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TERRITÓRIO SEM EUCALIPTOS

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Depois de uma viagem de 400 km de comboio, entre Estocolmo e Gotemburgo, posso afirmar que a Suécia é um território de florestas, mas não tem eucaliptos. Sentado à janela, passei mais de 3 horas a contemplar campos brancos de neve e bosques de pinheiros, abetos e bétulas. Nenhum eucalipto.

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Aqui, a floresta é uma das principais riquezas nacionais. A indústria da celulose tem um poder enorme, mas não o suficiente para impôr eucaliptais. Alguns dirão que é por causa do frio que não há eucaliptos, que é uma árvore que gosta mais de calor. Mas essa não é a razão, porque há eucaliptos, mas são utilizados apenas como plantas decorativas em jardins. A verdadeira razão para não haver eucaliptais na Suécia, acredito que seja para proteger o ecossistema instalado nas florestas originais do território.

Não é por não haver eucaliptos que a Suécia deixa de ser o maior produtor de madeira da Europa e o maior exportador de papel do mundo. A madeira é, de resto, um produto com imensas aplicações nesta região. A grande maioria das casas de habitação em aldeias e vilas, mesmo em cidades de média dimensão, é de madeira. Vivendas de diferentes tipologias, feitas de madeira. Na rua neva, dentro de casa está quente. O aquecimento é igualmente fornecido pela queima de combustíveis provenientes do desperdício da indústria da madeira. Um pinheiro é, mal comparado, uma espécie de porco onde tudo se aproveita.

Só mais um dado, para referir que 60% do território deste país está coberto por florestas. Áreas extensas de pinheiros, abetos e bétulas. Nenhum eucalipto.

Quando em Portugal nos queixamos dos incêndios florestais incontroláveis que provocam destruição e morte, e apontamos os imensos eucaliptais como uma das principais causas das desgraças que se repetem, ano após ano, devíamos olhar para o trabalho que se desenvolve em países como a Suécia, onde a floresta é uma riqueza nacional, protegida por todos porque todos beneficiam, porque gera postos de trabalho, recolha de impostos, distribuição de riqueza e usufruto da natureza.

TEATRO na ESCOLA

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Através duma amiga de infância e, depois, colega na Faculdade de Letras de Lisboa, Helena Peixinho, soube da Associação Cultural “O Mundo do Espectáculo” (ACOME).

Legalmente constituída em 2001, surgiu como projecto de intervenção dentro da escola e na sua relação com o contexto (Escola-Meio), sempre com um enfoque especial: a importância da área das expressões artísticas no desenvolvimento pessoal e social das crianças e jovens.

Apresentado, em 1990, ao Conselho Científico da Escola Superior de Educação de Setúbal, o projecto foi aceite e reconhecido. Apoiado pela Câmara Municipal de Almada, do ponto de vista logístico e financeiro, teve como sede a Escola Básica D. António da Costa, que acolheu muitas das suas iniciativas, que paulatinamente se foram definindo através de duas grandes linhas de actuação – a formação e a animação – evoluindo, de forma natural, para a criação artística.

Imagens do Concerto dos alunos da formação Orquestra de Percussão – ACOME/AGF, dirigido por Rui Pinho Aires, a 11 de Outubro nos Recreios Desportivos da Trafaria.

Assim, em relação ao público escolar, foi, por exemplo, «À Descoberta da Arte Pública», para aproximar os alunos do tecido urbano que lhes é próximo. E é verdade, em Almada e em muitos lugares: as obras de arte que integram o quotidiano de quem vive ao seu redor raramente são verdadeiramente compreendidas!

Pequenos Artistas, imagens da sessão de 13 de Dezembro no Espaço ACOME – Feijó

Criou-se, na Escola Básica de Corroios, o Clube de Teatro, de cuja actividade, ao longo dos anos, resultou a oferta curricular de Teatro para o 2º e 3.º Ciclos, o que viria a provocar a abertura do Curso Profissional de Teatro (Ensino Secundário).

