A compra de casa foi sempre um negócio da China, mesmo antes de os chineses começarem a comprar vistos gold, como quem come um gelado. Uma afronta.
Rita Valadas, mulher de grandes méritos. É a nova presidente da Cáritas. E alertar-nos para a onda de pobreza que vai varrer a sociedade portuguesa.
Nós dividimo-nos há muito em três extractos. Os pobres. Os que vivem aflitos para pagar contas. E por fim uma minoria de gente podre de rica. Os principais encargos das famílias que pagam impostos são pagar a casa e um carrito. Mas o problema está escondido na sobreavaliação dos imóveis. O preço final das nossas casas é feito a “olhómetro para cima” porque dá jeito aos comilões.
Mandar construir sai a um terço do preço
Por exemplo, construir uma moradia, com tecto e fundações, isolamento e janelões basculantes, de 300 metros de área e 100 de implantação, custava mil euros o metro quadrado. Há dez anos. Ou seja, 300 mil euros, em pleno Restelo.
Na mesma altura, o preço dessa construção de 300 metros custava metade dum apartamento de 100 metros quadrados na urbanização por cima do Pingo Doce em Alcântara, onde se pedia 600 mil euros. O dobro por um terço de área. Afinal bastava mandar construir em vez de comprar a um promotor.
Encher a pança a construtores e banqueiros
Falamos da construção. Porque os terrenos são outros quinhentos. Estão açambarcados por meia dúzia de ricaços que nos têm feito a vida negra. Temos andado a encher a pança a construtores civis, banqueiros e açambarcadores de terrenos. Andamos a alimentar offshores e enriquecimentos ilícitos.
Rita Valadas da Caritas teve a coragem de falar de pobreza. Vamos ver se fica lá muito tempo.
O Ministério da Administração Interna enviou para a Assembleia da República o relatório sobre o estado de emergência relativo ao período de 15 de fevereiro a 1 de março.
Nesse documento, que vai ser discutido na quinta-feira (25 de março) na Assembleia da República, vem escrito que a Polícia de Segurança Pública tem sentido “dificuldade” em fazer cumprir a Lei, nomeadamente em questões de ajuntamentos ou concentrações de pessoas na via pública sem utilização de máscara apesar de não estarem a manter o distanciamento exigido pelas medidas de contenção da pandemia e que estão na base do estado de emergência que o país vive.
A “dificuldade” está patente em várias imagens que circulam pela net, nomeadamente e apenas a título de exemplo, as da manifestação de negacionistas em protesto contra o Governo que ocorreu em Lisboa no passado fim-de-semana. Eram dois ou três mil, nenhum com máscara e os agentes da PSP no local nada fizeram, aparentemente, para impor o cumprimento da Lei.
No relatório, a PSP dá conta da tática que utiliza: “manter uma abordagem inicial sensibilizadora” para a importância do cumprimento das restrições impostos à situação da declaração do estado de emergência. Então, deve ser isso que os agentes da polícia estão a fazer quando foram fotografados a conversar com os manifestantes. Sendo assim, podemos concluir que a sensibilização não foi bem-sucedida, dado que nenhum dos manifestantes colocou máscara.
No entanto, pela leitura das partes do relatório que já foram tornadas públicas, sabemos que a verificação “das condutas contrárias às restrições legais impostas” tem resultado “numa elevação” do número de contraordenações. No período em referência, num total de 9.789 contraordenações. Onde foi que a polícia multou os prevaricadores? O próprio relatório responde: “foi mantido o reforço de patrulhamento e monitorização da afluência às zonas balneares e respetivos acessos, bem como da prática de campismo e caravanismo irregular”, tudo longe do Largo do Rossio em Lisboa.
Nas redes sociais, há quem estranhe esta atuação tão complacente da polícia…
E há quem se justifique por ter estado naquele ajuntamento sem máscara, como é o caso da atriz Sandra Celas.
Mas, na verdade, não é como diz Sandra Celas. Ao abrigo do estado de emergência, é obrigatório o uso de máscara nas seguintes situações:
acesso ou permanência em locais de trabalho, sempre que o distanciamento físico de 2 metros não seja possível
transportes públicos
vias públicas, sempre que o distanciamento físico de 2 metros não seja possível
Portugal deixou hoje de ter concelhos em risco extremo de infeção pelo vírus SARS-CoV-2, segundo o último boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde.
O risco extremo de infeção verifica-se quando um concelho tem uma incidência cumulativa a 14 dias acima dos 960 casos de infeção por 100 mil habitantes. Neste momento, nenhum concelho do país está nesta situação, mas há ainda alguns em situação de “risco muito elevado”.
