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Portugueses enganados como criancinhas

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Na ânsia de ficarem ricos, muitos têm caído no logro. Acreditam nas promessas de ganhos avultados sem terem de mexer uma palha e acabam por ficar sem o dinheiro. O esquema das criptomoedas é velho mas continua a funcionar. Há sempre uns que caem nas histórias tipo “Dona Branca” e a publicidade enganosa acaba por atrair cada vez mais gente.

A boa noticia é que a polícia anda no encalço destes marginais e um deles foi ontem detido, em Espanha, por suspeita de ser “um dos maiores burlões com investimentos em criptomoedas a nível europeu”, divulgou a Guarda Civil em comunicado.

Burlão detido em Espanha

A detenção deste alegado burlão, de nacionalidade portuguesa, aconteceu em Valença. A identidade do detido não foi divulgada.  De acordo com a polícia espanhola, a operação chamada “BITDROP” permitiu a detenção de um homem de 45 anos, de nacionalidade portuguesa, que é acusado de sete crimes de fraude e de branqueamento de capitais.

O detido criou uma plataforma de investimento em criptomoedas numa página na Internet, que foi divulgada através de vários fóruns, programas de rádio, eventos desportivos e até eventos de caridade, a fim de atrair a atenção e o investimento de numerosas pessoas em Espanha e em Portugal.

Mulheres atraentes servem de isco

Na Internet é vulgar encontrar esse tipo de anúncios, por vezes camuflados. Quase sempre simulam ser notícia, apesar de estarem identificados com a sigla “pub” que significa publicidade. Mas ninguém avisa as pessoas que se trata de publicidade criminosa.

Os textos são antecedidos por fotografias de mulheres que aparentam viver sentadas em cima de um pote de notas e o conteúdo dos textos é um estendal de maravilhas relacionado com ganhos avultados e vida fácil. Tudo mentira, como é óbvio para todos, menos para os incautos que embarcam nestas tretas.

Não se percebe como é possível haver anúncios de alegadas burlas que circulam livremente pelos sites comerciais, como se fossem produtos fiáveis. Pelo vistos, nada na lei penaliza estas práticas, ou então trata-se de mais um caso de desleixo de quem devia fiscalizar e prevenir este tipo de atuações. A verdade é que as empresas, como é o caso da Google, por exemplo, as de redes sociais como o Facebook, comercializam estes produtos criminosos, ganham dinheiro com essa prática, mesmo sabendo que estão a prejudicar os utentes.

No caso vertente, que levou à detenção agora divulgada pela Guarda Civil espanhola, como se pode ler no site do ABC España,  o burlão oferecia um rendimento mínimo de 2,5% por semana aos investidores, foram identificadas várias vítimas em Espanha e descobriu-se que o homem preso, “que tinha um elevado nível de vida”, tinha também cometido crimes no Luxemburgo, Suíça e Portugal. Esta notícia mostra um vídeo com carros de luxo que foram apreendidos na operação policial e que pertencerão ao alegado burlão português.

O total de bens apreendidos ascende a mais de dois milhões e meio de euros, segundo a polícia espanhola.

Lapsus$ Group bloqueia sites da SIC, Expresso e Blitz

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O canal de televisão SIC, o jornal Expresso e a revista Blitz continuam com os sites sequestrados pelo grupo Lapsus$ Group, piratas informáticos que se dedicam a extorquir resgates pelos sites que bloqueiam.

Já aconteceu antes, nomeadamente em sites governamentais brasileiros, mas também com sites privados de empresas de renome, como foi o caso, por exemplo, da Electronic Arts, a gigante dos videojogos que produziu jogos da FIFA.

A ameaça não pende só sobre as empresas ou instituições públicas. Também os utentes desses sites correm sérios riscos, uma vez que os piratas poderão ter acesso aos dados dessas pessoas. Por exemplo, se costuma pagar serviços ou compras nos sites dominados por piratas informáticos, pode ter a certeza que os seus dados podem ficar nas mãos dos bandidos. Dados como números de cartões de crédito e passwords.

Neste caso, se paga ou já pagou serviços no universo da Impresa, desde conteúdos pay per view ou assinaturas do Expresso, trate de trocar imediatamente de passwords e talvez não seja má ideia cancelar cartões. São medidas de precaução urgentes, até porque as ameaças deste grupo não são vãs. Desde ontem de manhã que os sites estão sequestrados e eles prometem retaliação se a Impresa não pagar o resgate que eles exigem.

