As novas sanções não acrescentam nada, servem mais para manter uma posição política do que para causar uma mudança real na estratégia russa. O Kremlin já ajustou sua economia para operar sob restrições, e a rede de comércio paralelo através de países como China, Índia, Turquia, Emirados Árabes e Brasil está a funcionar.
Se as sanções anteriores não atingiram o objetivo, estas irão pelo mesmo caminho. Sem medidas realmente disruptivas – como um bloqueio total do comércio por parte de países-chave como a China –, a Rússia continuará a ter alternativas. Já a UE sofre com os impactos indiretos das próprias medidas, com perda de competitividade e custos elevados de energia.
A UE transmite falta de imaginação para encontrar uma estratégia que seja eficaz. Talvez porque a maioria dos governos europeus se mantenha fiel às diretivas da Comissão liderada por Ursula von der Leyen.
É possível que os governos europeus não queiram admitir publicamente que a estratégia falhou, para não enfraquecer mais a união do grupo. Precisam também de manter a narrativa para consumo interno, porque não fica bem aos políticos admitirem que estão a borrar a pintura, que perante o falhanço das suas apostas não existe um plano B.
O SILÊNCIO
O silêncio pode não significar que os governos nacionais concordem 100% com a Comissão, mas sim que, no jogo político, às vezes é mais conveniente manter a aparência de unidade do que admitir erros e procurar uma nova estratégia.
Mas o silêncio dos líderes europeus também pode ser interpretado como falta de coragem para confrontar a Comissão Europeia. Se realmente discordassem da estratégia, poderiam pressionar por uma mudança, mas preferem seguir o curso atual, talvez por medo das consequências políticas, não apenas para os respetivos países mas, também, a nível pessoal. Todos eles estão a prazo e cuidar do futuro é uma medida cautelar que nenhum desdenha. Qual deles não gostaria de ter a oportunidade que António Costa aproveitou?
São políticos sem capacidade de autocrítica, as decisões erradas são perpetuadas porque ninguém quer ser o primeiro a admitir que o plano falhou. No final, quem paga o preço são os cidadãos e as empresas europeias, que enfrentam os impactos económicos dessas escolhas.
OS SUBALTERNOS
O estado a que isto chegou explica em parte o sucesso do discurso da direita e da extrema direita. Muitos cidadãos sentem que os políticos que têm sido eleitos estão mais preocupados em manter o poder e seguir narrativas pré-estabelecidas do que em resolver problemas concretos, como inflação, crise energética e perda de competitividade.
A extrema-direita aproveita a oportunidade, produz um discurso mais direto e crítico, focado nos problemas internos de cada país. É o que se tem visto um pouco por todo o lado, desde a Alemanha, Holanda, França, Espanha, Portugal, onde a direita apresenta propostas simplistas, populistas, mas que contrastam com o discurso institucional da UE, tantas vezes sem relação com a realidade de cada Estado membro.
Em Portugal, o demissionário Montenegro assinou o compromisso de gastar mais 300 milhões no apoio à Ucrânia e o candidato socialista ao lugar de primeiro-ministro não renegou esse compromisso. Será mais uma “deixa” para a extrema-direita zurzir a gosto a subalternização nacional às políticas comunitárias.



