Alien

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Há um ano mudei de casa. É bem bonita, fiquei muito contente, um recomeço. Estávamos no segundo confinamento. Tive paz e finalmente chegou ao fim a prisão domiciliária. O plano era trabalhar num dia, ir à praia noutro. Perfeito, até comprei um guarda sol e tudo!

Mas a mãe natureza tinha outros planos, maléficos, e levou-os à prática, sem piedade.

Fez-me ir ao tapete, uma e outra vez, catrapum pum pum! Durante uns tempos, fui cliente habitual de São José e a sacana ainda acrescentou umas tonturas que merecem respeito. De forma que o plano praia/trabalho virou o plano, consultas/exames. Fiz-me forte, positiva, ia tudo resolver-se. Mas, um dia deitada na cama a apreciar o Sol, este esgueirou-se num instante e caiu uma chuva miudinha. O Verão chegou ao fim e mal passou por mim. Caiu o optimismo, a força. Baixei os braços, fiquei triste, extenuada, cansada de tudo. Dos intermináveis médicos sem diagnóstico, do maldito vírus que andava para trás e para a frente, um desalento. O optimismo e a força desceram pelo ralo abaixo.

Vivi, dentro destas circunstâncias, um terceiro confinamento. Com o Outono a entrar à vontadinha pedi a um amigo que me levasse a ver o pôr do sol na praia. Assim foi. Só aí perdoei à mãe natureza todas as maldades. O pôr do sol é demasiado bonito para tristezas.

A conversar com amigos, familiares e conhecidos, percebi que o espírito geral era idêntico, o desânimo atingiu todos. Estamos todos exaustos, fartos desta merda. A todos foi puxado o tapete, de uma maneira ou de outra.

Uma noite, portátil à frente, copo de vinho ao lado, pensei: o que me apetecia agora era beber um copo fora. Caí em mim: posso ir beber um copo, está tudo aberto!

Lá fui, atravessei a Baixa sem ver gente, sem lojas very typical, apenas edifícios simétricos, a calçada, os candeeiros, o som ténue dos semáforos a mudar. Um silêncio apenas cortado pelos meus passos.

Cheguei ao bar. Foi tão bom encontrar pessoas de quem gosto há muito, outras novas, uma delas desafiou-me para ir ao Lux. Dançar no Lux foi a minha cenoura durante os confinamentos. Danço muito em casa mas dançar com outros é diferente, poderoso, harmonioso. Além de que significava imunidade face ao maldito vírus. Podíamos estar juntos! A dançar deitei fora todo o peso que transportava. Vai-te lixar Mãe Natureza! E noite sim, noite não, ia beber um copo na rua porque Lisboa é na rua. Pois, ela não gostou muito da coisa, vai daí deu-nos uma nova variante, tudo a andar para trás,  estatísticas a andar para a frente, num esquema vacina/nova variante.

E começou a corrida aos testes. Nunca fiz um teste, não tive necessidade. Como trabalho em casa fiquei muito resguardada. Assusta-me a ideia do cotonete pelo nariz adentro, não sou capaz, terá que ser outro a fazer-me. Tenho um guardado, comprei-o para uma ocasião que não se concretizou, a seguir para outra que foi pelo mesmo caminho. Enquanto não precisar não entro nessa corrida.

E veio o Natal. Este foi passado em família, mas não aquela em que nasci, essa estava longe, mas aquela que me escolheu. Sou muito grata pelos meus amigos. Foi um Natal como manda a tradição. Mesa farta, gente alegre e com o ingrediente secreto que faz com que o Natal seja Natal. Um ser vivo de quatro anos, um furacão como lhe chama a mãe e eu subscrevo, muito focado nas incontáveis prendas que recebeu. A minha última foram umas meias de Natal, até pensei que não ligasse, mas foi um sucesso. Calçou-as logo, disse-me: “estão compridas”. “Não faz mal, tu és um ser de quatro anos, cresces num instante”. Aceitou o argumento e calçou-as na consoada e no dia seguinte. Que orgulho!

Mas o Pai Natal deixou à porta uma prenda imbatível. Uns óculos 3D com uma pistola para matar Aliens virtuais, muito maus! Imbatível…

Quando todos já não davam importância à coisa fui jogar. Matei todos! Implacável. Não imaginam o bem que faz matar Aliens.

Regressei a casa, olhei para a caixa de medicamentos, já não faço ideia para que servem muitos deles. Paciência. Até ao fim de ano, não mexo mais em drogas legais, é ponto assente.

Fiquei em paz nesta quadra mas continuo apreensiva, sem grande inspiração para escrever votos hiper-positivos para o novo ano. Voltaremos às vacinas/nova estirpe, uma e outra vez..vacinas/nova estirpe.  Penso que o maldito vírus não se vai embora tão cedo. Revoltar-me não adianta muito, torna tudo mais penoso. Talvez o melhor desejo para este fim de ano é habituarmo-nos a viver com ele.  Mas de cabeça erguida e atirar a matar aos Aliens maus. Todos, sem piedade!

Ergo o copo e faço o único brinde que importa. Saúde! Tchim tchim! Bom ano novo!

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