O boletim de hoje revela ainda que 37 dos 308 concelhos portugueses tiveram zero casos de infeção nas duas últimas semanas.
O boletim epidemiológico de hoje regista 16 mortes relacionadas com a covid-19 e 248 novos casos de infeção, o número de doentes internados em enfermaria subiu para 771 (mais seis do que no domingo), nas unidades de cuidados intensivos estão 165 doentes internados (menos cinco).
Mais de 9700 contraordenações por desobediência
O último relatório do estado de emergência chama a atenção para os ajuntamentos, por vezes com “em elevado número de pessoas”, que se têm registado na região de Lisboa e Vale do Tejo. Como medida mitigadora, “reforçaram-se as ações de fiscalização e patrulha por parte das forças de segurança”, lê-se no documento do Governo hoje entregue na Assembleia da República, no capítulo dedicado à região de Lisboa e Vale do Tejo.
O relatório realizado pela Estrutura de Monitorização do Estado de Emergência, coordenada pelo ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, salienta também que, na região Centro, se manteve, entre 15 de fevereiro e 01 de março, “a dificuldade para as forças de segurança na verificação dos casos a quem foi decretado o isolamento profilático, embora a diminuição do número de casos tenha melhorado a situação”.
A PSP dá conta que, apesar de “ainda manter uma abordagem inicial sensibilizadora” para a importância do cumprimento das restrições impostos à situação da declaração do estado de emergência, a verificação “das condutas contrárias às restrições legais impostas” tem resultado “numa elevação” do número de contraordenações.
No período de 15 de fevereiro a 01 de março, as forças de segurança registaram 9.789 contraordenações no âmbito das medidas restritivas ao estado de emergência para fazer face à pandemia de covid-19 e detiveram 32 pessoas por desobediência.
As associações ciganas Letras Nómadas Aidc, Ribaltambição, Sílaba Dinâmica, Costume Colossal, Sendas e Pontes, Raizes Tolerantes e Associação Cigana de Coimbra, desmentem o dirigente do Partido Chega que afirmou nas redes sociais terem as associações ciganas concordado com ele relativamente à atribuição de subsídios sociais.
Em comunicado, as associações ciganas dizem “repudiar e lamentar a suposta publicação do André Ventura na sua página oficial do Facebook onde diz que as associações ciganas reconhecem que o chega não é racista e que há um problema de subsidiodependência na comunidade, e ao lado coloca a notícia de um eventual candidato cigano a uma vila de Porches.
Jamais uma associação cigana iria reconhecer tais afirmações, são mentirosas! A estratégia passa por inflamar e promover na sociedade o ódio contra os portugueses ciganos, mas esse tipo de mentiras já vem sendo hábito, pois na última campanha às eleições presidenciais “arranjou” ciganos fake às pressas para justificar que não são um partido contra ciganos…
As associações ciganas continuarão a fazer o seu trabalho, existem instâncias legais a que iremos recorrer, e é aí que resolveremos todo este tipo de difamação e notícias fake. Não vamos dar palo, percebemos que a estratégia e a intenção é de fato tirar o foco do Dia Internacional contra a Discriminação Racial. Seguiremos firmes na luta, não passarão!”, conclui o comunicado.
Também estou de gatas, a esfregar o chão, mas as semelhanças terminam aqui. Nem a roupa é transparente, ninguém me olha com lascívia, há muita lixívia sim, o gato Motard vai no primeiro sono.
Vou alternando com outras limpezas e consigo chegar ao final duma segunda ronda. Yes! Caio na cama cedo mas não quero sonhar contigo. Preciso evitar emoções fortes e não aumentar ainda mais as saudades de me entrelaçar em ti.
Volto à sala para fumar, o Motard já está desperto. Volto a percorrer o Pop Corn, escolho um filme de acção onde na prática não se passa nada. Não quero ocupar a cabeça, quero paralisá-la.
Sorvo o último gole do vinho, não me sabe bem nem mal, faz companhia ao cigarro. É quase meia-noite, não quero transformar-me numa abóbora.
Lá fora, o zelador, quieto, tão forte, discreto. Desde miúda que não consigo dormir no escuro. Agora tenho o candeeiro que largou o largo onde vivíamos e veio para aqui tomar conta de mim. O Motard, sentado no móvel branco, olha-me fixamente. Sei que irá ter à cama, mas só quando cair no sono profundo. É seguro aí que não acorde, e ele não tenha de dar parte fraca. Já devia estar com sono, fartei-me de esfregar e limpar. Quero esta casa perfeita, quero caminhar aqui para a perfeição. Não chego lá, bem sei, mas sei que esta é a casa de partida.
