Início Site Página 419

Tudo muda, muitas vezes para pior

0

Na Mouraria, por exemplo, bairro que alberga dois dos principais polos do comércio tradicional, o largo do Martim Moniz e a rua do Benformoso, as “regras do jogo” mudaram há muito em desfavor dos comerciantes e da população residente. Primeiro, foi a tentação de transformar tudo em Alojamento Local. Correram com os inquilinos velhotes, desalojaram os lojistas, o espaço ficou livre para mão-de-obra barata imigrante e especuladores imobiliários.

rua do Benformoso

Quem vai hoje à rua do Benformoso, por exemplo, quase não houve falar português e já tem dificuldade em encontrar os armazéns grossistas, as ervanárias, as tasquinhas. Hoje tem restaurantes halal, especialistas em desbloquear telemóveis, vendedores de baldes de plástico quebradiço. Como as coisas mudam, é verdade.

Há cada vez menos comércio tradicional e os clientes não voltam a um local onde deixou de haver opção de escolha. Antes era possível entrar em cinco ou seis armazéns, comparar preços e comprar naquele que nos parecia melhor em termos de qualidade e preço. Essa diversidade desapareceu. Os feirantes deixaram de lá ir abastecer-se, por exemplo. E também por isso as lojas vão fechando, num efeito de dominó.

A concentração de população imigrante acaba por não deixar espaço a outro tipo de pessoas. Até porque quem aluga camas a imigrantes ganha 10 vezes mais que a alugar casas a famílias portuguesas.

Outra questão que ajuda a afastar clientes é a dificuldade em estacionar automóveis. Não há sítio para deixar um carro para ir espreitar as montras, excetuando o estacionamento subterrâneo do Martim Moniz. Mas como é caro, tem sempre muitos lugares vagos.

É este o panorama desolador nesta zona da cidade. Descaracterizou-se, está sujo e degradado. Há um ar de abandono multiplicado em cada taipal corrido, em cada loja fechada, em cada edifício degradado. A pandemia ajudou à festa, sem turistas nota-se mais o estado a que isto chegou. Mas a culpa primeira é de quem pariu as políticas de urbanismo da cidade.

Prédio construído em cima de forte em Lisboa

2

O Forte de Santa Apolónia chegou a ser considerado imóvel de interesse público no Decreto de 6 de março de 1996. E estava à espera de um projecto de preservação e recuperação pedido, na época, pela Câmara Municipal de Lisboa, à Associação dos Amigos dos Castelos. É o que se diz.

Tinha sido construído na época da Guerra da Restauração, entre 1652 e 1668 e nunca foi acabado. Quando perdeu o interesse militar passou para as mãos do visconde de Manique e depois para os condes de São Vicente.

Finalmente acabou na firma George & H. Hall, Lda. Estávamos em 1945. Há poucos anos, puseram-lhe em cima um mamarracho. Arrasaram tudo, incluindo as guaritas.

Os projectos de um jardim e espaço museológico foram esquecidos. A especulação imobiliária aproveitou o facto de já lá ter sido construída uma casa de dois pisos e falou mais alto. Tão alto que o edifício tem 13 andares, como se não houvesse mais espaço em Lisboa. 

Uma Oficina de Artes em busca de paz e serenidade

0

A ceramista e artesã Teresa Vieira recebe-nos numa tarde de chuva, numa garagem em Algés.

A garagem alberga o mundo desta artesã, emigrada muitos anos, que mesmo em tempo de pandemia (e tendo estado com Covid-19) não desiste da sua arte. “Este projecto nasce ao fim de muitos anos, foi um sonho realizado. É uma pequena e humilde oficina de cerâmica e cestaria, com a possibilidade de ter workshops para miúdos e graúdos, onde se desenvolve todo um espaço, toda uma dinâmica de alegria, harmonia e paz interior”.

“Na cerâmica há uma grande conexão do ser humano com a matéria. Com o barro, que é terra, que ao fim e ao cabo é o nosso planeta. E depois é toda uma magia subsequente que vem: terra, o ar, o fogo e a água. O fogo é a cozedura, a água que o barro contém, e o ar que ela precisa para libertar, para se desidratar e se deixar cozer. É toda uma alquimia muito interessante”, reflecte a artista, com dois anos de formação na ArCO.

