Tratou-se de um esforço quase inglório, mas que, documentado em textos que publiquei, põe hoje a nu o melhor e o pior que existe na “raça humana”:
– inúmeros cientistas empenhados na verdade, em contraciclo com toda a casta de paranoicos e negacionistas;
– profissionais ciosos por medidas corretas, a par de charlatães e vendedores de banha-de-cobra;
– cidadãos que se voluntariam para salvar vidas, dirigidos por psicopatas capazes de passar à frente de tudo e todos;
– administradores públicos dedicados e competentes, ensombrados por poderes político-económicos dominantes e centrados na sua sobrevivência;
– alguns dignos comentadores, por entre uma catrefada de “comentadeiros”;
– e por aí fora…
E foi já perante as “graves falhas, erros e omissões” que cedo detetei, que decidi intervir civicamente e em diversos patamares:
– logo em fevereiro, ao propor planos de contingência para as instituições de risco, de que a libertação de presos foi um bem-sucedido exemplo;
– e, em março, já denunciava que, “INCRIVELMENTE e em prejuízo de fármacos caríssimos”, a cortisona ainda não havia sido ensaiada; a este propósito, em maio, cientistas ingleses reconheceram que, se a tivessem usado mais cedo, teriam salvo cinco mil vidas só no Reino Unido;
– também em março, posto perante um PR em fuga e uma chefia atascada em centenas de “responsáveis”, não tive dúvidas em propor um comando centralizado, do tipo militar, como se enfrentássemos uma “guerra biológica”; a linha da frente, defendi então, deveria concentrar-se na formação sanitária das populações, na proteção civil e no impulso do SNS, que não nos hospitais de retaguarda, estes fáceis de ampliar.
– ainda em março, está tudo escrito, “decretei” o uso de máscara, apelando à comunicação social, à OM, ao SIM e a autoridades várias;
– e, em antecipação, denunciei também o atraso no confinamento e defendi um desconfinamento mais precoce, se levado a cabo com regras bem definidas;
– para, já em pleno verão, denunciar a bagunça que ia pelo Alentejo e pelas forças de segurança, prenúncio de quebra turística e de eclosão de nova vaga.
Em novembro, perante a experiência acumulada, dei como certo que com três mil internamentos, aviso amarelo, o nosso SNS deixaria de dar resposta a muitas patologias. E que com cinco mil, aviso laranja, corria o risco de colapsar.
E, ao mesmo tempo, reforcei a prevenção como grande prioridade, agora mais centrada na limitação de contágios e na identificação de novos casos, que não deveriam ultrapassar os mil, em cada dia.
E foi já em cima de um laranja-avermelhado que, em dezembro, com a classe política a garantir que o nosso país não podia suportar novo confinamento, que decidiu abrir as comportas pelo Natal, contra todas as evidências científicas.
O desastre era inevitável e, com Portugal a bater recordes do mundo e as imagens de horror a multiplicarem-se, o Governo viu-se então obrigado a novo e tardio confinamento: encerrando algumas atividades económicas de risco reduzido e, “espertamente” e por não ter feito o “trabalho-de-casa”, mantendo as escolas abertas.
E tudo isto sem que faltassem eloquentes “peritos” a suportar tão estapafúrdias decisões. “Decisores” que ainda hoje ditam “leis”, sem que o novo timoneiro ainda tenha tido ocasião de “mostrar serviço”. Um “serviço” que, afinal, é prestado por alguém que, em cenário de guerra, sabe bem que qualquer comandante tem de se munir de boa informação e, sob controlo apertado, promover constantes correções.
Foi esse o nível de exigência que imprimi à medicina intensiva que pratiquei, confrontado diariamente com inúmeras situações que urgia resolver. Do mesmo modo, também a atual pandemia não pode ser eficazmente tratada se prolongarmos medidas desnecessárias e não aplicarmos outras, emergentes.
