Início Site Página 55

DINAMARQUESES NÃO ESTÃO ASSUSTADOS

0

A ameaça de guerra dos EUA contra a Dinamarca é tema dos noticiários, dos debates na televisão, nos media do país, como é evidente. Mas não há alarme social, por enquanto.

Não me parece que os dinamarqueses estejam em estado de negação sobre a possibilidade de uma guerra entre a Dinamarca e os EUA, apesar de ambos os países serem membros da NATO. Se os EUA invadirem a Gronelândia, pode mesmo haver guerra, apesar da Dinamarca saber que o inimigo é mil vezes mais poderoso militarmente

vídeo

PRESO NUMA CADEIA CHINESA

0

Nos EUA há um projeto que se chama “Jornalismo na Prisão” (Prison Journalism Project), onde os reclusos publicam relatos sobre a vida “lá dentro”. Muitas vezes, escrevem sob anonimato e são sempre ajudados por quem lhes publica as histórias. Em Portugal podiamos fazer alguma coisa parecida. Seria uma pedrada no charco.

Já aqui publicámos uma dessas histórias, hoje vamos publicar outra. O nome do recluso é fictício, mesmo se hoje ele já está em liberdade, depois de cumprir 10 anos de prisão. Não foi nos EUA, mas na China. O relato descreve a experiência de Jordão, um estrangeiro a viver na China com uma bolsa de estudo, ao chegar a um centro de detenção chinês após ser detido em 2014 por vender haxixe. Atualmente, Jordão deixou a China depois de cumprir pena. Tem 34 anos.

Jordão, na primeira pessoa

“Depois de ter sido detido pela polícia, passei muitas horas a ser interrogado, algemado, amarrado a uma cadeira. Mais tarde, levaram-me para  um centro de detenção em Shenyang, na província de Liaoning, onde fiquei a aguardar o julgamento.

Quando cheguei estava cheio de medo. Seria este o fim da minha liberdade para sempre? Tiraram-me do carro, fui levado para dentro de um prédio. Passei vários portões e corredores, cheirava a suor. Fui proibido de olhar fosse para quem fosse. Não podia olhar para a esquerda ou para a direita.

Eu mal falava chinês. Tinha vinte e poucos anos, nasci num país muçulmano da Ásia Central, tinha ido para a China em 2012 para estudar medicina. Nem sempre fui um bom muçulmano, gostava de festejar e beber cerveja com meus amigos, muitos dos quais também eram estrangeiros de vários países do mundo. Comecei a fumar e vender haxixe, um crime grave na China, acabei preso.

Dentro das celas, todos tinhamos a cabeça raspada, vestiamos fardas de cores diferentes: vermelho, laranja, azul, amarelo, verde, cinza – cada cor indicava um status diferente. O vermelho significava que a pessoa fazia parte de um grupo criminoso organizado, o laranja também sinalizava isso, mas que ainda não tinha sido julgado, os de azul eram pessoas que as autoridades acreditavam que não seriam condenadas à prisão perpétua ou à morte, enquanto os de amarelo haviam recebido a sentença de morte. Uma farda verde significava que a pessoa estava doente com uma doença terminal, e o cinza, doente, mas não terminal. A farda que me deram era azul.

Na cela, tinhamos de estar sentados de frente para a parede, em silêncio e imóveis. No dia em que lá cheguei, o recluso líder da cela indicou-me onde sentar. Uma voz no alto-falante disse alguma coisa. Os reclusos levantaram-se e começaram a andar em círculo. Eu fiz o mesmo. Mais tarde, descobri que essa era uma rotina diária, realizada duas vezes ao dia, destinada a melhorar a circulação sanguínea após longas horas sentados na postura de Buda.

A cela era dividida em duas, com plataformas de madeira numeradas de 1 a 12 de um lado e de 13 a 24 do outro. Cada plataforma ficava a cerca de 60 centímetros do chão. Uma passarela estreita separava as duas partes. Fui designado para o lugar número 7, mesmo ao lado da pia. A mesma pia servia para 24 pessoas.   

O recluso chefe da cela explicou-me as regras, que diziam respeito principalmente ao silêncio, à disciplina e à rotina. Havia sempre dois reclusos que tinham obrigação de vigiar se todos os outros cumpriam as regras. Esses reclusos nunca eram os mesmos. A “guarda” rodava entre todos, usavamos um boné vermelho sempre que tínhamos de exercer essa função.