O atelier abriu a 18 de Dezembro de 2020, “em cima da pandemia”, como faz questão de frisar. Sobre os constrangimentos que o confinamento lhe possa ter provocado, diz que a matéria prima e os equipamentos não levantaram problemas e elogia os fornecedores de Valado de Frades (freguesia da Nazaré), e lembra que as dificuldades foram mais nas obras de preparação da antiga garagem da casa, transformada neste atelier.

Porém, Teresa admite que é um desafio conseguir conciliar a arte e a parte financeira: “A não existência de mercado é que é muito complicada quando se abre um projecto comercial, porque tem a parte criativa, toda a parte emocional (que é extraordinária e terapêutica, digamos assim) mas depois a parte comercial é preciso que venha agregada para pagar os custos, o que não acontece em tempos de pandemia”. O carácter artesanal das peças pode reflectir-se no preço, mas a artesã lembra que cada pessoa leva uma peça única que não se repetirá. “Tudo é único, não trabalhamos com moldes”, acrescenta.


Um diagnóstico de Covid-19 fez com que Teresa ficasse quase dois meses doente, porém, não precisou de internamento hospitalar, e deixa elogios à actuação dos profissionais de saúde: “No meu caso em particular, tive um acompanhamento excelente, quer do SNS quer da USF do Dafundo, onde está a minha médica de família. Só que depois é muito difícil gerir um projecto onde não há mercado, no meio de uma pandemia global, (isto é uma coisa de ficção científica!) e querer fazer acontecer. Tenho-me socorrido das redes sociais (Facebook e Instagram) e os meus clientes e alunos têm vindo a partir daí”. E prossegue a enumerar os resultados de mostrar o seu trabalho nas redes sociais da Internet: “Em quatro meses, tenho quase mil seguidores na página, é extraordinário, sem gastar um cêntimo de patrocínios de posts, nada! Só com pedidos de amizade. Para mim é muito positivo, porque ter mil pessoas que olham para as minhas peças… podem não comprar, mas olham e se gostam partilham. E são mais os amigos desses amigos e os amigos dos outros amigos… toda esta network que existe agora… no meu tempo (sou completamente analógica), isto não existia! Tudo isto é também uma coisa fantástica e ajuda as pessoas a poderem estar no mercado sem estar, numa forma virtual e digital”.


Teresa afirma que todas as faixas etárias têm-se mostrado acolhedoras aos workshops, embora o confinamento tenha dificultado e muito a procura. E as escolas não são excepção: “As escolas têm-se mostrado muito receptivas às minhas propostas. Antes do confinamento do Covid tinha já feito duas experiências no Jardim Infantil da Voz do Operário no Restelo que foram muito acarinhadas, uma de cestaria outra de cerâmica”. Contudo, o projecto está adiado porque as crianças não saem das escolas para visitas e outras actividades, esperando retomá-lo para o ano lectivo de 2021/2022. Sobre a hipótese de levar a cabo um workshop virtual a partir de casa, não a afasta na totalidade: “Eu penso que com este jardim tropical que estou a criar aqui fora [no quintal de casa] e que vai ser uma coisa fantástica, uma explosão de verde, se a situação sanitária do País se mantiver como está, vou poder fazer os workshops aqui fora. E acho que será excelente para os pais, quando vêm as férias: eles não sabem o que hão-de fazer com as suas crianças, porque têm de trabalhar e elas têm de estar a fazer uma actividade nalgum sítio. Vou ter aqui actividades muito giras, para fazer uns intervalos com os mais novos, uma tabela de basquete, uma corda para eles treparem tipo Ninja Warrior, para fazerem algum exercício e descarregarem aquela energia toda”, tudo extra-curricular.

Quem entra, nota que a maioria das peças têm inspiração marítima, como conchas, baleias, golfinhos, e até polvos. “Eu vivo de sol e do mar. São as minhas baterias, a minha fonte de inspiração é o mar”, mas também marcam presença as fracas (as galinhas de Angola) e animais mitológicos, como a Nessie, uma interpretação do monstro do Lago Ness.

