Uma Oficina de Artes em busca de paz e serenidade

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A ceramista e artesã Teresa Vieira recebe-nos numa tarde de chuva, numa garagem em Algés.

A garagem alberga o mundo desta artesã, emigrada muitos anos, que mesmo em tempo de pandemia (e tendo estado com Covid-19) não desiste da sua arte. “Este projecto nasce ao fim de muitos anos, foi um sonho realizado. É uma pequena e humilde oficina de cerâmica e cestaria, com a possibilidade de ter workshops para miúdos e graúdos, onde se desenvolve todo um espaço, toda uma dinâmica de alegria, harmonia e paz interior”.

“Na cerâmica há uma grande conexão do ser humano com a matéria. Com o barro, que é terra, que ao fim e ao cabo é o nosso planeta. E depois é toda uma magia subsequente que vem: terra, o ar, o fogo e a água. O fogo é a cozedura, a água que o barro contém, e o ar que ela precisa para libertar, para se desidratar e se deixar cozer. É toda uma alquimia muito interessante”, reflecte a artista, com dois anos de formação na ArCO.

O atelier abriu a 18 de Dezembro de 2020, “em cima da pandemia”, como faz questão de frisar. Sobre os constrangimentos que o confinamento lhe possa ter provocado, diz que a matéria prima e os equipamentos não levantaram problemas e elogia os fornecedores de Valado de Frades (freguesia da Nazaré), e lembra que as dificuldades foram mais nas obras de preparação da antiga garagem da casa, transformada neste atelier.

Porém, Teresa admite que é um desafio conseguir conciliar a arte e a parte financeira: “A não existência de mercado é que é muito complicada quando se abre um projecto comercial, porque tem a parte criativa, toda a parte emocional (que é extraordinária e terapêutica, digamos assim) mas depois a parte comercial é preciso que venha agregada para pagar os custos, o que não acontece em tempos de pandemia”. O carácter artesanal das peças pode reflectir-se no preço, mas a artesã lembra que cada pessoa leva uma peça única que não se repetirá. “Tudo é único, não trabalhamos com moldes”, acrescenta.


Um diagnóstico de Covid-19 fez com que Teresa ficasse quase dois meses doente, porém, não precisou de internamento hospitalar, e deixa elogios à actuação dos profissionais de saúde: “No meu caso em particular, tive um acompanhamento excelente, quer do SNS quer da USF do Dafundo, onde está a minha médica de família. Só que depois é muito difícil gerir um projecto onde não há mercado, no meio de uma pandemia global, (isto é uma coisa de ficção científica!) e querer fazer acontecer. Tenho-me socorrido das redes sociais (Facebook e Instagram) e os meus clientes e alunos têm vindo a partir daí”. E prossegue a enumerar os resultados de mostrar o seu trabalho nas redes sociais da Internet: “Em quatro meses, tenho quase mil seguidores na página, é extraordinário, sem gastar um cêntimo de patrocínios de posts, nada! Só com pedidos de amizade. Para mim é muito positivo, porque ter mil pessoas que olham para as minhas peças… podem não comprar, mas olham e se gostam partilham. E são mais os amigos desses amigos e os amigos dos outros amigos… toda esta network que existe agora… no meu tempo (sou completamente analógica), isto não existia! Tudo isto é também uma coisa fantástica e ajuda as pessoas a poderem estar no mercado sem estar, numa forma virtual e digital”.


Teresa afirma que todas as faixas etárias têm-se mostrado acolhedoras aos workshops, embora o confinamento tenha dificultado e muito a procura. E as escolas não são excepção: “As escolas têm-se mostrado muito receptivas às minhas propostas. Antes do confinamento do Covid tinha já feito duas experiências no Jardim Infantil da Voz do Operário no Restelo que foram muito acarinhadas, uma de cestaria outra de cerâmica”. Contudo, o projecto está adiado porque as crianças não saem das escolas para visitas e outras actividades, esperando retomá-lo para o ano lectivo de 2021/2022. Sobre a hipótese de levar a cabo um workshop virtual a partir de casa, não a afasta na totalidade: “Eu penso que com este jardim tropical que estou a criar aqui fora [no quintal de casa] e que vai ser uma coisa fantástica, uma explosão de verde, se a situação sanitária do País se mantiver como está, vou poder fazer os workshops aqui fora. E acho que será excelente para os pais, quando vêm as férias: eles não sabem o que hão-de fazer com as suas crianças, porque têm de trabalhar e elas têm de estar a fazer uma actividade nalgum sítio. Vou ter aqui actividades muito giras, para fazer uns intervalos com os mais novos, uma tabela de basquete, uma corda para eles treparem tipo Ninja Warrior, para fazerem algum exercício e descarregarem aquela energia toda”, tudo extra-curricular.

Quem entra, nota que a maioria das peças têm inspiração marítima, como conchas, baleias, golfinhos, e até polvos. “Eu vivo de sol e do mar. São as minhas baterias, a minha fonte de inspiração é o mar”, mas também marcam presença as fracas (as galinhas de Angola) e animais mitológicos, como a Nessie, uma interpretação do monstro do Lago Ness.

A colecção Crochet nasce dos naperons das mulheres de família, onde existe um decalque e aparece um baixo relevo na peça de cerâmica. Por sua vez, presidem à entrada os “pendentes da Natureza”, semelhantes a espanta-espíritos, porém a diferença é que se as peças de cerâmica pequenas se movimentarem demais podem partir-se.

Teresa Vieira é a favor da realização de feiras de artesanato para os artistas mostrarem o seu trabalho neste desconfinamento: “são sempre circunstâncias muito positivas para quem está a querer comercializar um produto, mas neste momento não sinto vontade de ir a feiras porque estou em settling down, e estou com encomendas, felizmente! Obrigada meu Deus, obrigada Universo. Estou feliz, a trabalhar naquilo que amo, com paixão e gratidão”, frisa. “As pessoas procuram paz, harmonia e formas terapêuticas de se expressarem e estar. Porque este cenário de ficção científica que nós vivemos, já há quase um ano e meio, é assustador, é letal para algumas pessoas (com o número de mortes que existe) e sinto que é um escape para as pessoas poderem ter estes momentos de paz e serenidade”, reflecte. 
Para o futuro, tem um objectivo simples. “Dar-me aos outros. Eu não tenho alunos. Não sou professora, sou uma humilde artesã, sem pretensões nenhumas, que partilho os meus conhecimentos técnicos, e a criatividade é toda dos meus aprendizes”, diz, lembrando que tem alunos dos sete aos 85 anos.

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