Os hackers do Lapsus$ Group, que ontem (2 de janeiro) atacaram os sites da SIC, do Expresso e do Blitz, do grupo Impresa, constituem um novo grupo de piratas informáticos, criado há menos de um ano. Ganharam mediatismo no mês passado, quando desencadearam uma sequência de ataques a páginas na internet de organismos governamentais brasileiros. Na altura disseram que não tinham qualquer motivação política, que apenas queriam dinheiro.

“Vamos explicar algumas coisas: o nosso único objetivo é obter dinheiro, não ligamos para a família Bolsonaro (vulgo Bolsofakenews)”, escreveu o grupo na altura dos primeiros ataques.

A Impresa tem mantido silêncio quase total sobre este assunto. É provável que estejam em contacto com os piratas informáticos. Por cada hora que passa, somam-se os prejuízos. Não só em publicidade que se perde mas também na sensação de fragilidade que transmitem ao não conseguir resolver uma situação que já dura há quase 24 horas, o que é inédito, pelo menos em Portugal.

O mais famoso hacker português, também conhecido como  “whistleblower John” do #FootballLeaks, ainda não disse nada sobre este assunto. E seria interessante ouvi-lo. Mas é voz corrente que Rui Pinto trabalha agora para a PJ na área do cibercrime e, então, talvez o silêncio se justifique como “segredo de Justiça”.

Primeiro-ministro mostra “obra feita”

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António Costa lembrou no seu Twitter de primeiro-ministro que este mês o Salário Mínimo Nacional aumenta para 705 €. Diz o primeiro-ministro que a medida beneficia  “cerca de 880 mil trabalhadores”.

O goverrnante puxa dos galões para afirmar que “este aumento de 40 euros é a maior subida de sempre”, confirmando ainda que o compromisso é de levar o SMN aos 750 euros dentro de dois anos.

Talvez o Twitter não seja a rede social certa para o líder do PS alcançar o público-alvo para este tipo de mensagem, mas quem sabe disso são os assessores especializados na comunicação que o Governo deve ter contratado em doses suficientes.

A verdade é que está provado que quanto maior for o poder de compra das pessoas, melhor funciona a economia. O aumento do SMN é, assim, fundamental para as empresas, mesmo se os empresários se queixam de pagar salários a mais… Claro que um regime próximo da escravatura seria mais vantajoso para as empresas. Mas, isso, lamentamos, deixou de ser possível.

É evidente que esta medida poderá influenciar as opções de voto em 30 de janeiro e que o candidato António Costa não irá oferecer o ouro aos bandidos. Mas faltaria, então, aumentar o subsídio de desemprego, para reforçar as hipóteses de na próxima legislatura poder vir a ter uma maioria absoluta na Assembleia da República.

Expresso e SIC atacados por piratas informáticos

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A meio da tarde, por volta das 16h30, a SIC recuperou o controle das páginas nas redes sociais. Durante mais de 4 horas, não houve qualquer publicação.

Mas os sites, quer da SIC quer do jornal Expresso, continuam sequestrados pelos piratas informáticos.

Durante o dia, desde manhã cedo, quando tentavamos aceder a um desses sites, surgia a mensagem a pedir resgate.

Com “sotaque” brasileiro, estava escrito que «Os dados serão vazados caso o valor necessário não for pago. Estamos com acesso nos painéis de cloud (AWS) entre outros tipos de dispositivos. O contacto para o resgate está abaixo».

Primeiro, os informáticos ao serviço da Impresa conseguiram retirar a mensagem dos sequestradores. Foi substituída por um alerta.

o site do Expresso às 11 da manhã de 2 de janeiro 2021

O grupo de piratas informáticos autodenomina-se Lapsus Group e já tem historial de ataques a sites governamentais e de grupos económicos.

fonte Lapsus$ Group derruba mais sites do governo e sugere: “solução ágil é o pagamento do resgate” | TecMasters

Tem sido quase nula a informação sobre este ataque pirata à Impresa. Numa notícia curta, às 12 horas, a SIC Notícias confirmou o sequestro dos sites e das redes sociais. Nos sites, a Impresa teve durante o dia um logotipo a anunciar a retoma logo que possível.

Agora, o aviso já acrescenta que as redes sociais foram libertadas. Mas é tudo o que se sabe, por enquanto.