A colecção Crochet nasce dos naperons das mulheres de família, onde existe um decalque e aparece um baixo relevo na peça de cerâmica. Por sua vez, presidem à entrada os “pendentes da Natureza”, semelhantes a espanta-espíritos, porém a diferença é que se as peças de cerâmica pequenas se movimentarem demais podem partir-se.

Teresa Vieira é a favor da realização de feiras de artesanato para os artistas mostrarem o seu trabalho neste desconfinamento: “são sempre circunstâncias muito positivas para quem está a querer comercializar um produto, mas neste momento não sinto vontade de ir a feiras porque estou em settling down, e estou com encomendas, felizmente! Obrigada meu Deus, obrigada Universo. Estou feliz, a trabalhar naquilo que amo, com paixão e gratidão”, frisa. “As pessoas procuram paz, harmonia e formas terapêuticas de se expressarem e estar. Porque este cenário de ficção científica que nós vivemos, já há quase um ano e meio, é assustador, é letal para algumas pessoas (com o número de mortes que existe) e sinto que é um escape para as pessoas poderem ter estes momentos de paz e serenidade”, reflecte. 
Para o futuro, tem um objectivo simples. “Dar-me aos outros. Eu não tenho alunos. Não sou professora, sou uma humilde artesã, sem pretensões nenhumas, que partilho os meus conhecimentos técnicos, e a criatividade é toda dos meus aprendizes”, diz, lembrando que tem alunos dos sete aos 85 anos.

Grande grupo de golfinhos no Tejo

1

Sou Biólogo Marinho, gerente da SeaEO Tours e nunca tinha visto tantos golfinhos juntos no rio Tejo. Foi uma surpresa fantástica, marquei o dia 12 de abril no meu calendário dos dias felizes.

Eram cerca de 50 indivíduos da espécie Golfinho-roaz (Tursiops truncatus), mais conhecido como Roaz Corvineiro. Desenvolvo o meu trabalho com golfinhos desde 2008, e este foi o avistamento mais incrível de Roazes no Tejo que testemunhei.

Este grupo era composto por adultos, juvenis e algumas crias com pelo menos 2 anos. Podem atingir os 45 anos, mais de 4 metros de comprimento e um peso superior a 450 a 500 quilos. A sua proximidade à costa, testemunhada também noutros locais a surfar as ondas uns dias antes, deve-se ao facto de se alimentarem de presas que habitam perto destes ecossistemas costeiros. Como exemplo, este grupo de Roazes foi visto no Tejo a atirar tainhas ao ar, brincar com um valente choco e nadar atrás de peixe à superfície a maior velocidade.

São também uma espécie acrobática, elaborando performances no ar bastante flexíveis. Como predadores de topo têm uma importância enorme no equilíbrio de alguns ecossistemas, tal como os tubarões.

Golfinhos-comuns têm sido presença assídua no rio, já muitos tiveram oportunidade de os ver. Contudo, o seu estatuto de proteção desde 1981, não evita que sejam ocasionalmente capturados em artes de pesca mesmo sem intenção. É necessária maior sensibilização da sociedade civil, o mar precisa de iniciativas inovadores na proteção dos oceanos e sustentabilidade das atividades humanas

As fotografias são de Carolina Benvegnu.

fotografias de Carolina Benvegnu

Golpe de estado em câmara lenta…

0

Vejamos o primeiro “D”, o da despesa, em que a atual Presidência superou o esbanjamento de qualquer das anteriores: o seu custo subiu, o recorde de viagens foi pulverizado, ninguém olha a custos para promover imagens e, sem preocupação em administrar as casas e causas, civis e militares, apenas se reduziram os gastos na cultura.

Quanto ao segundo “D”, ainda piorou a dependência do PR perante os poderes institucionais. Como é possível contemporizar com o Governo mais gordo da História? Se, enquanto o mundo muda e os espetros políticos refrescam, não perde ocasião para criticar novas tendências e abafar as iniciativas da cidadania, tendentes a reformar o sistema? Como entender o “babar” perante a China e que, em tempos de horror, em vez de revisitar o atribulado Moçambique, como fez no primeiro mandato, tenha optado por “desconfinar” no Vaticano e em revisita à aristocracia castelhana?

