Há uma lenda antiga que nos diz como, há dois mil anos, se mudou a sorte do alecrim que tem, agora, flores azuis e antes não tinha, que deixa no ar, agora, suave aroma, quando chega a Primavera e antes não era assim.
Não era assim no Paraíso, onde Eva habitou quando tinha ainda jeitos de menina. Eva nunca usou raminhos de alecrim para fazer chás e as abelhas de que Adão cuidava no jardim não costumavam pousar-lhe nas flores do renque das plantas que cresciam à beira de um dos quatro rios e às quais depois se deu o nome de rosmarinus officinalis, o nome que Lineu criou para alecrim.
A lenda antiga que se conta diz assim:
Quando a Virgem Maria fugiu de Belém para o Egipto para livrar o seu Menino da má sorte que lhe preparavam os soldados de Herodes, as plantas do caminho abriam-se em flores que deixavam cair como se fosse a passar a procissão.
Quando já estavam no deserto, quando puderam descansar um pouco num oásis, a Virgem deu de mamar ao seu Menino e, enquanto ele dormia, pôs-se a lavar os seus cueiros e quis estendê-los ao sol para secar.
Havia por ali tufos de flores que se abriram, por milagre, para enfeite da paisagem. Malmequeres, rosas brancas, violetas, lírios roxos. Mas, de tão frágeis, não pôde a Virgem estender sobre eles os cueiros.
E foi então que reparou nas miúdas flores – eram então brancas – de um renque de alecrim. E foi ali que colocou as roupinhas a secar. Roupas de linho oferecidas por pastoras, em Belém, e faixas de seda que um dos Magos lhe trouxera.
Secou a roupa num instante, que a Virgem tinha pressa de partir, não vissem os soldados, sobre a areia, o rasto da burrica. E foi então que a Virgem premiou o alecrim. As suas flores iriam ser azuis, da cor azul do manto que levava e durariam, abertas, para além da Primavera. E os ramos tenros que suportaram as roupas do Menino, tal e qual como as roupas da criança, ficariam perfumados.
E é desde então que as mulheres colhem ramos de alecrim para os seus chás, para sararem suas dores de mulheres.
E, em Jerusalém, quando aquele Menino, então já homem feito, entra na cidade sobre o dorso ajaezado da burrica, as mulheres da cidade e outras que vieram de Belém, trouxeram molhos de alecrim e juncaram com os ramos o chão do seu caminho.
Mil anos mais tarde, minha mãe, tal e qual como as mulheres de Jerusalém e de Belém, logo ao começar da Primavera, no Domingo de Ramos, cortava na Quinta do Valbom hastes floridas de alecrim para levar na procissão e que depois guardava, penduradas com uma fita, no frontal. Depois, no Verão, mais em Setembro, ao vir das trovoadas, queimava-os sobre brasas, num pratinho, à janela e era este fumo bento que subia ao céu para arramá-las, como se dizia, para levá-las para longe, para onde não houvesse eira nem beira, nem pé de figueira, nem alminha cristã, nem guedelhinho de lã, como rezavam os versos dessa prece há mil anos inventada.
Na Quinta do Valbom da minha terra, ainda tenho renques de alecrim que eu plantei ao findar de um qualquer Inverno já passado e colmeias de abelhas, um pouco já diferentes dos cortiços que Adão tinha no Jardim.
Às vezes, colho um ramo do alecrim que plantei na minha Quinta de Valbom.





Teresa Mascarenhas
Obrigada, Zé, essa do alecrim é tão bonita! Agora conto-te outra também muito bonita que me contaram há tempos. Um dia, o Menino Jesus, aí já com os seus cinco anitos, estava junto ao rio e, com as mãozinhas, usando barro, ia moldando uns passarinhos bonitos. De repente, surgiu S. José, que disse:
– Jesus, vem para casa, a mãe acabou de fazer o almoço.
Jesus obedeceu, claro. Bateu as mãos e os passarinhos tomaram vida e saíram a voar!
Boa tarde Alberto Correia e José d’Encarnação.
Uma crónica muito linda, relaxante.
O que de mais belo têm as lendas, é ignorarem obstáculos e enaltecer personagens. Aqui a da Virgem Maria, que nem precisava da ajuda de S. José.
Vivem do anacronismo, da pureza de certos corações humanos contra os maus que os perseguem, do milagre fácil.
Por tudo o que é desejável na lenda, ela ajuda a tecer o imaginário colectivo e os povos ficam irmanados em modos de fazer-viver, ou na veneração a entidades e plantas.
Também conheci o carácter místico do alecrim nos ramos da Páscoa, espalhados no chão, benzidos na igreja. Depois queimados pela minha avó para purificar o lar.
Mas podemos tirar dados importantes desses ramos de palavras, por exemplo, inferirn a idade de Jesus. Se for verdade que Herodes (o Grande) o mandou perseguir, então quando ele morreu não tinha 33 anos, mas 37, porque esse Herodes morreu em 4 a. C.
Uma tarde muito sererna.