Início Site Página 400

O banqueiro Rendeiro fala de Salgado e Sócrates

0

No dia em que começou o julgamento do banqueiro Ricardo Salgado, lembramos as declarações públicas de João Rendeiro, banqueiro condenado a 10 anos de prisão efetiva por gestão danosa do Banco Privado Português (BPP).

Quando chegam à porta da prisão, os banqueiros não hesitam em se acusar mutuamente. Rendeiro lembra a ligação que alegadamente existia entre Salgado e Sócrates e acusa o duo de serem os verdadeiros causadores da falência do BPP.

Rendeiro diz que Sócrates e Salgado tinham um acordo para controlar a banca portuguesa e que o BPP foi abatido por não estar alinhado com o Governo, não ser “fiel a Sócrates”, por estar a “pisar os calos” aos grandes bancos, nomeadamente ao BES.

Ideologicamente, Sócrates estaria ainda a tentar agradar à “populaça” ao deixar morrer o “banco dos ricos”, alega Rendeiro.

João Rendeiro parece apostar que o julgamento de Ricardo Salgado venha esclarecer o esquema engendrado por Sócrates e Salgado para controlar o BCP, ao mesmo tempo que faziam desaparecer o BPP. Nesse esquema, Rendeiro não hesita em incluir o Banco de Portugal que não fez nada para evitar que um grupo de investidores financiados pela Caixa Geral de Depósitos fizesse o “assalto” ao BCP. Terá sido o caso de Joe Berardo, por exemplo.

Rendeiro lembra que ainda não há balanço de liquidação do BPP, nem apresentação pública de contas da gestão da massa insolvente do banco. Diz que há ainda entre 700 a 900 milhões de euros em liquidez e a coleção Ellipse (obras de arte) que valerá cerca de 50 milhões, e que ninguém sabe como essa fortuna está a ser gerida. João Rendeiro diz que a comissão liquidatária existe para liquidar e não para se perpetuar, aludindo que haverá outras intenções neste grupo de pessoas, “sentados em cima de 700 milhões de euros”, desde que o BPP foi implodido, já lá vão 11 anos.

O vídeo completo com as declarações de João Rendeiro está disponível no Youtube desde maio de 2021.

Para Rendeiro tudo não passou de uma trama onde ele foi, apenas, vítima inocente. Lembramos que João Rendeiro foi condenado a 10 anos de prisão efetiva por apropriação indevida de mais de 13 milhões de euros.

Refletindo sobre acidentes de viação

0

Não sabia, nem imaginava sequer que em Portugal houvesse tantos cumpridores do Código da Estrada. Descobri através das ditas “redes sociais” que uma imensa percentagem de indignados juízes de causas alheias nunca ultrapassaram os legais 120 km/h nas autoestradas do país e nunca, jamais, pisaram a faixa da esquerda. São virgens de qualquer infração. Impolutos e justiceiros sem contraditório. Nunca se emocionaram tanto como com o triste atropelamento de um trabalhador numa autoestrada, saído do mais improvável e inesperado lugar da uma via rápida. Uma grande infelicidade para todos os intervenientes.

Lamento a perda do trabalhador, chefe de família, e penso na dor dos seus mais próximos familiares, amigos e colegas na infeliz hora que atravessam. Igualmente lamento e respeito o falecimento de 504 outras pessoas vítimas de atropelamento por viaturas nos últimos cinco anos em Portugal.

Quando se trata de morte, não existe hierarquia seja de que espécie for. Toda a morte é uma perda irreparável.

Como condutor com carta há mais de 60 anos, filho de um antigo perito de viação e trânsito, tive a felicidade até hoje de nunca ter passado pela situação extrema de atropelar uma pessoa. Mas sei o que isso pode representar para quem protagonizou tal situação. Aprendi que na estrada a vida perde-se em décimos de segundo. Não só a vida terrena mas também a vida que cada um tinha momentos antes.

