MANUEL

Escrevi este texto em Setembro de há dois anos, por altura de um aniversário. Publiquei cerca de metade do texto quando tantos celebravam o dia do Pai... Voltei a lembrar-me das palavras todas quando festejei o meu aniversário em Janeiro, sempre com aquela cicatriz aberta por lhe desobedecer. Quem não o faz no processo de crescimento? Sobre os meus ombros cai um manto leve e aconchegante de uma saudade beliscada por um desentendimento.

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Aos sábados ele acordava às sete horas, eu às onze. As minhas viagens nocturnas pelas azinhagas de um livro, varavam a madrugada. Precisava de compensar o sono.

Ele despertava-me mais cedo, com uma maçã minúscula esmagada contra a persiana com a precisão de um raio. E eu lá tinha de apear-me à pressa do cavalo do sonho, quando atingia a orla das praias e desertos que queria atravessar.

Irritada abria a janela, mas o sol de Setembro entrava-me pelo quarto com o perfume das videiras recém-amputadas dos cachos. Alguns já secavam em pratos rasos de vime ao lado das passas de figo, sobre a cobertura do tanque, a nossa piscina de 20 m2.

Depois eram os talhões de flores divididos por aromáticas, jardins de plantas diferentes, cada qual com sua árvore dominante bem no centro. Tudo como nos livros que comprava, para saciar a vontade de terra e plantas que a cidade onde nascera lhe negava.

Talvez nunca mais tenha comido grelhados tão saborosos como aqueles, antes do sino fazer soar as doze badaladas sob o telheiro de apoio a essas actividades do quintal ajardinado.

Ainda não gosto de passas, nem de compota de marmelo. Gosto dos cheiros de Setembro com o sol lá dentro, a festa simples do dia 23 com o Verão a derramar almudes de luz adocicada ao cair da tarde. E ainda gosto mais da projecção dessa luz na pantalha da memória.

Era quando as nossas conversas, em voz baixa, congregavam o silêncio receptivo dos pássaros, já aninhados nos cotovelos dos ramos. Falávamos de tudo, mais ainda de Geografia, quando se lhe ampliava na memória o desejo de correr mundo.

Faltava lá o senhor Francisco Lobo para anotar o momento num poema ao seu jeito. Mas tinha acabado de partir… E desajeitados, alinhávamos nós versos com rima e muita desconexão desatada em gargalhadas.

Que importava que não fizessem sentido, se tudo o resto fazia?

Lisboa havia de afastar-nos pelo que ele dizia um capricho e eu baptizava de liberdade de escolha. Não queria o curso que me propunha. Ele queria ver-me no caminho da autonomia para poder realizar o sonho de partir…

O sonho foi-lhe interdito. Outro tinha ocupado o seu lugar. O mais longe que ousaria era Lisboa, pela necessidade imperiosa de encontrar o ”amigo” que lhe ficara, pela segunda vez, com o capital para abrirem uma empresa em conjunto.

Ninguém mais sabia desse fracasso. Fora educado para vencer. Podia um homem de 1.85, cheio de vivacidade, ser enganado por alguém, ou traído pelos sonhos?

Muitos invernos caudalosos ainda haviam de correr, mas Setembro ficaria salvo na memória pelo manto da saudade daquelas manhãs e tardes em Coimbra.

Os aromas do amor incondicional ainda repetem as estações que os anos vão baralhando: Setembro e os cheiros bons, Janeiro e a minha festa, um Verão em que nem estava presente para corresponder ao meu adeus.

Talvez lhe desse hoje um beijo pelo dia do Pai, pelo seu ou pelo meu aniversário, menos destemperada pela suavidade dos anos. Talvez lhe dissesse que nenhum afastamento tem de ser uma ruptura.

O amor não morre, só se deixa esmaecer sob as vestes das desilusões que os anos vão sobrepondo, Manuel.

2 COMENTÁRIOS

  1. O amor não morre diz a cronista mas quantas vezes nem existe amor filial ou de espécie alguma.
    Uma crónica de memórias doces num tempo de muita agressividade sempre é reconfortante de ler.
    Agradecido pela esperança que transmite.

  2. Que belo texto! Como nos dá conta de um.reencontro, porventura imaginário, após o que nunca terá chegado a ser afastamento. Mas é assim, raramente os não ditos se conseguem expressar de facto em tempo útil.

    Gostei muitíssimo de ler.

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