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O NOVO XERIFE

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colagem fotográfica

O alvo desse discurso de fevereiro de 2025 foi a Europa. Vance acusou os governos europeus de laxismo migratório, fragilidade militar e de tentativas de limitar o crescimento político da extrema-direita. Falava em nome de Donald Trump, para quem a imigração é uma ameaça existencial e a soberania europeia um assunto a gerir a partir de Washington.

Um discurso que escondeu a verdadeira origem do mal: o principal fator de instabilidade global não são as políticas europeias, mas a própria administração norte-americana.

O rapto do Presidente da Venezuela e da sua esposa por forças dos Estados Unidos, sob acusações formuladas por juizes norte-americanos, constitui uma violação grave do direito internacional. Trata-se da detenção de um chefe de Estado soberano, sem mandato internacional e à margem das Nações Unidas.

Este rapto insere-se num padrão mais amplo. As ameaças dirigidas a países da América Latina, Colômbia e Cuba, ao Canadá, ao Irão, e até à Dinamarca revelam uma estratégia de intimidação política, pressão militar e controlo de recursos estratégicos. O discurso da segurança serve apenas de cobertura a uma lógica de dominação.

A apreensão de petroleiros em águas internacionais, com base exclusiva em sanções impostas por Washington, confirma esse desvio. Não há legalidade, não há consenso jurídico, não há respeito pela soberania de terceiros. Há imposição de poder. São atos de pirataria.

Perante este quadro, a reação internacional é débil. A União Europeia limita-se a declarações cautelosas, a NATO finge que não se passa nada e as Nações Unidas assistem à erosão da sua própria autoridade. A ordem internacional baseada em regras está a ser substituída, sem resistência séria, por uma ordem baseada na força.

O “novo xerife” não protege a lei. Suspende-a quando lhe convém. “Governa” por ameaça e transforma o abuso de poder em política externa.

TRANSFORMAR A PEDRA BRUTA

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Imagens de esculturas a que se convencionou dar o nome de «O Pensador» estiveram na base da reflexão que partilhámos aqui. Quiçá o tema seja, porém, inesgotável.

Em primeiro lugar, porque «O Desterrado» – escultura em mármore de Carrara, que constituiu, em Roma, no ano de 1872, a prova final do curso de Escultura de Soares dos Reis – também poderia incluir-se nesse tipo de imagens, ainda que, neste caso, porque inspirado no poema «As Tristezas do Desterro», de Alexandre Herculano, possa constituir a saudade o sentimento maior que dessa imagem promana e não uma reflexão geral sobre a vida humana.

O Desterrado de Soares dos Reis

Depois, se a escultura tradicional angolana está envolta, como vimos, em multissecular halo espiritual, a peça pré-histórica carece de uma explicação que se não deu, mormente devido à singularidade esquemática do seu perfil. Daí que Helena Ventura haja comentado:

«Não me importava de ter uma peça semelhante que, atendendo a tão remota Era, é perfeita tanto na beleza do material usado (basalto, turmalina?) como no posicionamento de tronco e membros.

E é aqui, nesta semelhança entre mais e menos antigas, próximas e distantes, que o acto de pensar parece unir os homens de todas as gerações».

E quase foi no mesmo sentido o que, por seu turno, Helena Coelho houve por bem escrever:

«A imagem pré-histórica do Pensador é impressionante. Poderia ser uma escultura bem representativa do século XXI. Realmente o Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».

Importa, pois, dar conta, desde logo, que a fotografia mostra a réplica oferecida, em Abril de 2012, pelo director do Museu Nacional de História da Roménia, de Bucareste, por ocasião da visita aí realizada por elementos do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa). A peça detém no museu o nº de inventário 15 906.

O «casal» da época neolítica

Trata-se de uma terracota e o que se apresentou foi apenas o elemento masculino de um casal – em inglês, « The Thinker and the Sitting Woman» – pertencente à chamada «Cultura Hamangia», datada do Neolítico Final, ou seja, aproximadamente de 5000 anos antes de Cristo. Mede 11,5 centímetros de alto e 7,5 de largura.