Tudo se resume a um tempo de reação, aos segundos em que se percorre uma distância, ao espaço e ao tempo que fogem ao controlo. Um acidente grave fica marcado para o resto da vida. A imagem do que se passou naquele horrível momento fica para sempre cravada na memória e é repetida em sonhos maus.

O acidente que todos os estimados leitores perceberam a que me refiro, ganhou dimensões extraordinárias e oportuno aproveitamento político. Muitos sustentam a inabalável opinião de que o carro circulava a 200 km/h naquele local como se tivessem estado lá de cronómetro na mão.

O carro envolvido no famigerado acidente, segundo dados da marca, precisa de quase 20 segundos para ir dos 80km/h aos 180 km/h. Não é líquido que um carro a circular a velocidade superior à dos outros consiga manter essa velocidade de forma constante. Há sempre situações a exigirem correção da velocidade. E da trajetória.

Embora se registem acidentes acima da velocidade máxima legal, estudos comprovam que a maioria dos acidentes mortais ocorrem até 64 km/h. Quando um veículo viaja, por exemplo, a 100 km/h, e embate num obstáculo à sua frente, raramente no momento do impacto a velocidade é de 100 km/h porque, antes da colisão, o instinto do condutor é tentar imobilizar o veículo o mais depressa possível. Nos testes de choque feitos por organismos europeus verifica-se claramente o resultado de um embate a 64 km/h. A zona de embate fica totalmente amassada devido aos painéis de absorção de impactos de que são feitas as frentes dos carros modernos. Só uma peritagem rigorosa e independente poderá determinar as causas de tão nefasto acontecimento. Até lá, continuaremos a assistir a mais especulação do que discussão séria.

De uma coisa estou certo: o acidente não aconteceu por o carro não ter registo.

Para quem circula com frequência fora das zonas urbanas deixo aqui alguns elementos que julgo interessantes, para ponderação:

– um carro a 120 km/h percorre 33,3 metros em 1 segundo;

– a150 km/h faz 41,6 metros em 1 segundo;

– a 200 km/h percorre 55,5 metros por segundo.

– 33 metros correspondem a 3 vezes a distância entre a marca de grande penalidade e a linha da baliza de um campo de futebol normal; 55 metros é a distância de meio campo de futebol;

– 1 segundo equivale, em média, a três piscadelas de olho;

– em média, o tempo de reação de um condutor situa-se entre os 3/4 de segundo e 1 segundo o que significa que, a 120 km/h, entre o ver e o reagir, o carro percorreu entre 25 e 33 metros.          

-a distância de travagem até imobilização total de um carro do tipo do envolvido no acidente é cerca de 38,3 metros a 100km/h; e de 62,5 metros a 120 km/h.

(a estes valores convém adicionar a distância percorrida durante o tempo de reação).

A igreja lascada

0

Durante centenas de anos foi simplesmente uma igreja, a abadia do convento. Os árabes dizem abad quando querem dizer casa. Abadia é uma casa, portanto. E esta é uma das mais velhas igrejas de Lisboa. A primeira pedra foi lançada há 780 anos, quase oito séculos. Igreja mais antiga, em Lisboa, talvez só a Sé Catedral que antes de ser igreja católica era mesquita muçulmana e já lá estava quando a cidade foi conquistada pela força das armas.

Em 1241 seria uma igreja pequena. Mas foi crescendo à medida das ambições e das vaidades e do poder de reis e cardeais. A igreja cresceu em dimensão e em importância. Tornou-se centro da política e da intriga. E à medida que a cidade foi crescendo, ficou cada vez mais no coração da cidade.

No século XVI Lisboa era uma espécie de capital do Mundo e esta igreja estava no centro da cidade, palco da intriga e dos jogos de poder.

Em 1506 foi nesta igreja que começou a matança de judeus recém-convertidos ao cristianismo. Sob estas abóbodas espetaram-se as primeiras facadas e jorrou o primeiro sangue de milhares de pessoas perseguidas por toda a cidade e mortas por ódio estúpido, por inveja, por maldade e pelo poder.