Ainda no que toca à dependência, desta em relação ao poder económico, a realidade é ainda mais chocante: como desenquadrar o Novo Banco e velho BES, a TAP e sei lá do que mais, de alguém que suporta e condecora gestores indiciados de graves crimes? E, enquanto Comandante Supremo das Forças Armadas, até foi ver uma meia-final de futebol, num avião que agora vemos estacionado enquanto a TAP especula no preço do repatriamento de cidadãos nacionais, abandonados pelo mundo?

Claríssimo, também o PR colabora na anestesia do combate à corrupção, sem que mova um dedo face às sucessivas manobras para silenciar e intimidar magistrados, ao mesmo tempo que nem pestaneja, perante o alarme social gerado em torno dos retrocessos em processos judiciais dos poderosos, que até envolvem alguns amigos.

Já o terceiro “D”, em que denunciei o distanciamento do anterior Presidente, já nem me lembro do nome, é certo que, sempre que “aterra” em Portugal, o atual se desdobra em afetos e “selfies” que chegam a cair no ridículo. Mas, também é certo que não há notícia de que, com zelo e competência, alguma vez se tenha empenhado na resolução de qualquer problema: visita os sem-abrigo e o fenómeno alastra, apregoa a inclusão e recusa visitar prisões ou receber associações que lutam pela integração das famílias desprotegidas, enquanto a chamada “proteção de menores” não passa de um negócio deplorável de exploração infantil, com milhares de “avençados” a somarem a adoção de uma única criança, em cada dia útil.

Vivemos, pois, sob uma governação preocupada em retirar proveitos políticos, e não só, dos desastres naturais e da miséria humana, e não em enfrentar, com firmeza e determinação, qualquer dos problemas do país. Subjugado a estes poderes, prossegue aquilo que em tempos designei por “golpe de estado em câmara lenta”. Golpe que se processa nas áreas da cultura, do social, na economia e no direito.

Na Cultura, a afirmação de políticas coerentes tem vindo a ser substituída pela exposição de agentes com mediatismo, alinhados na propaganda. A fusão entre os modernos conceitos artísticos e os valores tradicionais, que deveriam ser motivo de orgulho e a garantia da portugalidade, foi substituída por “igualdades de género” e conceitos afins. E até a ocupação do simbólico Largo Martim Moniz é permitida, enquanto permanecem sepultados e ao abandono, em solo estrangeiro, milhares de portugueses que se bateram numa guerra colonial tão insana como as tolices de “gente importante”, capaz de propostas como a destruição do Monumento das Descobertas.

No Social, assistimos à lenta agonia do Serviço Nacional de Saúde agravada pela pandemia, à degradação da Escola Pública e ao descontrolo e prepotência da Segurança Social. Como pode alguém zelar pelo normal funcionamento das Instituições, quando nada diz sobre a captura das carreiras públicas, por “polvos” hoje determinantes nas nomeações, na viciação de concursos e no crescente tráfico de influências?

Na Economia, embora há trinta anos fosse urgente eliminar a pobreza e a exclusão social, a cidadania portuguesa ainda era das mais apetecíveis do mundo. Cada nacional detinha uma quota de bens que lhe permitia uma soberania plena e a distribuição equilibrada da riqueza produzida. Hoje, a burocracia levanta ainda mais dificuldades, os portugueses pagam impostos insuportáveis e cada cidadão, pelo facto de assumir o passaporte português, deve dezasseis ou mais meses de trabalhos forçados, independentemente da sua idade e sem sequer incluir o seu sustento. Para onde foi todo esse dinheiro?

E assim chegamos ao golpe no Estado de Direito:  em 2011, com uma Justiça para ricos e de outra para pobres, nem um único alto político, administrador ou militar de alta patente, banqueiro, magistrado ou jornalista de referência estagiava em prisões. Uma singularidade que foi quebrada por desenvolvimentos que, na altura, designei como “revolução silenciosa da Justiça”, em que algumas autoridades se atreviam a bater aos portões dos poderosos com a cobertura de uma opinião pública ainda não totalmente prisioneira. Um sonho que se revelou temerário e foi abortada em 2018, com Joana Marques Vidal e outros “resistentes” a serem objeto de intimidação ou afastados por uma “aliança” que juntava a Presidência, o Governo e o principal Partido da oposição. E perante o silêncio cúmplice dos partidos da “geringonça” que se contentaram com algumas miseráveis migalhas, e a assistirmos a um “safas-o-meu-que-eu-safo-o-teu”, não tive então dúvidas em denunciar que decorria um “golpe de Estado em câmara lenta”.