A voz no alto-falante dava as ordens, se tínhamos de andar em círculos ou se tínhamos de nos sentar de pernas cruzadas, na postura de Buda. Eu nunca tinha ficado sentado de pernas cruzadas por mais de alguns minutos na minha vida. Depois de dois minutos, as pernas começavam a doer e a ficar dormentes. Depois de muito tempo, a voz ordenava que ficassemos de pernas esticadas, mas sempre sentados e de costas direitas. Posições sempre muito dolorosas..

Também usei o boné vermelho. No início não sabia o que deveria fazer, até perceber que tinha de policiar os outros presos. Quando havia algum problema disciplinar, apertávamos o botão de emergência no interfone, o alarme soava e vinham os guardas.

Passavamos os dias, semanas, meses e anos basicamente parados, a olhar. Se um recluso  precisasse de ir à pia, tinha de levantar a mão, aguardar a permissão do “guarda” de boné vermelho. À noite, as luzes nunca se apagavam, e os de boné vermelho circulavam, observando os outros. Não se podia cobrir o rosto com um cobertor, todos tinham de estar visíveis para as câmeras. Era proibido ler fora das horas destinadas a essa atividade.

O menos mau era a comida. Normalmente, sopa de tofu e pãezinhos cozidos no vapor. Arroz para os que tinham problemas estomacais. Refeições halal para muçulmanos, chineses das etnias hui e uigures e muçulmanos estrangeiros, como eu.

A hora da higiene era antes de dormir. Ao lado da pia havia três torneiras. Três pessoas à vez escovavam os dentes e lavavam as mãos. O travesseiro e o cobertor cheiravam sempre mal. A cama era de madeira, dura. Quando adormecia sonhava com a liberdade, a família. Mas os pesadelos começavam logo de manhã cedo… ao acordar.”

TEMPLOS DE GOTEMBURGO

0

Os templos de Gotemburgo são muitos e variados. Não tivemos tempo de visitar todos, mas ficámos com uma ideia do panorama.

Neste vídeo, podem ver locais com nomes estranhos, como, por exemplo, Saluhallen, Domkyrka ou Feskekorka.

vídeo

JARDIM BOTÂNICO

0

É uma espécie de oásis no meio da cidade de Gotemburgo, as primeiras árvores foram plantadas e as primeiras estufas ali construídas há quase 200 anos. Será um dos mais bem preservados jardins do século XIX, em toda a Europa.

O Jardim Botânico de Gotemburgo é famoso pela coleção de rosas, com mais de 3 mil plantas de 1.200 espécies diferentes. Deve ser um roseiral lindíssimo, mas que por estes dias não se consegue ver porque está fechado.

Não é por isso que a visita deixa de valer a pena… Vejam o vídeo.

vídeo

AS COLÓNIAS QUE PERSISTEM

0

Durante anos repetiu-se que Portugal descolonizou tarde demais e que esse atraso explicaria grande parte dos problemas atuais dos países africanos de língua portuguesa. A ideia tornou-se confortável: a cronologia serviria como chave explicativa para instabilidade, subdesenvolvimento e fragilidade institucional.

O problema é que essa explicação é, no mínimo, incompleta. A história mostra que a data da independência não garante nem estabilidade nem desenvolvimento. Há países que se libertaram cedo e permaneceram presos à violência e à dependência. Outros, apesar de processos tardios e traumáticos, conseguiram construir Estados relativamente funcionais. O atraso pode pesar, mas não explica tudo.

Mais grave ainda é o silêncio seletivo que rodeia esta narrativa. Outras potências coloniais nunca descolonizaram verdadeiramente. França, Reino Unido e Países Baixos continuam a exercer domínio sobre territórios espalhados pelas Caraíbas, Índico e Pacífico. Os Estados Unidos mantêm Porto Rico e várias ilhas estratégicas. O colonialismo não acabou: apenas mudou de nome e de enquadramento jurídico.

A Gronelândia é um exemplo particularmente revelador. Sob domínio dinamarquês há mais de 500 anos, foi tratada como colónia durante séculos: população indígena negligenciada, direitos políticos adiados, autonomia concedida apenas quando já não podia ser recusada. É neste contexto que surgem agora as pretensões de anexação anunciadas por Donald Trump.

Copenhaga afirma que a Gronelândia não está à venda, mas apressa-se a lembrar que os EUA já têm liberdade total para instalar bases militares no território. O argumento é ingénuo ou cínico. As pretensões norte-americanas não se baseiam em necessidades de defesa, mas numa pulsão imperialista elementar, movida por ganância estratégica e económica. Contra isso, a razão não serve de antídoto.