Os indispensáveis, as pessoas

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«Quero um secretariado!»

Quando, no ano lectivo de 1984-1985, assumi as funções da presidência do Conselho Pedagógico da minha Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a primeira exigência que fiz foi: «Quero um secretariado!». Ou seja, um espaço onde possa guardar a documentação, receber as pessoas e ter um secretário ou secretária para o expediente.

Ia caindo o Carmo e a Trindade! Se já se vira! Um moço pequeno, acabado de doutorar-se, a fazer exigências dessas!

Bati o pé. E consegui. O Conselho Pedagógico começou a funcionar. Os outros órgãos da Faculdade – o Conselho Científico, o Conselho Directivo – não tinham secretariado, puseram a mão na consciência, se calhar o puto é capaz de ter razão… E, daí a pouco tempo, viram como, na realidade, a existência dum secretariado era imprescindível e ainda o não haviam compreendido.

Não se interprete mal o que acabo de narrar, porque a questão, de facto, ainda se lhes não pusera e os presidentes estavam habituados a fazer tudo, inclusive dactilografar ofícios. Não se lhes leve a mal. Eu é que vinha doutros ares.

Felizmente, a minha iniciativa acabou por não causar, a breve trecho, muitos engulhos no consuetudinário conservadorismo universitário coimbrão e, hoje, toda a gente compreende a importância e o relevante papel que cabe a um secretariado.

Claro que se chegou a um extremo: o do secretariado electrónico. E, aí, a Universidade de Coimbra passou do 8 ao 80, a nível da Reitoria, por exemplo. Tu envias uma mensagem ao gabinete reitoral e tens imediata resposta automática:

«Acusamos a receção da sua mensagem à qual foi atribuído o código de identificação acima mencionado, ao qual pedimos que faça referência sempre que nos contatar sobre este mesmo assunto, com vista à sua rápida identificação».

Assim. Quase dando a entender que o melhor é voltar a contactar, mas, de preferência, para outro endereço. Na verdade, até ao momento, das múltiplas mensagens por mim enviadas ao Gabinete do Magnífico Reitor, de nenhuma recebi resposta e penso até que nenhuma lhe terá chegado ao conhecimento. Sinais dos tempos em que que o espírito universitário se esvai, as pessoas deixam de ter importância e os espíritos pairam noutros horizontes que não o do Fernando ou o António Manuel. Sem se compreender que são os Fernandos e os Antónios Manéis que, afinal, sustentam as estruturas. Um dia – oxalá! – isso se há-de entender. Que não seja tarde de mais – é o meu voto!

Aquele rol infindável!…

Vêm estas considerações a propósito de pormenores a que, porventura, nem sempre se dá a atenção que merecem.

No final dum filme ou do episódio duma série televisiva, passa no ecrã um rol infindável de nomes. Raramente se lhes dá importância. Foram, no entanto, essas pessoas, desempenhando os mais variados papéis, que tornaram possível o filme ou a série. Recordo que, um dia, para gravar a cena dum genérico televisivo que durava não mais de um minuto, veio uma equipa de doze elementos! E todos tinham um papel a desempenhar!

No programa duma peça de teatro, não se esquecem os responsáveis de mencionar, além dos actores e do encenador, os nomes de quem foi o responsável pelo guarda-roupa, pela coreografia, o desenho das luzes, o som, a costureira, os fotógrafos, a assistência de encenação, a dramaturgia, quem foi a costureira… Sem eles, o espectáculo não teria sido possível.

Em linguagem actual, tudo isso pode consubstanciar-se na palavra «produção».

Poderá muita gente admirar-se de os concorrentes a um programa como o «The Voice Portugal» (não gosto do nome inglês, mas… paciência!) agradecerem à produção. Foram, de facto, os elementos da produção que, nos mais diversos campos e momentos, os acompanharam, os aconselharam, lhes deram as necessárias dicas, escolheram com eles a vestimenta, os maquilharam e pentearam, lhes disseram para onde deveriam olhar, como se agarrava no microfone, onde deveriam ficar aquando da actuação… Um mundo de pormenores! Isso é a produção! Como o secretariado dum presidente do Conselho Pedagógico!… Ou o secretário da Directora Regional que a ‘proibiu’ de, nesse dia, vir vestida de verde! «Porquê?» – perguntara ela. «Porque as filmagens vão ser feitas no jardim!»…

Uma das minhas amigas trabalhou de perto com o presidente Eanes. Creio não cometer nenhum inconfidência, porque decerto assim se passa com todos os presidentes. E ela contava-me que uma das primeiras reuniões do presidente, logo pela manhã, era receber o assessor de imprensa, aquele que lera por ele os jornais, anotara o que lhe parecera de importante, sublinhara frases e parágrafos e, inclusive, acabava por sugerir que atitude o presidente deveria (ou poderia) tomar, em relação ao que a imprensa do dia publicara.

