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O CASTELO DE PENEDONO

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Do Castelo de Penedono ancorado nesse promontório rochoso de onde se vigia, como se mar fosse, a interminável paisagem de vale e serra, ninguém sabe dos começos, do desenho, dos panos de muros inicialmente levantados, das pelejas acontecidas nos ermos territórios ao redor.

A primeira notícia sólida colhe-se no Testamento da poderosa D. Chamôa (ou Flâmula) Rodrigues que, recolhendo-se no ano de 960 ao Mosteiro de Guimarães, confia o castelo de Pena de Dono, actual Penedono, com outros vizinhos castelos – Trancoso, Sernancelhe, outros ainda – a sua tia, a Condessa Mumadona, que legará mais tarde todos os seus bens ao Mosteiro que fundara.

Situado numa Extremadura de continuadas arremetidas de cristãos e mouros, vem a cair sob domínio muçulmano, por ocasião da passagem de Almançor para Compostela, em 997, voltando novamente à posse de cristãos, aquando da “Campanha da Beira” empreendida por Fernando I de Leão, entre 1055 e 1064.

Arruinado numa antiga feição que desconhecemos, sofrerá reparo, quando D. Sancho I outorga foral ao concelho em 1195, empreendendo, então, o repovoamento de um ermo território.

Mas será a partir de finais do século XIV, quando a nobilitada família dos Coutinhos recebe, por mercê d’ El-Rei D. Fernando, estes domínios, que o castelo ganhará a feição que hoje apresenta, adquirindo, já em fins do século XV, inícios do XVI, a qualidade acrescentada de residência senhorial dos membros desta importante família terratenente, possuidora de numerosas terras, onde se incluía Lamego, com largas casas de morada, Sernancelhe, Penedono, Trancoso e algumas mais.

Não repugna que Álvaro Gonçalves Coutinho, o célebre “Magriço” que a lenda aureolou, tenha nascido no Castelo de Penedono, dado que seu pai, Gonçalo Vasques Coutinho, Marechal e Fronteiro da Beira, bastas vezes teria de estanciar por terras do seu domínio.

Será, todavia, seu irmão, o primogénito Vasco Fernandes, 1.º Conde de Marialva, quem herdará o título de alcaide, que passará a outros membros da família, cuja linhagem estranhamente se extingue antes dos meados do século XVI, após a morte de D. Guiomar Coutinho, que não deixa geração.

Pacificadas as fronteiras, alteradas as técnicas de guerra, o altaneiro castelo depressa sofre ruína: estremecem as pedras de seus muros de pedra miúda; o telhado desaba sobre o tabuado do chão de castanho do piso residencial onde só as janelas permanecem escancaradas; vazias de gente as pedras que a gente chama de namoradeiras; fendas abertas despejam a água da cisterna; desaparecem as traves que o gentio terá levado para habitação; e desolador se torna o retrato do castelo feito pelo cura que escreveu as “Memórias Paroquiais” em 1758.

Declarado Monumento Nacional em 1910, restaurado entre os anos 40 e 53 do século XX, pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais – ei-lo, sublime, eterna pátria do mítico Magriço, trágico e sedutor, dourado dos líquenes, dourado de nossas poéticas memórias.

MUITA TERRA, MUITA TERRA

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O comboio parte de Moçâmedes ainda com o cheiro salgado do Atlântico no ar. Na estação, a azafama é grande, a começar pela zona da bilheteira. Os bilhetes são passados à mão, e para poupar esforço, e tempo, as pessoas agrupam-se em pares, trios, ou quartetos por destino. Assim, um só bilhete, com o nº de passageiros, serve para mais que uma pessoa. Para quem está sozinho como eu, o desafio começa por ser encontrar quem vá para o mesmo destino.

Aliás, o desafio começa na tentativa de encontrar informação fidedigna sobre a circulação, ou não, do comboio e dos seus horários.  Mas apesar da aparente confusão todas as pessoas são agrupadas, entramos no comboio, as pessoas e as mercadorias, e o comboio sai pouco depois da hora marcada, 7 horas da matina.

A viagem até Bibala, outrora conhecida como Vila Arriaga, nascida de um acampamento de apoio à construção da linha do Caminho de Ferro de Moçâmedes (CFM), no interior da província do Namibe, é mais do que um simples deslocamento geográfico. É um percurso que atravessa paisagens, histórias e rotinas, sobretudo para quem vê no caminho-de-ferro — restabelecido em 2023, após 26 anos de interrupção — um meio essencial e facilitador de ligação entre o litoral e o planalto. 