Rendo-me aos vampiros, não penso em nada, é o que se pretende. Ao fim de cinco minutos paro de me render. Quero paralisar a cabeça mas não embrutecê-la, há limites para filmes ocos. Escolho outro, este com bruxas. O filme é servido por actores de quem gosto muito. É secundário se o filme é bom, eles são. Jack Nicholson, Michele Pfeiffer, a estrondosa Susan Sarandon e depois… a Cher. No meio deste ramalhete, safa-se, vá lá.
O filme começa, ajeito as almofadas, as pestanas finalmente descem, aos pés já está o Motard, fecho o portátil.
Dia seguinte: ponho música, ponho-me de gatas, esfrego chão, passo um anti-gorduras xpto pelos azulejos, janto, tomo um duche quente, não escolho um filme oco, antes a penumbra do quarto. O candeeiro não deixa a escuridão instalar-se, nem no quarto nem em mim. Adormeço abraçada a ti. Não passas de uma almofada mas, mesmo assim, adormeço abraçada a ti. Amanhã fazemos mais amor e fugimos para a praia. Bebemos umas imperiais com percebes, muitos! Mergulhamos no mar até as estrelas nos caírem em cima.
O Motard espreguiça-se ao sol, volta a fechar os olhos.
Na manifestação, que decorreu no Largo de São Domingos, junto ao Rossio, em Lisboa, e que se iniciou ao som da canção Cantiga é uma Arma, de José Mário Branco, os manifestantes entoaram palavras de ordem como “o racismo não passará. Anti-racistas sempre!” ou “25 de Abril sempre. Fascismo nunca mais!”.
Além disso, agitavam bandeiras onde se lia “Em luta” e empunhavam cartazes com expressões, desde “Descolonizar o ensino” à “Violência policial mata!”.
Os manifestantes acusam o governo de não dar respostas para tratar da inclusão e acabar com discriminações”. Dizem que em Portugal, os estudos étnico raciais estão por fazer e a lei da nacionalidade continua a gerar injustiças na sociedade, com repercussões a nível laboral, habitacional e social.
Em Portugal, o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial foi assinalado com manifestações em Lisboa, no Largo de São Domingos, e no Porto, na Praça dos Poveiros.
Oeiras tem uma candidatura espontânea para a Câmara Municipal, nas próximas eleições autárquicas. A ex-jornalista Carla Castelo apresentou hoje a sua disponibilidade para tal, num vídeo que distribuiu pelas redações e redes sociais.
No seu manifesto político, Carla Castelo diz que “vivendo num concelho com um potencial enorme, com pessoas tão qualificadas, com um território tão bonito, que vai da serra ao mar – e que poderia ser um verdadeiro caso de estudo de políticas inovadoras e de qualidade de vida – não posso ser complacente com uma gestão autárquica que insiste em mais construção de megaempreendimentos, impermeabilização de solos, mobilidade centrada no automóvel particular, desrespeito pelos valores naturais, e falta de prevenção de riscos. Um modelo que agrava os problemas ambientais, incluindo as alterações climáticas, e as desigualdades sociais que existem na nossa comunidade.”
“A somar a tudo isto, há uma crescente falta de cultura democrática, de envolvimento e auscultação da população. Foi-se instalando uma cultura de arrogância e prepotência, de exclusão de ideias, e de recusa em aceitar qualquer crítica. Além disso, perante fenómenos como o crescimento do populismo e do ódio; perante o problema das negociatas, que degradam a atuação do poder local, em inúmeros casos, sinto que tenho a obrigação de dar um contributo com uma visão ecologista, inclusiva, solidária e ética.”
Hoje os números da pandemia em Portugal continuaram a baixar: o registo do boletim epidemiológico refere seis mortes (menos duas do que no sábado) e 450 novos casos de infeção com o novo coronavírus (menos sete), mas o número de doentes em enfermaria inverteu a tendência de descida que se vinha verificando nos últimos dias, tendo aumentado para 765 o número de internados (mais 21) e nas unidades de cuidados intensivos mantêm-se 170 doentes internados.
Vacinação prossegue em marcha lenta
De acordo com os últimos dados da Direção Geral de Saúde, Portugal tem atualmente 1.280.409 pessoas vacinadas contra a doença: 875.490 com a primeira dose e 404.919 com a segunda dose.
Nos centros de vacinação continua a assistir-se à vacinação de pessoas bastante idosas, as primeiras a serem vacinadas a par dos profissionais de saúde, bombeiros, polícias e dirigentes políticos. A restante população espera pacientemente pela sua vez.