Cá está: a esse nível, chama-se assessoria; no da administração, secretariado; no dos espectáculos, produção!

E, em todos, PESSOAS!

Os dois acontecimentos

Tempo é, pois, de me referir aos dois acontecimentos.

Redijo esta crónica, a 1 de Janeiro, sob o rescaldo ainda de dois espectáculos a que me foi dado assistir: o dos 10 anos do «The Voice» e o concerto de Ano Novo, pela Orquestra Sinfónica de Viena, dirigida pelo maestro argentino (de quase 80 anos!) Daniel Baremboim, transmitido a partir da magnífica Sala Dourada da Musikverein de Viena.

Uma maravilha, ambos!

No final da emissão a partir de Viena para todo o mundo lá passou a extensa ficha técnica com os nomes dos responsáveis pelas várias áreas. E imaginamos o trabalho que terá dado preparar, em perfeita sintonia com a música, o bailado dos cavalos da Escola de Equitação, o romântico passeio do jovem enamorado casal pelas ruas e monumentos da cidade, o sobrevoo pela cidade de Salzburgo, os bailarinos em acção por essoutras salas lindíssimas… E a magnificente decoração floral levada a cabo pela empresa Vienna Parks and Gardens?!… Um mar de flores emoldurava toda a sala!

No auditório de cá, o da RTP 1, não menos engalanado (cumpre dizer), um mundo de surpresas a exigir rigoroso planeamento, sigiloso até (não esqueceremos as exclamações de Marisa Liz «É a minha filha!»), as actuações, cada qual com seu enquadramento específico e a exigir muito ensaio… Por isso, apresentadores e mentores não se esqueceram de tecer rasgados (e bem merecidos!) elogios à produção!

Em suma:

Se começo o ano com bom humor? Começo.

Na esperança de que, duma vez por todas, as pessoas venham a assumir o lugar que lhes pertence! Nada de mais, de resto. «Tudo começa nas pessoas», escolheu Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais, para lema do seu mandato autárquico… Sei bem que tem percebido como nem sempre é fácil pôr as pessoas em primeiro lugar. Esse é, porém, um lema bom!

Morrer de fome

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O futuro da maioria dos jornalistas, principalmente de jovens jornalistas, está escrito neste anúncio de uma revista online especializada em música, no caso música tocada com instrumentos de percussão. Querem alguém que trabalhe de borla. Com uma vaga “promessa” de um salário num futuro mais ou menos longínquo.

Acreditamos que não possam pagar, pelo que vimos do trabalho que apresentam nas redes sociais. Tudo baseado em partilha de serviços. O designer dá uma borla a troco de um link onde expõe as suas coisas, a malta da fotografia faz a mesma coisa e por aí fora. Ninguém ganha nada, o dinheiro não circula, apenas existe boa vontade.

Não há patronos e o tal mercado não consome, até porque os circuitos de produção e distribuição não funcionam de borla. Por exemplo, quando alguém vai a uma loja comprar um instrumento musical, chave de parafusos, microfone, computador, tem de pagar. Se não pagar não tem a ferramenta e sem ela não produz.

É o drama dos criativos que vivem em sociedades empobrecidas. O esforço morre aí, na falta de visibilidade das criações, seja canto lírico ou pintura, teatro, jornalismo ou tocar tambor. Ou se quebra o ciclo vicioso das borlas ou vão morrer todos de fome.

Vão para a Escola Primária!

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Ignoro se bater neste ‘ceguinho’ é uma batalha perdida, mas não posso deixar de o fazer.

Ouço Rádio (muito), vejo televisão (muito ocasionalmente) e não posso deixar de ficar chocada com o português da generalidade dos locutores e apresentadores.