Comigo a balançar entre a economia e a saúde, e com a mesma convicção com que sempre “acertei” no passado, atrevo-me hoje a defender que, nesta fase de decréscimo da pandemia, e sob intensa monitorização da ciência, Portugal já pode e deve “dar-se ao luxo” de desconfinar setores básicos, sobretudo nas áreas do turismo e restauração, desde que ofereçam condições de segurança.
Risco muito pequeno e medido ao milímetro porque, diariamente em cima dos acontecimentos, um “almirantado” capaz poderá sempre ditar orientações ao minuto.
Assim o libertem dos espartilhos da política… e logo vemos quem tem razão.
O registo no boletim epidemiológico de hoje refere 1.186 novos casos confirmados de contágio pelo coronavírus, o número de novos casos diários mais baixo desde 11 de outubro de 2020. Há ainda 65 mortes atribuídas à covid-19 nas últimas 24 horas, menos 11 que as registadas ontem. A maioria destes casos mortais continua a ser da região de Lisboa.
Subiu o número de pessoas internadas, contrariando a tendência decrescente dos últimos dias, contando-se agora 3.316 pessoas hospitalizadas (mais 32 que ontem), 638 das quais em unidades de cuidados intensivos (menos 18 pessoas).
Quanto à campanha de vacinação, de acordo com os últimos dados da Direção Geral de Saúde, já foram inoculadas 429.020 primeiras doses e 246.433 segundas doses.
No concelho de Oeiras, Ana da Rocha Pinto, desenhadora de joias que cresceu numa família ligada às artes, recorda como começou: “Eu lembro-me desde sempre ter uma paixão enorme pelos materiais orgânicos”, declara enquanto nos recebe no seu atelier. “E quando ia para o Norte, para casa de família, adorava apanhar qualquer pontinha de arame das vinhas do meu avô, havia muitas pedras de quartzo, e desde que me lembro de ser gente que me recordo de manusear qualquer cabo de cobre que sobrasse de uma instalação eléctrica… tudo o que encontrava já transformava numa peça de joalharia”.
Facebook de Ana da Rocha Pinto Handmade Jewellery
Para esta artesã, a paixão por essa profissão/vocação deve-se à influência de uma avó que residia no Restelo (bairro nobre de Lisboa) que gostava muito de joias. Mas que tipo de materiais orgânicos a atraem? “Essencialmente as pedras, e às vezes há pedaços de madeira que têm uma forma especial, algumas sementes que antigamente não se usavam”.
Ana foi sempre fazendo experiências como autodidata, comprando ferramentas e metais, inscreveu-se no primeiro workshop de joalharia com 15 ou 16 anos. Quis ir para a Escola António Arroio nos anos 1990, mas era uma época diferente e a conotação da escola era “menos positiva”, pelo que estudou Artes no ensino secundário enquanto mantinha experiências com joalharia; mais tarde tentou ir estudar para Londres, porém, “já tínhamos muitos artistas na família e mais uma artista, ainda por cima ir para tão longe, tão miúda”, levou a que a família se opusesse. Optou por fazer a licenciatura em Conservação e Restauro, “mas sempre com vontade de fazer joalharia”, pelo que fazia cursos para além das próprias experiências, uma vez que não havia muita formação na área. Uma das formas de prosseguir o seu caminho como joalheira era criar para os colegas: “Todos os anos há um baile de gala na Faculdade, e era muito giro até porque toda a gente já sabia que eu fazia joias, uma vez que eu andava sempre bem arranjada e com as minhas peças postas, eu fazia as joias para muitas das raparigas”.
A peça mais vanguardista que lhe pediram nessa altura foi “com uma espécie de sementes. Fiz um colar todo em cobre, uma gargantilha. Ficava uma peça orgânica mas também com um ar de realeza, e essa peça foi espectacular, foi brilhante, tão brilhante que acabei por ser convidada para um concurso aqui no Palácio do Marquês de Pombal em Linda-a-Velha”. Na altura, ganhou uma menção honrosa graças a essa peça.