VOZ E CORPO – Oficina de Teatro

No quadro do projecto «NÓS E VOZ: Do Texto ao Gesto, do Gesto ao Texto», em parceria com a Escola Secundária João de Barros, no âmbito do Plano Nacional de Leitura, houve leituras encenadas, inclusive públicas em espaços abertos, nas escolas, na Biblioteca e outros espaços, nomeadamente o Espaço da própria ACOME.

VOZ E CORPO – Oficina de Teatro

«Formação em Teatro», «Teatro a Todos», «Iniciação ao Teatro» (com, por exemplo, a colaboração da Academia Almadense), «Música e Movimento», «Orquestra de Percussão» – constituem os títulos dalgumas das iniciativas levadas a efeito e continuadas. Dada a sua originalidade, relevo do relatório do actual coordenador da Associação, Manuel João, a informação de se ter levado à cena a peça, original de Sarah Adamopoulos, intitulada Próxima Pele, que é a nossa, sempre em transformação com o tempo e no espaço onde vivemos. Versando o Processo de Envelhecimento, «evoca o corpo metamórfico que sente, fala e se move ao ritmo da música, também ela original». Um espectáculo que, naturalmente, envolveu – e bem – a comunidade extraescolar.

 “O Mundo do Espectáculo” participa, desde o início, nos congressos de IDEA (Congresso Internacional de Drama/Teatro em Educação), cuja realização aconteceu, pela primeira vez, no Porto (1992) e, posteriormente, na Austrália (1995), no Quénia (1998), em Bergen (2001); em 2004, a Associação esteve também presente no Canadá, onde Helena Peixinho, sua coordenadora desde a fundação até esse ano, partilhou as actividades aqui desenvolvidas.

Helena Peixinho, garantindo-me que esta sua “viagem” foi vivida «com alguma intensidade, amando o que fazia», colaborou, após a aposentação, na criação, nesse mesmo ano de 2004, da Universidade Sénior de Almada (USALMA), tendo aí leccionado disciplinas como “Encontro com a Poesia”, “Expressão Dramática e Património”, “Teatro da USALMA”, “Leitura Dramatizada”.

Numa altura em que os noticiários apontam falta de professores um pouco por toda a parte, também porque a profissão parece ter deixado de apresentar o aliciante de outrora, não deixa de ser eloquente este testemunho da «Outra Banda», na medida em que – por via das iniciativas criadas – se logrou alicerçar a necessária ligação (e até cumplicidade!) entre a Escola, a Família e a Comunidade. Não há aí costas voltadas, mas um olhar apontado na mesma direcção!

RICARDO SALGADO NA CADEIA

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Ricardo Salgado foi condenado a 6 anos de prisão, pelo crime de abuso de confiança, por se ter apropriado de mais de 10 milhões do BES. O banco podia ser dele, mas o dinheiro que lá estava era dos depositantes.

Recorreu e em maio de 2023, a pena viria a ser agravada para oito anos de prisão, no Tribunal da Relação de Lisboa, e confirmada, já em fevereiro do ano seguinte, pelo Supremo Tribunal de Justiça.

Foi desta última decisão que Salgado recorreu para os juízes do Tribunal Constitucional. A defesa queria que fosse declarado inconstitucional condenar a prisão efetiva um arguido com 77 anos e com doença de Alzheimer diagnosticada. O Tribunal Constitucional confirmou a sentença. Tudo indica que o velho banqueiro vai acabar os seus dias numa prisão.

A propósito disto, a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) divulgou, agora, um comunicado onde, em resumo, afirma que não serve de nada enfiar mais um velho numa prisão portuguesa, tanto mais que se trata de uma doença que sofre uma demência e que, portanto, não tem consciência do que se passa à volta dele.