Lembro-me, há uns anos, do escândalo que foi quando Jorge Coelho, então ministro da Administração Interna disse ‘hadem’. Foi alvo de chacota durante muito tempo. Hoje, todos dizem ‘hadem’ e coisas bem piores e já quase ninguém repara. Um locutor de um telejornal afirmou que ‘houveram muitas palmas’ e eu pensei: Jorge Coelho, estás perdoado!

O pior é quando se desculpam com o novo Acordo Ortográfico, que já não é tão novo assim e devia ter sido revogado há muito tempo.

Nas redes sociais vejo piadas ao português e, onde muitos põem um bonequinho a rir, eu ponho um bonequinho muito zangado. Porque fico mesmo zangada.

Recentemente, no The Voice ouvi ‘eu escolheria-te a ti’. Pelo amor da santa, não sabem conjugar os verbos, custa muito dizer escolher-te-ia?

Ainda no mesmo programa de entretenimento (não tenho culpa se já vi três ou quatro bocados do mesmo) um ‘mentor’ afirmou: ‘A Sara e o Tiago tiveram muito bem os dois’. Ai tiveram? O que é que tiveram? Um mentor que não sabe falar? Porque quando se confunde tiveram com estiveram, estamos conversados.

Ou a que diz: ‘Eu não queria era ter que escolher entre vocês, deixa-me de coração partido. A Francisca é uma caixinha de surpresas (…) eu gostava mesmo de continuar a trabalhar com vocês’. E a apresentadora que afirma ‘estamos com vocês’.

Não sabem o que é convosco? Eu explico: é um pronome pessoal que abrange os dois géneros.

Dir-me-ão que a Sul do País se fala assim, o que não acontece no Norte. Mas é um meio de comunicação e, também por isso, quem tem responsabilidades deve sempre ter um falar correcto.

No Público, um jornal que dizem ser de referência, num texto assinado por uma jornalista, lia-se em título: ‘habituaremo-nos’. Sei que despediram os revisores, mas não há um editor que saiba habituar-nos-emos»?

E o que dizer dos que dizem e escrevem ‘tem a haver com’? Alguém lhes ensine que é tem a ver e que o verbo haver aqui não tem cabimento.

E o que dizer do locutor do telejornal que afirmou ‘interviu na conversa’?

Como não entendo que (e já nem vou pela gramática, mas pela lógica) ainda não entenderam que não há ‘dias atrás’ e ‘para além’. Se há dias, claro que não é à frente! E além já significa isso mesmo…

Confesso ainda que tenho dificuldade em perdoar ao ‘mentor’ que tem sempre ‘fogo’ na ponta da língua. Mas isso é outra conversa, que é a mesma do ‘tipo’. São ‘bengalas’ que, por qualquer razão, as pessoas usam, esquecendo-se do real significado da palavra.

As palavras têm um significado e usá-las implica saber qual é. De outro modo, cada um atribui aquele que quer e, qualquer dia, ficamos numa Babel.

Dou aulas de português a estrangeiros e tenho o maior orgulho nos meus alunos que falam e escrevem português melhor do que muitos portugueses. E sim, ‘melhor do que’, já que os comparativos são outra das ignorâncias dos nossos brilhantes locutores e apresentadores.

Deixo-vos a foto que tirei à composição de um aluno. Este é chinês, mas escreve como já poucos portugueses.

O meu conselho aos ‘profissionais’ da Rádio e Televisão? Vão para a Escola Primária!

E, já agora, Feliz Ano Novo!

Cadelas Irreverentes

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colagem fotográfica

Prestar reverência é dobrar o joelho, é venerar de uma maneira receosa e untuosa. A reverencialidade não é uma característica de classe, mas de um povo, no nosso caso. Cada classe reverencia a que julga acima ou os indivíduos do mesmo grupo que considera poderem ser-lhes úteis. Os portugueses são especialistas em dar graxa. Ficam a polir as superfícies, mesmo que elas nunca tenham tido brilho e não possam brilhar.

Continuam a passar a pomada e a esfregar, esfregar, como um operário na fábrica que faz o mesmo gesto três mil vezes por dia. Estão habituados. É uma forma de vida. Não reparam porque não distinguem o que brilha do que é baço. Também eles são baços e não se dão mal. Estão todos na mesma cesta. Repetem as expressões. Sobre o Natal: “passou-se”. Sobre a morte: “não somos nada.” Sobre o Governo e banca: “o que eles querem sei eu”. Parecem monges no convento repetindo as mesmas orações, às mesmas horas, com o mesmo propósito. Os portugueses têm esse lado monástico que casa tão bem com o reverencial. Nunca me hei-de dar bem num mundo reverencial. Não sirvo para isso. Como é que eu vim parar a esta cultura, a esta nação?

