UMA NOVA GUERRA COLONIAL

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O recente ataque-surpresa de Israel ao Irão, em pleno período de negociações diplomáticas, não foi apenas uma agressão militar. Foi também um sinal claro de uma estratégia geopolítica coordenada, com contornos de uma guerra por procuração, sustentada por potências ocidentais e marcada por uma visão neocolonial do ordenamento do Médio Oriente.

Israel lançou o ataque sob o manto do “direito à autodefesa”, ainda que não existisse um ataque iraniano que o justificasse. O Irão, surpreendido (?), respondeu apenas depois de ter sido atingido. Esta passividade inicial levanta dúvidas: seria o Irão ingénuo ao ponto de não prever tal agressão? Seja como for, a quebra do processo negocial e a opção militar revelam o fracasso do diálogo frente a interesses estratégicos e hegemónicos.

Claro que Israel não atacou sozinho. A cobertura aérea fornecida por caças britânicos e a coordenação logística e tecnológica dos EUA mostram que o ataque faz parte de uma acção articulada. A presença militar dos aliados anglo-americanos, sob o pretexto de “interceptar ameaças iranianas”, é também um mecanismo de legitimação da agressão israelita. A narrativa da autodefesa estende-se assim ao bloco ocidental, numa tentativa de normalizar intervenções unilaterais fora do seu território.

Este comportamento remete-nos para práticas neocolonialistas: o uso do poder militar para impor uma ordem geoestratégica, ignorando as instâncias multilaterais e os equilíbrios regionais. A coligação que apoia Israel reencena uma lógica imperial: o direito à força substitui a força do direito.

O custo desta guerra é também económico. O sistema Iron Dome, por exemplo, tem um custo estimado de cerca de 50.000 dólares por cada intercepção de mísseis. Uma salva coordenada de dezenas de foguetes pode representar milhões em minutos. É caro e, mesmo assim, há falhas do sistema diante de ataques médios ou maciços. Sustentar uma guerra de alta intensidade com tal dependência tecnológica só é possível com apoio externo massivo, como o que Israel recebe anualmente dos EUA em forma de ajuda militar (superior a 3 mil milhões de dólares).

Neste contexto, o “poderio israelita” mostra-se dependente. Dependente da tecnologia e financiamento americanos, dependente da inteligência militar partilhada com aliados, e dependente da cumplicidade diplomática que impede qualquer responsabilização internacional.

A guerra em curso, longe de ser uma batalha de sobrevivência, parece mais um movimento calculado no xadrez global. Com a Europa silenciosa, amedrontada ou conivente, e os EUA e Reino Unido envolvidos ativamente, a guerra entre Israel e o Irão não é apenas uma questão regional. É um sintoma de uma ordem internacional onde o direito é selectivo, e a paz é um privilégio reservado aos que aceitam calar-se diante da força.

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