Após concluir a licenciatura esteve sempre ligada às artes e antiguidades. Entretanto foi fazer um curso de joalharia durante cinco anos para Almada, para aprender as regras da alta joalharia, sob as ordens do mestre joalheiro Alexandre Ventura. “À antiga, mesmo à séria, fantástico”, recorda, e mais tarde fez outro curso em Santar. “Sempre me foi permitido fazer aquilo que eu gostava. Há regras, mas podemos seguir a nossa espontaneidade, sempre tive essa liberdade de fazer o que gostava”.
“A partir do momento em que eu soube fazer uma joia à séria, em grande, eu comecei a desconstruir, foi aí que eu fui deixando a arte nova para passar para uma linha mais depurada, geométrica e minimalista que me foi sugerida quando eu era mais miúda mas na altura não me fez sentido”. As inspirações da joalheira são a arte déco e a escola de arquitectura Bauhaus, mas “continuo com uma base muito orgânica”.
Facebook de Ana da Rocha Pinto Handmade Jewellery
Aprecia a versatilidade e o movimento nas peças, “gosto que as peças se transformem em mais do que uma coisa e gosto que as coisas tenham algum movimento, porque dá-lhe um brilho diferente, um élan”. O toque lusitano nas suas criações vem das obras de Amadeo de Souza Cardoso, Almada Negreiros e o pintor futurista Santa Rita, mas em termos de influências, a mais decisiva é a obra de seu pai, o pintor abstracto Rocha Pinto.
Afirma que o seu trabalho é abrangente não só em termos de estética mas de valor comercial, porque deseja chegar a todos: “que toda a gente possa usar e ter acesso”. Porém, não lhe é alheio o facto de que “as pessoas que compram estas peças têm uma maneira de estar um pouco diferente, uma visão um pouco diferente, uma mentalidade e um nível cultural um pouco diferente… não falo de dinheiro mas de maneira de estar na vida. Se formos a ver, a grande parte das pessoas rendeu-se às medalhinhas, aos aços, a todas essas coisas que são algo industrial”. Não consegue fazer nada massificado “porque sou uma criativa de base, não sou mulher de negócios”.
Facebook de Ana da Rocha Pinto Handmade Jewellery
“Como o meu cérebro está sempre a criar, gosto de fazer peças únicas, tenho um cunho realmente pessoal e dá-me um gozo imenso quando me cruzo com alguém com uma peça minha”, ainda para mais uma peça que não se pode repetir. Garante que jamais se podem repetir peças, porque o processo de construção “nunca é igual” e dá o exemplo de um anel: “o corte nunca é o mesmo porque é a mão humana que está a cortar, não é uma máquina que corta trinta iguais. É uma mão que corta! E sai mais torto, e a serra parte-se porque é muito fininha (as nossas serras têm um milímetro), há sempre alguma coisa que dá um cunho muito pessoal e muito único a cada peça, mesmo que seja uma série de dez que sejam supostamente iguais”.
Quando abriu o seu atelier no concelho de Oeiras, há oito anos, assumiu que não era fácil, “não há em Portugal grandes apoios a quem quer ser trabalhador independente” sem um capital financeiro à partida. Chega a falar de “teimosia” em continuar a fazer aquilo que gosta. Revela que mesmo quem se associou à AORP [Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal], colectivo que procura alterar a legislação a favor dos profissionais e da actividade empresarial, ainda tem bastantes despesas e dá o exemplo das licenças para poder vender online: 250 euros por ano para cada rede social, fora o site e uma outra licença que pode ascender aos mil euros.
Os artesãos não foram isentados de taxas de qualquer espécie mesmo em contexto de pandemia e a joalheira revela que não existem apoios para rendas ou de outra espécie. “O meu negócio mantém-se por paixão, por teimosia e resiliência”.
Sobre eventos públicos (como mercados e feiras) onde por norma os artesãos têm mais hipóteses de mostrarem o seu trabalho ao grande público, graças ao desenvolvimento do turismo, as feiras eram numerosas e muito frequentadas e assim mostrava os seus trabalhos. “Tenho peças no Japão, no Hawai e nos EUA. A marca ARP existe desde há muitos anos, mais à séria desde 2001 ou 2002, e a verdade é que antes trabalhava muito mais com metais nobres, quando entrámos na crise tive de alterar também as minhas bases, a minha matéria-prima”. Dá o exemplo de recorrer ao latão, cobre e alumínio, bem como pedras naturais.