O castigo não veio dos céus, mas do centro da Terra. 25 anos depois, um terramoto destruiu o edifício e com a destruição perdeu-se o tesouro em oiro, prata e tecidos caros que ornamentavam a igreja.

Foi tudo reconstruído e novo tesouro reunido, para tudo voltar a cair e a desaparecer no terramoto de 1755. As pinturas dos altares, os paramentos, os tesouros, tudo desapareceu.

Reconstruída de novo, com mais e maiores colunas de mármore negro, com maior ostentação e riqueza que antes, tudo voltou a perder-se num grande incêndio em 1959… e durante 40 anos ninguém aqui voltou a entrar.

Hoje, a igreja mostra as suas chagas, as cicatrizes de tantas feridas, o mármore lascado, as paredes enegrecidas, as paredes fendidas, o chão rachado… uma igreja destruída, mas ainda de pé, obrigada a viver, como quem expia tantos pecados…

Tiveram de passar 5 séculos para um Cardeal pedir perdão e, finalmente, se ajoelhar e rezar pelas vítimas do massacre.

Em frente à Igreja de São Domingos, gravado na pedra, está escrito que a Igreja católica reconhece profundamente manchada a sua memória por esses gestos e palavras, tantas vezes praticados em seu nome, indignos da pessoa humana e do Evangelho que ela anuncia… assinado por José, Patriarca de Lisboa.

Basta saber ler para compreender.

Mortes por incúria

4

Dois acidentes mortais na passada semana ganharam um impacto notável na opinião pública. E trouxeram de novo à reflexão de todos, a importância da prevenção rodoviária e da fiscalização policial activa, para ser mais seguro circular nas ruas e na estrada.

Falo, como é óbvio, do acidente com o carro que transportava o ministro Cabrita, com um final trágico que resultou na morte de um trabalhador, que deixou uma família desamparada, e do não menos triste acidente que matou uma mãe grávida de 5 meses, e que conduzia uma bicicleta de tipo desportivo numa via de grande tráfego em Lisboa.

O acidente com o carro do ministro é do ponto de vista da responsabilidade civil um óbvio atentado às regras de trânsito, embora se saiba pouco das circunstâncias.Mas o que já se sabe dá para chegar a estas conclusões: O carro (pertencente a um traficante de droga, e apreendido com a assinatura do ministro) circulava a uma média de 200 quilómetros por hora, em autoestrada, sem pirilampos azuis, sem batedores policiais, circulava na faixa esquerda (onde colheu o trabalhador) quando devia circular na faixa da direita, e os dois ocupantes do veículo (motorista e ministro) nem sequer saíram do veículo para prestarem auxílio à vítima como o exige o código da estrada.

Por outro lado, a GNR que acorreu ao local, sabia que era um carro com ministro dentro e não fez o teste do álcool ao motorista, que não era um entre milhares que o Estado tem, mas um profissional sem as características desejáveis para quem conduz em regime prioritário um carro do Estado. Um ministro da administração Interna devia ser conduzido por um polícia ou militar experiente neste tipo de condução. Todos nós jornalistas, sabemos por experiência, que os veículos do Estado em comitiva, andam sempre a velocidades ciclónicas. Até o Vasco Goncalves gritava com o motorista para ultrapassar os batedores de mota, e passava-os, para chegar mais depressa.

Por exemplo, o Mercedes S500 de Cavaco (com a legenda retirada a secador de cabelo) andava sempre acima dos 230, embora numa comitiva de batedores, motoristas preparados para estas velocidades, com técnicas de visibilidade e defesa.

Politicamente não é aceitável que qualquer governante (mesmo os secretários de Estado têm esta prática) se achem acima dos deveres cívicos, praticando uma arrogância do Poder que os transforma em speeds acima dos zézinhos que os elegem. É uma atitude que diz muito da classe política e do seu comportamento desprezível para com os cidadãos.