A questão central é simples e brutal: se os EUA avançarem, a Dinamarca irá combater? E que países europeus estarão solidários e dispostos a enfrentar mísseis norte-americanos para defender um território colonial que sempre foi tratado como periferia?

A persistência de colónias no século XXI não é um resíduo do passado. É a prova de que o imperialismo continua ativo, à espera de uma oportunidade para voltar a falar sem disfarces.

MILITARES PROCLAMAM NOVA CONSTITUIÇÃO DA GUINÉ-BISSAU

0

Ao longo dos 54 anos de existência enquanto Estado independente, a Guiné-Bissau foi palco de sucessivas crises políticas, institucionais e governativas. Uma análise honesta da história constitucional do país revela que uma das causas estruturais das crises tem sido o conflito recorrente de competências e legitimidades entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, típico de um semipresidencialismo mal estabilizado, marcado por ambiguidades constitucionais, fragilidade partidária e ausência de cultura de compromisso institucional.

Este dado histórico é essencial para compreender o contexto em que surge a nova Constituição aprovada pelo Conselho Nacional de Transição. É legítimo reconhecer que a repetição de bloqueios entre Presidência e Governo — frequentemente acompanhados de dissoluções parlamentares, quedas de executivos e intervenções militares — criou, ao longo do tempo, a perceção de que o modelo vigente era incapaz de garantir estabilidade governativa duradoura. Foi precisamente essa leitura que serviu de base política e conceptual à atual revisão constitucional, orientada para eliminar os focos de conflito no vértice do Executivo.

Todavia, a forma escolhida para responder a esse problema histórico levanta sérias reservas. A nova Constituição opta por uma presidencialização extrema do sistema, concentrando no Presidente da República as funções de Chefe de Estado e de Chefe do Governo. O Presidente passa a dirigir diretamente o Executivo, a presidir ao Conselho de Ministros, a coordenar e orientar os ministros e a nomear e exonerar todo o Governo. Embora o texto continue a qualificar o regime como semipresidencialista, na prática institui-se um modelo hiperpresidencialista, no qual o centro efetivo do poder político se encontra numa única figura institucional, de resto, semelhante em muitos aspetos a outras constituições de países vizinhos, como, por exemplo, a do Senegal.

Como consequência direta dessa opção, verifica-se a subordinação política e funcional do Primeiro-Ministro. Tradicionalmente concebido como Chefe do Governo e responsável pela condução da política geral do país, o Primeiro-Ministro perde autonomia política e transforma-se num agente executor das orientações presidenciais. Esta reconfiguração altera profundamente a lógica do Executivo, enfraquece a colegialidade governativa e reduz o papel do Parlamento enquanto instância efetiva de controlo político do Governo.

A terceira dimensão crítica reside na legitimidade jurídico-constitucional do processo de revisão. A nova Constituição foi aprovada por um órgão de transição, não eleito, num contexto de rutura institucional subsequente aos acontecimentos de 26 de novembro de 2025.

Ainda que a instabilidade crónica do passado sirva de pano de fundo explicativo, ela não elimina as interrogações legítimas sobre o respeito pelo princípio da soberania popular e sobre a durabilidade de um pacto constitucional produzido fora dos mecanismos ordinários de revisão previstos na ordem constitucional anterior.

É inegável que o novo texto procura responder a um problema real da história política guineense: os conflitos permanentes entre Presidente e Primeiro-Ministro. Contudo, eliminar o conflito institucional através da supressão do equilíbrio de poderes pode resolver um problema imediato, mas criar outros mais profundos no médio e longo prazo.

A experiência comparada em África demonstra que a concentração excessiva de poder no Executivo presidencial tende a fragilizar os mecanismos de responsabilização, a reduzir o pluralismo político e a aumentar o risco de novas crises, ainda que sob formas diferentes.

A Guiné-Bissau encontra-se, assim, perante um dilema central: corrigir as disfunções do passado sem comprometer os princípios fundamentais do Estado de Direito. Uma Constituição deve ser simultaneamente um instrumento de estabilidade e um garante de equilíbrio institucional. Responder às crises históricas exige reformas ponderadas, não soluções que substituam conflitos de poder por hegemonias de poder.

O ESTUPOR RUIM

0

Na verdade, a tónica pessimista manteve-se em todos os contos que integram o livro. E, por outro lado, aquele apetite que eu secretamente alimentara de ver ali reviver um Alentejo de que, apesar de algarvio, eu ousara também apropriar-me, quando privilegiei o seu estudo na época romana, não foi saciado.