À medida que a composição avança, o azul do mar cede lugar a tons ocres, às pedras e à vegetação resistente do sul de Angola. O ritmo do comboio impõe uma cadência própria, regular, quase hipnótica, que dita o tempo da observação. Pelas janelas, sucedem-se pedreiras, velhas casas coloniais abandonadas, pequenas povoações, campos abertos e montes que surgem e desaparecem como páginas de um livro viradas com calma. 

No interior das carruagens e à beira dos carris, o retrato é humano é muito diverso e colorido. No interior do comboio viajam comerciantes com sacos bem atados e outros que vão comprar mercadorias, mulheres que vendem no comboio um pouco de tudo – comida e sumos em sacos de plástico, panos, pentes e ganchos para o cabelo, produtos alimentares – trabalhadores em trânsito e famílias que aproveitam o transporte mais acessível para visitar parentes e ainda animais, vivos e mortos. As conversas cruzam-se em voz alta, alternando entre notícias locais, a saúde da família, preços dos mais variados produtos e outras coisas ditas em línguas locais que não entendo.

Há quem durma, quem apenas observe – como eu- e quem fale muito – como aquelas meninas que me olhavam com espanto, decerto se interrogando por que razão iria uma mulher estrangeira no comboio.

O comboio faz várias paragens, sempre anunciadas pelo frenesim que percorre as carruagens antes destas se imobilizarem, nas estações e também em locais estratégicos para a venda e compra de produtos.  Em cada uma, os gestos repetem-se: descem alguns passageiros, sobem outros, entram produtos frescos, saem encomendas. 

O caminho-de-ferro cumpre ali a sua função social, servindo como eixo de mobilidade e abastecimento numa região onde as distâncias são longas e as alternativas, limitadas. Para muitos, o comboio não é opção — é necessidade. Só eu fazia a viagem pela própria viagem, fiel à velha máxima de que o mais importante é o caminho, não o destino. Tive de explicar, mais de uma vez, que não ia tratar de nenhum assunto em Bibala: viajava apenas porque gosto de andar de comboio e porque essa é, para mim, uma forma particularmente interessante de conhecer o país real.

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Do ponto de vista da paisagem, a viagem marca uma transição clara. O relevo torna-se mais acidentado, o ar mais seco, e a sensação térmica muda à medida que se ganha altitude. O Namibe mostra a sua diversidade em poucos quilómetros: do litoral árido ao interior fértil em certos trechos, onde a agricultura de subsistência, aproveitando leitos de rios (secos) e alguns rios subterrâneos, desenha manchas verdes num cenário predominantemente seco.

As paragens fora das estações são as mais interessantes, o pessoal corre para onde calcula que o comboio vai parar, os produtos chegam de todo o lado para serem vendidos à beira do carril ou à janela do comboio. São frutas, legumes, feijão e e mandioca, ovos, animais vivos (galinhas) ou bocados de carne fresca. Numa das paragens apercebo-me de um intermediário, compra aos locais por atacado, para logo à janela revender a retalho.

Mas o que mais me impressionou foram as mulheres Mucubais. Andavam nuas da cintura para cima, usando apenas um cinto que lhes apertava o peito. O material desse cinto variava: alguns pareciam feitos de fibras vegetais, outros de couro e, nalguns casos, até de tiras de plástico. Mais tarde viria a saber que essa faixa (oyonduthi) é um marcador social e simbólico, reservado às mulheres casadas. Para além disso, usavam adornos como tornozeleiras (otyhivela) e pulseiras ou braceletes (othingo), objectos que não cumprem apenas uma função estética, mas que comunicam pertença, estatuto e identidade dentro da comunidade.

Não me choca o facto de andarem semi-nuas. O que verdadeiramente me prende o olhar e me perturba são essas tiras que atam, espalmam e comprimem o peito. O que me inquieta é essa função disciplinadora do corpo feminino que aquela faixa parece exercer. Ninguém me convence de que aquilo não dói. Como pode não haver dor num ritual que faz do corpo um espaço de inscrição da tradição?

A aproximação a Bibala é anunciada por um movimento maior dentro das carruagens. As bagagens começam a ser retiradas dos seus locais, as conversas abrandam, e a atenção volta-se para o exterior. 

A estação surge como ponto de convergência: ali chegam produtos, notícias e pessoas.  E hão-de partir produtos, notícias e pessoas. Ao desembarcar, percebo que a viagem cumpriu mais do que o seu objetivo prático. Entre Moçâmedes e Bibala, o comboio funciona como observatório móvel de um território em transformação, onde o transporte ferroviário é uma linha de ligação entre o litoral e o interior, entre o quotidiano e a esperança de melhores conexões.