O acidente que vitimou a senhora grávida e que logo gerou movimentação política contra os carros, dá que pensar (embora poucos o queiram fazer) da fragilidade que é andar de bicicleta no meio do trânsito intenso, urbano. O principal problema, e perigo, é que as bicicletas são pouco visíveis entre o movimento do tráfego urbano, e assistimos (eu confronto-me todos os dias com essa realidade) à maior loucura: as bicicletas não têm seguro de responsabilidade civil, os ciclistas não usam capacete, luvas, refletores, andam à noite sem luz de presença, passam sinais vermelhos, surgem entre os carros nas paragens dos sinais luminosos, não respeitam os peões, não gostam de andar nas ciclovias, e acham que um carro a 50 km/hora os tem de evitar mesmo havendo uma diferença de velocidade notável entre os dois veículos.

A bicicleta é um veículo maravilhoso mas quando se mistura com o trânsito automóvel, por natureza é um perigo iminente. Depois ainda há as trotinetes, os skates, os patins e outros objetos rolantes que passaram a fazer parte do universo de veículos andantes.

O fatídico acidente referido, foi provocado por um choque traseiro de um pequeno Smart na bicicleta. Dizem que foi um encadeamento. Mas não deixo de pensar, que, mesmo que não tivesse havido o infeliz acidente, como é possível uma mãe grávida usar uma bicicleta com uma posição de condução de corrida, com um selim agressivo, e circular numa via complicada, embora circulasse numa ciclovia.

Este acidente cortou-me o coração. Temos de repensar a segurança nas estradas e ruas. É urgente a regulamentação da circulação ciclista. Essa atitude tem de ser incutida em cada um de nós quer montemos qualquer coisa, até um burro.

Um grande buraco, o golfe da Impala em Ranholas

1

Depois de denunciadas as obras e novas atividades sem licenciamento no Edifício Impala, a Câmara Municipal de Sintra não teve outro remédio e enviou ao local a inspeção que mandou fechar o golfe indoor.

“O espaço de minigolfe anunciado não teve qualquer processo de licenciamento para as atividades previstas e não será aberto até respetivos pedidos e informações”, dizem órgãos de comunicação social citando “fontes” da edilidade, como é o caso do Correio da Manhã.

Quanto ao restaurante, também não estavam reunidas todas as condições para a abertura. A fiscalização diz que “não reunia toda a documentação” e que, portanto, também não pode funcionar.

Nas redes sociais, a chamada Impala Entertainment continua a propagandear o mini golfe e o Sintra Food Studio. Talvez não fosse má ideia tirar a publicidade, não se dê o caso de alguém se sentir enganado por anúncios de coisas que não têm licenciamento para funcionar.

A grua

0

Cremilde aka Mimi foi a primeira utente do Centro Nuno Belmar da Costa a ser içada pela grua de transferência para entrar na piscina que está montada no pátio. Cristina foi a segunda. Deram um exemplo de coragem e atrevimento que, certamente, será seguido por outros.

A partir de agora tudo será mais fácil para todos, independentemente do grau de incapacidade física, deixou de haver limitação para a utilização da piscina do Centro Nuno Belmar da Costa, em Oeiras.

Bastou a ideia de instalar uma grua para levar até à piscina os utentes do Centro com maior grau de incapacidade e tudo mudou.

Malato no “Passeio dos Velhotes”

0

Levar os mais velhotes a passear foi sempre uma das receitas autárquicas para o contentamento. Depois do interregno pandémico, Oeiras volta a organizar esses passeios.

Para ir nesses passeios não basta querer. É preciso sorte porque as viagens são sorteadas e é preciso pagar, embora sejam comparticipações simbólicas relativamente ao valor das viagens.