Fui ao Parque da Paz com as cadelas soltas. Só lá meti a pontinha, aquilo não dava para engravidar um pinheiro-fêmea, mesmo que viesse atrás de nós. Foi só um bocadinho de relva de raspão. Vi um carro de jardineiro vir ao fundo. Ignorei. Ouvi-o parar o motor do carro nas minhas costas. Continuei caminho. Contei os segundos que demorou a levantar o rabo do assento e a dar quatro ou cinco passos. Escutei um “ó minha senhora!” Voltei-me muito espantada com a interpelação. “Não pode andar aqui com os cães à solta.” “Ah, certo. Vou já sair.” “Vai sair, mas não devia ter entrado, bla, bla, bla, bla, bla…”Continuei, completamente surda e saí uns quinhentos metros à frente, depois de a Marisol ter dados umas corridas boas na relva.

O Parque da Paz é enorme, mas os cães só podem andar de trela nos caminhos. Se os cães só podem andar de trela não podem correr. Se só podem andar nos caminhos não podem usufruir do jardim, cheirar a relva e rebolar-se nela. Não percebo para que serve um jardim se não pode ser usado de acordo com a sua natureza, para que todos os animais, humanos e não humanos, nele corram e se rebolem. Eu nunca percebo nada. Tenho deficit cognitivo profundo desde criança. Passei mais de metade da vida a perguntar porquê ou, em alternativa, a fazer de conta que não via, não ouvia, não sabia, não percebia.

Costumo ir passear com as meninas para a praia do Caramujo que é o local mais feio e sujo de Almada. Não é uma praia, embora ela exista, pequena, mas um cais com barcaças de pescadores locais atadas a cruzes de ferro cravadas em pedras e cimentadas. Um horror! Se há fealdade no mundo está toda ali. Alguém para ali vai sacrificar galinhas. Já vi cadáveres de aves sem cabeça. Se precisam mesmo de sacrificar os animais, ao menos comam-nos, sacos de vazio!

Também para lá vão fazer coisas dentro dos carros. Queimar os restos de objetos dos ex-amantes. Do mal o menos. Muito lixo, muita porcaria. Se eu quisesse filmar num cenário decadente, muito decadente, onde tudo pode acontecer, filmaria no Caramujo. A única vantagem é que as cadelas podem correr em paz. É terra de ninguém. Tenho medo do dia em que reabilitem o lugar. As cadelas nunca mais aí poderão correr.

O gradeamento que separa o Caramujo da Lisnave tem atualmente um grande buraco na rede. Dá para entrar e aproximarmo-nos das docas. É proibido. É, mas está aberto. Portanto, no outro dia resolvi entrar com cadelas, de mãos nos bolsos, para conhecer a Lisnave onde nunca tinha entrado.

Vi um mural do Vhils ao fundo e lá me encaminhei para a parede em questão. Grandes docas. Interessante. Vi a Marisol parar e ficar muito atenta a algo que estava muito longe. Olhei na mesma direção e pareceu-me ver e ouvir alguém a gritar. Mas eu vejo muito mal e com o vento fico muito surda, de maneira que não vi nem ouvi nada. Continuei. Quando me aproximei do belo do mural do Vhils, percebi que um carro com características militares vinha a toda a velocidade do outro lado – o da estrada que vai para Cacilhas. Assobiei às meninas, esfreguei as mãos e disse-lhes, “vamos que já chega de passeio”. Voltei pelo mesmo caminho.

Espetaculares docas. Ali cabiam navios dos grandes. Vinha na boa, devagarinho, no meio do caminho asfaltado, quando uma das cadelas se atrasou. Voltei-me para trás, procurando-a. Havia um carro com militares, creio que da Marinha, a seguir-me. A trinta metros de mim. Deu-me vontade de rir, mas fiquei apenas muito surpreendida. Acho que até abri a boca. Afastei-me toda para a borda, com grande mesura, para os senhores passarem. Não queria estar a incomodar. Deviam estar na hora da guarda ou isso e eu estava a empatar. Passaram, olharam para mim, para as cadelas. Uma cota de fato de treino, toda despenteada a passear com os cãezinhos. Eu tinha percebido tudo, sei por onde o carro seguiu e estranhei não o ver reaparecer. Mas sei lá se não caiu ao mar, com a velocidade a que ia. Não me cabe controlar a forma como os militares conduzem carrinhas.