Num país de grandes distâncias, esta viagem reafirma uma evidência simples: quando há carris a preços acessíveis, há pessoas dispostas a percorrê-los. E assim o comboio continuará a contar histórias — umas mais discretas, outras mais visíveis, todas profundamente reais —, mas sempre fundamentais para compreender a vida que se move entre um ponto e outro do mapa.

NÃO, SEM DIZER A VERDADE

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Estudo para nu reclinado (lápis), 1911, Henri Matisse

            Acabar o ano sem dizer nada sobre o que nos trouxe a este planeta, nesta nossa configuração, será um acto de omissão de lesa ternura. Será uma omissão sem perdão algum. Somos oriundos delas, temos várias formas de as amar durante a sua vida, e… e… tanto são maltratadas… Elas trabalham fora e dentro da colmeia. E nós? – Talvez também, agora, nestes anos últimos…

            Valerá sempre a nossa vida ter uma mulher que se ame, por perto, connosco de preferência. Saúdo-te assim,  Maria!

TARDE DE VERÃO

Olho e vejo o sol a esbofetear-te o rosto
de uma forma dengosa e suave.
Ficas endeusadamente dourada.
Descobri-te. Ah se redescobri!
Estás deitada de lado e posso ver que essa intimidade de renda cobre, ao longo do teu corpo, só a sua metade.
A minha desesperada busca queda-se no teu rosto que viraste para a luz.
Apoias a cabeça na mão. O sol marca-te as formas.
Sinto que alguma coisa se fecha no meu peito. Será ciúme dessa luz imensa
ou a demanda da minha angústia agora que te achei?
Vejo a redoma de ar que te rodeia e sei que o espaço que entre nós medeia
nos separa dos nossos tempos.
O modo enganoso do teu seio que se deixa ver está
em sintonia com a tua respiração.
Esse ar que a mim chega
fez-se aroma de ti e és pétalas de luz.
Nesse teu rosto está gravada toda a história da vida.
O teu corpo rompe em flores de fertilidade.
A minha ressurreição será entre teus lábios
e a vida romperá mais tarde por entre eles
e teus seios alimentarão os poemas de toda a fome do universo.
Estou perante a nova mulher amada que tudo oferece sem dar nada!
Estou perante uma aurora que de luz me desfaz em ruínas!
Estou perante um sentir vertigens de loucura nesta paixão!
Estou perante a minha nudez que ela consegue só com um sorriso.
Aproximo o meu sentir de ti, da aurora, da imagem que apresentas, da luz que te rodeia.
Revejo só mais um encantamento que a tua imagem projecta sobre mim.
Começo a aproximar-me do ano, do mês, da hora, do minuto que és.
Olhas-me enigmaticamente e do alto dessa inútil renda,
para mim, renovas a majestade da tua beleza,
do teu signo, da tua permanência,
e abres os braços voltando a ser, na permissão do teu chamamento,
a insuperável amiga, não uma contrafacção da aurora!

Nada é mais importante no acto da criação… que a mulher. A homenagem não é mais que uma forma tímida e tardia do que sempre lhe cabe por justiça.

GUINÉ-BISSAU: DA ESPERANÇA À DESILUSÃO

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À entrada de 2026, a Guiné-Bissau enfrenta um momento de profunda incerteza política e institucional. A esperança gerada pelo processo eleitoral de 23 de novembro de 2025 transformou-se rapidamente numa crise que expõe fragilidades estruturais do Estado, erosão da confiança nas instituições e um padrão histórico de instabilidade que o país não consegue romper.

O calendário eleitoral de 2025 tinha origem num contexto de forte tensão política. A dissolução repetida do Parlamento, disputas sobre a legitimidade dos mandatos e exclusão de partidos significativos como o PAIGC do processo eleitoral criaram desde logo um ambiente de desconfiança.

As eleições presidenciais e legislativas realizadas em 23 de novembro foram alvo de críticas diversas por parte de observadores nacionais e internacionais, sobretudo devido à exclusão de forças políticas relevantes e à polarização crescente.

O Golpe de Estado

A poucas horas da divulgação dos resultados provisórios — prevista para 27 de novembro — um grupo de oficiais militares tomou o poder, suspendendo o processo eleitoral. A sede da Comissão Nacional Eleitoral foi atacada, os materiais e computadores com os resultados foram apreendidos ou destruídos, vários líderes políticos, incluindo o presidente Úmaro Sissoco Embaló, foram detidos ou forçados a deixar o país.

O chamado Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública proclamou um período transitório de um ano, com o general Horta Inta-á como chefe do executivo militar. Todos os poderes constitucionais foram suspensos, as fronteiras fechadas e um toque de recolher imposto.