O sorteio foi abrilhantado por um conhecidíssimo apresentador de televisão, alentejano de nascimento e oeirense pelos acasos da vida. José Carlos Malato vive por aqui desde criança e até veio encontrar antigos colegas de escola, mais velhos que ele, evidentemente…

Antes da festa terminar, falou o presidente da Câmara. Não foi um discurso, foi apenas para dizer que conviver é bom e desejar boa viagem a todos.

Uma estranha bóia de pesca!…

1

            Carlos Monteiro não passava fim-de-semana sem o passeio pela orla de Cascais ao Guincho. Abeirava-se do mar aqui e além e, por entre as pedras, recolhe o que as ondas ali foram deixando. Gostava de me oferecer algumas dessas ‘riquezas’, que eu acabava por pendurar numa das vedações do jardim. Havia, porém, uma que mais me chamava a atenção. E decidi meter mãos à obra para descobrir o seu mistério!

A bóia e os The Rolling Stones!

De tudo Carlos Monteiro me entregava, susceptível de alindar esse recanto do jardim, onde, em lugar de relevo, se mostra miniatura de um dos barcos com que, na Praia de Mira, se faz a pesca de arrasto, uma actividade que eu e meus filhos deveras apreciávamos na década de 70, quando por lá passávamos férias. Chama a atenção a grande corda; mas há os diferentes tipos de bóias, cujo variado colorido não nos deixa indiferentes.

Aquela bóia, porém, é que nunca me deixou indiferente. Até porque ostentava a marca da fábrica: uma concha estilizada e um letreiro em toda a volta onde logrei ler FONDERIE LACOOULLE DANGU FRANCE. E, um destes dias, decidi que não poderia deixar sem resposta a minha curiosidade de epigrafista, onde a dúvida, por mor do estrago superficial, residia no nome da fundição.

Primeira acção, portanto: pesquisar Dangu. E o primeiro resultado foi desagradável, porque, datada de 27 de Outubro de 2020, e sob o título «As forjas de Dangu encerram, os assalariados sentem-se traídos», se noticiava:

«São hoje 31 operários especializados, mormente na confecção de peças eólicas e ferroviárias. Alguns deles só conheceram esta empresa. Patrick, Philippe e Steve aceitaram dar conta da sua incompreensão».

Tirei uma primeira conclusão: embora ligadas ao fabrico de peças que nada tinham a ver com a bóia, essas forjas perpetuavam, seguramente, uma tradição local. Contudo, acerca dessa tradição nada se dizia de significativo nas páginas da Internet. Não deixava, todavia, de se assinalar a importância do castelo de Dangu, cujos 20 quartos proporcionam – anuncia-se – excelente acomodação. Aliás, o que não vale pensar que o castelo se localiza no coração de um bosque de 60 hectares e que, tendo sido o seu envolvimento paisagístico concebido pelo famoso botânico Antoine-Nicolas Duchesne (1747-1827), nele viveram durante algum tempo os míticos The Rolling Stones!?…

A resposta que veio da Câmara Municipal

Naturalmente, eu queria saber mais. Lancei, por isso, o repto aos meus amigos franceses. Um deles, o Professor Jean-Pierre Bost, da Universidade de Bordéus, não esteve para meias medidas e escreveu directamente para a Câmara Municipal de Dangu. Pasme-se! A resposta veio quase no dia seguinte. O presidente da Câmara, Gilles Delon, fez questão em ser ele próprio a responder.

Começou por esclarecer que se tratava da fundição LA COQUILLE. Assim se corrigia a minha leitura e, claro, decifração feita, bati na cabeça, porque poderia ter logo compreendido que a concha, símbolo da fundição, me poderia ter levado de imediato a perceber que seria esse o nome da fundição: «A concha», «La Coquille».