Nada, afinal, da terminologia alentejana. Nada da culinária mediterrânica. Nada dos cantares típicos, ao final da tarde, entre um copo de vidigueira e o naco de casqueiro com lasca de queijo cortado à navalha. Rara e insípida alusão eu encontrei ao “convento”, designação que relacionei com o modo como, em Vila de Frades, a população se referia às sólidas paredes romanas que os frades aproveitaram para transformar em remansoso mosteiro.

Tive esperança, quando miudamente contou a caminhada de solitária velhota, ao escurecer, da Vidigueira a Vila de Frades, de vir a descobrir algo de novo na paisagem de então e invocação até – em tempo de aflição – ao santo ali venerado. Nada. E – ainda por cima! – o horror do assassinato, a frio, de um recém-nascido.

Estava Fialho de Almeida de muito mal consigo e com o seu tempo, que, diga-se, confrontando com o que a História nos conta desses anos de fim de século XIX, não era, de facto, de mui confortáveis agouros.

Retrato de Fialho de Almeida (1891), por Columbano Bordalo Pinheiro

Apesar do título «Idílio triste », ainda esperei que a história do foragido a monte viesse a terminar em êxtase, tão sequiosa andava a pastora de uma natural satisfação longamente sonhada: «E de costas no feno, ao lado do boieiro adormecido, entristecia-se a moça daquela íntima e misteriosa plenitude, à qual fazia falta o que quer que fosse: vinha-lhe uma inquietação, uma curiosidade, um frenesi… pancadas de seio, estonteamentos, vislumbres… –, e, coçando a pele sarabulhenta do ventre, pasmava de se ter feito tão de repente mulher». Nada. O fugitivo parece nada ter percebido e desapareceu para todo o sempre.

Há, porém, nesse conto particular enlevo do autor. Sentimo-lo na minucia exacta com que se delícia a descrever a natureza – virgem, dir-se-ia – em que a pastora se move. Descrição pura e crua sem laivos de adjetivo adoçante, portador de uma qualquer sugestão romântica, humanizante. Delíquio gélido. Os teóricos literários chamar-lhe-ão «decadente».

Rendo-me, por isso, a uma descrição como esta: «Estevais por toda a parte, urze pouca… Só os medronheiros protestavam com o seu verde-vivo, contra as sombrias gamas do matagal. E um silêncio! Por ali não voavam cotovias. Algum passarito do mato, destes trepadores cinzentos, ágeis, pequeninos, que esvoaçam em espiral dos troncos dos carrascos, receosos da própria palpitação das suas asas, ou o cacarejar traiçoeiro das víboras, cujos sobressaltos guardam o frenesi macabro de pequenos espíritos malfazejos da charneca». Frase burilada a preceito, adjetivo impessoal, autor ausente.

Já noutra passagem, mais atrás, autopsia-se a cena e, qual mau estudante em atenção muda por detrás de um vidro, Fialho de Almeida dá conta e… vai-se embora: «Raio de vida, ali a um canto da cozinha, os velhos pais já não fazem senão dormir e comer. Esta vida ociosa aborrece em casa de gente pobre. É um desaforo, uma pouca-vergonha… Queixa-se a nora do pão que lhe escasseia no tabuleiro? Pudera não! Os velhos não fazem senão comer. Há uma contenda à lareira? Se os velhos são uns intrigantes! Rico vai o ano de Deus, a seara folhuda e bem lançada, a vinha rija, e tão viçoso o couval! «Que vinténs nós pouparíamos, marido, ao canto da arca, se teu pai nos não pesasse tanto, o estupor ruim!».

Fialho foi-se embora; vamos nós embora também!

OS CACILHEIROS DE GOTEMBURGO

0

Gotemburgo, no sul da Suécia, é uma cidade portuária que, tal como Lisboa, tem “cacilheiros”. Isto é, tem transportes fluviais ou marítimos públicos, que transportam pessoas para diferentes locais.