O golpe — definido como tal pela maioria das organizações internacionais — tem sido objeto de interpretações divergentes em Bissau: para os militares que o lideraram, a intervenção foi justificada como necessária para evitar uma alegada manipulação dos resultados e a escalada de conflitos políticos internos; para sectores da oposição e da sociedade civil guineense, trata-se de um “golpe falso”, um estratagema político encenado para impedir a conclusão de um processo eleitoral desfavorável e perpetuar a influência de elites pré-existentes.

Há ainda uma resignação generalizada entre grande parte da população, refletindo cansaço face a um padrão repetido de instabilidade aos mais altos níveis do Estado.

Organizações regionais como a CEDEAO e a União Africana têm manifestado preocupação, convocando sessões de emergência para discutir a situação e apelando à restauração da ordem constitucional e à conclusão do processo eleitoral. A CPLP suspendeu a Guiné-Bissau que era quem exercia a Presidência rotativa da organização.

Apesar disso, observadores internacionais dizem que as sanções mais duras, que poderiam criar verdadeiros incentivos para a restauração democrática, ainda não foram aplicadas pelos principais parceiros.

Repressão sobre líderes políticos

Um mês após o golpe, o ambiente político e social mantém-se tenso. Relatórios de repressão, detenção de opositores e violência contra activistas evidenciam um cenário em que o espaço cívico está cada vez mais constrangido, com limitações importantes à liberdade de expressão e mobilização.

À entrada de 2026, as questões fundamentais permanecem sem resposta: como reestabelecer um processo eleitoral legítimo? Como garantir a separação efectiva de poderes? Como reconstruir a confiança dos cidadãos no Estado de direito?

Se houve um elemento que marcou 2025 na Guiné-Bissau, foi a confirmação de que a simples realização de eleições — ainda que desejada e convocada — não é, por si só, garantia de estabilidade ou de legitimidade democrática. Sem instituições fortes, transparentes e com amplo apoio popular, o risco de ciclos repetidos de conflito continua elevado.

Para os guineenses, o Ano Novo é, portanto, mais uma página em branco — mas também um chamado urgente à reflexão profunda sobre a necessidade de reformas políticas e constitucionais que possam, finalmente, romper com um passado pouco democrático, marcado por revoltas.

O TIRO AO ALVO

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imagem descritiva, alterada com grafismo

As constantes fugas de informação sobre processos em investigação na Procuradoria-Geral da República não parecem ser meros deslizes administrativos ou coincidências infelizes. Indiciam, antes, a existência de jogos de poder escabrosos, que usam a justiça como arma política e a opinião pública como tribunal sumário.

Convém esclarecer, desde já, o que não está em causa. Não se questiona que pessoas sejam investigadas quando existem indícios de irregularidades. O problema está noutro plano: investigações que se arrastam durante anos, protegidas pelo segredo de justiça, para depois serem “descobertas” em momentos cirurgicamente oportunos — quase sempre quando podem causar maior dano político ou pessoal ao visado. Muitas dessas pessoas nunca chegam a ser acusadas de nada. Mas, entretanto, já foram consumidas na fogueira da suspeição pública. Não são condenadas em tribunal. São condenadas pelo povo, esse mesmo que nunca se cansa quando tem uma vítima ao alcance da pedrada.

O caso mais recente envolve o candidato presidencial Gouveia e Melo. Antes dele, vimos ovos podres arremessados a Marques Mendes. E não será irrelevante perguntar se o famoso “facilitador de negócios” não estará agora a ajustar contas com o almirante. Seja como for, o padrão repete-se: alguém dentro da Procuradoria-Geral passa informação sensível a agentes políticos e a determinados jornalistas, não para servir a justiça, mas para municiar campanhas de má-língua.

vídeo, Gouveia e Melo reage: “Venham-me acusar na cara”

Os protagonistas políticos, por sua vez, fazem a sua parte. Guardam cuidadosamente as informações comprometedoras sobre adversários, à espera do momento certo para as libertar. A política transforma-se num jogo de dossiers, e a justiça num arsenal disponível.

Quem não se lembra de ver um antigo primeiro-ministro ser detido em pleno aeroporto de Lisboa, à chegada de uma viagem, com câmaras em direto? Ou de ver um antigo presidente de um clube de futebol ser preso no exato momento em que saía em liberdade, à porta da prisão, também em direto? O problema não foi apenas a detenção em circunstâncias estranhas. Foi o espetáculo. Foi a encenação pública da culpa antes de qualquer julgamento.

Mas a arbitrariedade não se manifesta apenas na exposição excessiva. Manifesta-se também na ausência total de escrutínio sobre certas figuras. André Ventura trabalhou no Fisco, pediu licença sem vencimento e foi depois trabalhar para uma financeira. É recorrente a ideia de que terá ganho dinheiro a ajudar grandes fortunas a fugir aos impostos. Houve investigação? Houve inquérito? Que se saiba, não. Talvez porque nem sequer seja ilegal. Talvez por outras razões menos confessáveis.