E remeteu uma breve história do empreendimento, elaborado por Pascal Leterrible, em 20 de Agosto de 2018. Assim, a oficina metalúrgica fora construída por volta de 1836 pelo general d’Arlincourt, a partir de um moinho de trigo, que pertencera, desde os tempos feudais, aos senhores de Dangu. O 1º Conde de Lagrange havia-lhes arrendado o local por um período de 30 anos. Dificuldades burocráticas, derivadas de a prefeitura do Eure – de que a zona dependia – não ter concedido licença de laboração, motivaram a falência do empreendimento, que passou para a posse dos credores; contudo, a condessa de Lagrange logrou, em 1839, recuperá-lo.

Assim, de 1840 a 1850, a fundição conheceu um desenvolvimento notável, de tal sorte que se guindou a ser a 7ª empresa metalúrgica da Normandia. Morreu a Condessa nos finais de 1849 e os herdeiros foram autorizados, por decreto presidencial de 9 de Agosto de 1850, a manter a actividade de laminagem de zinco, cobre e outros metais.

Sabe-se que, na 2ª metade do séc. XIX, a oficina produzia, em média, 1300 toneladas de zinco laminado, nela laborando um efectivo que rondava os 45 operários. Vendida, em 1884, a uma sociedade belga, viria a especializar-se na laminagem de finas folhas de zinco. E assim terá continuado até 1956, altura em que passou a fabricar, até aos anos 80, peças de precisão para eletrodomésticos. Na actualidade, acrescentou Gilles Delon, é um anexo de moradia, mantendo-se, todavia, inalteráveis os equipamentos e as instalações hidráulicas do século XIX: a represa e o moinho; e ainda podem observar-se os diversos canais do rio Epte (afluente do Sena), que a serviam.

Em conclusão, a bóia de zinco – ou de uma liga, em que poderá entrar também o alumínio – que por aqui deu à costa vem acrescentar um dado ao que se conhece da história desta fundição: que se terá especializado também na confecção destes utilíssimos artefactos. Porventura ainda se logrará saber em que época essa produção terá sido predominante ou, pelo menos, de uma certa importância a nível europeu.

Uma bóia… para quê?

Chegados a este ponto, urgia contactar o nosso especialista em salvados, Miguel Lacerda, que dinamiza, como se sabe, a Cascaisea, organização não-governamental criada justamente para incentivar a limpeza dos oceanos:

            O Miguel acedeu prontamente a explicar-me tudo:

«Até hoje, das que consegui identificar (pois há umas de que não se consegue ler nada), umas foram fundidas em França, Dangu La Coquille (como essa e uma que tenho guardada), outras fundidas na Coruña, em Espanha, com a marca “Hercules”.

Ambas as boias eram usadas nos anos 50 e 60. São boias de fundo, ou seja, para manter o posicionamento correto dos aparelhos de pesca no fundo do mar, a base levava ferros e chumbo e a parte superior as boias.

Eram mais usadas em redes de fundo e armações, mas também há quem diga que se usavam na tralha superior dos sacos dos aparelhos de arrasto. Hoje são usadas boias em plástico PVC muito resistentes com formas semelhantes. Já as vi a serem reutilizadas como boias de amarração.

São boias que vão continuar a aparecer por muitos e muitos anos, pois existem muitos aparelhos perdidos e presos no fundo do mar… Com a ação permanente do mar e a deterioração dos materiais que as retêm no fundo (redes e cabos), estas acabam por se soltar, emergir e depois são arrastadas pelos ventos e correntes marítimas.

Tendo em conta toda a conjuntura de ventos e correntes predominantes do giro do Atlântico Norte, podem ocorrer em qualquer litoral ou ilha no Atlântico Norte».

Bem hajas, Miguel! Agora és tu quem me ensina!

E ficou tudo dito!

A não ser duas reflexões finais:

– Primeira, a lição que recebi (recebemos!) tanto de França como do Miguel Lacerda, de que há a realçar a pronta disponibilidade demonstrada por ambas as ‘fontes’ de informação;

– depois, a ideia de que mui singelo achado é susceptível de ter uma história para contar! Assim nós queiramos disponibilizarmo-nos a escutá-la!