A descoberta ocorreu em 1956, perto da povoação romena de Cernavodă, região de Constanţa, na bacia hidrográfica do rio Danúbio.

Oportunas, sem dúvida, também pelo que ora acaba de se explanar, as palavras de Helena Coelho: «O Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».

OS POPULARES CANTOS QUE VÃO DO NATAL AO DIA DE REIS

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A carismática celebração do Natal e do sequente tempo que se estende até ao Dia de Reis integra, como festa, componentes diferenciadas, que vão da assistência aos actos religiosos – onde a Missa da Meia Noite do Dia de Natal é dita Missa do Galo – do beijar do Menino, da execução de um presépio, da típica Fogueira de Natal em praça de aldeia ou da queima de um tronco simbólico nas lareiras familiares, aos cânticos típicos da época.

De entre estes destacamos os cerimoniais cantares da liturgia natalícia, como o Adeste Fideles, vindo já do século XVII; o emblemático canto que conhecemos como Noite Feliz (Silent Night), de 1818, hoje Património Cultural da Humanidade; o Gingle Bells, que foi criado, em 1859, para celebrar o Dia de Acção de Graças, nos Estados Unidos e depois se tornou canto de Natal; e lembramos esse bonito canto de Zeca Afonso – Vamos cantar as Janeiras – que, com outros ritmos da sua obra “Natal dos Simples”, se mantém como cântico clássico e não folclórico.

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Os cantos que habitualmente designamos Cantos de Janeiras ou Cantos de Reis ou Reisadas, de um folclore que vem de longínqua origem, pelo menos do século XVI, fazem parte de uma genuína tradição popular de tal modo cimentada nos costumes da gente simples do povo que os ritmos da vida moderna, o abandono das aldeias e uma prática económica diferenciada não fizeram apagar.

E hoje os temos, os Cantadores de Janeiras, os Cantadores dos Reis ou reiseiros integrados, no geral, nos Agrupamentos Folclóricos que, nesta mais alargada época do Natal, promovem espectáculos, que, às vezes, integram vários grupos concertados para o efeito, aproveitando, no geral, como antes acontecia, o tempo nocturno de silêncio e de paz.

Já não requerem, cantando, os frutos da terra, como antes acontecia; quando muito, requerem pouco mais que migalhas dos recursos do erário municipal para desenvolverem e manterem essas tradições culturais e cívicas de que fazem seu propósito.

Voltando à tradição, evoco esses grupos familiares ou de garotos de rua que se juntavam nas aldeias, ao cair da noite que antecedia a festa do Primeiro Dia de Janeiro, celebratória da Circuncisão do Menino, rito da cultura judaica; evoco a festa da véspera do Dia de Reis, hoje esquecida, e a mansa solenidade desses cantares de paz.

Percorriam as ruas das aldeias, sustendo-se junto dos portais das casas mais abonadas, requerendo, em troca do canto, esses dons da economia local de matriz agrária.

Como testemunho, trago, da lição que o beirão Aquilino Ribeiro nos deixou no seu encantador livrinho – O Livro do Menino Deus, dos meados do século anterior, um breve texto destes cantares. -Assim:

Às vezes não eram atendidos e então cantavam, ao jeito da medieva idade, um cântico de escárnio e maldizer:

E seguiam para outra morada.

Quanto a nós, voltaremos num qualquer dia de um amanhã pouco distante.

A ESTRANHA HISTÓRIA DO REI MAGO BALTASAR

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Singular, de intensidade, a história de Baltasar, um dos três reis do Oriente,  que, numa inquieta noite,  sente, mais veemente, o vazio dos dias que a fortuna do palácio não lhe preenchia. E eis que descobre, ao amanhecer dessa noite de insónia e devaneio, ao assomar ao terraço do jardim, um homem ainda jovem que, recolhido na sua miséria, o olhava da rua sem rancor.