Diz o comunicado da APAR, que “um inimputável é vítima de uma alteração estrutural cerebral que condiciona a capacidade de compreensão dos actos. Nestes casos, não deve ser condenado a uma pena de prisão, mas sim a uma medida de segurança de internamento em hospitais psiquiátricos ou unidades de saúde especializadas.”

O texto, assinado pelo Presidente da APAR, médico de profissão, diz ainda que a sociedade não ganha nada em ter nas prisões “pessoas de fraldas, que não reconhecem o espaço físico onde se encontram”.

O comunicado termina sugerindo que o Estado deveria aproveitar esta oportunidade para tirar das prisões “todos os inimputáveis e pessoas comprovadamente doentes” que, ao contrário de Ricardo Salgado, são pobres, sem força reivindicativa e que vegetam no sistema prisional.

A CRECHE

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Encontra-se atualmente em execução a construção da nova Creche e Jardim de Infância do Centro D. Bosco, que terá capacidade para 136 crianças dos 4 meses aos 3 anos e 50 crianças dos 3 aos 6 anos, reforçando significativamente a oferta de Creche e Pré-escolar no concelho.

A ideia e a vontade pertencem à Associação dos Antigos Alunos Salesianos do Estoril. Gente “antiga” mas muito ativa. O que os move é a vontade de contribuir, uma associação sem fins lucrativos. Atualmente, reúne cerca de 600 antigos alunos e 300 simpatizantes, abertos à participação de antigos alunos da Escola Salesiana do Estoril, da própria Associação ou de outras instituições salesianas do concelho de Cascais.

A ideia de construir uma nova creche tem esta numerosa paternidade, mas precisou da ajuda da autarquia de Cascais, como é evidente. Aliás, a contribuição autárquica tem sido uma constante. Começou logo em 1986 com a cedência de um terreno onde se construiu o Centro Social D. Bosco. A primeira creche foi inaugurada em 1997, hoje colhe diariamente cerca de 170 crianças em Creche, Berçário e Pré-escolar, apoiadas por uma equipa de 30 colaboradores e disponibiliza diversas infraestruturas educativas, desportivas e culturais.

Com o aumento das necessidades das famílias e a elevada procura por respostas educativas na primeira infância, a Associação decidiu avançar com a criação de um novo equipamento. O processo deu os passos essenciais: a Câmara Municipal de Cascais confirmou a viabilidade de construção a 27 de outubro de 2019; em 30 de janeiro de 2020, foi submetida a candidatura n.º 4901 ao Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais (PARES); e, em 23 de julho de 2021, foi celebrado o contrato de comparticipação financeira com o Instituto da Segurança Social. A obra está prestes a ser concluída. A nova Creche e Jardim de Infância do Centro D. Bosco, que terá capacidade para mais 136 crianças dos 4 meses aos 3 anos e 50 crianças dos 3 aos 6 anos, reforçará significativamente a oferta de Creche e Pré-escolar no concelho de Cascais.

Estamos a falar de um investimento total de cerca de €4.800.000, sendo a Associação dos Antigos Alunos Salesianos do Estoril o principal financiador da obra. O projeto conta ainda com apoio financeiro do Programa PARES do Instituto da Segurança Social e da Câmara Municipal de Cascais, que, além do apoio direto, prestou também colaboração no lançamento do concurso público da empreitada, permitindo viabilizar e acelerar o processo. Prevê-se a conclusão da obra em março de 2026 e o início de atividade em setembro.

Fica aqui um bom exemplo de cooperação entre a vontade dos antigos alunos dos Salesianos do Estoril e o cumprimento da missão das instituições públicas que têm o dever de apoiar.

A médica que deu voz às mulheres

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Nasceu em Elvas, a 25 de janeiro de 1867, numa terra de fronteira onde a resistência faz parte da paisagem e do carácter. Adelaide de Jesus Brazão, filha de uma família humilde, tornou-se, ainda criança, o apoio da mãe viúva e dos irmãos mais novos. Trabalhou como criada de servir em casas abastadas e em montes alentejanos, enquanto, nas horas roubadas ao cansaço, estudava para alcançar a única instrução possível: a quarta classe.