Saí pelo mesmo buraco por onde entrei. Adorei ver o mural do Vhils e as docas. Não toquei em nada. Apanhei o cocó das cadelas. A Marinha devia agradecer-me o interesse e estima que tenho pelas suas instalações. A minha vida é uma anedota. Assim seja para sempre.

Crónica também publicada em “Diário da Revolta”, Facebook de Isabela Figueiredo

O título desta crónica é da responsabilidade do editor do site Duas Linhas

Alien

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Há um ano mudei de casa. É bem bonita, fiquei muito contente, um recomeço. Estávamos no segundo confinamento. Tive paz e finalmente chegou ao fim a prisão domiciliária. O plano era trabalhar num dia, ir à praia noutro. Perfeito, até comprei um guarda sol e tudo!

Mas a mãe natureza tinha outros planos, maléficos, e levou-os à prática, sem piedade.

Fez-me ir ao tapete, uma e outra vez, catrapum pum pum! Durante uns tempos, fui cliente habitual de São José e a sacana ainda acrescentou umas tonturas que merecem respeito. De forma que o plano praia/trabalho virou o plano, consultas/exames. Fiz-me forte, positiva, ia tudo resolver-se. Mas, um dia deitada na cama a apreciar o Sol, este esgueirou-se num instante e caiu uma chuva miudinha. O Verão chegou ao fim e mal passou por mim. Caiu o optimismo, a força. Baixei os braços, fiquei triste, extenuada, cansada de tudo. Dos intermináveis médicos sem diagnóstico, do maldito vírus que andava para trás e para a frente, um desalento. O optimismo e a força desceram pelo ralo abaixo.

Vivi, dentro destas circunstâncias, um terceiro confinamento. Com o Outono a entrar à vontadinha pedi a um amigo que me levasse a ver o pôr do sol na praia. Assim foi. Só aí perdoei à mãe natureza todas as maldades. O pôr do sol é demasiado bonito para tristezas.

A conversar com amigos, familiares e conhecidos, percebi que o espírito geral era idêntico, o desânimo atingiu todos. Estamos todos exaustos, fartos desta merda. A todos foi puxado o tapete, de uma maneira ou de outra.

Uma noite, portátil à frente, copo de vinho ao lado, pensei: o que me apetecia agora era beber um copo fora. Caí em mim: posso ir beber um copo, está tudo aberto!

Lá fui, atravessei a Baixa sem ver gente, sem lojas very typical, apenas edifícios simétricos, a calçada, os candeeiros, o som ténue dos semáforos a mudar. Um silêncio apenas cortado pelos meus passos.

Cheguei ao bar. Foi tão bom encontrar pessoas de quem gosto há muito, outras novas, uma delas desafiou-me para ir ao Lux. Dançar no Lux foi a minha cenoura durante os confinamentos. Danço muito em casa mas dançar com outros é diferente, poderoso, harmonioso. Além de que significava imunidade face ao maldito vírus. Podíamos estar juntos! A dançar deitei fora todo o peso que transportava. Vai-te lixar Mãe Natureza! E noite sim, noite não, ia beber um copo na rua porque Lisboa é na rua. Pois, ela não gostou muito da coisa, vai daí deu-nos uma nova variante, tudo a andar para trás,  estatísticas a andar para a frente, num esquema vacina/nova variante.

E começou a corrida aos testes. Nunca fiz um teste, não tive necessidade. Como trabalho em casa fiquei muito resguardada. Assusta-me a ideia do cotonete pelo nariz adentro, não sou capaz, terá que ser outro a fazer-me. Tenho um guardado, comprei-o para uma ocasião que não se concretizou, a seguir para outra que foi pelo mesmo caminho. Enquanto não precisar não entro nessa corrida.