Tudo indica que em Espanha está prestes a ser aprovada uma lei que protege os denunciantes de casos de corrupção. O InfoLibre noticia que se trata da transposição para a lei espanhola de uma diretiva europeia aprovada já em 2019 e que tem estado em consulta pública desde janeiro.
Segundo a mesma notícia, vários partidos políticos espanhóis aproveitaram este período de discussão pública para fazerem propostas de alteração à lei. Entre propostas de partidos e sugestões provenientes de organizações da sociedade civil, haverá cerca de 40 documentos para serem discutidos no parlamento espanhol na altura em que se discutir a proposta de lei e a sua votação.
Embora ainda não esteja definida a data em que o parlamento espanhol vai discutir este assunto, o InfoLibre adianta que o Governo vai incluir este debate no chamado “plano normativo” de 2021, assim se chama em Espanha ao rol de assuntos a serem levados a debate e a votação.
Assim, whistlebowers como Julian Assange, Edward Snowden ou Rui Pinto estarão protegidos por Lei em Espanha. Um paradoxo face ao que se passa em Portugal. Talvez Rui Pinto decida emigrar, quem sabe…
A propósito do pequeno templo mandado erigir, na Beja romana, por Júlia Saturnina, à esposa de Fauno, a Boa Deusa, acabei por mostrar a imagem de um Fauno, gravada num anel de cornalina exumado por ocasião das escavações arqueológicas levadas a cabo, em 2001, na villa romana identificada em Caparide (S. Domingos de Rana, Cascais). E dei comigo a pensar: será que o romano (ou a romana) que usaram esse anel teriam consciencializado, um dia, que tinham um fauno na mão?
É, na verdade, motivo decorativo esteticamente agradável à vista (Fig. 1): de pé, dorso arqueado, orelhas compridas, cabelo hirsuto, cauda longa, o fauno ergue nos braços a flauta cujo clangor vai enfeitiçar os humanos… Mas qual a razão da escolha? Estética apenas? Tendo, mui provavelmente, hipótese de escolher a compra, que razão terá induzido a esta preferência e não a outra?
fig.1 pedra de anel gravada com fauno
Mexemos diariamente em moedas. Porventura agora já não ligamos muita importância àquilo que nos entusiasmou no início da era do euro: «Donde é que é esta? Que monumento será este? E este senhor quem é?». E até pensámos em coleccionar moedas de todos os países da União Europeia, porque… era giro conhecer as diferenças! Toda a gente sabe já que, no verso da moeda portuguesa de um euro está representado o selo real de 1144, de el-rei D. Afonso Henriques. Talvez se não tenha reflectido, porém, sobre qual a razão dessa escolha, quando, por exemplo, o euro alemão tem a monumental e bem simbólica Porta de Brandemburgo. Parece, na realidade, algo de estranho, esteticamente pouco convidativo ao olhar… Houve, contudo, uma razão: desde 1143 que Portugal é independente! E a Espanha só no princípio do século XVI, por acção dos Reis Católicos, é que logrou a união dos reinos em que, até aí, estivera dividida. E a Itália nos finais do século XIX, depois das lutas de Garibáldi! Isto é: assim se mostra aos demais que, quando eles nasceram, já Portugal existia!…
Por isso também, quando identificámos na villa romana de Freiria (S. Domingos de Rana, Cascais) uma estranha moeda e a limpámos, depressa compreendemos que a legenda IMP ‧ SAL queria dizer IMP(eratoria) SAL(acia) e tinha todo o sentido nela estarem representados dois golfinhos e, do outro lado, o busto de Neptuno, deus do mar, com o seu tridente (Fig. 2). Os habitantes da Alcácer do Sal de então quiseram plasmar na moeda o nome da sua terra, de que se orgulhavam. Não era qualquer uma que se poderia gloriar de ser imperatoria, ou seja, directamente ligada a um imperator, um chefe militar de excelência, nesse ano 44 antes de Cristo!
fig.2 moeda de Salácia
Voltando ao anel. Sim, o romano que o ofereceu à sua amada com a imagem de um sátiro poderia ter um segundo sentido, o de assim melhor a seduzir. Mas, ao usá-lo no dedo, que significado tinha o fauno para a senhora? Claro, também se poderia pensar que era um portador e não uma portadora. Nesse caso, será que almejava identificar-se com a sedução de Fauno, vagueando pelos bosques à espreita de mui descuidadas Ninfas esbeltas?