O facto é que estamos a falar de um político que lidera um grupo parlamentar onde florescem casos de polícia: acusações de pedofilia, burlas, agressões, roubos, racismo. E, no entanto, permanece estranhamente imune à lógica da suspeição judicial que devora outros.

Uma justiça que escolhe sobre quem fala e em que momento fala deixa de ser justiça. Passa a ser poder. Um poder sem voto, sem escrutínio, a não ser este que estamos aqui a exercer, o da crítica pública.

A VOZ QUE NÃO SE APAGA

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Lisboa, dezembro de 2024. No Parque das Nações, onde a Expo outrora prometeu um mundo sem fronteiras, ergue-se agora um cubo de vidro fumado. Dentro, cinco pessoas sentam-se à volta de uma mesa redonda; não há cabeceira, mas o poder sabe sempre onde se sentar.

No centro, um ecrã projecta uma fotografia a preto e branco: homens de uniformes diferentes, chapéus de aço postos de lado, trocam cigarros num terreno de ninguém coberto de geada. O som de Stille Nacht, em alemão e inglês, preenche o espaço, numa gravação memória de 1914. A voz arranha-se na gravação antiga, mas ainda se ouve o impossível: inimigos a tornarem-se homens.

Catarina é a primeira a falar. Tem sessenta e tal anos, cabelo grisalho preso num coque frouxo, mãos que já lavaram demasiadas feridas. Trabalha numa IPSS no Martim Moniz. A cruz que traz ao peito é de madeira barata.
“Eles ouviram qualquer coisa naquela noite. Uma coisa que não estava nas ordens, que não vinha dos generais. Vinha de dentro, da gruta do coração. Cantaram e lembraram-se de que, antes de serem soldados, eram homens, filhos, pais, irmãos.” Catarina faz uma pausa. “Hoje, o Natal é o Continente a bombar músicas em Dezembro. A paz é um anúncio da EDP. A voz do poder aprendeu a falar mais alto do que o coração. E nós? Continuamos a mandar os nossos miúdos morrer longe de casa, agora em missões em defesa da guerra dos outros.”

Tomás Almeida, general reformado, agora é consultor de segurança (que é como quem diz: vende medo por medida), acende um cigarro eletrónico. Sopra vapor para o ar, nem o fumo é sério.
“Bonito, Catarina. Muito bonito, esta de sentimentos. Mas aqueles soldados podiam ter perdido a guerra naquela noite. A paz verdadeira não se canta, constrói-se. Com força, com fronteiras, com quem está disposto a defendê-las.” Com decisão, aponta o cigarro para o ecrã. “São os fortes que determinam os períodos de paz. Aquilo foi indisciplina. Hoje temos drones, vigilância, psicólogos militares. Garantimos que os soldados não fraternizam com quem deve ser abatido.”

Elias é metalúrgico da Lisnave. Tem mãos grandes, nós nos dedos, olhos pequenos, mas atentos. Representa o sindicato na comissão europeia dos trabalhadores do aço.
“O senhor general vê indisciplina. Eu vejo outra coisa: homens que perceberam que estavam a ser enganados. A ganância é sempre a mesma; os ricos mandam, os pobres sangram. Ontem foi na Jugoslávia, no Afeganistão, hoje é na Ucrânia, amanhã é em África, mas o patrão é o mesmo: o lucro. Os mesmos que hoje usam o PIB, suado pelo povo, para comprar morte, em vez de semear vida. E se pegássemos nesse dinheiro todo das armas e o metêssemos em hospitais? Em escolas? Em salários que dessem para viver?”

Ao lado dele, Leonor, de trinta e poucos, jornalista livre que já não acredita em redações, mexe no tablet. A cena de 1914 ganha vida, os soldados movem-se em câmara lenta, partilham chocolate, sorriem.
“Sim, eles foram enganados. O ódio foi a ferramenta; disseram-lhes: ‘Nós somos os bons; eles, os maus’. A mesma narrativa corre hoje, General, nas suas narrativas estratégicas. E se, em vez de instrumentalizar o povo para a guerra, o instrumentalizássemos para a paz? Em vez do serviço militar obrigatório, houvesse um serviço social obrigatório em que cada uma podia exercer o seu serviço onde a necessidade o chamasse. Um ano a construir casas, a ensinar crianças, a plantar árvores. Um ano a conhecer o ‘inimigo’ antes de o matar. Aprender a construir pontes, não trincheiras, a cuidar da terra e não arrasá-la. A voz do povo, quando livre do veneno da propaganda, é a voz de Deus. E Deus, naquele campo gelado, cantou, Noite feliz…”

Tomás riu-se, com um som seco.
“Deus? A voz do povo é volúvel, emocional. Precisa de direção. Sem divisão, sem o “nós contra eles”, não há coesão nacional, não há identidade a defender. O diabo, como dizem, é aquele que divide. Mas às vezes, a divisão é necessária para afirmar quem somos.”