Fê-lo o rei entrar no palácio e. quando se prontificava a serví-lo, eis que o pobre homem se escapara, assustado.

Manda o rei procurá-lo, dando aos guardas os sinais do ”homem jovem e magro vestido de farrapos”. Mas os guardas voltaram dizendo ao rei que eram sem conto os homens como aquele que o rei descrevia. E só então aquele rei desceu ao chão onde vivia o seu povo e viu a multidão de esfomeados.

Entrou no templo e olhou devagar os seus altares. Um deles era dedicado ao deus dos poderosos, outro à deusa da terra fértil, outro ainda ao deus da sabedoria.

E perguntou o rei aos sacerdotes que ali serviam:

Na angustiada noite que se seguiu, Baltasar subiu ao terraço alto do palácio e fez do seu grito uma oração:

– Como poderei, ó deus dos pobres e humilhados, suportar o que vi se não te vir?

E foi então que uma estrela se ergueu e o guiou.

Escrevo evocando uma velha noite de um Natal antigo sempre lembrado com saudade. Era menino na aldeia. O Rei Baltasar era apenas uma poética figurinha no presépio da igreja. Nesse tempo, como acontecera a Baltasar, não me tinha dado ainda conta dos pés descalços, das roupas remendadas, do rosto magro de tanta gente que vivia ao pé de mim.

Meio século se passou desde então.

O “Rei Baltasar” que governa o meu país, os príncipes que ele chamou para conselheiros, os chefes dos guardas, os ministros todos que ele tem e os representantes que levou das províncias ou nelas deixou, não têm descido à rua, parece, e se descem os seus carros passam de cortinas corridas e nenhum deles vê as desgraças que Baltasar viu quando desceu e peregrinou entre o seu povo.

Ah! Se aquela estranha e antiga estrela pudesse ter sido avistada, de novo, no céu!… Se o rei Baltasar de nosso tempo e os seus ministros e os seus conselheiros e os seus guardas e demais criados tivessem um coração humilde…

O MUNDO SEM REGRAS

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Donald Trump não inaugura nada. Limita-se a dizer em voz alta o que sempre foi prática corrente. Não fala de democracia nem de direitos humanos. Fala de petróleo, de controlo, de obediência. Nesse sentido, é mais honesto do que os seus antecessores.

A reação europeia é politicamente miserável. A União Europeia, que se apresentou durante mais de 60 anos como espaço de liberdade e autonomia, abdicou de qualquer papel próprio quando escolheu alinhar com Washington na guerra de desgaste contra a Rússia, em vez de procurar mediação. Agora, perante a agressão contra a Venezuela, o tom baixo soa a cumplicidade. A Europa aceita o papel subalterno de garçonete na mesa dos banquetes de Trump. Serve e cala-se.

As ameaças já se estendem à Colômbia e a Cuba, por terem manifestado solidariedade com Caracas. Nicolás Maduro será levado a tribunal em Nova Iorque sob acusações difusas e contraditórias: “narcoterrorismo”, tráfico de droga, assassinato de traficantes. Um absurdo lógico. Quem manda matar traficantes deveria ser premiado, não capturado, a menos que os mortos não fossem inimigos, mas parceiros incómodos.

A cobiça sobre a Gronelândia completa o quadro. Um território estratégico, rico em recursos, pertencente à Dinamarca — um país sem capacidade militar para o defender caso fosse invadido pelos Estados Unidos. O detalhe é explosivo: a Dinamarca é membro da NATO. Trump não ameaça apenas o direito internacional, ameaça também a própria arquitetura da aliança atlântica. Um membro da NATO a agredir outro membro da NATO não é um detalhe, é a implosão do sistema.

Quando a força substitui o direito, os tribunais tornam-se instrumentos da política e as alianças são descartáveis, o problema já não é a Venezuela, nem a Gronelândia. É a normalização de um mundo sem regras, governado pelo mais forte, com o silêncio obediente dos seus aliados.

