Os indispensáveis, as pessoas

Dois acontecimentos nesta passagem de ano susceptíveis de sugerir uma reflexão. O Professor Júlio Machado Vaz, em entrevista de 1 de Janeiro, ao jornal Sol, chama a atenção para o papel propiciador do ócio para a reflexão: «Os velhos gregos no ócio é que pensavam, é que filosofavam, era qualquer coisa de profundamente valioso». E foram esses dois momentos de ócio aparente que me propiciaram a reflexão que ora ouso partilhar.

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«Quero um secretariado!»

Quando, no ano lectivo de 1984-1985, assumi as funções da presidência do Conselho Pedagógico da minha Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a primeira exigência que fiz foi: «Quero um secretariado!». Ou seja, um espaço onde possa guardar a documentação, receber as pessoas e ter um secretário ou secretária para o expediente.

Ia caindo o Carmo e a Trindade! Se já se vira! Um moço pequeno, acabado de doutorar-se, a fazer exigências dessas!

Bati o pé. E consegui. O Conselho Pedagógico começou a funcionar. Os outros órgãos da Faculdade – o Conselho Científico, o Conselho Directivo – não tinham secretariado, puseram a mão na consciência, se calhar o puto é capaz de ter razão… E, daí a pouco tempo, viram como, na realidade, a existência dum secretariado era imprescindível e ainda o não haviam compreendido.

Não se interprete mal o que acabo de narrar, porque a questão, de facto, ainda se lhes não pusera e os presidentes estavam habituados a fazer tudo, inclusive dactilografar ofícios. Não se lhes leve a mal. Eu é que vinha doutros ares.

Felizmente, a minha iniciativa acabou por não causar, a breve trecho, muitos engulhos no consuetudinário conservadorismo universitário coimbrão e, hoje, toda a gente compreende a importância e o relevante papel que cabe a um secretariado.

Claro que se chegou a um extremo: o do secretariado electrónico. E, aí, a Universidade de Coimbra passou do 8 ao 80, a nível da Reitoria, por exemplo. Tu envias uma mensagem ao gabinete reitoral e tens imediata resposta automática:

«Acusamos a receção da sua mensagem à qual foi atribuído o código de identificação acima mencionado, ao qual pedimos que faça referência sempre que nos contatar sobre este mesmo assunto, com vista à sua rápida identificação».

Assim. Quase dando a entender que o melhor é voltar a contactar, mas, de preferência, para outro endereço. Na verdade, até ao momento, das múltiplas mensagens por mim enviadas ao Gabinete do Magnífico Reitor, de nenhuma recebi resposta e penso até que nenhuma lhe terá chegado ao conhecimento. Sinais dos tempos em que que o espírito universitário se esvai, as pessoas deixam de ter importância e os espíritos pairam noutros horizontes que não o do Fernando ou o António Manuel. Sem se compreender que são os Fernandos e os Antónios Manéis que, afinal, sustentam as estruturas. Um dia – oxalá! – isso se há-de entender. Que não seja tarde de mais – é o meu voto!

Aquele rol infindável!…

Vêm estas considerações a propósito de pormenores a que, porventura, nem sempre se dá a atenção que merecem.

No final dum filme ou do episódio duma série televisiva, passa no ecrã um rol infindável de nomes. Raramente se lhes dá importância. Foram, no entanto, essas pessoas, desempenhando os mais variados papéis, que tornaram possível o filme ou a série. Recordo que, um dia, para gravar a cena dum genérico televisivo que durava não mais de um minuto, veio uma equipa de doze elementos! E todos tinham um papel a desempenhar!

No programa duma peça de teatro, não se esquecem os responsáveis de mencionar, além dos actores e do encenador, os nomes de quem foi o responsável pelo guarda-roupa, pela coreografia, o desenho das luzes, o som, a costureira, os fotógrafos, a assistência de encenação, a dramaturgia, quem foi a costureira… Sem eles, o espectáculo não teria sido possível.

Em linguagem actual, tudo isso pode consubstanciar-se na palavra «produção».

Poderá muita gente admirar-se de os concorrentes a um programa como o «The Voice Portugal» (não gosto do nome inglês, mas… paciência!) agradecerem à produção. Foram, de facto, os elementos da produção que, nos mais diversos campos e momentos, os acompanharam, os aconselharam, lhes deram as necessárias dicas, escolheram com eles a vestimenta, os maquilharam e pentearam, lhes disseram para onde deveriam olhar, como se agarrava no microfone, onde deveriam ficar aquando da actuação… Um mundo de pormenores! Isso é a produção! Como o secretariado dum presidente do Conselho Pedagógico!… Ou o secretário da Directora Regional que a ‘proibiu’ de, nesse dia, vir vestida de verde! «Porquê?» – perguntara ela. «Porque as filmagens vão ser feitas no jardim!»…

Uma das minhas amigas trabalhou de perto com o presidente Eanes. Creio não cometer nenhum inconfidência, porque decerto assim se passa com todos os presidentes. E ela contava-me que uma das primeiras reuniões do presidente, logo pela manhã, era receber o assessor de imprensa, aquele que lera por ele os jornais, anotara o que lhe parecera de importante, sublinhara frases e parágrafos e, inclusive, acabava por sugerir que atitude o presidente deveria (ou poderia) tomar, em relação ao que a imprensa do dia publicara.