Catarina ergue-se e a sua sombra projetava-se sobre os soldados holográficos.
“Não! O diabo é exatamente aquele que divide para se afirmar! Deus une no canto, no reconhecimento do outro como irmão. Aquele momento de 1914 foi uma brecha no projeto diabólico da guerra. Os comandantes, sim, esses instrumentos do poder distante, apagaram-na. Proibiram a paz. Porque a paz verdadeira desarma os poderosos.”

A quinta pessoa não falou ainda. Rui é historiador, apenas observa. De cabelo desgrenhado, óculos tortos, silêncio de arquivo, representa a memória. Rui toca no tablet e o ecrã muda.
Agora vêem-se telegramas: “Esta fraternização é traição.” “Qualquer oficial que permita contacto será julgado.” E depois, imagens de 1915: a lama, os mortos, o gás mostarda a devorar pulmões.

Ninguém fala, um silêncio pesado cai sobre a sala!

Elias rompe o silêncio, com a voz rouca de tabaco e fábricas:
” Alemães, ingleses, franceses enterraram os mortos juntos, com as próprias mãos. Reconheceram-se ao aceitarem a humanidade comum que os motivava a agir assim. É esse o caminho: Nivelar as trincheiras da Ucrânia, da Rússia, da Europa inteira, e sobre elas erguer torres de paz. Fábricas de esperança.”

Leonor inclina-se para a frente:
“Mas porquê a guerra, afinal? O espírito de 1914 não morreu. “A guerra destrói a esperança antes mesmo de destruir os corpos. Mata o futuro antes de matar as crianças.”

Rui mexe de novo no tablet. Aparecem imagens de agora: manifestações a favor da paz, voluntários de nações inimigas ajudando civis, jovens de ambos os lados de uma fronteira imaginária a plantar árvores juntos. São fragmentos, pequenas tréguas natalícias invisíveis para os grandes noticiários empenhados em justificar a cultura bélica.

Catarina fecha os olhos e começa a cantar, baixinho:

“Noite feliz, noite de paz…”

A voz é frágil, cansada, mas não quebra.

Tomás olha para ela. Quer dizer qualquer coisa, mas não diz. Elias murmura a melodia. Leonor sorri, com os olhos marejados. E Rui, sempre calado, move os lábios.

O Historiador aumenta o volume do canto original de 1914. As duas canções, a do passado e a do presente, entrelaçam-se, criando uma harmonia estranha e comovente. Por um instante, as divisões ideológicas parecem trincheiras a serem aterradas.

A reunião não chega a lado nenhum. As decisões de guerra seguirão o seu curso nos corredores do poder, enquanto o povo não conseguir ter Voz. As armas continuarão a ser vendidas. As guerras terão financiamento. Os discursos inflamados justificando a guerra continuarão a correr nos meios de comunicação e nas redes sociais como veneno doce.

Mas naquela sala, durante três minutos e quarenta segundos, uma verdade ressuscitou: a paz não é um tratado. É um canto: Noite feliz, Adeste Fideles!

É um canto que nasce onde as ordens não chegam e que reconhece no rosto do inimigo o mesmo medo, a mesma saudade de casa, a mesma fome de sentido.

O ecrã apaga-se. A sala fica vazia.

Mas lá fora, no Martim Moniz, um grupo de jovens, portugueses, brasileiros, guineenses, angolanos, ucranianos, russos e iranianos, acende velas. Cantam “Noite Feliz” em quatro línguas ao mesmo tempo. Era um “Noite Feliz” um pouco desafinado, imperfeito, mas sinal de uma imperfeição redentora. É pouco, mas é começo.

A paz é o acto de resistência através da voz humana que se recusa a calar. Resistência pressupõe hombridade e preparação para não se deixar arrastar pelo vento ciclónico militarista que parece até arrancar e arrastar os “cedros do Líbano”.

(este conto também foi publicado em Pegadas do Tempo)

O JUIZ IRÁ DECIDIR

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Maria dos Anjos é reformada. Era modista. Mas agora, para além de trabalhar a vender roupa em segunda mão, para ganhar um pouco mais, dedica-se ao voluntariado na igreja. Ajuda toda a gente que está em apuros e tem necessidades de toda a ordem. Sou amiga dela.

