando enfrentou um grupo de negacionistas, em Odivelas. De peito “às balas”, lembrando um pouco uma cena antiga passada com Ramalho Eanes, Gouveia e Melo respondeu a quem lhe chamava “assassino” que “o negacionismo e o obscurantismo é que são os verdadeiros assassinos. O vírus associado à ignorância e ao medo ainda mata mais”. Ficou herói para uns, vilão para outros.

A crónica “negra” assinada por Joana Amaral Dias prefere realçar que Gouveia e Melo beneficiou “de uma comunicação social que beijava o chão que pisava” e daquele complexo sebastiânico entranhado no povo português que “continua a sonhar com um papá protector e disciplinador”.

Hoje almirante, amanhã Presidente? O próprio não confirma nem desmente a hipotética intenção. O que é próprio da política.

recorte do jornal Público de 16 de dezembro de 2021

As reformas douradas

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As verdadeiras reformas douradas, afinal, não são dos políticos, são as que recebem os banqueiros. Muitos se alarmaram e se escandalizaram com a notícia de que Manuel Pinho, antigo ministro no Governo de José Sócrates, recebe uma pensão de 15 mil euros por ter trabalhado 11 anos no BES. Mas quem se lembra do valor da reforma que recebe Jardim Gonçalves, antigo presidente do BCP? Se não se lembram, sentem-se. O homem recebe 167 mil € por mês, vezes 14 dá 2 milhões e 330 mil por ano. Isto é que é uma reforma dourada, não é a “miséria” que recebe um ex-deputado ou um ex-presidente de câmara.

Há uns anos, foi notícia que as reformas de cinco ex-gestores do Banco Comercial Português (hoje, Millennium BCP), entre os quais dois antigos presidentes, representavam um encargo de cerca de 70 milhões € por ano para o banco.

Dirão os militantes do capitalismo selvagem que ninguém tem nada a ver com isso, que os bancos em causa são privados e que, portanto, fazem o que querem com o dinheiro deles. Mas, na verdade, o dinheiro não é dos bancos. É dos depositantes. E quando a farra é desmedida e o banco vai à falência, sabemos que quem paga é o contribuinte, mesmo que nunca tenha tido conta no banco em causa.

No mundo dos banqueiros e outros grandes capitalistas, os políticos não passam de meros funcionários, embora bem pagos, evidentemente. Luís Amado (PS) está na EDP, assim como André Ventura (Chega) esteve na Finpartner.

É claro que Manuel Pinho não é caso único no tráfico existente entre negócios privados e poder político. Nem os bancos são os únicos pecadores. Temos muitos outros casos, desde as grandes construtoras vocacionadas para obras públicas, como serão os casos da Mota Engil, da Teixeira Duarte, da Soares da Costa ou da Somague, que se juntam aos exemplos que nos tem dado a EDP, a Galp ou a TAP. Nessas administrações há sempre um lugarzinho à espera do político prestativo na reserva. E sabem o que é um ex-político prestativo? É o Catroga, por exemplo.