Cá está: a esse nível, chama-se assessoria; no da administração, secretariado; no dos espectáculos, produção!

E, em todos, PESSOAS!

Os dois acontecimentos

Tempo é, pois, de me referir aos dois acontecimentos.

Redijo esta crónica, a 1 de Janeiro, sob o rescaldo ainda de dois espectáculos a que me foi dado assistir: o dos 10 anos do «The Voice» e o concerto de Ano Novo, pela Orquestra Sinfónica de Viena, dirigida pelo maestro argentino (de quase 80 anos!) Daniel Baremboim, transmitido a partir da magnífica Sala Dourada da Musikverein de Viena.

Uma maravilha, ambos!

No final da emissão a partir de Viena para todo o mundo lá passou a extensa ficha técnica com os nomes dos responsáveis pelas várias áreas. E imaginamos o trabalho que terá dado preparar, em perfeita sintonia com a música, o bailado dos cavalos da Escola de Equitação, o romântico passeio do jovem enamorado casal pelas ruas e monumentos da cidade, o sobrevoo pela cidade de Salzburgo, os bailarinos em acção por essoutras salas lindíssimas… E a magnificente decoração floral levada a cabo pela empresa Vienna Parks and Gardens?!… Um mar de flores emoldurava toda a sala!

No auditório de cá, o da RTP 1, não menos engalanado (cumpre dizer), um mundo de surpresas a exigir rigoroso planeamento, sigiloso até (não esqueceremos as exclamações de Marisa Liz «É a minha filha!»), as actuações, cada qual com seu enquadramento específico e a exigir muito ensaio… Por isso, apresentadores e mentores não se esqueceram de tecer rasgados (e bem merecidos!) elogios à produção!

Em suma:

Se começo o ano com bom humor? Começo.

Na esperança de que, duma vez por todas, as pessoas venham a assumir o lugar que lhes pertence! Nada de mais, de resto. «Tudo começa nas pessoas», escolheu Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais, para lema do seu mandato autárquico… Sei bem que tem percebido como nem sempre é fácil pôr as pessoas em primeiro lugar. Esse é, porém, um lema bom!

3 comments

  1. Gosto muito deste texto de José d´Encarnação e da ênfase colocada nas pessoas. E de imediato me lembrei do livro O RETORNO DO ACTOR, de Alain Touraine e da importância do sujeito, ou do papel, por mínimo que seja, que ele desempenha nas sociedades.
    De facto acho que esse reconhecimento vem sendo dado nas fichas técnicas de filmes, peças de teatro, bailado e até na descrição dos vários operadores que trabalham num estúdio e que preparam, nos bastidores, a parte visível de uma produção qualquer.
    Mas também na badana de uma capa de livro esse cuidado é tido em conta pelas editoras, bem como na bibliografia final, ou texto ao jeito de posfácio, em que os autores mencionam outros, e seus trabalhos, que lhes serviram de suporte.
    Muito oportuna esta chamada de atenção, mas um caminho ainda longo a percorrer para que estes exemplos se generalizem.
    Muitas pessoas existem a produzir de forma independente e a quem ninguém liga. Parte delas ignorada tendenciosamente, silenciada. Talvez um dia evocada, em morte? Os elogios póstumos incomodam-me sempre.
    Belo texto.

  2. De: Vanda Maria Amaro Jardim Fernandes
    Enviada: 2 de janeiro de 2022 12:17
    Agora me chegou um momento de ócio para aplaudir estas brilhantes reflexões do Amigo Zé. Que escrita maravilhosa! Que espírito tão humanista! Que forte sensibilidade para Ser Pessoa!
    Muito obrigada pela partilha, que me deixou sentada no sofá a ouvir o silêncio e recordar tantas pessoas que pela minha vida passaram e umas outras tantas que, ainda vivas, me acompanham de perto ou ao longe!
    Forte abraço
    Vanda

    De: Elvira Bugalho
    Enviada: 2 de janeiro de 2022 14:23
    Muito bom!
    Tenho observado com mágoa o facto de as diversas entidades que referem e agradecem o esforço de enfermeiros e médicos nesta luta que se vem travando contra a covid, nunca referirem o trabalho árduo, incansável das auxiliares (sim, a grande maioria mulheres). Porque não se enaltece o seu trabalho? Por ser mais humilde, por não carecer de grandes diplomas?
    Mais uma vez, fica esquecido quem suporta o trabalho dos superiores hierárquicos.

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