Da minha parte, direi que olho agora com outros olhos para esta bóia que repousa no vetusto lavatório de ferro forjado que de meus antepassados herdei. E até me acontece ouvir ao longe o justíssimo clamor dos operários que outras forjas de Dangu, de um momento para o outro, lançaram no desemprego. Juntamente com outras, a minha bóia foi, um dia, lançada ao mar e soçobrou; esses operários bem queria eu que não soçobrassem jamais!

As assistentes do Preço Certo

0

O Ocidente deu passos difíceis desde O Nascimento de Vénus de Boticelli (1486) ou David de Michelangelo (1504), ambos em Florença. Até ao bikini de Louis Réard de 1946 ou à mini-saia de Mary Quant. E o corpo de uma mulher passou a ser um corpo diferente de outra mulher. Admirado de forma civilizada em vários sentidos.

Mas há poucos anos o Facebook proibiu os mamilos das mulheres e o amamentar de bebés. Agora chegou Fernanda Câncio com Lanka.

“É espantoso como é que a televisão pública continua a usar mulheres como adereços desta forma repugnantes. Não há obrigações de cumprir os mínimos em termos de respeito pelos princípios constitucionais e pelos planos para a igualdade?“, questionou na rede social Twitter e aparece agora por toda a internet.

Os assistentes do “Preço Certo”, duas mulheres e um homem são “apontadores” do que se joga no programa. São necessários. E a forma como se vestem corresponde a códigos de comunicação.

Longe vão os tempos em que o Cardeal Carafa queria que os homens e mulheres entrassem vestidos à sua maneira no Paraíso. Foi há 500 anos! No Ocidente.

Um jardim no Martim Moniz

0

A decisão sobre o futuro do Largo do Martim Moniz está por dias, depois de um longo e bastante participado processo de discussão pública. Há dois anos, o Martim Moniz iria ser uma espécie de mercado a céu aberto, com a praça cheia de contentores que serviriam de lojas de comércio e serviços. Um recinto vedado e que seria fechado a cadeado durante a noite.

A ideia não era do agrado de muitas pessoas, residentes e pequenos comerciantes da zona. Organizaram-se e protestaram. Fizeram manifestações de rua, foram para os jornais, intervieram nas reuniões públicas da autarquia. Fizeram tanta pressão que conseguiram parar esse processo que estava já concessionado e um grupo de empresários.

A Câmara Municipal de Lisboa foi obrigada a colocar o futuro do Largo do Martim Moniz em discussão pública. Mais de mil lisboetas (1009 é o número oficial) participaram nessa discussão com propostas concretas. A maioria dessas propostas aponta para a transformação do Largo num jardim. Um espaço verde, imaginem. Não querem mais quiosques, nem lojas de chineses, nem restaurantes de fast food, nem tretas para inglês ver. As pessoas querem um jardim onde as crianças possam brincar e os velhotes descansar na sombra fresca das árvores que o jardim há de ter. Querem um jardim limpo e seguro.

Por enquanto, o Largo do Martim Moniz continua um sítio sem graça. Um largo de chão empedrado onde à noite dormem vagabundos e de dia alguns se entretêm a dar milho aos pombos. Se o chão de pedra for substituído por terra com árvores e canteiros de flores, tanto os pombos como os sem-abrigo vão ficar muito mais bem servidos.

O sítio a que chamamos Largo do Martim Moniz foi até meados do século XX um local bem diferente. Tal como o resto da Mouraria, o que ali havia era um dédalo de ruas estreitas e casas antigas. Muitas casas de gente pobre e um palácio. Quando o Palácio do Marquês do Alegrete foi demolido, abriu-se espaço para o largo a que depois se chamou de Martim Moniz. Depois, esburacaram o chão para ali construírem um estacionamento subterrâneo. Ou seja, hoje já ali não há nada que valha a pena salvaguardar. Que se faça o jardim.

A desaparecida Rua do Arco do Marquês do Alegrete, onde hoje está o Largo do Martim Moniz.