Já aqui falei da prima Laura, dos seus olhos verdes sorridentes, do primo Machado que dizia a tudo que sim com um aceno de cabeça. Jamais a contrariava. E assim viviam felizes para sempre…
Foram parte da minha infância. E como os nomes se repetiam na família por respeito aos mais velhos, o meu avô, primo dela, era José Maria como o avô dele, meu trisavô e a prima Laura tinha sobrinhas, afilhadas e parentes todas com o mesmo nome.
Uma delas, sobrinha e afilhada, era prima-irmã da minha mãe.
Devo-lhe o conhecimento de toda a família desse meu avô materno, muito cedo separado da minha avó. Segredou-me as ligações, as preferências, as razões dos desaguisados e até histórias que valeriam fortunas…
O meu bisavô materno tinha um irmão que era uma “celebridade” em Coimbra: inteligente, ambicioso, simpático. Era projectista, mas chamavam-lhe erradamente arquitecto. Depois de vir para o Porto para frequentar Arquitectura, sim, voltou para casa a mando da sua Maria José, uma mulher pequenina tão persuasiva como um batalhão. Perdoava-lhe as conquistas de varão, quase sorria quando ele a chamava ao galinheiro para demonstrar
Maria José, quantas galinhas temos agora?
Sei lá, talvez umas 20…
Pois é… e galos?
Galos temos um, não vês?
Vejo…um galo para 20 galinhas…por que razão me atormentas?
E fazia-lhe um afago que logo a derretia. Afinal era dela o capital para sustentar a empresa que deixava nas mãos do irmão, meu humilde e fidelíssimo bisavô, enquanto tentava o curso lá no Porto.
O tio Benjamim projectava primeiro a casa dele, de fachada muito estreita, numa ladeira hoje chamada António de Vasconcelos, naquele tempo Oriental de Mont’Arroio. Nela sobressaía a janela com uma esfera armilar e os suportes de cada lado da porta para sustentarem dois santos em calcário de Ançã, com cerca de meio metro de altura e doados ao Museu Machado de Castro.
A casa Benjamin Ventura parecia ter só rés-do-chão vista da rua principal, mas era constituída por três andares que das casas do outro lado, situadas na Avenida Sá da Bandeira, bem se viam.
Desenhou depois muitas outras moradias na cidade e arredores, os Paços do Concelho de Mira, os de Miranda do Corvo. E por convite do compadre, Mestre António Augusto Gonçalves, dava pareceres na intervenção de monumentos nacionais e até levava a sua equipa de construtores para arranjos de envergadura, já então chefe de obras na Universidade e condecorado pelo ministro.
Embora o nome não apareça, interveio na igreja de Santiago, à Praça Velha, hoje Praça da República, no Santuário do Senhor da Serra, no hotel do Bussaco e no Convento de Santa Clara-a-Nova. Ainda havia por lá uma monja antiga que era uma caixa de segredos e surpresas…
A essa altura já os irmãos pertenciam aos órgãos directivos da Escola Livre das Artes do Desenho, onde artesãos juntavam os saberes específicos à escolarização, para serem requisitados pelas obras mais destacadas da região.
O tio Benjamin escrevia em todos os jornais de então. De O Conimbricense ainda guardo alguma coisa na caixa de madeira rara que acolhe as cartas do filho do tempo em que, na Iª Grande Guerra, integrava o Corpo Expedicionário Português (CEP). Quando me perguntavam se era dele, tio-bisavô, que eu herdara o gosto pela escrita, a Maria Laura mais nova dizia toda eriçada
Não senhora, foi do meu avô, bisavô dela. Era ele quem fazia a escrita ao tio Benjamin e… até lhe compunha alguns artigos para os jornais, quando ele não tinha tempo…
Um dia, passados anos, insistia para ir dar um passeio comigo ao Parque de Monsanto. Bem lhe via os tiques nervosos que faziam adivinhar novidade. E assim que chegávamos, a abanar-se com um leque num dia de temperatura amena, desabafava:
O avôzinho (dela) sabia onde está ainda escondido um tesouro no convento de Santa Clara. Uma monja das mais antigas que ficou por lá, contou-lhe, mas pediu segredo
Então contou-lhe para quê?
Não sei…mas ele revelou-mo a mim, era eu ainda criança
E afinal em que local se encontra esse tesouro?
Espera…procurei imensa gente importante com capacidade para intervir, mas mal contava, zás, as pessoas morriam daí a dias....
Safa…Então não quero saber
E assim fomos gerindo a ânsia das revelações, embora a um lanche ou jantar ela quase rebentasse para soltar um pormenor qualquer
Posso dizer-te que…
Podes, mas eu já disse que não quero saber. E se és minha amiga não contas
Mas é claro que também eu andava roída de curiosidade. Um segredo tão valioso sobre um tesouro do tempo dos reis D. Dinis e Isabel, devia ter tido um desfecho qualquer muitos anos antes. Por que não acontecera?
Ao fim de meses e de uma noite em branco, fazia-me impressão que detendo a monja uma tal informação, nem tivesse morrido, nem fosse ela em busca do tesouro…E as perguntas saíam em borbotão ao pequeno-almoço, perante os olhos também verdes e grandes da Maria Laura
Diz-me…e a monja tentou, ou não conseguiu alcançar o tesouro?
Não conseguiu…apareceu-lhe a Rainha Santa a uns metros de distância, esticou o braço a formar uma barreira e obrigou-a a retirar-se…
Ficava eu de boca aberta e olhos redondos de espanto.
Já não tinha bisavô, nem tio Benjamin, nem a prima Laura para me certificarem. Decerto a última havia de rir à gargalhada franzindo os olhos verdes mais pequenos e dir-me-ia:
Nem sabes as histórias loucas que as mulheres desta família inventam!
Ficava na ignorância estes anos todos.
Ficarei…sem tesouro, mas com vida. Nem por isso grande coisa, mas sempre dá para contar esta versão.




A crónica é muito engraçada não muito parecida com o habitual estilo da cronista a não ser na escrita ligeira mas muito agradável de ler e talvez verdadeira.
Já uma vez sugeri à Helena Ventura Pereira que não estivesse tanto tempo ausente porque nos habituamos a um autor e queremos saber dele neste caso dela.
Obrigada por este contributo que recebo em tempo de férias e que para mim e para a minha mulher devota da santa foi muito bem vindo.
É verdade: Maria Helena presenteia-nos, de vez em quando, com histórias da sua Coimbra «menina e moça», que merecem não ser esquecidas. Desta feita, recordou as obras gizadas por um dos seus familiares, se bem entendi; e o oportuno aparecimento da Santa deitou, afinal, tudo a perder. Se tesouro há, como se crê, não vale a pena vasculhar, porque ou se morre logo a seguir ou a Santa aparece e o melhor é… benzer-se e bater rapidamente em retirada!
Ajuizado epílogo, a vida é o nosso maior tesouro!