Em época de pandemia, a joalheira admite que está “a ser bastante difícil” enquanto termina uma peça pequena a partir de um fio de cobre e uma semente com as mãos enquanto conversa. “De repente, uma pessoa tem um investimento enorme que está parado, tenho montes de peças em construção”, e o facto de terem sido canceladas exposições nas quais estava a preparar-se para participar não ajudou.
fotografias de Ana Catarina Rocha
A artista assume dar preferência ao contacto com o público porque quer que cada peça seja usada, e afirma ser demasiado tímida para fazer uma transmissão ao vivo através da internet, mostrando a sua arte. “É uma relação que se cria [o contacto pessoal com o público]. “Quando as pessoas chegam ao atelier, e quando vêem fisicamente e presencialmente as coisas, percebem o trabalho que eu tenho, o gosto e a paixão”. Em Dezembro de 2020, chegou a fazer alguns open days para o público conhecer o seu atelier e gostou da reacção das pessoas, com a vantagem de haver um terraço.
Um grupo de artesãos, onde ARP se inclui, mobilizou-se para fazer uma feira de artesanato também nesse mês no Jardim de Paço de Arcos, mas ela acabou por não ir por se ter comprometido a abrir o atelier. Não se sentia confortável quando ainda se estava no pico da pandemia, ao passo que dentro do atelier – com as entradas de pessoas controladas – a situação era a inversa. Porém, não exclui o regresso ainda que faseado aos mercados e feiras. “Era bom que houvesse mais apoios aos artesãos, e noto que na Câmara de Lisboa há muitos mais apoios, mesmo em termos de formação, de open spaces…”, ficando de fora porque residia em Oeiras.
Facebook de Ana da Rocha Pinto Handmade Jewellery
A autarquia liderada por Isaltino de Morais tem a ambição de ser Capital da Cultura em 2027 e isso poderia ser uma oportunidade para trabalhar com artesãos. E até 2027, será que alguns negócios de alguns artesãos poderão aguentar de forma a participarem, se para isso forem chamados? “A verdade é que a crise ainda não nos caiu em cima, e vai cair. A verdade é que, mesmo numa perspectiva muito positiva, se as coisas começarem a abrir, isto vai ser muito lento, porque vêm aí muitos apoios da União Europeia mas não sei para onde vão… eu espero que sim, numa perspectiva positiva, mas tenho alguma dificuldade em acreditar que as pessoas se vão aguentar. É muito difícil”.
Ainda a propósito da candidatura de Oeiras a Capital da Cultura, sugere que a autarquia faça um levantamento ” de quem existe, de quem são os artistas”. A artista defende a necessidade de “haver uma espécie de espaço comunitário de artistas em que nós também pudéssemos fazer o nosso trabalho e dar à comunidade”.
Sempre que chove muito, a baixa de Cascais fica inundada. Acontece com frequência, talvez aconteça todos os anos. Mas já houve inundações terríveis, que causaram prejuízos e mortes. A 26 de novembro de 1967 e devido a elevadas precipitações num curto espaço de tempo originaram cheias rápidas em diversas áreas do concelho, com elevados prejuízos materiais. Em 19 de novembro de 1983, a baixa de Cascais foi de novo fortemente afetada, com elevados danos materiais e vítimas mortais. Episódios semelhantes ocorreram novamente em 2008, embora com consequências menos gravosas.
imagens de 1983
Para além das vítimas mortais, para as quais não há remédio, os maiores sacrificados são os comerciantes que, sempre que a zona fica alagada, ficam com as lojas inundadas, equipamentos avariados e stocks estragados.
