Há uma guerra na Ucrânia, assistimos na comunicação social ao nítido favorecimento do lado ucraniano, as notícias são invariavelmente negativas para a imagem da Rússia e nunca há contraditório. Por exemplo, a RTP tem um correspondente em Moscovo que raramente é chamado para reportar reações russas. Os canais privados, não creio que tenham correspondentes em Moscovo. Mas contratam comentadores, civis e militares, que maioritariamente são favoráveis à narrativa do Ocidente.
Não é propriamente uma novidade, a cobertura mediática de guerras e conflitos refletir não apenas os factos no terreno, mas também alinhamentos políticos e interesses estratégicos dos meios de comunicação e dos países onde operam. No caso da guerra na Ucrânia, grande parte da imprensa ocidental adota uma linha editorial crítica à Rússia, que é vista como agressora, enquanto enfatiza o papel da Ucrânia como vítima da invasão. Com outros atores, sempre foi mais ou menos assim. Mas, nas redações, havia sempre quem exercesse a profissão de jornalismo com equidistância e procurasse cumprir com as regras básicas do jornalismo.
Ou seja, o jornalismo já não é o que era. O jornalismo sempre teve desafios, mas hoje enfrenta um ambiente ainda mais complexo. Com a digitalização, a polarização política e a luta pela atenção do público, muitos meios adotam narrativas mais alinhadas com interesses específicos, em vez de uma busca rigorosa pela imparcialidade. A “invenção” do jornalismo embedded (fardado) foi o princípio do descalabro. É mau para o jornalista que passa a obedecer aos comandos militares e é cada vez mais olhado como elemento combatente, até porque se confunde com o militar quando veste os mesmos camuflados e usa o mesmo tipo de capacetes.

Para o público, o desafio é saber onde procurar e como filtrar a informação. O ceticismo saudável tornou-se indispensável. Mas o resultado tem sido decepcionante. A formatação do pensamento funciona.
A cobertura noticiosa que se faz no ocidente, nomeadamente em Portugal, de um modo geral é tendenciosa, alinhada com a propaganda ucraniana e ocidental. Ou seja, nem se procuram fontes russas para o contraditório como se amplia a propaganda do outro lado.
Os média alinham na demonização da Rússia. A autocensura e a pressão editorial são balizadas de modo a evitar que os jornalistas ou os meios onde trabalham sejam apelidados de putinistas, simpatizantes da Rússia ou, até, saudosistas da União Soviética.
Resumindo, a informação que hoje consumimos através dos média institucionais é mediada pela propaganda política, não pelas regras do jornalismo. O acesso a fontes não alinhadas só se consegue através das redes sociais, com todos os riscos que isso implica quanto à propaganda e fakenews que por lá campeiam. Mas é o que temos, desde que os canais de informação russos foram bloqueados nas redes de televisão por cabo ou na internet.
Com esta censura, o Ocidente demonstra que não se trata apenas de ignorar fontes russas, mas de impedir ativamente o acesso a elas. Isso levanta questões sobre liberdade de informação e pluralidade de vozes, algo que o Ocidente historicamente defendeu, mas que nos conflitos mais recentes (Ucrânia e Palestina) está a relativizar.
A questão é que o jornalismo deveria apresentar diferentes perspetivas para que o público pudesse formar a sua própria opinião. Mas a tendência atual é alinhar-se com a posição dos governos ocidentais, sem abrir espaço para o contraditório.
Tudo isto cria uma visão distorcida dos conflitos, reduzindo-o a uma narrativa de “bons contra maus”, quando a realidade é sempre mais complexa.