Cantava enquanto trabalhava. Diz-se que foi ao ouvi-la cantar que o futuro marido se apaixonou. Manuel Cabete, sargento republicano de Elvas, progressista e culto, identificou desde logo grande ambição e inteligência naquela jovem alta e forte, de cabelos negros brilhantes e olhos vivos que o cativara.

Casaram-se em 1886. Manuel não a confinou à vida doméstica. Acreditou nela quando quase ninguém acreditava nas mulheres e incitou-a a prosseguir os estudos. O seu casamento, num tempo em que tantas mulheres eram silenciadas, tornou-se para ela um espaço de apoio e emancipação. Manuel vendeu terras, partilhou tarefas de casa, tudo para que pudessem sustentar o sonho de Adelaide: ingressar na Escola Médico Cirúrgica. Juntos partiram para Lisboa, onde Adelaide enfrentaria o maior desafio da sua vida: estudar Medicina num meio quase exclusivamente masculino e profundamente marcado por preconceitos.

Formou-se em 1900, apresentando uma tese cujo tema já revelava a sua missão: proteger as mulheres grávidas pobres como forma de garantir um futuro digno às crianças que nasceriam. Para Adelaide, a medicina não era apenas ciência — era uma forma de intervenção social. Iniciou o exercício clínico na especialidade de Ginecologia, uma área sensível, ainda envolta em tabus, prestando especial atenção a mulheres em situações de grande vulnerabilidade, incluindo as que viviam da prostituição.

Abriu consultório em Lisboa, mas não se limitou ao atendimento individual. Sem esquecer as suas origens, promoveu sessões públicas sobre alimentação, pedagogia e puericultura, denunciando as causas invisíveis da mortalidade infantil e impulsionou um projeto-lei para garantir licença de maternidade às mulheres trabalhadoras.

Com frontalidade, afirmou que moda das mulheres devia obedecer à saúde e não à vaidade: condenou espartilhos que deformavam corpos, saltos altos usados por grávidas, saias longas e de tecidos pesados (ajudam à proliferação dos ácaros) dietas perigosas e substâncias como o vinagre para emagrecer. Alertou para os riscos do álcool e do tabaco quando ainda eram sinais de estatuto social.

Republicana e feminista, entrou na Maçonaria em 1907, adotando o nome Louise Michel, em homenagem à revolucionária francesa. Fundou o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, com sede no seu consultório e liderou associações, escreveu manifestos, organizou congressos. Em 1910, acreditou que a República poderia melhorar a condição das mulheres e, ao lado de Carolina Beatriz Ângelo, bordou as novas bandeiras — num gesto simbólico de esperança.

Em 1929, viúva e desiludida com o rumo autoritário do país, partiu para Angola com o sobrinho, a quem criava como filho. Em Luanda, abriu um consultório, denunciou condições degradantes, defendeu maternidades, creches e redes de apoio social. Recusou aceitar a miséria como destino — nem em Portugal, nem no mundo colonial.

Regressou a Lisboa enfraquecida e doente, mas fiel a si mesma até ao fim. Morreu a 19 de setembro de 1935. Pediu um enterro simples, amortalhada com a bata médica que a acompanhara toda a vida.

Décadas depois, o país reconheceu-a com a medalha de Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Mas Adelaide Cabete, muito antes de títulos ou honras póstumas, já tinha um lugar na história das grandes mulheres portuguesas: aquelas que ousaram estudar, dar voz às outras mulheres e resistir.

BANDITISMO EM TERRITÓRIO DIGITAL

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Um jornalista luso-angolano ficou recentemente impedido de aceder à sua conta pessoal de Facebook. O nome associado ao perfil foi alterado, o acesso bloqueado. Quando a META passa o tempo a propalar que “defende os interesses da comunidade” não se refere nunca a este tipo de situações, em que, de facto, os utilizadores das redes sociais são afetados. O episódio não é excecional. É sintomático.