A questão permite-nos entrar no complexo e sempre misterioso mundo da Arqueologia. Não há textos nos guiem. Imaginamos o que terá acontecido, com base nos dados concretos encontrados, mas não temos garantia de que assim tenha acontecido, porque, em relação aos Romanos, dois mil anos passaram já, as mentalidades evoluíram e o que se nos afigura evidente pode não ter sido assim nessa altura. Em todo o caso, algo pode concluir-se desde logo: não era qualquer um que poderia dar-se ao luxo de ter anel com pedra de cornalina! E, por outro lado, a gravação da imagem de um fauno implicava conhecimentos da mitologia!…
Demos mais dois exemplos.
O auriga
Achou-se na villa romana de Freiria uma outra pedra de anel, esta de ónix, que representa um auriga a conduzir uma biga (Fig. 3). ¿Recorda-se o leitor de já ter visto, em hipódromos, corridas de cavalos em que o cavaleiro, em vez de estar montado no dorso, conduzia, sentado, um carro de duas rodas puxado por dois cavalos? Isso era uma biga, no tempo dos Romanos; e ao cavaleiro dava-se o nome de auriga. Ora, para além do aspecto estético – que nunca deve esquecer-se como razão da escolha – que poderiam os arqueólogos elucubrar perante tão curioso achado? Corridas de cavalos? Seria cavaleiro o portador do anel? E porque não?
fig.3 pedra de anel com auriga
Claro, arqueólogo que se preza carece de justificar o melhor possível a hipótese de explicação apresentada. Ora, neste caso, como sói dizer-se, «estava-se mesmo a ver»!… Em Lisboa – a romana Olisipo – topara-se, não havia muito, aquando das obras de alargamento do metro, o hipódromo romano na zona do actual Rossio. Portanto, lugar para as corridas havia e não longe, embora também o hipódromo de Mirobriga, perto de Santiago do Cacém, não ficasse muito fora de mão… E, por outro lado, não correra mundo, pelos séculos fora, a lenda (lenda poderia não ser, afinal!…) de que as éguas da Lusitânia eram fecundadas pelo Vento e, daí, serem as mais velozes do mundo? Havia, pois, todos os ingredientes para os arqueólogos sonharem com a possibilidade de, em algum tempo, o proprietário da villa de Freiria se adestrara no manuseio das rédeas para ser triunfador! Então não é que ele empunha mesmo um ramo de louro, símbolo evidente da vitória alcançada!…
A deusa Diana
O exemplo seguinte não é tão faustoso do ponto de vista estético. Não se trata do uso de uma pedra semipreciosa, mas de mui singelo objecto de barro: uma lucerna.
Lucerna era o nome que os Romanos davam ao que nós, hoje, chamaríamos, mais lhanamente, lamparina. Consta de uma pega, do disco onde se punha o combustível (azeite ou óleo) e do bico, por onde saía a torcida. Tudo muito simples, utilitário, para o dia-a-dia, portanto.
fig.4 capa do livro Lucernas de Santa Bárbara
Pois o caso é que não seria bem assim. Essa função de alumiar, de concreta passou a ter também um significado maior, quase místico, dir-se-ia! Não será, por isso, de admirar que, num santuário como o de Santa Bárbara de Padrões, em Castro Verde, dedicado a uma ou várias divindades, a oferta devota fosse precisamente uma lucerna. Doutra forma se não entenderia o facto de aí se haverem encontrado às dezenas (Fig. 4). Ora também por esse motivo, por essoutro significado, é que a parte superior do disco passou a ser decorada com as mais variadas cenas e imagens.
Uma das lucernas encontradas na villa romana de Freiria tem representada no disco a deusa Diana, divindade que, como se sabe, superintendia às actividades venatórias (Fig. 5).
fig.5 lucerna com representação de Diana
Significava essa representação que o seu proprietário fosse caçador? Não necessariamente.
Primeiro, porque a lucerna era feita com um molde e, embora se não conhecesse o fabrico em série, o normal seria que o oleiro as fizesse logo em quantidade, enquanto estava ‘com as mãos na massa’, digamos assim. Depois, porque uma pessoa pode gostar de uma imagem só por meras razões estéticas; a caça era, de facto, uma actividade a que, por necessidade e por prazer, os Romanos se dedicavam, como o demonstram também as movimentadas cenas de caçadas plasmadas em policromos mosaicos que pavimentam as salas nobres das suas casas de campo (as villae); mas isso não implica acalorada devoção à deusa.
Por conseguinte, para o arqueólogo, a presença dessa decoração vale não expressamente como testemunho de um culto mas de uma cultura a que se aderiu.
E torna-se, por isso, bem aliciante pensar que – no dedo de uma matrona romana ou de mui distinto proprietário rural – aquele fauno no anel mais não seria, afinal, do que excelente pretexto para, mostrando-o, proporcionar uma conversa… brejeira!…