Tudo muda, muitas vezes para pior

Pode ser confortável atribuir à pandemia a crise no comércio da baixa lisboeta, mas a verdade é que a crise é muito anterior ao surgimento do novo coronavírus. É verdade que os confinamentos têm agravado o problema, mas não mais do que isso.

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Na Mouraria, por exemplo, bairro que alberga dois dos principais polos do comércio tradicional, o largo do Martim Moniz e a rua do Benformoso, as “regras do jogo” mudaram há muito em desfavor dos comerciantes e da população residente. Primeiro, foi a tentação de transformar tudo em Alojamento Local. Correram com os inquilinos velhotes, desalojaram os lojistas, o espaço ficou livre para mão-de-obra barata imigrante e especuladores imobiliários.

rua do Benformoso

Quem vai hoje à rua do Benformoso, por exemplo, quase não houve falar português e já tem dificuldade em encontrar os armazéns grossistas, as ervanárias, as tasquinhas. Hoje tem restaurantes halal, especialistas em desbloquear telemóveis, vendedores de baldes de plástico quebradiço. Como as coisas mudam, é verdade.

Há cada vez menos comércio tradicional e os clientes não voltam a um local onde deixou de haver opção de escolha. Antes era possível entrar em cinco ou seis armazéns, comparar preços e comprar naquele que nos parecia melhor em termos de qualidade e preço. Essa diversidade desapareceu. Os feirantes deixaram de lá ir abastecer-se, por exemplo. E também por isso as lojas vão fechando, num efeito de dominó.

A concentração de população imigrante acaba por não deixar espaço a outro tipo de pessoas. Até porque quem aluga camas a imigrantes ganha 10 vezes mais que a alugar casas a famílias portuguesas.

Outra questão que ajuda a afastar clientes é a dificuldade em estacionar automóveis. Não há sítio para deixar um carro para ir espreitar as montras, excetuando o estacionamento subterrâneo do Martim Moniz. Mas como é caro, tem sempre muitos lugares vagos.

É este o panorama desolador nesta zona da cidade. Descaracterizou-se, está sujo e degradado. Há um ar de abandono multiplicado em cada taipal corrido, em cada loja fechada, em cada edifício degradado. A pandemia ajudou à festa, sem turistas nota-se mais o estado a que isto chegou. Mas a culpa primeira é de quem pariu as políticas de urbanismo da cidade.

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