A Meta governa hoje espaços que funcionam como verdadeiras praças públicas, mas aplica-lhes regras privadas destinadas a defender os seus próprios interesses comerciais, unicamente. Essas regras são executadas por sistemas opacos e dificilmente contestáveis. Um utilizador pode ser penalizado repetidamente por alegadas “violações dos padrões da comunidade” sem saber exatamente o quê, quando ou porquê. As decisões acumulam-se; as explicações não. O problema não é técnico. É político, porque a META mistura os seus interesses comerciais com alinhamentos políticos, como se constata com as publicações que criticam as políticas genocidas de Israel, por exemplo.

O CASO DE ORLANDO CASTRO

Quando plataformas privadas podem bloquear identidades digitais, alterar dados pessoais e condicionar a atividade pública de cidadãos – incluindo jornalistas – sem transparência nem responsabilidade, o desequilíbrio de poder é evidente. A ideia de recurso existe no discurso, mas na prática dissolve-se em respostas automáticas.

Enquanto for assim, qualquer utilizador sabe que pode deixar de existir digitalmente de um momento para o outro, não por decisão judicial mas porque um sistema informático assim o decidiu.

Nos casos em que as contas de utilizadores foram tomadas de assalto por hackers, bandidos informáticos, umas vezes é para serem utilizadas em esquemas ilegais, normalmente burlas online, outras vezes apenas para evitar que continuem a publicar. É o caso de páginas pertencentes a jornalistas, que usam as redes sociais para ampliar o alcance do que publicam em meios de comunicação tradicionais.

O bloqueio da página de Orlando Castro pode ser um desses casos. Grupos organizados na defesa do MPLA e do Governo de Angola são os suspeitos de terem invadido a página e de a manterem sob ocupação. O certo é que o hacker se autodenomina Meta Centrol AI. Para as abordagens, estes piratas informáticos utilizam preferencialmente o Messenger. O que faz a META para proteger os utilizadores das suas redes sociais? Pouco. Disponibiliza uns formulários que a maioria desconhece existirem, demora a reagir ou reage com… silêncio.

De momento, a página deste jornalista desapareceu, como comprovei numa busca efetuada.

MUSEU DO FRACASSO

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Apenas na Suécia é possível encontrar um museu dedicado a um falhanço rotundo, a um empreendimento mal construído que resultou numa vergonha nacional. Falamos do Museu Vasa, dedicado ao maior navio da armada da Suécia, construído no século XVII.

Vasa é um navio de guerra, o maior da sua época. Na sua construção, o rei Gustavo II chamou os melhores arquitetos navais do reino, os melhores carpinteiros, os mestres da calafetagem, os escultores e os pintores, todos os que iriam fazer, em conjunto, o mais poderoso navio de guerra da época. O rei quis um navio com dois decks para artilharia, quis mastros altos e muito pano para apanhar vento que o levasse com rapidez a cruzar os mares. O navio foi baptizado “Vasa”, o nome da dinastia que naquela época governava o reino.

Nada disto impediu que o navio afundasse na viagem inaugural, depois de ter navegado apenas cerca de 1 milha desde o estaleiro em que foi construído e lançado  à água, em Estocolmo. Estava bom tempo, soprava uma brisa amena, mas o navio foi mal construído, adernou de tal maneira que começou a meter água pelas portas dos canhões e foi ao fundo num ápice. Morreram cerca de 50 marinheiros. Foi uma catástrofe para o reino, uma vergonha nacional quando a Suécia guerreava com a Polónia pela expansão do seu império territorial.

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Durante 300 anos o Vasa ficou a 30 metros de profundidade, as correntes e as marés enterraram o naufrágio sob uma espessa camada de lama. Até que um dia deram com o navio e o retiraram do fundo do mar, numa extraordinária operação de recuperação dos destroços e de preservação da relíquia. É um imponente testemunho de outras épocas, o maior e mais bem conservado navio do século XVII que existe em todo o mundo.

