Os EUA e o Irão preparavam a sexta ronda negocial sobre o programa nuclear iraniano. Trump dizia que queria a paz, que não desejava mais numa guerra no Médio Oriente. Contudo, Israel atacou sem pré aviso, pela calada da noite. A precisão dos mísseis, a eliminação cirúrgica de alvos e a eficácia das operações secretas revelam mais do que a evidente superioridade militar conjunta dos EUA e Israel: expõem a verdadeira natureza do jogo geopolítico.
Acabámos de assistir a mais uma demonstração da capacidade de Israel em executar operações militares de alta precisão em solo estrangeiro. Alvos específicos foram eliminados, residências atingidas com exatidão milimétrica, e até os quartos de dormir dos visados parecem ter sido previamente identificados. Nada disto é fruto do acaso. É o resultado de meses, talvez anos, de espionagem meticulosa, vigilância via satélite, infiltrações humanas e planeamento estratégico.
Tudo indica que Israel sabia exatamente o que fazia e, talvez mais relevante, que nada havia a fazer para contrariar essa vontade. As “negociações” que decorriam entre o Irão e os EUA em torno do programa nuclear iraniano revelam-se, à luz destes acontecimentos, um mero exercício de dissimulação diplomática. Um jogo de sombras que apenas serviu para manter a aparência de diálogo enquanto se preparava uma solução de força. A paz, aqui, nunca teve palco real, apenas cortinas para entreter audiências internacionais.
Israel, com o apoio dos Estados Unidos, age com uma liberdade operacional que poucos países no mundo possuem. E não é a primeira vez: recordemo-nos do assassinato de Qassem Soleimani, orquestrado por Washington em 2020, ou da misteriosa eliminação de Mohsen Fakhrizadeh, o cérebro do programa nuclear iraniano, morto com uma metralhadora operada remotamente. Mais recentemente, vários líderes da Guarda Revolucionária e do Hezbollah foram abatidos em ataques aéreos em Damasco e em território iraniano.
Por detrás destas ações está uma teia de espionagem sofisticada. A Mossad (serviços secretos israelitas) é reconhecida pela sua eficácia em operações extraterritoriais. Agentes infiltrados, informadores recrutados, vigilância digital e via satélite, drones silenciosos e sistemas de reconhecimento facial trabalham em conjunto para montar uma rede de informação que torna possível o impossível. Tudo isto acontece longe dos olhos da opinião pública, mas com consequências bem visíveis no terreno: destruição, escalada de tensão e uma sensação generalizada de impunidade.
Falar de Israel como um “porta-aviões fixo” dos EUA no Médio Oriente não é exagero. O apoio militar, financeiro e diplomático norte-americano permite a Israel atuar como uma extensão dos interesses estratégicos de Washington na região. No entanto, a relação é mais interdependente do que subordinada. Israel sabe jogar com a influência que exerce sobre o poder político norte-americano, especialmente através de lobbies poderosos, e age com base em cálculos próprios, muitas vezes antecipando ou forçando decisões no tabuleiro geopolítico.
A GUERRA
Resta saber se este ciclo de eliminação seletiva, sabotagem e cinismo diplomático se conseguirá prolongar muito mais tempo, sem que haja uma guerra terrível e destruidora. Pela resposta iraniana ao ataque israelita, percebemos que Israel não vai sair incólume de uma guerra aberta com o Irão.


Só dirigentes políticos alucinados não percebem que quando se insiste na lógica da força e da superioridade tecnológica, o terreno da política vai ficando cada vez mais minado por ressentimentos, radicalizações capazes de alimentar uma guerra maior. O Irão pode ser um inimigo extremamente perigoso, não só pela dimensão do país mas, também, por ser um Estado teocrático, em que os Ayatollahs são uma espécie de emanação de deus. Ou seja, a morte não será necessáriamente algo a temer. Israel não está longe disto, com um governo sustentado por radicais religiosos, que se sentem “escolhidos por deus” para tomarem posse da terra que deus lhes deu.