COLONIALISMO DESCARADO

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Donald Trump fala como se fosse normal invadir um país soberano, raptar o seu Presidente e anunciar que os Estados Unidos passam a governar a Venezuela. Fala como se a política da canhoneira nunca tivesse saído de cena. E, perante o silêncio global, talvez tenha razão.

A Carta das Nações Unidas deixou de valer. O chamado direito internacional foi enterrado sem cerimónia. Não por ambiguidades jurídicas, mas por força bruta exercida por quem pode e tolerada por quem cala.

Nicolás Maduro só pode ter caído por traição. Uma operação militar desta dimensão não se faz sem cumplicidades internas. Maduro confiou nas Forças Armadas, mas Washington negociou com quem se dispôs a vender essa confiança. A corrupção foi a porta de entrada.

O pretexto do combate ao tráfico de droga caiu nas primeiras palavras de Trump ao anunciar “vitória”. A realidade revelou-se depressa: as grandes petrolíferas norte-americanas vão assumir o controlo, investir na recuperação das infraestruturas e recuperar os lucros perdidos desde a nacionalização no tempo de Hugo Chávez.

vídeo: conferência de imprensa de Donald Trump

Não estamos perante uma revolução teleguiada. É uma mudança de regime executada diretamente por uma potência militar. Colonialismo puro, sem metáforas, sustentado por armas.

O mundo assiste sem estrebuchar. Os Estados Unidos retomam o controlo do seu “quintal”. Se lhe sobrar tempo, avançará para a Gronelândia, território administrado pela Dinamarca.

As ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

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Começamos pela coisa mais ridícula, inacreditável e que deveria servir de exemplo do mau jornalismo, a anunciada vitória, inquestionável e garantida, do novo D. Sebastião, à primeira volta, surgido na proa de um submarino e rodeado de paletes de vacinas.

Verificamos, igualmente, nesta primeira fase, uma radicalização da campanha, que pode levar a um aumento do número de eleitores, com concentração de votos à direita e à esquerda, porquanto, nas presidenciais, o voto não é, apenas, decidido por opção partidária.

O Grupo TVI/CNN apostou em força na vitória eleitoral de Gouveia e Melo e tentou condicionar o aparecimento de outras candidaturas, ‘oferecendo’ sondagens que davam a vitória, logo à primeira volta, ao ‘seu’ candidato, o homem que estava acima dos partidos e fora do sistema. Confesso que embirro com esta ‘história’, por ser falaciosa e hipócrita, mas que é alimentada, à exaustão, por comentadores e jornalistas que vivem do sistema e no sistema.

A partir desta ‘verdade’, ancorada em sondagens de origem duvidosa, os apoiantes de Gouveia e Melo, uma grande parte ligada a partidos, ou que sempre a eles estiveram ligados, e uma outra parte ligada a interesses na comunicação social e aos negócios, tentaram ‘cavalgar’ uma certeza, artificial, de que o ‘seu’ candidato iria recolher os votos de todos os eleitores da AD, do Chega  e de algum eleitorado do PS, potenciando uma vitória à primeira volta.

‘Enganos meus, má fortuna’ porquanto, após a apresentação das candidaturas de Marques Mendes e de António José Seguro e das primeiras entrevistas, a tal vantagem começou a fragmentar-se à velocidade da luz.

Com o famoso almoço, promovido pelo dono da TVI/CNN, o tal das interacções entre o candidato Gouveia e Melo e o líder do Chega – um erro estratégico, de que o principal responsável é Mário Ferreira e a sua ambição de alargar o seu poder nos media-, abriu-se o caminho à candidatura de André Ventura que retira, à partida, uma parte substancial de votos a Gouveia e Melo, o que é relevante e vai determinar que aquele candidato nem chegue à segunda volta.