A diferença entre os cacilheiros de Lisboa e os de Gotemburgo está, essencialmente, na política de promoção dos transportes públicos. Na Suécia, o fluxo é constante e o preço procura cativar a clientela, ao ponto de não haver custo, o transporte ser gratuito. Vejam o vídeo.

vídeo

MONTENEGRO NUMA CAMISA DE ONZE VARAS

0

O apoio a Gouveia e Melo de cerca de 100 ‘personalidades’ da AD, entre as quais Miguel Cadilhe, ex-ministro de Cavaco Silva, David Justino, ex-ministro de Durão Barroso, Ângelo Correia, Valente de Oliveira e Adão e Silva, vem confirmar que o apoio do PSD a Marques Mendes constituiu um erro estratégico de Montenegro. A este, acresce o empenho total dos membros do governo na campanha do candidato, com ataques inenarráveis, nomeadamente do ministro de Estado, Paulo Rangel, conhecido pela forma ‘ordinária’ que coloca sempre que entra numa campanha eleitoral. A esta, acrescente-se o facto de com algum deles o governo terá de lidar no futuro.

É verdade que, com excepção de Rui Rio e de Isaltino de Morais, qualquer deles vale apenas o seu voto, mas não deixa de ser um sinal quanto ao erro na escolha do candidato partidário do PSD.

E temos, ainda, o apoio de outras figuras conhecidas do PSD a António José Seguro, num sinal evidente de que Marques Mendes não obtém o consenso do seu próprio partido, desde as figuras conhecidas ao mais simples militante das estruturas locais. Luís Montenegro meteu-se, assim, numa camisa de onze varas e fica, aparentemente, sem plano de fuga, para o pós 18 de Janeiro.

Se à segunda volta forem Gouveia e Melo e António José Seguro, quem é que irá apoiar? E se à segunda volta forem André Ventura e António José Seguro, a quem irá o primeiro-ministro patrocinar? E se à segunda volta forem Cotrim de Figueiredo e António José Seguro, qual será a escolha de Montenegro, sendo certo que, nesta situação, Cotrim de Figueiredo votaria em Ventura? Em todas estas candidaturas, com excepção na de André Ventura, estão presentes altos quadros e militantes anónimos do PSD que discordam do apoio de Montenegro a Marques Mendes. Qual será a opção do Presidente do PSD?

Num momento em que o governo está em queda, por causa da situação calamitosa na Saúde, com mentiras atrás de mentiras, em que existe um profundo descontentamento popular, a colagem de Marques Mendes ao governo e do governo à candidatura de Marques Mendes, pode transformar-se no ponto de viragem para o governo e marcar o tempo que falta, até ao fim da legislatura, que será difícil e desgastante.

Geografias da Desigualdade

0


Swakopmund nasceu do olhar europeu sobre o deserto. Fundada em 1892 como porto do então Sudoeste Africano Alemão, a cidade foi pensada como um prolongamento da Alemanha em solo africano. A arquitetura colonial, as ruas ordenadas, os cafés de inspiração bávara e o alemão ainda presente nos nomes das ruas e das lojas, e mesmo no interior destas. Há uma seção de livros em Alemão na livraria da cidade e há menus em Alemão, pelo menos num restaurante, são marcas visíveis dessa origem. Swakopmund cresceu voltada para o mar, para o comércio, para o turismo e, durante muito tempo, de costas para Mondesa.

Swakopmund
Mondesa

Mondesa, por outro lado, nasceu da exclusão. Criada oficialmente nos anos 1960, quando o território era administrado pela África do sul, nasceu assim sob a sombra do apartheid, quando as autoridades desenharam mapas para separar mundos: Mondesa para os negros, o centro da cidade para os brancos. Ou seja, foi pensada como um bairro segregado para a população negra que trabalhava em Swakopmund. E mesmo dentro dela havia zonas para cada etnia, havia (permitam-me a expressão) pretos de primeira e pretos de segunda, o que refletia a lógica de “dividir para reinar”.



O seu traçado não surgiu do acaso urbano nem do encontro cultural, mas de uma decisão administrativa com o intuito de afastar, disciplinar, controlar. Cresceu rapidamente, impulsionada pela migração interna e pela procura de trabalho, tornando-se um espaço de sobrevivência, resistência e identidade coletiva.

Em Mondesa, a vida acontece na rua: nos mercados informais, na música que ecoa dos quintais, no vai-e-vem constante de pessoas que constroem o presente com poucos recursos e muita criatividade. Swakopmund parece um enclave da Alemanha em África. A cidade funcionou nas últimas décadas, ainda funciona, como estância balnear sobretudo para os alemães e namibianos endinheirados. Já o pessoal de Mondesa, quando pode descansar, vai à terra, sobretudo para o norte da Namibia.