Golpe que, em crescendo e a não ser travado, assinalará o dia 9 de abril de 2021, como o pior para a História de Portugal, desde o desastre de La Lyz.

Proibir venda de animais selvagens

0

A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu hoje a suspensão mundial da venda de animais mamíferos vivos em mercados de alimentos devido ao alto risco de transmissão de novas doenças infecciosas aos humanos.

“Animais, especialmente animais selvagens, são a fonte de mais de 70% de todas as doenças infecciosas emergentes em humanos e muitas delas são causadas por novos vírus”, disse a OMS num comunicado conjunto com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP).

A transmissão do vírus SARS-CoV-2 ao homem por esse meio é uma das teorias defendidas pelos especialistas da OMS. A doença espalhou-se pelo mundo e ceifou já quase 3 milhões de vidas.

Além da suspensão das vendas, as organizações internacionais estão a pedir melhores regras de higiene e saneamento nesses mercados tradicionais para reduzir a transmissão de doenças de animais para humanos e o contágio entre comerciantes e clientes.

A quem aproveita o crime?

2

Piratas informáticos atacaram o site noticiasonline.eu que se encontra em baixo desde 11 de abril. Acontece que o ataque sucedeu depois do advogado Garcia Pereira ter ali publicado um artigo de opinião intitulado “Operação Marquês, de quem é a culpa, afinal?”.

Nada prova que exista alguma relação entre a publicação do artigo e o ataque, exceto a coincidência no tempo das duas ações.

O que diz Garcia Pereira nesse artigo?  Várias coisas interessantes. A primeira é que se compreende a indignação das pessoas, “quando ex-governantes e grandes senhores da Economia e da Finança, relativamente aos quais se apuraram factos mais do que ética, politica e até criminalmente reprováveis, possam eximir-se às suas responsabilidades e escapar ao julgamento e eventual condenação judicial ‘simplesmente’ porque os respectivos actos não foram adequadamente investigados, ou não foram correctamente acusados, ou se deixou correr o respectivo prazo de prescrição”.

A segunda questão, em jeito de pergunta, é se “mega-processos muito mediáticos mas muito gigantescos, e logo verdadeiramente ingeríveis, em sempre cirúrgicas e sempre impunes fugas de elementos em segredo de justiça, nos já referidos pré-inquéritos e P.A. (Processos Administrativos) não constitui um caso isolado mas antes corresponde a uma prática reiterada e até a uma certa e muito enraizada cultura corporativa, que já antes conduziu a estrondosos arquivamentos, despronúncias ou absolvições?”

A terceira questão, é a alegada “viciação” processual na distribuição deste processo ao juiz Carlos Alexandre, em 2014.

A quarta questão abordada por Garcia Pereira é a simbiose notada (e publicada, dizemos nós) entre os procuradores que investigavam e a imprensa que só dava essa versão sem se preocupar com o contraditório.

Por fim, Garcia Pereira escreve sobre a “insólita e totalmente ilegítima pressão exercida pelo órgão de gestão e disciplina dos juízes (o Conselho Superior da Magistratura), o qual, escassos dias antes da decisão instrutória, se permitiu, através do seu Presidente, criticar publicamente o juiz e afirmar ser inaceitável a duração da instrução dum processo monstruoso como este.”

Ou seja, temos um advogado que vislumbra premeditação em atos praticados por responsáveis pelo Ministério Público. E pedimos-lhe que explicasse melhor esse raciocínio.