Gouveia e Melo arrisca-se a não ter mais do que os votos perdidos, dos três principais candidatos, numa situação semelhante à de Fernando Nobre em 2011.

O eleitorado do PSD não irá votar em massa em Marques Mendes, assim como António José Seguro não terá o voto unânime do eleitorado do PS. André Ventura será, talvez, o único candidato que poderá recolher os votos de todos os eleitores do Chega, numa luta a três, com um desfecho imprevisível. Gouveia e Melo, para passar à segunda volta, teria de ir buscar votos aos outros três candidatos, o que se afigura, por muito esfoço que se faça na sua promoção, bastante complicado, ainda para mais depois das desastrosas participações nos debates eleitorais.

Gouveia e Melo – e principalmente Mário Ferreira – com a sede de ir ao ‘pote’, ou seja, aos eleitores do Chega, embarcaram numa manobra de bastidores que os levou a esta situação. Certamente estavam convencidos que, prometendo alguma coisa a André Ventura, este iria dar-lhes os votos. Erro clamoroso de um ‘aprendiz de feiticeiro’.

André Ventura percebeu que Gouveia e Melo está em dificuldades e que, sem o eleitorado do Chega, não vai a lado algum, pelo que decidiu acabar com as esperanças de Mário Ferreira em imitar Emídio Rangel e ‘vender um candidato, como se vende um detergente’ (recordemos que Emídio Rangel defendia que uma televisão com 50 por cento de quota de audiência poderia, se quisesse ‘vender’ um Presidente da República como se vende um detergente. Assim, André Ventura aproveitou esta oportunidade para fidelizar o seu eleitorado, mesmo sabendo que será impossível ganhar as presidenciais, mas tendo como objectivo, para demonstrar a força do Chega, ficar em primeiro lugar na primeira volta, abrindo o caminho para ganhar as próximas legislativas.

O que está em causa é saber quem vai à segunda volta, isto é, se André Ventura tem lugar certo na segunda volta e o outro candidato será Marques Mendes ou António José Seguro.

Esta a questão fundamental e que, sem colocar em crise os outros candidatos, os eleitores deveriam ponderar se querem uma segunda volta entre André Ventura e Marques Mendes, ou uma segunda volta entre André Ventura e António José Seguro. Quer se queira quer não, vai ser na primeira volta que se definirá quem será o próximo Presidente da República.

Dois pontos a terminar, Marcelo Rebelo de Sousa, um dos grandes responsáveis pela situação pantanosa que se vive no nosso País, leu-nos o seu auto-retrato, pela caneta de Eça de Queiroz, envergonhando os portugueses e os eleitores que votaram nele. Enquanto isto, Trump invadiu a Venezuela e o Mundo vai mudar em 2026…

UM SOCIALISTA EM NOVA IORQUE

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A eleição de Zohran Mamdani pode ser lida como um primeiro sinal de erosão do regime político-cultural imposto por Donald Trump. Nova Iorque volta a funcionar como laboratório democrático, demonstra que é possível substituir o culto da força, do militarismo e da intimidação por uma agenda declaradamente humanista.

O simbolismo foi imediato. Mamdani prestou juramento com a fórmula ritual “so help me God” (assim Deus me ajude), mas com a mão pousada no Corão. As palavras mantêm-se, o livro muda. Num tempo marcado pela demonização sistemática do Islão (talvez a mais intensa desde o pós-11 de Setembro), o gesto tem um peso político que ultrapassa o protocolo. Não é uma provocação, é uma afirmação de pertença democrática.

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Mais perturbador, para certos setores, foi o que Mamdani afirmou durante a campanha: Nova Iorque deixará de ser porto seguro para líderes procurados pelo Tribunal Penal Internacional. Se isso se traduzir em prática política, Benjamin Netanyahu corre o risco de ser detido caso ponha os pés na cidade. Não é um detalhe: é um choque direto entre direito internacional e a habitual excecionalidade concedida a Israel.