A culpa disto acontecer não é da chuva. Nem da ribeira das Vinhas que desagua precisamente ali na praia do peixe e que chega encanada ao mar. A culpa é de quem construiu em leito de cheia, como é o caso. Aquelas casas não deveriam estar ali. Em zonas onde existe perigo de calamidade natural, como são as cheias ou os galgamentos marítimos, não deveria haver construções permanentes nem ocupação humana massificada. Não é o que acontece na baixa de Cascais.
Hoje, mais uma vez, a chuva intensa e prolongada coincidiu com a maré alta, o escoamento das águas pluviais para o mar não se fez e a baixa de Cascais ficou alagada. Há dezenas de restaurantes com prejuízos em equipamentos com motores elétricos, lama a rodos, mobiliário afetado, muita coisa para recuperar ou substituir, para além dos prejuízos por estarem encerrados devido às medidas de combate à pandemia.
Cascais em 20 de fevereiro de 2021
A engenharia não faz milagres. A solução para a baixa de Cascais seria aquela que ninguém está ainda preparado para assumir. O que só acontecerá quando as alterações climáticas e a subida do nível médio do oceano a isso obrigar. Um problema para a próxima geração. Hoje empurramos esse problema com a barriga e pensamos “que se lixe”.
Subiu o número de mortes por covid-19: o registo de hoje indica 76 mortes e o de ontem foi de 67. Desceu o número de novas infeções: ontem foram 1.940, hoje há mais 1.570 pessoas contaminadas.
Das 76 mortes registadas nas últimas 24 horas, 36 ocorreram em Lisboa e Vale do Tejo, 18 na região Norte, 13 na região Centro, seis no Alentejo e três na região do Algarve.
O boletim epidemiológico da Direção Geral de Saúde indica que estão internadas 3.284 pessoas, menos 300 do que na sexta-feira, dos quais 656 em unidades de cuidados intensivos, menos 13 doentes nas últimas 24 horas. Desde 6 de janeiro que o número de internamentos não era tão baixo.
Mantém-se, portanto, a tendência geral para o abrandamento progressivo da pandemia. Em números totais, Portugal já diagnosticou 796.339 casos de contágio e registou 15.897 mortes.
Quanto à campanha de vacinação, os últimos dados da Direção-Geral de Saúde indicam que Portugal tem atualmente 656.411 pessoas vacinadas: 413.482 com primeira dose e 242.929 com a segunda dose.
A história dos folhetins escritos por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão no Diário de Notícias, em 1870, é prova disso. Os ditos folhetins eram pura ficção, mas foram apresentados ao leitor do jornal como sendo notícia. Foi um alvoroço, tratava-se de uma história de um assassino em série que atuava na estrada que nessa época ligava Lisboa a Sintra. A polícia investigou, as investigações foram noticiadas, toda a gente engoliu a história como verdadeira. Foi uma comoção geral, as pessoas andavam assustadas e rezavam nas igrejas para que o assassino fosse encontrado, morto de preferência. Eram textos não assinados, apresentados como cartas ao diretor do Diário de Notícias. Mas tanto Eça de Queiroz como Ramalho Ortigão eram jornalistas. Isto é, pelos vistos nem sempre. Umas vezes sim, outras ficcionistas.
Este talvez tenha sido o caso de maior mistificação do jornalismo português. Mas foi na época em que os jornais viviam do que vendiam, mais até do que da publicidade ou de favores do Governo.
Lá fora houve o famoso caso da “guerra dos mundos”. Foi em 1938 quando uma rádio americana, a CBS, interrompeu a programação para noticiar uma suposta invasão de marcianos. Mais uma vez, o “teatro” foi apresentado como notícia, simulou-se uma “emissão especial” com repórteres na rua, depoimentos de gente que na verdade já jurava ter visto os extraterrestres na rua das cidades, foi o pânico. A mentira durou apenas uma hora, mas as consequências foram verdadeiras em termos do pânico social que provocou. E não era carnaval.
estúdio de rádio da CBS onde foi feito o programa “A Guerra dos Mundos”, fotografia partilhada de www.dw.com
Sequelas deste programa têm-se repetido ao longo dos anos, quer na Literatura ou no cinema produzido em Hollywood, os extraterrestres já nos invadiram uma centena de vezes e, quando for verdade, já ninguém vai acreditar.
