Gouveia e Melo

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Os aprendizes de Política receberam, nos últimos dias, uma verdadeira lição sobre o modo como se pode destruir um adversário complicado com uma palmada nas costas e um sorriso aberto.

O período natalício (tão bem escolhido) ajudou mas, há que reconhecer, a “jogada” foi brilhante.

Recordemos os factos:

Um trabalho bem feito no planeamento da vacinação contra a Covid fez com que o Vice-Almirante Gouveia e Melo, um nome desconhecido para a imensa maioria dos portugueses, ganhasse, num curto espaço de tempo, uma dimensão espantosa ao ponto de ser transformado em herói nacional.

As entrevistas sucediam-se. Tal como todo o tipo de homenagens que foram de doutoramentos “honoris causa” a condecorações. Considerado o “Homem do Ano”, Gouveia e Melo desdobrou-se em declarações.

Tremendo erro porque, é sabido, a vida dá voltas muito repentinas e a verdade absoluta de hoje pode ser uma incerteza amanhã e uma falsidade no dia seguinte. Por alguma razão os políticos raramente usam frases taxativas. E mais raramente, ainda, não acabam por se arrepender depois de as terem proferido.

Apesar de tudo, a popularidade de Gouveia e Melo subiu, rapidamente, ao ponto de se começar a falar dele como putativo candidato a Presidente da República. O Povo, é sabido, gosta de heróis.

A imagem de um homem fardado a “combater”, na linha da frente, um terrível inimigo, e conseguir êxitos atrás de êxito, por todos reconhecidos, fez aumentar o seu número de admiradores a percentagens impossíveis de alcançar por qualquer político no activo.

Num país descrente dos seus políticos o aparecimento de um homem competente reunia todas as condições para a criação dessas expectativas. Como resultado óbvio, soaram as campainhas de alarme em todas as sedes partidárias.

Há um mês qualquer sondagem séria daria como vencedor certo, para as próximas presidenciais, o Vice-Almirante. Ora, é sabido, os políticos profissionais não gostam de correr riscos. Mesmo sabendo-se que aquele confessara, em entrevista, que não queria seguir outra carreira política que não a militar. E, mais, que sabia que daria “um péssimo político”! Havia que terminar com essas pretensões o mais rápida e eficazmente possível.

Gouveia e Melo ajudou quando, para pressionar a sua ascensão a Chefe do Estado Maior da Marinha, começou com o discurso de “ninguém diga desta água não beberei”, para dar a ideia de que poderia reverter a sua posição sobre uma eventual candidatura ao “mais alto cargo da Nação”!

E é aqui que começa uma verdadeira aula de política dada pelos mais interessados naquele lugar. Em primeiro lugar havia que pôr em causa a verdadeira dimensão do trabalho desenvolvido na Task Force da Vacinação. E o próprio Vice-Almirante.

Daí que, mesmo depois de terem esgotado todos os adjectivos elogiosos, acerca dele, não tivessem qualquer problema em arregimentar os escribas do regime para o denegrirem com artigos de “opinião” em jornais e nas redes sociais.

Desenterraram processos antigos, criticaram o modo da selecção para Chefe de Estado Maior da Marinha, criaram mal-estar nas Forças Armadas.

De seguida anteciparam a sua nomeação para esse cargo demitindo o titular do cargo, que tornou público o seu desagrado.

Finalmente foi-lhe dada posse numa cerimónia sem qualquer brilho, com a ausência de quase todas as principais figuras das Forças Armadas e do próprio Primeiro-Ministro. Algo impensável há poucas semanas.

A partir deste momento Gouveia e Melo não tem qualquer possibilidade de se candidatar à Presidência da República e, mais, não terá vida fácil no seu novo cargo. Isto porque não contará com o apoio de muitos militares nem, com toda a certeza, dos políticos. Sequer (e principalmente) daqueles que o nomearam. Razão tinha ele quando afirmou que daria um péssimo político.

Pode ser que tenha aprendido que, ao contrário da vida militar, na política os principais inimigos são os que estão ao seu lado. Ou atrás!

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