Swakopmund, casa burguesa colonial
Swakopmund, Hotel Europa

O contraste é evidente. Onde Swakopmund exibe fachadas coloridas, jardins bem cuidados e hotéis voltados para o oceano, Mondesa revela casas simples e inacabadas, ruas poeirentas e uma densidade humana elevada. Em Swakopmund, o tempo parece desacelerar ao ritmo das ondas e dos turistas; em Mondesa, o dia começa cedo e termina tarde, guiado pelo ritmo do trabalho e pela economia informal. Uma vive da contemplação e do lazer, a outra da necessidade e da luta diária.

Mais distante, quase empurrada para fora do enquadramento urbano, encontra-se a Democratic Resettlement Community (DRC). Criada nos anos 2000 como solução de “alojamento temporário”, a DRC tornou-se permanente sem nunca ter sido plenamente integrada. Se Swakopmund nasceu do olhar europeu sobre o deserto, e Mondesa da segregação planeada, a Democratic Resettlement Community (DRC) resulta da exclusão prolongada. Terrenos áridos, habitações improvisadas, serviços escassos (sem água canalizada e centro de saúde) e uma sensação constante de temporário que dura décadas.
A ligação da DRC com Mondesa é sobretudo humana. Muitos dos seus residentes trabalham em Mondesa, têm família lá ou passaram por esse bairro antes de serem empurrados ainda mais para a margem. Com Swakopmund, a relação é mais distante e funcional: demoradas deslocações diárias para trabalhos mal remunerados, invisíveis para quem desfruta da cidade costeira. A DRC existe para servir, mas raramente para ser vista.

Democratic Resettlement Community (DRC), plano geral

É nesta encruzilhada, física e simbólica, que surge a visita guiada (community tour) a Mondesa e DRC, conduzida por um operador de turismo comunitário. O guia não apresenta o bairro como atração exótica, mas como uma narrativa viva, ele é alguém que não conhece apenas o bairro, ele vive lá em Mondesa. O percurso passa pelo mercado informal, onde aprendemos sobre frutas, legumes e plantas e bebidas medicinais, pela visita a uma senhora de etnia Herero, que nos recebe no quintal e nos conta algumas coisas sobre as tradições do grupo a que pertence, pelo Arts & Craft Center do DRC, onde somos recebidos com canções e dança e em língua de “estalidos” e depois visitamos a exposição de trabalhos de desenho/pintura das crianças e o artesanato feito pelas mulheres. Foi aqui que comprei 3 bonecas que representam 3 grupos étnicos diferentes (a quarta foi comprada numa loja em Swakopmund) e, por último, pelo restaurantre Hafeni em Mondesa, onde provamos as “iguarias locais” como insectos crocantes, com destaque para as “larvas de mopan” e também para o Ombidi/Mutete (espinafre selvagem). No fim da refeição um grupo de jovens locais entoa algumas canções “à capela” para nós.

vídeo

Alguns operadores de turismo comunitário começaram há alguns anos a incluir a DRC nos seus percursos. O discurso aqui muda um pouco, aqui não se fala apenas de passado colonial ou do apartheid, mas das escolhas da Namibia independente, das falhas do planeamento urbano e da persistência da desigualdade num país independente desde 1990 (foi o último país africano a se tornar independente por via da descolonização). Pelos caminhos de terra batida de Mondesa e DRC veem-se muitos salões de barbeiro, pequenas lojas em anexos ou à janela, igrejas de várias crenças e quintais onde as crianças brincam.

Cada paragem desmonta estereótipos e revela uma comunidade que, apesar das dificuldades, construiu redes de solidariedade e pertença
Cada paragem traz uma história, de migração interna, de perda e de ganhos, de encontros e de desencontro, mas também de muita esperança. O guia explica como Mondesa se organizou ao longo dos anos, fala das várias igrejas como centros sociais, das escolas sobrelotadas, mas também das associações juvenis, dos grupos culturais e das iniciativas locais que tentam redesenhar o futuro.

DRC, fachada da escola Arts & Craft Center
DRC, interior da escola Arts & Craft Center

No final da visita, quando o grupo regressa a Swakopmund, a distância entre as cidades parece maior, não em quilómetros mas em consciência. Mondesa e sobretudo a DRC deixam de ser apenas o “outro lado” e transformam-se num espelho incômodo e necessário. A visita guiada não promete soluções fáceis, mas oferece algo raro nos dias que correm: contexto, humanidade e a certeza de que compreender um lugar começa sempre por ouvir quem o chama de casa.
Gosto de pensar que a diferença entre turismo e viagem é não ser só consumo, é ser sobretudo ENCONTRO.