Uma experiência pessoal
Pessoalmente, já assisti a várias encenações, embora em menor escala. Uma das mais interessantes foi em Mogadíscio, na Somália, ano 1992. Naquele tempo, a Somália devia ser o sítio mais perigoso do Mundo. Sem governo, a população combatia na mais estranha guerra civil que já vi. Vários clãs matavam-se entre si, numa demência de todos contra todos. A história é um pouco longa, mas acho que vale a pena.
A avioneta alugada em Nairobi aterrou no aeródromo central de Mogadíscio, precisamente no momento em que aquela parcela de chão estava a ser disputada entre duas das facções em conflito. Como não havia comunicação via rádio com alguém em terra, o piloto (e nós) só se apercebeu que havia balas a voar, além do avião, quando já não conseguiu abortar a aterragem. O avião bateu no chão e foi rapidamente conduzido para trás de uma parede, onde sempre havia alguma protecção. Assim que o tiroteio teve uma pausa, o piloto levantou voo e nós ficamos. Eu, um fotógrafo americano e dois tipos alemães da televisão ZDF. A SIC tinha-me enviado sozinho para ali. Eu deveria procurar a equipa da Reuters e trabalhar com eles. Não há nada pior que ir para um sítio destes sem um companheiro.
Arranjar alojamento foi o primeiro tormento. Os tipos da ZDF tinham um contrato com a CNN e iam ficar na casa que a televisão americana tinha comprado. Eles são assim, chegam e compram! Decidi ir com eles, quem sabia se não poderia lá ficar também… Chegamos ao compound da CNN já de noite. O anchor preparava um directo, com cenário montado. Quando digo cenário, não estou a brincar com as palavras. Era mesmo um cenário, onde figuravam duas pick-up Toyota de caixa aberta, equipadas com metralhadoras pesadas, e vários somalis em pose de rambo… e o anchor americano dizia, no seu directo, “estamos na frente de batalha, atrás de mim os guerrilheiros de Aidid…”, blá blá blá blá… bullshit como se diz na China. Armar aos heróis, a grandes repórteres, dentro dos muros protegidos por guardas privados e com figurantes pagos… e eram aqueles tipos a referência mundial do jornalismo televisivo.
Podia ficar aqui a escrever livros sobre os mentirosos que fizeram e fazem “jornalismo”. Pode ser que este tenha sido o primeiro e uma série de artigos dedicados ao tema.
Pandemia em queda livre, mas só descansamos quando se “esborrachar” de vez. Hoje, o boletim da Direção Geral de Saúde regista 67 mortes e 1.940 novos casos de infeção. O boletim epidemiológico revela também que estão internados 3.584 doentes, menos 235 do que na quinta-feira, dos quais 669 em cuidados intensivos, menos 19. Nos últimos três dias saíram do internamento 1.248 doentes, dos quais 115 das unidades de cuidados intensivos.
Desde 1 de janeiro, dia em que morreram 66 pessoas, que Portugal não registava um número de mortes semelhante ao de hoje.
Já quanto aos internamentos o valor de hoje está próximo dos registados no dia 09 de janeiro quando os dados apontavam para 3.555 pessoas internadas com covid-19.
De acordo com a Direção Geral de Saúde, Portugal tem atualmente vacinadas 388.661 pessoas com primeira dose e 229.975 com a segunda dose, num total de 618.636 pessoas. Ou seja, apenas 6,1% da população.
Porto Cruz é um dos recentes projetos imobiliários do município de Oeiras. Onde existiam fábricas velhas e já desativadas, a autarquia pretende construir uma nova urbanização de luxo e de grande dimensão. Os ambientalistas disparam críticas contundentes e lançam suspeitas de “crime urbanístico” sobre o projeto.
Duas Linhas pediu uma entrevista ao vice-Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, para que possa responder às críticas, no mesmo meio em que foram publicadas. Aguardamos resposta.
