A falência desta fábrica é reflexo da crise na indústria automóvel alemã, que afeta toda a cadeia de fornecedores. A dependência exclusiva da Volkswagen tornou a fábrica completamente vulnerável às crises da economia alemã. Talvez se pensasse petulantemente que a Alemanha não tinha crises económicas. Mas o motor gripou.
A indústria portuguesa tem uma grande dependência da produção de automóveis alemães. Não é só o setor metalúrgico, mas toda a produção de componentes para automóveis está agora em risco, desde as cablagens aos moldes.
É provável que mais falências venham a acontecer. A indústria automóvel europeia, em particular a alemã, está em grandes dificuldades para se adaptar à grande transformação com a transição para veículos elétricos, regulamentações ambientais rigorosas, redução da procura, as taxas aduaneiras dos EUA, a guerra na Ucrânia e a… concorrência asiática. Tudo junto é um desastre de proporções inimagináveis.
EUROPA CONVERSA FIADA
Em épocas de crise, a solidariedade europeia, a coesão, é conversa fiada. A retórica da solidariedade europeia não se traduz em ações concretas quando a crise aperta. Cada país tende a priorizar os seus próprios interesses, e isso fica evidente em momentos de dificuldades económicas. Vimos isso na crise da dívida soberana, na pandemia e estamos a rever agora.
A Alemanha, por exemplo, beneficia de fornecedores em países como Portugal, mas quando precisa de cortar custos ou reorganizar a produção, fá-lo sem grande consideração pelos impactos nos parceiros europeus. A União Europeia tem mecanismos de coesão e apoios estruturais, mas quando se trata de salvar empresas ou garantir empregos, a lógica nacionalista prevalece.
A lógica da mão de obra barata deixa de funcionar, o que piora tudo. Portugal tem mão de obra barata, isso deveria servir como uma espécie de “seguro” contra falências, tornando o país mais competitivo e atrativo para as empresas internacionais. Mas a realidade sempre mostrou que essa estratégia nunca impediu deslocalizações para países asiáticos (de mão de obra ainda mais barata) e, estamos agora a ver, também não protege a economia.
O caso particular da Schmidt Light Metal (500 operários no desemprego em Oliveira de Azeméis) demonstra que a gestão da fábrica nunca se preocupou em diversificar a clientela. Estava confortável com a Volkswagen e deiXou-se ficar à sombra dessa ‘bananeira’.
Dito isto, se a lógica da mão de obra barata não protege o emprego, então mais valia termos salários ao nível dos alemães. Pelo menos isso aumentaria o poder de compra interno, evitaria a fuga de mão de obra e de talentos e tornaria o país mais atrativo para investimentos de alto valor acrescentado.
Fica, assim, bem à mostra, a ineficácia da governação que temos tido, desde tempos imemoriais. O verdadeiro desafio teria sido mudar o modelo económico, porque apostar apenas em baixos custos já provou ser uma armadilha. Agora, vamos tarde.
Em fevereiro, o Instituto Nacional de Estatística diz que a população desempregada era de 354.200, um acréscimo em relação ao mês anterior (4,8 mil ou 1,4%). Em março houve mais 500, só em Oliveira de Azeméis.