As primeiras medidas do novo mayor foram igualmente claras. Em vez de baixar impostos aos senhorios, Mamdani atacou frontalmente a crise habitacional. Reativou o Gabinete de Proteção do Inquilino, nomeou para a sua direção uma ativista da habitação pública e aprovou um decreto que protege os inquilinos no processo de falência de uma das maiores empresas imobiliárias da cidade, uma empresa com milhares de violações registadas e dívidas à autarquia. Política concreta, com alvos identificáveis.

Resta acrescentar um dado que, nos Estados Unidos, continua a soar quase subversivo: Zohran Mamdani é filiado no Partido Democrata, mas assume-se como socialista. Num país onde a palavra ainda funciona como anátema político, a sua eleição diz tudo sobre a exaustão com um sistema que protege os mais ricos, perdoa crimes de guerra e chama “extremismo” a qualquer tentativa de justiça social.

O Império não caiu, mas Nova Iorque lembrou-nos que eles não são eternos.

A MÁQUINA DA PROPAGANDA DISFARÇADA

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Como observador atento dos mecanismos de informação em Bruxelas e seu ricochete em Portugal, constato uma arquitectura sofisticada de modelação da opinião pública. Os recentes financiamentos da UE à RTP e Lusa cifrados em 1,7 € milhões para “projectos de coesão” e “combate à desinformação” revelam apenas a ponta visível de um icebergue muito mais profundo.

Estes financiamentos, embora apresentados como apoio ao jornalismo, criam dependências estruturais que comprometem a independência editorial. Quando uma organização mediática como a  RTP e a Lusa depende significativamente de verbas europeias para projetos específicos, desenvolve-se uma autocensura preventiva, o que não se alinha com as prioridades de Bruxelas dificilmente recebe atenção ou recursos.

Mecanismos subtis de influência mediática estão a criar um consenso artificial e a sufocar o debate democrático na União Europeia. O resultado é uma paisagem mediática surpreendentemente homogénea com o povo a repetir o que lhe é apresentado.

A Fábrica dos “Comentadores Independentes”

Observa-se em Bruxelas um ecossistema de grupos consultores (think tanks), fundações e grupos de peritos que alimentam constantemente os meios de comunicação com “especialistas independentes”. Esta independência é frequentemente ilusória, muitos destes comentadores são financiados directa ou indirectamente por estruturas ligadas às instituições europeias ou por países com agendas específicas.

Em Portugal, este fenómeno replica-se através de comentadores que dominam os painéis televisivos, repetindo narrativas perfeitamente alinhadas com as posições oficiais de Bruxelas sobre temas como a guerra na Ucrânia, as políticas sanitárias ou a integração europeia. A diversidade de perspectivas genuinamente críticas é marginalizada.

A Ditadura do Consenso e o Silenciamento da Crítica

Cria-se assim uma ditadura do consenso onde posições divergentes são sistematicamente enquadradas como: “Desinformação” quando questionam narrativas oficiais, “Populismo” quando reflectem preocupações populares não alinhadas, “Pró-Rússia” quando criticam políticas da NATO ou da EU.

O caso ucraniano é paradigmático: enquanto se denuncia alegada propaganda russa, financia-se massivamente uma narrativa unilateral que ignora complexidades históricas, interesses geopolíticos e responsabilidades partilhadas no conflito. Questionar esta narrativa tornou-se tabu mediático.

Da Censura tradicional à Censura digital

Assistimos a uma evolução da censura que evoluiu da censura da PIDE para mecanismos mais sofisticados, ou seja, da repressão clássica para um controlo moderno baseado em financiamentos condicionados a quem se alinha, na descredibilização social enquadrando o crítico como radical ou negacionista  e na colaboração com plataformas digitais que colaboram com governos para limitar discursos “problemáticos” ou que apontam para perspectivas não conformistas.