Nos últimos três anos teve uma vizinha, a dona Joana, já com mais de noventa anos, que estava esquecida e abandonada pela família, a viver num anexo.

Frágil, doente, quem a ajudou, até ao seu falecimento, foi a Maria dos Anjos. Era ela quem lhe fazia as compras, cozinhava e lhe tratava da casa.

A dona Joana faleceu há dois meses. Eis senão quando lhe bateram à porta. Era um advogado, da parte da família da dona Joana. Os familiares da falecida puseram-na em tribunal porque, no testamento, que a todos surpreendeu, a dona Joana deixou-lhe algum dinheiro e os seus dois serviços de louça da China, antigos e com algum valor. A família está a contestar o testamento, querendo tirar à Maria dos Anjos o que lhe foi deixado pela vizinha.

Histórias como esta devem ser banais, nos tribunais portugueses. A ganância, a cobiça, tornam as pessoas desavergonhadas. Enquanto a velha foi viva ninguém quis ter o trabalho de a apoiar. Mas, agora, morta, querem o pouco que ela amealhou.

A Maria dos Anjos acabou de contratar um solicitador e, com o meu apoio e de uma prima, que também tem conhecimentos no tribunal, está a lutar para cumprir a vontade da vizinha e amiga Joana. O juiz irá decidir o que for justo e de lei.

BRIGITTE BARDOT

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Aqui no Duas Linhas serviu involuntariamente como protagonista de umas crónicas inventadas ao sabor da atualidade. Foram crónicas muito interessantes, muitas delas escritas a quatro mãos, numa espécie de trabalho coletivo de quem se entretinha, na época, a escrever neste sítio.

Por exemplo, leiam esta crónica sobre a compra pela TAP de loiça Vista Alegre para o serviço em classe executiva…

Ou, não resisto a vos mostrar também esta, sobre “as mamas da Cristina e os pés do Ronaldo”, partes anatómicas de gente do Jet7 tuga a merecer estátuas em praças públicas…

Só mais uma, sobre homens que mijam na rua, coisa que sempre impressionou Brigitte Bardot. Crónica que serviu para contar um pouco da biografia desta mulher espantosa…

Mas, para finalizar, o grande amor de Brigitte Bardot foram os animais. Uma crónica com o relato fidedigno da discussão que a diva teve com o Presidente da França, a propósito do abate de animais devido a tradições religiosas.

Et voilá! Bravo, Brigitte!

NOTAS DE FIM DO ANO

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Estes últimos dias do ano de 2025, ficam marcados por quatro momentos que definem, na minha perspectiva, este governo:

Uma secretária de Estado da Saúde, despedida por incompetência na gestão do INEM, foi premiada com o cargo de Presidente do Conselho de Administração do Metro de Lisboa e o governo ainda deu o bónus de um aumento, substancial, do vencimento para a nova administração do Metro.

A antiga secretária de Estado da Gestão da Saúde Cristina Vaz Tomé, uma das caras da polémica em volta da greve no INEM no final do ano passado

As CCDR´s vêem o número de vice-presidentes acrescido para sete, sendo cinco nomeados pelo governo, com fundamento no acréscimo de competências das CCDR´s, uma organização perfeitamente dispensável, que apenas se justifica por permitir arranjar uns cargos para os militantes partidários que ficam ‘desempregados’.

O ministro da Coesão Territorial, Castro Almeida, é responsável pela coordenação do Governo com as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional

O primeiro-ministro, na mensagem natalícia, dá como exemplo motivacional o luso-saudita, Cristiano Ronaldo, numa imitação, do rapaz de ‘bater o punho’, criada por Miguel Relvas, ou seja, nada de novo, apenas a imitação dos actos falhados do governo de Passos Coelho.

O ministro Miguel Relvas e o “rapaz de bater punho” Miguel Gonçalves, fonte: miguel gonçalves – Aventar

Por último, o governo, cobardemente, não apresentou qualquer proposta de indulto, contrariando uma tradição com dezenas de anos. E não o fez por medo das reacções do Chega, em período de eleições presidenciais e em que o candidato escolhido por Montenegro arrisca não passar à segunda volta. A cobardia, em política, é má conselheira, revela o carácter dos dirigentes políticos e a sua espinha dorsal.

publicado em GOVERNO IMPIEDOSO

Neste quadro de cobardia, de habilidades e de artifícios de política rasteira, relevo o que António Damásio afirmou numa entrevista à Clara Ferreira Alves: ‘Se a máquina ganhar autonomia, o futuro é aterrador’. O mais grave, digo eu, é que, com gente desta, o futuro já é aterrador.