A resposta de Garcia Pereira: “A actuação do Ministério Público, em particular da sua ‘tropa de elite’ (o DCIAP), decorre de uma cultura que se tem vindo sucessivamente a enraizar e que é um misto de gosto pelo Poder, sensação de impunidade e ausência de prestação de contas.  Assim foi sendo construído um edifício, um verdadeiro ´Estado dentro do Estado` que obtém e coleciona muita informação (mesmo que não tenha nenhuma relevância criminal) e que os políticos da área do Poder temem. E por isso não ousam fazer-lhe frente”.

Quanto aos mega-processos e ao tempo que levam a investigar, lembrámos ao nosso interlocutor que com frequência os procuradores da Procuradoria Geral da República se queixam de falta de meios e quisemos saber se ele não aceita que isso seja um argumento razoável.

A resposta:

“A eterna desculpa da ‘falta de meios’ é chão que já deu uvas há muito tempo, até porque todas as entidades públicas sentem sempre carência de mais meios e nem por isso os desculpabilizamos quando falham nas respectivas funções. O grande problema é que o Ministério Público conseguiu transformar o processo penal, em particular na sua fase de inquérito, e por meio das sempre cirúrgicas e sempre impunes violações do segredo de justiça num meio muito eficaz, não de investigação criminal e descoberta da verdade, mas sim de abate de cidadãos incómodos e adversários políticos.”

Última questão: os hackers que interferem no acesso ao seu artigo trabalham para quem? Faz ideia?

Resposta: “O ataque ao servidor do jornal visa impedir a divulgação do texto. Logo, o círculo de suspeitos há-de reportar-se a todos aqueles a quem o conteúdo do mesmo tocou na ferida. Mas isto é como o que se passa com as violações do segredo de justiça – se o grande interessado ou o grande beneficiado dessas violações é o Ministério Público, vamos esperar que ele se investigue a si próprio.”

Ou seja, deduzimos pelas palavras de Garcia Pereira que nada acontece por acaso. Se o tempo da construção de mega-processos acaba por determinar a prescrição dos crimes, se a investigação feita não apurou factos relevantes, se a investigação utilizou expedientes à margem da Lei, alguma razão deve haver para se terem tomado estas opções. O resultado foi o que se viu e, segundo Garcia Pereira, a culpa não é do juiz que aplicou a Lei.

Assim como não será por acaso que o ataque ao servidor do noticiasonline.eu aconteceu logo depois da publicação do artigo de Garcia Pereira.

nota: O site noticiasonline.eu recuperou 48 horas depois do ataque ao servidor.

Novo partido político na calha

0

A Assembleia da República tem 15 dias para revogar a lei que dificulta as candidaturas eleitorais independentes para eleições autárquicas. O prazo foi dado pela Associação de Movimentos de Autarcas Independentes (AMAI) e começa a contar esta segunda-feira.

O ultimato deve-se à aprovação de alterações à Lei Orgânica nº 1-A/2020 de 21 agosto que dificultam ainda mais as candidaturas independentes. As alterações em causa foram aprovadas pelo PS e PSD.

Um dos pontos mais contestados pelos autarcas independentes é o que obriga que o cidadão candidato tenha de estar recenseado na freguesia a que concorre – requisito que os candidatos partidários não têm de cumprir.

Os deputados têm, assim, duas semanas para desfazer o que fizeram, ou haverá um novo partido político que, além de concorrer às próximas eleições autárquicas poderá, depois, concorrer a todas as outras eleições. Ou seja, na ânsia de evitar a concorrência de grupos de cidadãos eleitores, os partidos políticos arriscam-se a ter criado um “monstro” ainda mais difícil de combater.

Não se percebe qual a necessidade de dificultar as candidaturas independentes. Quando se esperava que os partidos políticos concordassem alterar a Lei Eleitoral de modo a facilitar essas candidaturas, inclusivamente para a Assembleia da República, com a criação de círculos uninominais, eis que os partidos se fecham nas suas conchas para evitar satisfazer esses anseios da população.

Acontece que, se o novo partido político for em frente, além dos vários movimentos e grupos de cidadãos eleitores independentes poderá abrigar figuras públicas que se têm notabilizado no ativismo pela cidadania, direitos e justiça como, por exemplo, Paulo de Morais. E depois nada os impedirá de concorrer igualmente em eleições legislativas, europeias ou presidenciais. Como é evidente.