Números da pandemia continuam a baixar. Hoje há registo de 105 mortes relacionadas com a covid-19 e 1.944 novos casos de infeção. O boletim epidemiológico da DGS revela que estão internados 3.819 doentes, menos 318 que na quarta-feira, dos quais 688 em cuidados intensivos, menos 31. Nos últimos três dias saíram do internamento 1013 doentes, dos quais 96 das unidades de cuidados intensivos. O número de internamentos hoje é o mais baixo desde 11 de janeiro, quando se registavam 3.983 casos.
Esta descida do número de internamentos, mais acentuada em enfermaria e com menos expressão nos cuidados intensivos, tem vindo a ser sentida diariamente desde o dia 02 de fevereiro. Depois de um crescimento exponencial em janeiro, os números começaram a abrandar em fevereiro, 11 dias depois do confinamento geral decretado pelo Governo, a 21 de janeiro.
De acordo com dados da Direção-Geral da Saúde divulgados pela agência Lusa, 10,11% dos doentes em enfermaria são transferidos para as UCI onde a taxa de sobrevivência é de 70,72%. Ou seja, fazendo contas, nos cuidados intensivos, morrem 3 em cada 10 doentes.
Desconfinamento ainda sem previsão de data
Os números permitem otimismo quanto à possibilidade de se controlar a epidemia, mas, ao mesmo tempo, dão razão aos que dizem ser necessário prolongar o confinamento até se ter a certeza de que a propagação da doença está dominada.
O Governo não pretende, ainda, dar uma data para o desconfinamento. No final do conselho de ministros de hoje, a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, considerou que o número “muitíssimo elevado” de internamentos em cuidados intensivos devido à covid-19 não permite ainda criar qualquer expectativa de um desconfinamento para breve.
Quem passa hoje por Entre Campos, em Lisboa, e tem memória do que ali existiu, não pode deixar de sentir alguma revolta ao olhar para o descampado que existe entre o viaduto ferroviário e a praça de Entre Campos.
Ali existiu a Feira Popular durante décadas. A feira era um local querido dos lisboetas, um local de diversão e era, também, o ganha pão de centenas de famílias. Restaurantes e diversões eram o prato forte da Feira Popular, mas também lá havia um teatro e espaços comerciais.
A feira fechou em 2003. Santana Lopes era, então, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e nunca se percebeu bem o que quis fazer. A verdade é que o desmantelamento da Feira Popular obrigou muita gente a mudar de vida, muitos daqueles negócios foram à falência, a Câmara Municipal teve de indemnizar a Fundação O Século (as receitas de bilheteira da feira revertiam para a obra social desta fundação) e, mais tarde, para evitar uma provável derrota judicial, comprou o terreno à construtora Bragaparques por 101 milhões de euros.
A Câmara Municipal de Lisboa ainda não cumpriu com a promessa de refundar a Feira Popular, ninguém sabe ao certo quando isso irá acontecer. Lisboa ficou uma cidade mais triste, o desaparecimento da feira levou por arrasto ao desaparecimento do Parque Mayer, fruto das mesmas negociatas falhadas de Santana Lopes com especuladores imobiliários. Um enorme prejuízo para a cidade que ficou sem montanha russa, sem roda gigante, sem poço da morte e sem teatro de revista. Santana Lopes devia ter sido responsabilizado por tantos erros. Nunca foi. Sem saber como, ainda chegou a primeiro-ministro, de triste memória igualmente.
Anos depois, a autarquia colocou o descampado em leilão. Adivinhem quem comprou aquilo tudo. Sim, foram os chineses da Fosun, através da Fidelidade Property onde a Caixa Geral de Depósitos tem 15% de participação. Na altura, os chineses prometeram erguer ali uma “nova centralidade”, um palácio de betão e vidro para a nova sede das suas empresas em Lisboa, e um paraíso imobiliário para tipos ricos e, dizem as más línguas, para lavandarias de dinheiro. O mistério é que até agora não fizeram nada e já passaram 7 anos. Não é possível que tenham gasto 274 milhões de euros só para fazer um jeito a Fernando Medina.