E veio o Natal. Este foi passado em família, mas não aquela em que nasci, essa estava longe, mas aquela que me escolheu. Sou muito grata pelos meus amigos. Foi um Natal como manda a tradição. Mesa farta, gente alegre e com o ingrediente secreto que faz com que o Natal seja Natal. Um ser vivo de quatro anos, um furacão como lhe chama a mãe e eu subscrevo, muito focado nas incontáveis prendas que recebeu. A minha última foram umas meias de Natal, até pensei que não ligasse, mas foi um sucesso. Calçou-as logo, disse-me: “estão compridas”. “Não faz mal, tu és um ser de quatro anos, cresces num instante”. Aceitou o argumento e calçou-as na consoada e no dia seguinte. Que orgulho!

Mas o Pai Natal deixou à porta uma prenda imbatível. Uns óculos 3D com uma pistola para matar Aliens virtuais, muito maus! Imbatível…

Quando todos já não davam importância à coisa fui jogar. Matei todos! Implacável. Não imaginam o bem que faz matar Aliens.

Regressei a casa, olhei para a caixa de medicamentos, já não faço ideia para que servem muitos deles. Paciência. Até ao fim de ano, não mexo mais em drogas legais, é ponto assente.

Fiquei em paz nesta quadra mas continuo apreensiva, sem grande inspiração para escrever votos hiper-positivos para o novo ano. Voltaremos às vacinas/nova estirpe, uma e outra vez..vacinas/nova estirpe.  Penso que o maldito vírus não se vai embora tão cedo. Revoltar-me não adianta muito, torna tudo mais penoso. Talvez o melhor desejo para este fim de ano é habituarmo-nos a viver com ele.  Mas de cabeça erguida e atirar a matar aos Aliens maus. Todos, sem piedade!

Ergo o copo e faço o único brinde que importa. Saúde! Tchim tchim! Bom ano novo!

A escola e os imigrantes

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Há tempos, fiz uma formação que me enriqueceu muito. Cada sessão era uma incursão pelo mundo das línguas e pelo tecido social português em mutação.Nessa altura, conheci o professor Rui Gomes, que dá aulas num agrupamento de escolas de São João da Madeira. Este município está a acolher uma grande quantidade de refugiados e migrantes, resultante de uma articulação entre a Câmara Municipal, a Cruz Vermelha e outras instituições locais.

Cada vez que o professor Rui Gomes falava, ganhávamos maior consciência da origem destas migrações, da componente linguística associada e da logística em marcha para acolher estas pessoas, nomeadamente ao nível da escola pública. Este professor estava – e está – a dar PLMN /Português para Estrangeiros. Disse que muitos destes imigrantes são jovens, maioritariamente, mas com histórias de vida já muito intensas. Que gostam de ser apreciados e valorizam o acolhimento dado. Que são de países tão díspares como Vietname, Síria, Iraque, China, região do Magrebe, Turquia, Filipinas, Venezuela e até da região do Curdistão (detesto escrever isto com C quando há um K no alfabeto). E que se estava à espera de mais afegãos, tendo em conta os desenvolvimentos na “nova” era talibã.

A realidade das escolas portuguesas não é a mesma de antes. Desde a chegada e entrada de ucranianos, sobretudo, que a escola não se renovara com políticas educativas que reflitam a componente étnica que cada vez mais se vai configurando em Portugal. O desafio é não só providenciar aulas da língua oficial portuguesa, por razões de comunicação, como também não penalizar os novos alunos com avaliações injustas quer a nível linguístico quer cultural. Desta forma, a grande aposta futura deverá ser a revisão de currículos que possam ser mais inclusivos e potenciadores de valores como a tolerância. O conhecimento cultural do país que acolhe e dos países de origem destes migrantes é fundamental para eliminar barreiras e preconceitos.

Cada vez que o professor Rui Gomes falava, o nosso enriquecimento era uma realidade. No último dia, a tarefa foi construir um teatro de papel em português mas que incluísse as línguas que faziam parte do nosso dia a dia enquanto docentes. No meu caso, professora de inglês, tanto ouço português como espanhol nos intervalos. Em doses cada vez mais similares. No dele, as línguas que incluiu foram muitas, estranhas, difíceis, apelativas, diversas. Vi-me aflita para entender tudo na sua história, narrada por ele com muito entusiasmo.

O Portugal de cariz rural, atávico, nacionalista e uniforme está a desaparecer, mesmo nas localidades do interior. Se a capital é cosmopolita desde há muito e esse é um dos seus grandes atrativos, as escolas da província estão também mais plurilingues. Só temos a ganhar com tudo isto.