Perfeição

Lembro-me da cena de um filme com a Isabella Rossellini a esfregar o chão de gatas, enquanto Donald Sutherland a olha com lascívia, o vestido é transparente. Uma imagem lindíssima

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Também estou de gatas, a esfregar o chão, mas as semelhanças terminam aqui. Nem a roupa é transparente, ninguém me olha com lascívia, há muita lixívia sim, o gato Motard vai no primeiro sono.

Vou alternando com outras limpezas e consigo chegar ao final duma segunda ronda. Yes! Caio na cama cedo mas não quero sonhar contigo. Preciso evitar emoções fortes e não aumentar ainda mais as saudades de me entrelaçar em ti.

Volto à sala para fumar, o Motard já está desperto. Volto a percorrer o Pop Corn, escolho um filme de acção onde na prática não se passa nada. Não quero ocupar a cabeça, quero paralisá-la.

Sorvo o último gole do vinho, não me sabe bem nem mal, faz companhia ao cigarro. É quase meia-noite, não quero transformar-me numa abóbora.

Lá fora, o zelador, quieto, tão forte, discreto. Desde miúda que não consigo dormir no escuro. Agora tenho o candeeiro que largou o largo onde vivíamos e veio para aqui tomar conta de mim. O Motard, sentado no móvel branco, olha-me fixamente. Sei que irá ter à cama, mas só quando cair no sono profundo. É seguro aí que não acorde, e ele não tenha de dar parte fraca. Já devia estar com sono, fartei-me de esfregar e limpar. Quero esta casa perfeita, quero caminhar aqui para a perfeição. Não chego lá, bem sei, mas sei que esta é a casa de partida.

Rendo-me aos vampiros, não penso em nada, é o que se pretende. Ao fim de cinco minutos paro de me render. Quero paralisar a cabeça mas não embrutecê-la, há limites para filmes ocos. Escolho outro, este com bruxas. O filme é servido por actores de quem gosto muito. É secundário se o filme é bom, eles são. Jack Nicholson, Michele Pfeiffer, a estrondosa Susan Sarandon e depois… a Cher. No meio deste ramalhete, safa-se, vá lá.

O filme começa, ajeito as almofadas, as pestanas finalmente descem, aos pés já está o Motard, fecho o portátil.

Dia seguinte: ponho música, ponho-me de gatas, esfrego chão, passo um anti-gorduras xpto pelos azulejos, janto, tomo um duche quente, não escolho um filme oco, antes a penumbra do quarto. O candeeiro não deixa a escuridão instalar-se, nem no quarto nem em mim. Adormeço abraçada a ti. Não passas de uma almofada mas, mesmo assim, adormeço abraçada a ti. Amanhã fazemos mais amor e fugimos para a praia. Bebemos umas imperiais com percebes, muitos! Mergulhamos no mar até as estrelas nos caírem em cima.

O Motard espreguiça-se ao sol, volta a fechar os olhos.

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