O Vasa impressiona por estar praticamente intacto, pelo trabalho de preservação que foi feito das madeiras de carvalho que foi utilizado na sua construção, pelo espólio que foi igualmente recuperado, desde equipamentos da palamenta do navio até aos esqueletos dos que com ele foram para o fundo.

Não deixa de ser o retrato de um fracasso, mas até nisso há uma espécie de grandeza do povo da Suécia, que soube aprender mesmo quando as coisas correram demasiado mal.

O Vasa e uma maquete do navio em 1º plano

AO SABOR DAS SONDAGENS

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Em primeiro lugar verifica-se uma tentativa, evidente, de levar Gouveia e Melo à segunda volta, pois os grupos económicos que apostaram nele precisam da sua presença na Presidência. Num tempo em que a pressão internacional irá determinar uma profunda alteração da política internacional e da economia global, desconfiam deste governo e do caminho errático que poderá tomar. Em segundo lugar, fizeram subir António José Seguro convencendo-se que a esquerda não votaria nele, – o que se começa a revelar ser um erro de análise – com a intenção, clara, de desmobilizar os seus eleitores, dando como certa a passagem dele à segunda volta e para concentrar o voto do centro direita em Cotrim de Figueiredo, deixando Marques Mendes à sua sorte, com a convicção de que, com esta dispersão dos votos a segunda volta seria entre Gouveia e Melo e André Ventura, e que o primeiro sairia vencedor.

A coisa é por demais evidente, mas o que estes ‘aprendizes de feiticeiro’ não perceberam foi o impulso que acabaram por dar à campanha de António José Seguro que, sem apelar ao voto útil, vê o eleitorado de esquerda a ‘fugir’ dos seus candidatos e a concentrar o voto no ex-secretário geral do PS, fundamentalmente porque o eleitorado que vota no PCP, no BE e no Livre, não quer Marques Mendes ou Gouveia e Melo na Presidência.

A poucos dias do acto eleitoral nota-se uma profunda desorientação na candidatura de Marques Mendes, que colou o seu destino ao do governo, sem ter percebido que esta colagem seria fatal. O debate de ontem, na AR, sobre a saúde, pode ter sido o princípio do fim da candidatura de Marques Mendes. O crescimento de Gouveia e Melo poderá levá-lo à segunda volta, o que iria transformar a eleição presidencial num patamar de dramatismo político idêntico ao das eleições de 1986. O confronto Gouveia e Melo/ António José Seguro seria interessante e um factor de mobilização do eleitorado.

AS PALAVRAS E O ‘NOBEL’

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As palavras, em português pelo menos, têm um significado. Um significado claro. Assim, de acordo com os variados dicionários, ‘capturar’ quer dizer ‘prender ou apreender’. Por outro lado, ‘raptar’ diz ser ‘roubar ou arrebatar alguém ou algo à força, com violência, ou cometer o crime de rapto, que é sequestrar uma pessoa, geralmente pedindo resgate ou para fins ilícitos’. Vem isto a propósito da situação do ‘deposto’ (dizem) presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Deixo claro que não sou apoiante do que classifico de uma ditadura. Mas quando dizem que Trump capturou Maduro, isso é falso. Trump, de facto, raptou Maduro.

Segundo afirmou o presidente dos EUA, pretende-se que a Venezuela seja uma democracia. Mas como? Com mais jornalistas presos, com mais prisões arbitrárias de cidadãos, com milícias armadas nas ruas? Que democracia? Como a da Arábia Saudita onde não há eleições, as mulheres são tratadas como se sabe e os assassinos de jornalistas ficam impunes?