Também ameaça do dinheiro digital representa um salto qualitativo neste controlo, permite bloquear instantaneamente o acesso a recursos financeiros de dissidentes políticos, activistas ou simples cidadãos com opiniões inconvenientes, como já está a ser praticado.

O Paradoxo Democrático

Este sistema, que se apresenta como defensor da democracia, está a construir um novo autoritarismo tecnocrático mais radical. Usa o fantasma do passado para silenciar as críticas ao presente. Por seu lado, as elites tecnocráticas de Bruxelas, não eleitas directamente, impõem políticas que afectam milhões, enquanto o Parlamento Europeu, com poderes limitados, serve frequentemente de fachada democrática e por outro lado os parlamentos nacionais são contornados pelos governos ou usados para aprovar directrizes sem discussaotarnsformando-se também eles em câmaras de eco de Bruxelas.

Em Portugal, este sistema manifesta-se através do alinhamento automático com posições europeias, da marginalização de visões críticas da EU e da utilização sistemática do fantasma do salazarismo para descredibilizar críticas legítimas ao autoritarismo contemporâneo.

A Verdade na Gaveta

Enquanto se gasta milhões a “combater a desinformação”, ignora-se que a maior desinformação pode ser a que vem embrulhada em selos oficiais. As histórias inconvenientes, sobre corrupção, sobre falhanços políticos, sobre alternativas reais, permanecem na gaveta.

O povo português, como outros povos europeus, merece melhor que este jornalismo de subserviência. Merece um debate aberto sobre o futuro da Europa, sobre a nossa posição no mundo, sobre as políticas que nos afectam diariamente.

Exige-se transparência radical sobre financiamentos, conflitos de interesse e relações de poder. A verdadeira democracia não teme o dissenso, teme apenas o silêncio imposto e a manipulação dos povos que passam a ser meros reprodutores das intenções dos tecnocratas de Bruxelas.

A democracia exige vozes diversas, não um coro que canta a mesma melodia encomendada.

(crónica também publicada em Pegadas do Tempo)

COM PAPAS E BOLOS…

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A mãe de um amigo tem 67 anos. A agricultura levou-lhe tudo, até a saúde, pois teve de se reformar por invalidez. Tendo descontado (como quase todos os trabalhadores agrícolas) pelo mínimo, já que os próprios ordenados eram de miséria, aufere 498 euros de pensão. Muito, mas muito longe do valor de renda de casa moderada (2.300 euros) preconizado pelo governo. Vai, assim, receber mais 13,76 euros por mês, e ironiza: ‘nem sei o que fazer a tanto dinheiro’.

Mas, por outro lado, lamentou-se: ‘Com tantos aumentos, já no início do ano, não dá nem para os gastos do pão durante uma semana’.

Uma vida de trabalho duro no campo e em casa, a tratar dos animais, da terra, dos filhos e tudo o mais que implica ser mãe. A mãe do meu amigo queria escrever ao primeiro-ministro, ‘ou talvez telefonar-lhe’, sugeriu na quase ingenuidade de quem vive longe da realidade do poder.

Falava, ainda, a Comunicação Social de quem vai receber 40 e 50 euros de aumento, correspondentes a pensões mais elevadas do que a que recebe a mãe do meu amigo. Deixaram de fora as milionárias. Continua a ser o favorecimento dos que mais têm e o resto, promessas e mais promessas, dança de cadeiras no SNS com privilégios para quem for do PSD, trocas e baldrocas nas autarquias e todos nós entregues aos ‘bichos’ que prometem portar-se bem e cada vez são piores. Justificam, em última análise, com ‘a conjuntura internacional’. O problema é que ainda há quem acredite, esquecendo-se que ‘com papas e bolos se enganam os tolos’.

O novo ano não promete ser melhor do que este. Pelo contrário, avizinham-se tempos muito difíceis, sobretudo para os reformados e os doentes, as crianças e os velhos, todos os que são mais vulneráveis.

Ainda assim, vim aqui para desejar a todos um Feliz 2026!