TERRITÓRIOS SEM LEI

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Durante anos, as grandes plataformas de media social usaram argumentos piedosos para ensaiar o algoritmo da censura. Toda a nudez era castigada com penalizações várias, mesmo se fossem imagens de obras de arte mundialmente admiradas. Também a palavra era castigada, bastava que estivesse no catálogo das ofensas ou que fosse alvo de queixa por parte de grupos organizados. Depois chegou um novo “conceito” de promoção da violência. Hoje, um vídeo que mostre a destruição de Gaza, por exemplo, pode ser censurado (por promover “valores” que põem em “perigo” a comunidade) e a conta do utilizador penalizada pela invisibilidade ou bloqueada. É censura pura e dura.

Os algoritmos nas redes sociais têm uma única função que é a de proteger os negócios e os compromissos políticos da META, da Google, da Microsoft ou do X (há mais empresas) e de grupos ou partidos políticos a eles associados. Esses negócios também têm vindo a evoluir. O que começou como mera publicidade a marcas e produtos, hoje, por exemplo, promove prostituição e agentes políticos.

A promoção da prostituição é fácil de detetar. Começaram já a surgir em rodapé dos vídeos, pequenos anúncios a senhoras ardentes loucas por sexo. Os casos que apresentamos aqui são do Facebook (aquela que já foi a mais puritana das redes sociais).

A par das senhoras putas, estão os “filhos das ditas”. Não se sabe qual o verdadeiro grau de parentesco entre umas e outros, mas constatamos indícios. Numa espécie de conluio com os media tradicionais (não há coincidências…), há cada vez mais tretas publicadas a promover os Trumpas, Bolsonaros e Venturas da vida.

Uma aldrabice publicada no Facebook
Fakenews com a finalidade de demonizar um regime político e justificar a agressão dos EUA, publicado no Facebook

Aquilo a que poderíamos chamar “notícias em plano inclinado” são hoje recorrentes, uma constante nos noticiários e nas páginas dos media tradicionais nas redes sociais. Alguns exemplos:

O “papão” comunista e as “técnicas soviéticas” foram reintroduzidos no discurso mediático, na sequência da invasão da Ucrânia.
Num quotidiano de violações sistemáticas de acordos de cessar-fogo por parte de Israel, um único ataque alegadamente do Hamas é noticiado sem qualquer tipo de enquadramento. É a isto que na gíria jornalística se chama “notícias em plano inclinado”.

OS CASTIGOS

Mesmo aqueles que não “seguem” nem “gostam” dos protagonistas da extrema-direita, não escapam à insistência do tal algoritmo que não cessa de lhes sugerir esse tipo de conteúdos. Pior do que isso, são as consequências sentidas por muitos quando publicam alguma coisa que vá contra a nova ordem fascista, como, por exemplo, esta imagem:

Depois desta publicação no Facebook, ao terceiro dia chegou a sentença, logo denunciada pela pessoa visada: “A META-SE NA NOSSA VIDA avisou-me, com o ar solene de quem debita uma homilia na missa do galo, que vai desativar definitivamente a “minha” conta – ou borrar-me o passado, como diria um castelhano – porque ando a violar aquilo a que os bots que nos controlam chamam os padrões da sua comunidade, à qual, como é evidente, não pertenço.”

recorte da publicação onde se denuncia a ameaça da META

Claro que, entretanto, a imagem em questão já foi partilhada inúmeras vezes por milhares de outros utilizadores, em todas as redes sociais, e torna-se impossível penalizar todos de modo igual. Mas há sempre alguns que servirão de exemplo do que acontece aos desalinhados com a “ordem facebokiana”.

Acontece em todo o mundo, mas em Portugal, por exemplo, desde o surgimento de Ventura, nunca mais tivemos um dia  que não fosse marcado pela desinformação e pelo ódio nas redes. Ventura vendeu a alma ao diabo, pela consolidação de uma aliança profana entre a extrema direita e as big techs. A ironia é que os conteúdos promovidos nas redes sociais são pagos com uma parte do dinheiro que recebem dos subsídios do Estado, naquilo a que se chama vulgarmente “custos da democracia”, ou seja, as subvenções a que os partidos políticos têm direito por lei. Os vídeos do Chega promovidos nas redes sociais são pagos por todos nós.

O avanço dos proto-fascistas explica-se, em boa parte, pelo espaço mediático que têm à disposição. A aposta dessas empresas globais de tecnologia e informação está em colocar no poder o maior número possível de governos de direita. Para quê? Certamente para terem acesso ao poder. Não será por dinheiro (que não precisam de mais), só poderá ser pelo poder. Dominar o mundo será o sonho de Musk, Zuckerberg, Bezos e quejandos, ou de quem controla a Apple, Google, Amazon, Microsoft, Meta, etc e tal.