De facto, não se trata de combate ao tráfico de droga ou ao terrorismo, nem tão pouco de ajudar a democratizar o país. Trata-se, antes, do petróleo que, durante 50 anos, serviu os EUA e, nos últimos anos, era vendido à China e até à Rússia. Trocaram-se os petrodólares por yuan, rublos e até euros. E isto os americanos não podem permitir, porque a ‘cultura’ do dólar caiu substancialmente. E, se dúvidas houvesse, vejam-se os ataques, entre a Islândia e a Escócia, aos petroleiros, aparentemente vindos da Venezuela, e apreendidos pelos americanos, ‘em cumprimento de um mandado emitido por um tribunal federal norte-americano depois de ter sido rastreado’, segundo Karoline Leavitt. Não se sabe ainda com que legitimidade. É só petróleo.

Isto faz lembrar quando os americanos invadiram o Iraque e depuseram Sadam Hussein. Iam combater as armas de destruição maciça que nunca foram encontradas. Claro, ficaram com o petróleo.

A História está cheia de feitos destes, levados a cabo pelos EUA sempre que se ameaçam os dólares do petróleo. Uma vez mais, tudo se repete.

Resta saber como vai a União Europeia opor-se à ‘conquista’ da Gronelândia e se o Rei Frederico X da Dinamarca vai ser exibido, sem nenhuma dignidade, como sucedeu com Hussein e Maduro. Goste-se ou não, e eu não gosto dos dois últimos, há princípios e direitos humanos que devem ser respeitados.

Por isso, ao indivíduo que se arvorou em Nobel da Paz, prometendo (o que não cumpriu, nem vai cumprir) a Paz entre a Rússia e a Ucrânia, ofereça-se-lhe o ‘Nobel’ da guerra. É para lá que ele nos leva.

MUDAM AS MOSCAS…

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O colonialismo europeu, iniciado no século XIV com a chamada “descoberta” de novos mundos pelos navegadores portugueses, fez da Europa senhora do planeta. Ingleses e franceses colonizaram a América do Norte; portugueses e espanhóis submeteram a América do Sul e Central; África foi retalhada entre ingleses, alemães, belgas, portugueses e franceses; a Ásia conheceu destino semelhante. Poucos povos escaparam à dominação colonial.

Durante séculos de ocupação e exploração, não foi apenas a escravatura humana que devastou esses territórios. Houve também a espoliação sistemática de recursos: ouro, prata, especiarias e produtos agrícolas como o açúcar, que alimentaram a acumulação de riqueza na Europa. O progresso europeu assentou, em larga medida, nesta pilhagem organizada.

Essas conquistas foram acompanhadas por genocídios em larga escala. Os povos indígenas da América do Norte foram quase exterminados pelos colonos europeus. Na América Latina, alguns historiadores estimam em mais de 50 milhões o número de indígenas mortos durante a colonização espanhola. Portugal não esteve isento de crimes semelhantes, quer no Brasil, quer em África. O Congo belga, sob o reinado de Leopoldo II, representa talvez o ápice do horror colonial europeu.

Esses crimes históricos tendem hoje a ser relativizados. O sofrimento alheio, quando distante no tempo, é facilmente diluído em narrativas civilizacionais ou atenuado por uma falsa neutralidade histórica. Mas o presente começa a devolver-nos uma imagem perturbadora desse passado.

O ressurgimento de um colonialismo explícito por parte dos Estados Unidos, como reação às tentativas de erosão do império que construíram ao longo dos últimos 250 anos, permite-nos vislumbrar, pela primeira vez, o que outros povos sentiram quando foram submetidos pela força dos canhões. Ontem, o pretexto era a “expansão do cristianismo”. Hoje, chama-se “democratização”. A lógica é a mesma, a mentira também. Hoje é pelo petróleo, gás natural, terras raras, que se fazem as guerras dos EUA.

Sem remorso e sem qualquer assunção de culpa histórica, o Ocidente prepara-se para aceitar aquilo que outrora impôs. A Dinamarca ficará sem a Gronelândia e nada será feito para contrariar uma intenção já assumida por Donald Trump. O direito internacional, tal como a moral que o sustenta, revela-se descartável quando confrontado com a lei do mais forte.